segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Geoglifos do Acre: de pai para filho

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 23jan2011
Pesquisadores já mapearam cerca de 300 geoglífos em três décadas

Na sexta-feira passada, 21, portanto decorrido mais de três décadas, o auditório da Biblioteca da Floresta na capital acreana lotou com pessoas interessadas no assunto. Desta vez, para prestigiar o filho, Tiago Juruá Damo Ranzi, biólogo e bacharel em direito que enriquece o tema Geoglifos acrescentando uma abordagem jurídica de preservação desses sítios arqueológicos.
A plateia aplaudiu com entusiasmo o jovem autor do livro “Geoglifos do Acre e a Proteção dos Sítios Arqueológicos do Brasil”. E ele, emocionado, chorou.
O Juruá que Tiago carrega no nome é uma homenagem ao Vale do Juruá, onde a família catarinense de cientistas viveu nos anos 1980. Lá, fica a cidade de Cruzeiro do Sul, a segunda mais importante do Acre que se orgulha de produzir a farinha mais saborosa do país. Em 2006, o próprio Tiago integrou uma expedição à Foz do Breu, no rio Juruá, viajando dez dias de barco pela beleza natural e o calor humano que inspirou seus pais, Alceu e Cleusa.
Thiago Juruá: contribuição jurídica
 para os sítios arqueológicos.
Após a viagem Tiago, que estudou biologia e direito em Florianópolis e no Vale de Itajaí, em Santa Catarina, escolheu imergir no Acre. Trabalhou no ministério público como assessor técnico-jurídico da Promotoria Especializada de Defesa do Meio Ambiente, depois passou a analista ambiental federal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, ICMBio, onde se mantém atuando na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira.
Seu livro, que tem como base a monografia apresentada para conclusão do curso de direito na Univali/SC em 2007 (atualizada e acrescida de novas descobertas sobre o tema), apresenta na orelha estas instigantes indagações: “Quem construiu esses monumentos? Como eram essas pessoas? O que buscavam? Como conseguiram realizar esses desenhos que resistiram ao tempo? E para que serviam”?
A Biblioteca da Floresta, que Tiago Juruá chamou no lançamento de “casa dos Geoglifos”, realizou em julho de 2010, um simpósio Internacional cujo tema principal foi Arqueologia da Amazônia Ocidental, atraindo pesquisadores internacionais, além de estudiosos e curiosos. O foco, claro, foi o Acre com seus sítios arqueológicos monumentais.
Tais figuras somente são bem percebidas do alto, de avião ou balão voando baixo. São encontradas na parte ocidental da Amazônia, por uma vasta região que engloba o leste do Acre, o sul do Amazonas, o oeste de Rondônia e o norte da Bolívia. São áreas abertas, cercadas por valetas contínuas e muretas de terra, com formas geométricas perfeitas: círculos, retângulos, hexágonos, octógonos e outras de grandes dimensões supostamente feitas por populações indígenas que ali viveram no início da era Cristã.
No estado ocorrem entre os rios Acre, Iquiri e Abunã (linha de fronteira com a Bolívia), todos formadores do alto rio Purus. O município com maior incidência é Capixaba, com 49 sítios. Ao todo, já foram identificados cerca de 300 sítios. A descoberta iniciou em 1977 quando uma equipe de pesquisadores do Programa Nacional de Pesquisas Arqueologias da Bacia Amazônica (PRONABA), coordenada por Ondemar Ferreira Dias, (UFRJ) identificou as primeiras figuras.  Alceu Ranz (o pai) era membro da equipe.

Espaços antigos
Por ocasião do simpósio internacional, o site da Biblioteca da Floresta publicou, num texto de Brenna Amâncio, que “os Geoglifos representam uma técnica construtiva de espaços como aldeias fortificadas, locais de encontro ou locais para realização de festas e rituais, indicando notável trabalho de grupos indígenas que não dispunham de equipamentos modernos para escavar e transportar toneladas de solo”.
A informação está no livro “Paisagens da Amazônia Ocidental”, produzido sob a coordenação dos pesquisadores Denise Schaan, Alceu Ranzi e Antônia Damasceno Barbosa. Denise Schaan, pesquisadora da Universidade Federal do Pará detalha: “Os sítios possuíam vias de entrada e saída de ambientes públicos e privados, disciplinando a movimentação dos indivíduos no espaço”.
A pesquisadora, que visita o Acre com frequência e esteve no lançamento de Tiago Juruá na sexta-feira afirma que os Geoglifos são mais antigos do que se imagina. Segundo ela, acredita-se que os sítios tenham sido abandonados por seus construtores por volta do século XVI ou XVII, como consequência da chegada dos espanhóis nas Américas. Por isso podem trazer informações importantes sobre os antigos habitantes dessa região, sobre como viviam, quantos eram, como se organizavam, e ajudar a entender melhor o processo de formação das paisagens no estado.

Contribuição jurídica
A promotora de justiça de meio ambiente do Ministério Público do Estado do Acre, Meri Cristina Amaral Gonçalves destaca o livro de Tiago como “um estudo minucioso dos instrumentos jurídicos  disponíveis na legislação brasileira, no tocante à proteção do patrimônio histórico e cultural”. E recomenda a obra a todos aqueles que “simpatizam com a busca do conhecimento sobre os processos de evolução das sociedades humanas”.
Nas suas “considerações finais”, Tiago Juruá afirma que os Geoglifos, como sítios arqueológicos integrantes do patrimônio cultural brasileiro, possuem proteção jurídica na constituição e em legislação específica.
Mais adiante, ele chama atenção sobre questões legais e de responsabilidades em relação ao patrimônio arqueológico, principalmente aos proprietários de terras onde sítios arqueológicos são encontrados. “São estes proprietários que ficarão responsáveis pelo patrimônio arqueológico existente em seu terreno, até que o poder público decida como proceder em cada caso”.
Tiago Juruá sugere, entretanto, para tranquilidade desses proprietários, medidas de incentivo que poderão ser adotadas, como desconto ou isenção de impostos, ou projetos de turismo em parceria com o estado. O que eles não podem é fazer com os Geoglifos o que alguns fazendeiros fazem com as onças que aparecem ameaçando seu rebanho: oferecer aos peões um salário mínimo por cabeça. Bang! Bang!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Últimas edições do Varadouro

Varadouro 23: tempo de mudanças

“Nesta edição, o novo em Varadouro está na matéria sobre educação infantil, onde se levanta algumas indagações acerca do significado da formação a partir da qual são moldadas nossas crianças. E também nos desenhos de Branco (Roberto Medeiros) – desenhos jovens que retratam a vida com humor e serenidade”.
É o que está dito no editorial da edição 23 do Varadouro, que circulou em agosto/setembro de 1981. Os desenhos de Branco, um tanto surrealistas, ocupam as páginas 14 e última. Na página 14 o jovem desenhista descreve “uma viagem fantástica à Estexper, estação orbital do planeta” e anuncia: “Estamos no ano de 1981, o ano versátil por excelência. O homem já foi à Lua, está perto de Marte e já existe o orgasmo múltiplo”.
Decididamente, o Varadouro buscava uma linguagem urbana adequada às mudanças de comportamento que se impunham na agitada Rio Branco dos anos 1980. A ditadura militar começava a entregar os pontos, o bar Girau, da Socorro, perdia sua clientela de esquerda para o Casarão e para o Café Concerto, da Rose, que se tornou o “point” da boemia com liberdades infinitas. O local de abrangência do bar (rua Alvorada, Bosque) ficou conhecido como “Esquina do Pecado”.
E tinha, sobretudo, as mudanças no plano político e ideológico. No livro Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Ocidental, o sociólogo Pedro Vicente Costa Sobrinho faz um estudo inteligente das agruras e venturas do Varadouro (tema de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo) mostrando fatos que influenciaram no fechamento do jornal na edição 24, em dezembro de 1981. Na página 163 da obra publicada em 2001 pela Editora Universitária da Universidade da Paraíba, ele informa:
“Observa-se que a partir de 1979, além dos encargos com a correspondência dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil assumidos pelos jornalistas Elson Martins e Silvio Martinello, editores e principais repórteres do Varadouro, estes passaram a editar o diário Gazeta do Acre, no qual parte da equipe de redação do alternativo engajara-se. A sobrecarga de trabalho daí proveniente repercutia, com certeza, no desempenho do jornal das selvas, tanto é que no ano de 1979 apenas circularam quatro edições. Em 1980, só duas edições: março e maio. A equipe já vinha revelando um certo cansaço, resultante, em parte , das dificuldades naturais de se fazer um alternativo no Acre. Por outro lado, a abertura democrática, a suspensão da censura, a anistia etc., enfim, a crise da ditadura alargou as possibilidades de a grande imprensa tratar de assuntos antes reservados aos alternativos. Além disso, os partidos e agrupamentos da esquerda clandestina ensaiavam o rompimento das frentes, e ainda começavam a organizar seus próprios meios de comunicação. Na imprensa alternativa mais política o fato já veio antes ocorrendo, pois o Opinião gerou o Movimento, que gerou o Em Tempo, que gerou o Amanhã e daí por diante”.
Pedro Vicente informa que “no Acre o PC do B articulou a distribuição do Movimento chegando a vender 150 exemplares semanais e manter mais de 80 assinantes mobilizando para isso pessoas ligadas à esquerda católica e às CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Outros jornais ligados à esquerda começaram a mobilizar sua militância para que fossem distribuídos: Hora do Povo, O Trabalho, etc. O ajuntamento de outras pessoas ao grupo, anunciado pelo Varadouro, em editorial na edição de abril de 1981, estava longe de assegurar a permanência do jornal”.
A qualidade do Varadouro, contudo, não foi alterada com as mudanças. Esta edição tem como matéria de capa uma ampla reportagem sobre os migrantes que chegam do sul do país procurando um pedaço de chão nos projetos do Incra. Fragilizados, com um histórico de expulsões em outras regiões, eles falam de seu calvário com indignação, mas não perdem a esperança. Eles vieram de Itaipu com crianças e caixotes e foram jogados em barracos improvisados no projeto Pedro Peixoto. Mas a situação de onde eles vieram era pior.
”Enquanto eu tiver vida – diz o baiano Arnaldo, vindo do Paraná – eu quero mexer com o corpo”...

Link para download do site da Biblioteca da Floresta: Varadouro, número 23

Varadouro 24: missão cumprida

Um pé de maconha em fotografia arregaçada na capa do jornal? Só o jornal Varadouro tinha tanta ousadia! Afinal, o ano era 1981, o país ainda vivia sob uma ditadura militar e o Acre – meu Deus! – que garantia podia oferecer a um grupo de jornalistas que há quatro anos cutucava a onça com vara curta? Mas estava lá, na capa da edição 24 (a última) que circulou em dezembro, a matéria com o título “Maconha: ilusão ou busca”?
Por que maconha na capa do Varadouro? – indagam os próprios editores do jornal pensando na explicação que queriam dar no pequeno editorial (sempre disfarçado de “neste número”) na segunda página:
“Em primeiro lugar, porque para nós não existem temas proibidos. Todos os assuntos de importância social são tratados com franqueza e coragem”. O jornal informa que a maconha joga milhares de jovens na marginalidade e nas garras da polícia, e que em Rio Branco teriam sido presos 100 fumantes entre janeiro e outubro daquele ano.
Na pagina 6 a matéria é desenvolvida com o título: “Por que se fuma maconha? E são os usuários que respondem: uma universitária, uma funcionária pública e um artista deram depoimento falando de suas experiências com a droga. Claro, sem serem identificados. A fotografia que ilustra a matéria mostra uma jovem caminhando junto a um muro onde se lê a pichação: “Cresça, faça a cabeça”! Na contracapa da edição, mais provocação: o desenhista Branco faz uma viagem pelo “Dai-me astral”.
No mais, era o Varadouro de sempre, com destaque para a matéria das páginas centrais: “O que o acreano espera de 82”, ou seja, qual a expectativa da população sobre as eleições daquele ano? A secretária da associação das lavadeiras de Rio Branco, Maria Costa dos Santos, nascida em Sena Madureira, 30 anos e 10 filhos, dá uma resposta consciente e engajada: “Estou confiante não por causa dos políticos, mas por causa do povo”.
Na página 18 tem uma matéria que até hoje sugere reflexão: “Seringueiro não vira colono paranaense”. Nas assembléias dos seringueiros organizados em sindicatos a partir de 1975, era comum ouvir-se que eles não queriam trocar sua colocação de seringa dentro da mata, com 300 hectares de floresta, por um lote do Incra de 100 ou menos, voltado para a produção agrícola. Anos depois (1990) eles conquistariam as Reservas Extrativistas.
Desta forma, com brilho, Varadouro fechou seu curto ciclo de vida. Mas seus editores nunca imaginaram que aquela edição era a última, como bem observou o sociólogo Pedro Vicente Costa Sobrinho, no seu livro Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Ocidental (2001). Segundo ele, Varadouro estava fadado a acompanhar o destino dos irmãos alternativos do resto do país. “Na notícia do desaparecimento do jornal Movimento, que foi veiculado neste número 24, Varadouro cometeu uma grave omissão: deixou de também incluir no texto o seu próprio desaparecimento, pois a partir daí sumiu sem uma explicação para o seu público” – escreveu.

Link para download do site da Biblioteca da Floresta: Varadouro, número 24

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

ZEE do Acre: janela aberta

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 9jan2011
Exposição na Biblioteca da Floresta

Está aberta ao público na Biblioteca da Floresta,em Rio Branco, desde o  final de dezembro, uma exposição sobre o Zoneamento Ecológico Econômico do Acre que  representa instrumento de identificação territorial fundamental para o planejamento do desenvolvimento sustentável da região. Melhor que isso, o ZEE permite a qualquer cidadão conhecer a riqueza natural do seu Estado, o que pode (ou não) ser explorada, a aptidão de cada  área, etc., e ainda informa sobre a história, ocupação, cultura e tradição de comunidades  tradicionais da floresta.
A exposição precisa ser vista por estudantes, pesquisadores, estudiosos da Amazônia, pelas pessoas de um modo  geral que vão ficar conhecendo melhor o Acre. Certamente, vão todos se orgulhar da terra onde vivem, e acreditar num  futuro melhor a partir de suas  potencialidades. Vão também encontrar argumentos para defender a preservação de nichos  ecológicos que, com a ajuda da ciência, responderão pela prosperidade da população acreana  mais em frente. Poucos estados, no Brasil, possuem um ZEE tão detalhado. No caso do Acre, foram  quase uma década de estudo,  pesquisa de campo e discussão
com entidades representativas  da população para fechar o projeto. A primeira fase começou  em 1999, no primeiro mandato  do então governador Jorge Viana (PT). A segunda alcançou o  governo Binho Marques (1906- 1910) que submeteu o projeto à  Assembleia Legislativa e o oficializou por decreto. Agora, o
ZEE está pronto para ser usado. Quem acompanhou o processo e pode agora supervisionar seu uso com acerto e autoridade é o biólogo Edegard  de Deus, recém-nomeado secretário de estado do Meio  Ambiente. Paulista de Ribeirão Preto, ele veio para cá em  1978 compondo uma leva de  jovens professores contratados pela Universidade Federal do Acre. De lá pra cá, esteve sempre ligado ao meio ambiente: ajudou a criar o Parque Zoobotânico da UFAC,
fez parte da ONG SOS Amazônia e se envolveu com a luta dos povos da floresta que  salvou o Acre da bovinização. Ou seja: se acreanizou.
A partir de 1999, data de  nascimento do ZEE, tem atuado como secretário do Meio  Ambiente enfrentando duras  pelejas. Em 2009 e 2010 chegou a responder na Justiça  pela má conduta de um auxiliar que andou facilitando autorização para desmatamento  ilegal. Passou por um sufoco,  mas acabou inocentado. Por
conta desses atropelos, entretanto, passou quatro anos numa espécie de exílio politico, como coordenador geral  da Biblioteca da Floresta, um  departamento da Fundação  Cultural Elias Mansour com  quase nenhuma autonomia financeira. Mesmo nessas condições,  mas com a ajuda de um pequeno grupo de  pessoas comprometidas com a sustentabilidade ambiental, politica, social, econômica e cultural do
Acre, chamou atenção para a Biblioteca. De fato, em menos de três anos, organizou  excepcional acervo sobre a  história, a cultura e a tradição  acreanas, e principalmente  sobre as lutas socioambientais  iniciadas pelos seringueiros nos anos 1970, transformando a Biblioteca da Floresta em  porto seguro para quem se interessa por essas histórias.
De fato, ao inaugurar a exposição do ZEE em dezembro de 2010, a instituição fez  uma festa: lançou livros e revistas feitas em parceria com  outras entidades, dois DVDs  com cerca de 30 mil arquivos (em vídeo, áudio e fotografia,  além de artigos, reportagens  e teses acadêmicas), e lacrou  uma urna com parte desse material e três mil mensagens escritas por frequentadores. A  urna foi inspirada numa mensagem de Chico Mendes endereçada aos jovens de 2120,  ano em que será aberta.
O ZEE, insisto, será daqui para frente preciosa fonte  de consulta sobre a realidade  acreana. População, florestas,  rios, lagos, produção, tradição  cultural, distancias, tribos indígenas, flora, fauna, crenças,  clima etc. – tá tudo lá dentro,  como conhecimento cientificamente produzido e legitimado com a participação das
comunidades.
Quiçá seja utilizado como  livro de cabeceira por todos  que vivem no Acre, ou que planejam fazer algo no Acre.

CORREIO

Ex-marido de Dilma Rousseff
Carlos Araújo (Foto: Daniel de Andrade)
Carlos Araújo surgiu na primeira safra da resistência à ditadura militar de 1964. Foi preso em agosto de 1970 como militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), organização de esquerda que propunha a luta armada. Conheceu Dilma  Rousseff durante os deslocamentos para responder por crime político. Foi preso e interrogado pelo Romeu Tuma, ex-diretor do DOPS que, cinicamente, após a ditadura se dizia democrata.
Antes da VPR, militou no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Nasceu em São Francisco de Paula no Rio Grande do Sul. Aos 14 anos foi detido pela primeira vez, pichando muro em Porto Alegre em defesa de “O Petróleo é Nosso”. Seu pai, Afrânio Araújo, foi um renomado advogado. Faleceu em 1974. Carlos namorava a atriz Bete Mendes, outra militante de esquerda que atuava nas novelas da TV Globo; depois viveu um tempo com a também militante Vânia Abrantes, até conhecer Dilma no presídio Tiradentes, em São Paulo. Os dois se apaixonaram na prisão.
Após dois anos de detenção, Dilma foi solta e passou a visitar Carlos Araújo. Levava livros, cigarros e mantinha com ele relacionamento íntimo, de casal. Assim mantinham-se informados sobre a realidade brasileira e o futuro político. Após a prisão, casaram e viveram 30 anos juntos, até 1999. Têm uma filha fruto dessa união, a linda mulher que  desfilou com a mãe no dia da posse como Presidente da República, e que lhes ofereceu um neto.
O casal alinhou-se politicamente com Brizola, Dirceu  Collares, Aldo Pinto e Valneri Antunes (o Átila), entre outros,  como filiados ao PTB. Após perderem a sigla do PTB para Ivete Vargas, recriaram o PDT. Nesse período, organizaram movimentos sindicais, camponeses e operár ios, o que rendeu a Carlos apoio e votos para as eleições do PDT.
Foi eleito por três mandatos a Deputado Estadual: em 1982,  1986 e 1990. Por duas vezes, perdeu a eleição para os petistas Olívio Dutra e Tarso Genro a prefeito de Porto Alegre. Em  1985, Carlos e Dilma se  dedicaram de corpo e alma à eleição  de Alceu Collares e pela primeira vez Dilma foi nomeada, com
 a indicação do marido, para a Secretaria Municipal da Fazenda  do Município de Porto Alegre.
Carlos desligou-se da militância política do PDT em  2000 e voltou a advogar. Desde então, adotou vida discreta  e sossegada. É um homem culto e inteligente, grande orador,  corajoso, correto na ação e na palavra. É profundo conhecedor do marxismo e da dialética, solidário e humano. Político como ele está em extinção no Brasil. Dilma Rousseff aprendeu com ele, e vice-versa.
(Texto produzido com informações passadas por Daniel de  Andrade, autor do blog saitica.blogspot.com que vive em Porto Alegre)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Casarão da resistência acreana


Coluna publicada no Jornal Página 20 | 12dez2010
Este é o novo Casarão inaugurado sexta-feira:
ponto histórico da resistência acreana

O governo revitalizou o prédio e vai entregá-lo a um grupo de “amigos do Casarão” que possa cuidar dele como centro de cultura, em convênio com o departamento de Patrimônio Histórico e Cultural da Fundação Elias Mansour. Claro, com um boteco funcionando lá dentro. A inauguração aconteceu sexta-feira, com a presença do governador Binho Marques, do senador eleito Jorge Viana e muitos dos antigos freqüentadores. Teve show, cerveja de graça e muita saudade. É um resgate, em termos, do bar que fez história a partir de 1980, como espaço de conspiração e lazer de ativistas políticos, artistas e intelectuais de Rio Branco. E que só pode reviver, com o charme e a inquietude do passado, na memória dos que o tinham como reduto. Entretanto, temos agora um símbolo da acreanidade valorizando o centro (av. Brasil entre Getúlio Vargas e Marechal Deodoro) com sua memória de resistência cultural, social e política.

A história do Casarão começa com a Anistia aos presos e perseguidos políticos no ano de 1979, como relata um de seus fundadores, o sociólogo, escritor e professor universitário Pedro Vicente da Costa Sobrinho: “Naquele ano, retornaram ao país muitos brasileiros que se encontravam no exílio e os que estavam presos nos cárceres da ditadura ou na clandestinidade. Eles foram soltos ou voltaram a circular, e puderam assim tentar reconstruir suas vidas. Nelson Rodrigues Filho, o Nelsinho, filho do dramaturgo Nelson Rodrigues, saiu da prisão onde cumpria uma longa pena sob a acusação de terrorismo, juntou alguns trocados e associou-se com mais dois amigos para abrir um Bar no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Por sua cultivada barba na prisão, os amigos e sócios nomearam o bar de ‘O Barbas’. O Barbas passou a ser o espaço alternativo por excelência, para onde uma intelectualidade de esquerda se dirigia e batia o ponto varando a noite em conversas e reuniões, regadas a cerveja e caipirinhas. O Barbas mantinha jornal mural, disponibilizava livros, jornais e revistas; música ao vivo ou mecânica com repertório de boa qualidade; e promovia palestras, conferências etc. sobre literatura e artes, e também política.

Numa viagem que fez ao Rio, Pedro Vicente, que dirigia o SESC como ponto de efervescência cultural em Rio Branco, foi visitar “O Barbas” e conversou com Nelsinho, seu proprietário e gerente. Ele lhe passou quase tudo que fizera no espaço: programação cultural, perfil da clientela, controle e administração. O sociólogo ficou entusiasmado com o projeto e, ao voltar a Rio Branco, mais que depressa procurou contatar os possíveis parceiros para juntos tentar viabilizar um projeto semelhante ou parecido com “O Barbas”.

“A velha casa residencial da família Fontenelle- narra Pedro Vicente- logo me pareceu o local ideal para instalação da iniciativa, só com um impedimento: lá já funcionava um barzinho decadente e de escassa freqüência. Conversei inicialmente com meus amigos Elson Martins e Miguel Ortiz, e eles de rápido se convenceram da idéia. Todos se convenceram que o espaço ideal seria a velha casa residencial dos Fontenelle, pela sua beleza e funcionalidade. Em outras conversas nós envolvemos o indigenista José Carlos Meireles, que tinha sido demitido da Funai. Meireles sugeriu que o nome de fantasia do bar fosse “O Casarão”, e a coisa pegou. Pouco tempo depois, o barzinho que lá funcionava faliu, e Elson Martins assumiu a tarefa de falar com Darci, o herdeiro que ocupava e administrava a velha casa. Resolvido a questão da locação, tomamos a iniciativa de por em prática o projeto”.

Não foi difícil convencer Darci Fontenele sobre o nosso projeto. Eu o conhecia desde os anos 50, no Colégio Acreano, até freqüentei sua casa construída nos anos 30, toda em madeira de lei, e tomei banho na piscina, a primeira da capital e talvez do Acre. Ele até se mostrou feliz com a idéia.

Era o ano de 1980. Iniciamos pequena reforma da velha casa mantendo a mesma estrutura. Se o projeto era novo, não poderíamos mobiliar o espaço com mesas e cadeiras de plástico como era costume em Rio Branco. Assumimos o trabalho de confeccionar as cadeiras e mesas com madeira. Meireles e Miguel, com o auxílio de um marceneiro, fizeram todo o trabalho. Do projeto constou: jornal mural; espaço para se deixar recados; um local para que as pessoas que freqüentavam o espaço pusessem assinaturas; decoração com gravuras de artistas; equipamento de som com repertório musical variado e rigorosamente selecionado; além de programa de música ao vivo, uma vez por semana. Constava também a realização de debates, palestras etc. No projeto agregamos uma Livraria e pequena galeria de arte para exposições de artistas locais, nas duas salas situadas no piso inferior. No segundo piso, as salas foram cedidas para a Comissão Pró-Índio e movimentos sociais. A livraria foi instalada e no espaço da galeria, apenas Hélio Melo expôs seus quadros.

Durante um pouco mais de dois anos (1980/82), na sua primeira fase de existência, o Casarão funcionou regularmente, atraindo intelectuais, estudantes, sobretudo de esquerda, e mais um eclético público de freqüentadores. Pedro Vicente teve acesso a um dossiê da Polícia Federal e dos órgãos de informação relacionado às suas atividades políticas e diz: “ O Casarão é mencionado como local freqüentado principalmente por homossexuais, prostitutas, drogados e pessoal de esquerda. Para os órgãos de segurança era um lugar maldito”.

Em 1982, o Casarão foi assumido pelo casal Walter e Graça. Eles deram uma nova vida ao projeto, ampliando o bar e o transformando em restaurante. Um público muito maior foi incorporado como freqüentadores; a esquerda e uma juventude rebelde às convenções tradicionais da época tornou-se cliente do bar por excelência. Graça e Walter lhes deram aproximadamente, mais vinte anos de sobrevida.

Sócio ou cliente? - Quando Pedro Vicente me convidou para sócio do Casarão, eu comandava com o Silvio Martinelo o diário ”A Gazeta do Acre” que funcionava no bairro da Cerâmica. O jornal pertencera a um grupo de Porto Velho que, não conseguindo sobreviver por aqui, abandonou o maquinário num prédio na rua Benjamim Constant, em frente a Rádio Difusora Acreana. De Porto Velho, o editor João Teixeira me mandou um telex oferecendo-me a condução do jornal por conta e risco. Eu, Sílvio, Arquilau (hoje desembargador), Suede Chaves e mais alguns, estávamos encerrando a experiência com o jornal Varadouro e topamos a parada. Entretanto, numa certa manhã fui surpreendido com o advogado dos fazendeiros, João Branco, sentado à minha mesa. Ele fora anunciar, com seu jeito arrogante, que o empresário Wilson Barbosa tinha comprado o jornal e este teria nova linha editorial, com aproveitamento de nossa equipe.

Prometemos voltar à tarde com uma resposta, mas não voltamos. O jornal circulou uns dois dias e parou. Então, o Wilson nos chamou para conversar. Disse que gostava do nosso trabalho e que tinha comprado o jornal contando com a gente. João Branco, segundo explicou, era apenas o advogado contratado para cuidar da transação. Aceitamos voltar, mas com uma condição: o advogado representante da UDR ficaria proibido de aparecer na redação. Com este acerto, nos mudamos para um prédio de Wilson Barbosa no bairro Cerâmica e vivemos uma fase de bom jornalismo, com razoável independência editorial. Não recebíamos verba do governo, e o dono do jornal, embora pagasse parte das despesas, não interferia na redação. Esse namoro durou até as eleições de 1982, quando as divergências políticas afloraram.

Bom, vibrei com a proposta do Pedro Vicente e me tornei sócio do bar, mas não tinha tempo a não ser depois que fechava a edição do jornal. Era melhor ser apenas freqüentador. Lembro que escolhia uma mesa dos fundos, próxima da administração do bar, mas sentava de costas para a Ana, esposa do Pedro Vicente,evitando um possível olhar de reprovação dela que ficava no Caixa e podia solicitar ajuda. Pelo menos, eu fazia questão de pagar minhas despesas, geralmente umas caipirinhas e caldo de feijão como tira-gosto. Saía do jornal direto pro Casarão sabendo que encontraria por lá as figuras mais interessantes de Rio Branco. Ouvia música popular de qualidade, participava de conchavos ideológicos e criticava os maus políticos. Tarde da noite, gostava de ver os grupos de teatro que chegavam caracterizados transformando o Casarão num palco.

Por uma questão de justiça, passei minhas quotas para o Pedro e o Miguel assumindo melhor a condição de cliente. E como tal testemunhei a ampliação e diversificação da freqüência, vendo que o Casarão, aos poucos, passou a ser preferência também de fazendeiros, políticos conservadores e até agentes da Polícia Federal. Estes, certamente, interessados em ouvir conversas estimuladas pelo ambiente que os ajudassem identificar inimigos do regime militar.

Nos jornais, as referências ao Casarão eram sempre favoráveis, mas o melhor marketing, forte e precioso, partia voluntariamente do Toinho Alves com suas crônicas sobre Jack Fontenelle, pesonagem que ele encontrou no quintal do coronel governador. Jack era um jacaré: apareceu na velha piscina desativada e ficou por lá, pegando sol durante o dia, urbano e sereno, aguardando as sobras de comida da noite. Toinho filosofava com o bicho, de tal forma, que era possível imaginá-lo, a exemplo dos botos, subindo ao bar, altas horas, para namorar, beber, escrever poesia, deixar recados... Ou seja, ampliando a resistência naqueles tempos amargos e perigosos, mas tão necessários e tão apaixonantes!

Aqui se discutia tudo, da feijoada
à criação de um partido politico


O Casarão virava Teatro na madrugada

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Varadouro 22: tempo de mudança


Na seção “Neste Número” que abre a página 2, Varadouro sempre aproveitava para fazer um pequeno editorial. Nesta edição (n.22), que circulou em junho/julho de 1981, o jornal anuncia que muitas pessoas procuram sua redação “em busca de um espaço para discutir e expressar suas dúvidas, perspectivas e anseios”. E professa que “Varadouro pretende ser uma escola. Não uma escola onde os doutores sabidos estão de um lado, e os ignorantes de outro. Mas uma escola onde todos ensinam e aprendem, onde se possa trocar as experiências, enriquecer individualmente e desta forma possibilitar o fortalecimento das nossas lutas. Se ainda estamos longe de chegar lá, grande é a vontade para reunir, de fato, o maior número possível de pessoas que questionem a si e ao mundo em sua volta, bem como para incorporar todas as causas justas”
“Neste número – prossegue o texto – mais uma vez trazemos os temas aos quais nossos leitores já se habituaram. Ou seja, é o mesmo Varadouro de sempre, combativo, não estático, evoluindo junto com as lutas de várias parcelas da população”.
O que o pequeno editorial não diz é que o jornal se aproximava do fim. Com mais duas edições (23 e 24) fecharia as portas encerrando uma vida curta, mas corajosa e muito útil à sociedade acreana, sobretudo como instrumento de defesa dos valores históricos, ambientais, culturais, sociais, econômicos e políticos da região.
Na edição anterior o jornal já sinalizava com dificuldades intransponíveis para se manter. A ajuda em dinheiro da Prelazia do Acre e Purus, prevista para garantir apenas seis edições, esgotara nos dois primeiros anos, e já haviam se passado quatro com a idéia bíblica de multiplicar o pão. O expediente da edição 22 transparecia o esforço supremo: tinha gente nova arregaçando as mangas, a começar pela editoria. Na verdade, uma discussão interna e democrática havia determinado mudança: Elson Martins e Silvio Martinello se afastariam da editoria (ficariam na reportagem) dando lugar a Romerito Valle de Aquino, Marco Antônio Mendes e Antônio Alves Neto.
Os dois nomes continuavam aparecendo na editoria, mas era só pra constar. A nova ordem era dada pelo pessoal mais jovem relacionado na Redação: Antônio Alves, Antônio Manoel, Armando Soares, Fátima Almeida, Fernando La Roque, Francis Mary, Saulo Petean, Roberto Medeiros (Branco), etc.
O pequeno editorial esclarece: “Procuramos nos transformar para acompanhar a transformação da sociedade. Por essa razão é que não estamos apenas denunciando, mas apresentando também algumas reportagens estreitamente ligadas às lutas de diversos movimentos. É o caso dos estudantes, dos filiados aos sindicatos rurais do Acre, dos artistas, dos que procuram outras formas para sobreviver”.
Por fim, mais explicação e justificativas: “Talvez ainda nos falte o humor. Há quem diga que devemos ser sérios, mas não pesados. Enquanto não suprimos esta falha, procuramos compensar mexendo no visual e transmitindo um pouco de emoção: como a do fotógrafo da última página, revelando de forma poética uma realidade terrivelmente cruel”.
A edição que a partir de hoje estará disponível em PDF a todos os internautas mantém a qualidade que fez a fama do Varadouro, em matérias como: “A grande festa do PT no Acre”, “A Constituinte pede passagem”, “Acre: paraíso dos enlatados”, “Estão envenenando o Acre,”, “Akiri: tempo de mudança”, “Seringueiros apontam rumo para o sindicato”, “O exemplo da Colônia Cinco Mil”, entre outras.
Link para download do site da Biblioteca da Floresta: Varadouro, número 22 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Caminhão da Segunda Guerra será museu volante

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 5dez2010
Este possante caminhão era utilizado para transpportar judeus
para os campos de extermínio de Adolf Hitler

As escolas estaduais e municipais de Rio Branco poderão, em 2011, contar com um museu volante, histórico e original, O projeto está sendo montado com incrível esforço e persistência individual pelo ex-repórter do jornal Varadouro, ex-advogado de Chico Mendes e das famílias de seringueiros expulsas (pelos fazendeiros) dos seringais nos anos 1970, o atual desembargador Arquilau de Castro Melo, presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Acre.
Nas duas últimas décadas, o desembargador que nasceu em Cruzeiro, no Vale do Juruá, tem se dedicado a juntar peças históricas que encontra em mãos de famílias tradicionais, ou que recebe como doação diversas localidades do interior do Estado. Na sua residência na Chácara do Ipê, na capital, um belo “chapéu de palha” que construiu como área de lazer vai sendo tomado por essas peças.
Lá, já podem ser encontrados: o primeiro projetor de cinema que funcionou em Cruzeiro do Sul,aparentemente em perfeito estado; máquinas de costura Singer, ferros elétricos de passar aquecidos a carvão e bules coloridos diversos; faróis Aladim, fôrmas para confecção de sapatos de seringa, baldes, facas e porongas de seringueiro utilizadas na fabricação de borracha, entre uma centena de outros objetos.
Pendurada no teto do “chapéu de palha” tem uma réplica do avião DC-3 que, no ano de 1973, caiu em Sena Madureira matando várias pessoas, entre elas o saudoso bispo Dom Giocondo, criador das comunidades eclesiais de base e incentivador do Clube Juventus. O desembargador descobriu um artesão que trabalha com essas réplicas em outro estado, pagou uma grana pesada e conseguiu o avião que tem mais de metro de comprimento, com as cores e até prefixo da aeronave sinistrada.
Mas nada se compara a mais nova aquisição do desembargador. Trata-se de um caminhão do tempo da Segunda Guerra Mundial, fabricado em 1935, que nos anos cinqüenta foi levado para Cruzeiro do Sul pelos padres alemães que dirigem a Prelazia do Juruá. O veículo foi fabricado pela indústria Berna, alemã, adquirida no pós-guerra pela Mercedes Benz, e se encontra inteiro: diariamente, o desembargador entra em sua cabine e aciona o motor original que faz quase tanto barulho quanto uma usina de luz de médio tamanho.
Os jovens, certamente, vão chamar de “massa” esse caminhão troncudo que tem a direção no lado direito e, na cabine, atrás do motorista, oferece lugar para pendurar e guardar pelo menos três rifles possantes. Tudo é ancho e descomunal no caminhão, sobretudo a carroceria, com laterais com mais de metro de altura e uma cobertura também bastante alta, com grossas hastes de ferro como sustentação. Tanto dentro como na parte externa da carroceria, e no teto, dá para pendurar e abrigar um museu completo.
Durante a guerra, o caminhão foi usado para transportar judeus para os campos de extermínio para os fornos crematórios. Por isso, o modelo é comumente utilizado em filmes sobre o nazismo. O desembargador navega pelos canais da Sky (tv paga) procurando nos filmes clássicos mais informações e detalhes sobre a máquina poderosa que quer transformar em museu. Como tudo nela foi projetado há 75 anos, sua circulação está condicionada a pequenas distâncias, como escolas rurais e alguns municípios próximos.
Desta vez, Arquilau não precisou comprar nem ganhar o caminhão para seu acervo. Ele contou com interesse dos atuais donos – a família Parente, de Cruzeiro do Sul - para montar o projeto. A idéia será apresentada ao Governo do Estado, à Prefeitura e, quem sabe, a instituições que entendam a originalidade e importância do museu volante para levar às novas gerações de acreanos, a memória da Revolução que bisavós empreenderam no início do século 20. Se possível, com acompanhamento de historiadores e universidades.
Enquanto isso, o desembargador vai entupindo, cada vez mais, seu depósito de quinquilharias históricas, até mesmo o banheiro social da área de lazer.





Correio


A embaixatriz


A elegante e simpática senhora que aparece na foto entre lideranças indígenas do Acre é a embaixatriz da Palestina no Brasil, Nahida Tamimi Alzeben. Ela acabara de chegar de Brasília, domingo passado (26), e foi levada ao sítio da família Farhat, na BR-364, onde a aguardavam, além dos indígenas, duas dezenas de outros convidados a quem foi servida uma farta mesa de comidas árabes e acreanas, incluindo uma maniçoba, que provou e gostou.
O ativista Abrahim Farhat, o Lhé, foi receber a embaixatriz no aeroporto e a acompanhou o tempo todo em Rio Branco. No sítio, com a naturalidade que lhe é peculiar, deixou-se fotografar ao lado de Nabiha com seu short samba-canção preto, que destaca sua pele cor-de-rosa e entre um “lero” e outro, se enfiava sob uma bica d’água para afastar o calor.
Apesar do nome, Nahida Tamimi Elzeben é brasileira. É filha de pai palestino e mãe gaúcha, descendente de migrantes alemães. É urbanista e restauradora de patrimônio cultural, mora em Brasília e tem dois filhos. A cada dois anos, visita a Palestina.
A embaixatriz veio ao Acre por conta das comemorações dos 62 anos da causa palestina. No dia 29 de novembro de 1947, a ONU votou um projeto para definir territórios e estabelecer a paz entre árabes e judeus. Mas, numa votação suspeita, definiu apenas a criação do Estado de Israel. Hoje, a organização procura se desculpar transformando a data no Dia Internacional da Causa Palestina, comemorado em muitas partes do mundo.
“Há 62 anos esse povo é massacrado para tentar fazer valer seus direitos”, disse o ativista Abrahim Farhat, membro do Comitê Acreano de Solidariedade à Causa Palestina e um dos organizadores do evento no Estado. Ele lembra que a questão é também dos acreanos, pois árabes e judeus lutaram na Revolução Acreana de 1902.
Nabiha deu palestra na Assembléia Legislativa e na Universidade Federal do Acre e na Uninorte, e ensinou bordado palestino numa oficina na Catedral de Rio Branco. Na Assembléia, declarou: “Precisamos de todo o apoio possível para que nos deixem ter o nosso estado palestino, que desocupem nosso território e deixem de destruir nosso patrimônio cultural”. Para ela, a cultura e a tradição palestina “é que nos mantém vivos como povo”.



A embaixatriz Nahida Elzeben entre indígenas acreanos




domingo, 7 de novembro de 2010

Labre passou pelo Acre em 1887

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 7nov2010
Escrito por Alceu Ranzi - Instituto Histórico e Geográfico do Acre


Antes do início da construção da Ferrovia Madeira Mamoré e antes também da idéia da ferrovia Transacreana de Euclides da Cunha, o Cel. Labre - fundador da cidade de Lábrea, na margem direita do Rio Purus, no Amazonas - idealizou a ligação ferroviária do Rio Madre de Diós na Bolívia ao Rio Aquiry, hoje Rio Acre. O pioneiro coronel deixou relatos de suas explorações entre o Rio Ituxi e o Rio Madeira.
Em nossos estudos sobre os geoglifos, foi a Dra. Denise Schaan que percebeu a importância desse artigo para a história, a geografia, a antropologia e a arqueologia do Acre. Abaixo o leitor terá um resumo (comentado) da viagem de reconhecimento do Cel. Labre, desde a margem esquerda do Rio Madre de Diós (Pando-Bolivia) até a margem direita do Rio Aquiry (Acre):

No dia 11 de agosto de 1887 partiram a pé da margem esquerda do Rio Madre de Dios, acima da atual cidade de Riberalta (Bolivia) e começaram a caminhada pelos varadouros indígenas na direção do Rio Acre.
Dia 14 chegaram na localidade Budha, no Rio Orton, possivelmente nas proximidades na atual cidade de Puerto Rico (Bolivia), confluência com o Manuripe.
No dia 15 pernoitaram na aldeia Nabedheçada, cujo chefe se chamava Tatachuma. Segundo a descrição do Coronel Labre, essa aldeia, dos índios Araúnas, tinha ídolos e templos.
No dia 17 chegaram na aldeia Mamuyeçada, com aproximadamente 200 habitantes da tribo dos Araúnas. Nessa aldeia Labre percebeu alguma forma de chefia organizada, templos e rituais. As mulheres eram proibidas de entrar nos templos, participar das cerimônias e saber a forma e os nomes dos ídolos. Os ídolos eram representados por figuras geométricas, polidas, feitas de madeira. O pai dos deuses era chamado Epymará, sua imagem tinha uma forma elíptica de aproximadamente 40 cm de altura. Também existiam ídolos de pedra de diferentes tamanhos. Nos chama a atenção os ídolos de formato geométrico, o que nos remete a pensar nos geoglifos acreanos.
No dia 19 chegaram em uma aldeia abandonada chamada Cuyneputhsúa. Essa aldeia ainda tinha uma boa casa, um pequeno templo, com um jardim de forma circular. Nesse local se encontraram com um cacique chamado Tata Runa, acompanhado de suas duas esposas e dois filhos, que estava no lugar, entre outras coisas, para visitar o templo. Aqui o templo, com um jardim circular também nos remete aos geoglifos.
No dia 24 chegaram na margem direita do Abunã (ainda na Bolivia), onde pernoitaram. No dia 25 cruzaram o Abunã e ao final do dia chegaram em uma aldeia abandonada, chamada Huatchaputhsua. Apesar de abandonada, essa aldeia ainda tinha uma grande casa, em bom estado de preservação e um templo com duas portas. Dentro do templo ainda havia vários ídolos, ornamentos e armas. Possivelmente essa aldeia esteja relacionada aos campos do Gavião, nas proximidades da atual cidade de Capixaba (Acre).
No dia 27, próximo do meio dia, passaram por uma grande clareira (campo da natureza) de mais de 5 km de diâmetro, tendo, no meio, duas grandes casas abandonadas, onde encontraram duas grandes vasilhas, de argila queimada, com aproximadamente 1 metro de altura e muitos ornamentos dentro de alguns jamaxis. Nesse local estava um índio, guardando a plantação de coca, a qual era bastante consumida. Esse poderia ser o nosso conhecido Campo Esperança, próximo do Gavião?
No dia 28, viajaram por uma boa estrada (varadouro), passaram por três aldeias com boas casas e agricultura. Ao final do dia chegaram à Canarana. Segundo o mapa que acompanha o diário de Labre, essa aldeia, estaria localizada entre as atuais cidades de Capixaba e Senador Guiomard (Quinari).
No dia 29, após passarem por duas aldeias de Apurinãs, eles chegaram ao local chamado Brejo da Ponte, uma colocação de centro, com seringueiros brasileiros, de propriedade de um senhor chamado Manoel Joaquim (pelo nome, possivelmente um Português). Lembrar que estávamos em 1887, e Labre estava trilhando território boliviano.
No dia 30 de agosto de 1887, saíram às 5 da manhã do Brejo da Ponte e ao meio dia atingiram o Rio Acre, na sede do seringal Flor do Ouro, propriedade de Geraldo Correia Lima. Na época, apesar da região pertencer à Bolívia percebe-se a forte influência brasileira, pelos nomes das colocações e pelo nome dos seus proprietários.
Essa localidade, Flor do Ouro, como se verifica no documento “Navegação do Rio Acre” de Plácido de Castro de 1907, situa-se acima do Riozinho do Rola e abaixo do Benfica. Na época da morte de Plácido de Castro, em 1908, Flor do Ouro, em frente à boca do Igarapé Distração, pertencia a Alexandrino José da Silva, o assassino.
No mapa que acompanha o relato da travessia do Coronel Labre, nota-se que o Rio Acre já era conhecido por Aquiry. Labre certamente conhecia os relatos da viagem de Chandless pelo Rio Aquiry, realizada em 1865. Pelos índios Canarana era também chamado por Muchanguy, no mapa o nome foi anotado (entre parênteses).
Para Fawcett o nosso Rio Acre originalmente se chamaria Macarinara, corruptela de Magarinarran, na língua dos índios Araúnas (Araonas). Para o mesmo Rio Acre ainda vamos encontrar as denominações de Yasiri, Uwakuru, Uaquiry e Enosagua - rio de águas amarelas.
Causa estranheza que no mapa anexo ao artigo, não há referências à localidade Volta da Empreza, sede do Seringal Empreza que teria sido estabelecido em 1882 por Neutel Maia, portanto cinco anos antes da chegada do Cel. Labre ao Rio Acre.
De outra parte, no mapa, que acompanha o artigo do Coronel Labre, está plotada a localidade Nova York como ponto inicial da ferrovia proposta. Surge então uma pergunta: Seria Nova York o primeiro nome da nossa atual Rio Branco?

Fontes:

- Castro, Genesco de. O Estado Independente do Acre e J. Plácido de Castro Excerptos Históricos. Senado Federal, Brasília, 2002.
- Castro, Plácido de. Navegação do Rio Acre. Typ. Do Jornal do Commercio, de Rodrigues & C., Rio de Janeiro, 1907.
- Chandless, W. Notes no the River Aquiry, the principal affluent of the River Purus. Journal of the Royal Geographical Society, 36:119-128, London, 1866.
- Fawcett, P.H. Exploration Fawcett. Phoenix Press, London, 312 p. 2001.
- Labre, A.R.P. Viagem exploratória do Rio Madre de Diós ao Acre. Rev. Soc. Geográfica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 4 (2):102-106, 1888.
- Labre, A. R. P. Colonel Labre’s explorations in the region between the Beni and the Madre de Dios Rivers and the Purus. Proceedings of the Royal Geographical Society and Monthly Record of Geography, Vol.11, Nº 8 (Aug.1889), pp.496-506, London, 1889.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pela estrada rumo aos Andes

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 31out2010


Escrito por Por Fernanda Birolo


Apesar da proximidade geográfica, somente nestes últimos anos nós brasileiros, e especialmente os acreanos, estamos de fato nos “acercando” do vizinho Peru. No turismo, grandes facilidades surgiram recentemente, com uma linha regular de ônibus que sai de Rio Branco rumo ao país andino, e a partir deste ano também um voo internacional que liga a capital do Acre à do Peru (Lima) e à capital do Império Inca (Cuzco).
Mas aos mais aventureiros não se pode negar que o melhor caminho é mesmo pela estrada. Desfrutar das belíssimas paisagens, deixar que o corpo se adapte lentamente ao clima e apreciar a passagem da planície amazônica para as montanhas faz valer todo esforço de uma longa viagem.
Saindo de Rio Branco, no Acre, são 1.130 quilômetros de estrada até Cuzco, num passeio que dura quase dois dias. A primeira etapa do trajeto é em território brasileiro, até a pequena cidade de Assis Brasil. Este é o ponto de fronteira entre os dois países, onde se chega pela BR-317, percorrendo 344 quilômetros desde a capital. Daí em diante se ingressa na Amazônia peruana.
Um pernoite pelo caminho é obrigatório para uma viagem segura, e a cidade de Puerto Maldonado, a 230 quilômetros da fronteira, é o local mais apropriado. Até lá a estrada é completamente asfaltada, e enquanto a ponte da cidade não está terminada, a travessia do rio Madre de Dios é feita em balsas - pequenas ou grandes, a gosto do freguês.
Chegando cedo a Maldonado, é grande a tentação de seguir a viagem, pela curiosidade e para se sentir mais perto do destino. E aí o viajante desprevenido pode ter surpresas, pois não encontrará mais um local com boa estrutura no caminho. A melhor pedida é ficar, experimentar uma deliciosa pizza peruana e ter um bom descanso para os desafios do dia seguinte.


Chegando às montanhas
Após cruzar a fronteira, as pessoas, as casas, os costumes já nos deixam visível que estamos em outro país. Mas é depois de Puerto Maldonado que se começa a perceber as mudanças de paisagem. Aos poucos aparecem as subidas, e logo o corpo sente que a altitude aumenta.

Em apenas um dia, saímos de cerca de 200 metros acima do nível do mar e chegamos a quase cinco mil metros, na passagem pelo ponto mais alto da estrada, próximo à pequena cidade de Marcapata. Essa enorme variação é um convite para o chamado “soroche”, ou “mal da altitude”, que aos pouco acostumados provoca dores de cabeça, tontura, dificuldade na respiração, e até mesmo uma certa “lentidão” no raciocínio.

Mas séculos antes de nós os moradores dos Andes já conheciam uma boa solução para esse mal. Nas cidades e vilarejos do caminho se podem comprar, a baixo preço, saquinhos deste remédio. A folha de coca (que não é droga), colocada na boca para que seu sumo seja ingerido aos poucos, traz quase como milagre um alívio desses sintomas. Não à toa já era considerada planta sagrada pelos Incas.
Além dos nossos corpos, também os equipamentos percebem a diferença da altitude e do frio que vai aumentando. Máquinas fotográficas, filmadoras e até mesmo o veículo pode manifestar algum “desagrado” com o novo clima. Também os produtos embalados como cremes, desodorantes e perfumes sentem a pressão, e podem chegar a vazar. Mas isso não chega a ser razão para preocupação, e sim para estar atento aos efeitos.


Nas curvas do caminho
O melhor programa no passeio é admirar as paisagens. As imagens vistas a cada curva parecem pintura à mão, feitas com todo capricho. Rebanhos de ovelhas e lhamas lembram imagens de filmes. E os picos nevados, tão próximos, fazem parecer que estamos, talvez, noutro continente.

Mas quando as montanhas se aproximam, aí está uma boa razão para ficar em estado de alerta. Misturadas à exuberância dos Andes, as curvas da estrada viram parte da beleza das paisagens, e, por outro lado, representam também o perigo maior da viagem, exigindo uma velocidade reduzida e muita atenção do condutor.

A estrada, no seu trecho peruano, está quase concluída, e é de uma qualidade incomparável mesmo às melhores rodovias brasileiras. Uma espessa e consistente camada de asfalto, boa proteção na beira das montanhas e adequada sinalização trazem mais segurança aos viajantes que por ali passam.

Alguns trechos ainda estão em obras, e os trabalhos correm dia e noite quase sem parar. Mesmo quando o sol se põe, gigantes holofotes iluminam os locais para que os trabalhadores possam continuar seu serviço. E há sempre o risco de se deparar com uma paralisação no caminho, quando alguns trechos são interditados, de dia, até mesmo durante horas. Então é preciso reajustar os planos de horários, e paciência para esperar.

Não havendo nenhum imprevisto, a viagem de Puerto Maldonado a Cuzco, sem pressa e com paradas para contemplar as paisagens, dura de dez a doze horas. Saindo cedo da manhã, é possível chegar em tempo de apreciar o deslumbrante pôr-do-sol por entre as montanhas. E afinal, entrar em Cuzco e ver suas luzes e seu encanto renova as energias para seguir desfrutando de tantas outras maravilhas do Peru.


E meu carro chega lá?
Muita gente ainda acha que só carro grande e com tração é capaz de enfrentar o desafio de subir os Andes. Engano. E digo por experiência: chegamos tranquilamente a Cuzco em um carro de passeio, motor 1.6. Na estrada, mesmo nos desvios e nos trechos que ainda não estão prontos, já não há motivos para temer.
Preocupação com o veículo deve ser para a entrada no país. Uma série de papéis é exigida na fronteira, como documento do veículo, carteira internacional de motorista do condutor, autorização autenticada do proprietário para que o condutor entre no país com seu veículo - no caso de não ir em carro próprio - e, claro, o passaporte ou outro documento apresentado na entrada do país. 





quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Índia Quéchua é ministra na Bolívia

Durante a II Feira Panamazônia de Economia Solidária realizada em Rio Branco (AC) no período de 19 a 24 de outubro, e que contou com a participação de oito paises latino-americanos e 300 expositores, a ministra boliviana Antônia Medrano chamou atenção por sua simpatia e engajamento na política de economia solidária. Na ocasião, a jornalista Onides Bonaccorsi Queiroz a entrevistou para o jornalzinho da Prefeitura, Meu Lugar, escrevendo o belo texto abaixo:

Meu doutorado é a vida

*Onides Bonaccorsi Queiroz

Ao chegar ao Seminário Latinoamericano de Economia Solidária, evento integrante da Feira Panamazônia, tratei de perguntar sobre a ministra boliviana ali presente e minha informante, da coordenação do evento, foi muito clara:
– Está na lá na frente do auditório, vestindo uma blusa branca com flores coloridas. É uma pessoa bem agradável.
Dirigi-me ao espaço, alcancei a primeira fila e foi fácil localizá-la: era clara e trajava um vestido simples e charmoso, com o toque artesanal de bordados coloridos, que me pareceu perfeito para a ocasião, dada a tônica do evento e adequado à função que exerce, estritamente relacionada com a economia informal. “Mirna se enganou.” – pensei. “A roupa dela é bege. Mas tem florzinhas mesmo.” Dirigi-me, então, a essa mulher e perguntei:
– A senhora é Antonia Medrano?
– Não. É esta – e apontou para o seu lado direito.
Quase caí de costas com o susto: a ministra era uma índia quechua, com traje típico, de chapéu e tudo! Por essa eu não esperava.
Ai, que gafe! Em fração de segundos, tentei argumentar, comigo mesma, que o que causara o engano foram as tais florzinhas. Mas o olhar da mulher para mim, que assistiu a toda a cena impassível, era tão digno e transparente, que eu desisti de mentir. E admiti internamente: sem querer, exerci o preconceito. “Uma mulher do povo não pode ser ministra”, era a crença gravada na minha mente.
Então aceitei a minha falha. E reagi. Pedi licença para entrevistá-la, consentiu. Pareceu-me mesmo que já estava acostumada com esse tipo de confusão, o que confirmei mais tarde, com pelo menos duas pessoas que caíram na mesma cilada que eu. Atendeu-me com atenção e gentileza. Quando começou a falar, com muita firmeza e propriedade, compreendi que ela tinha tanta consciência de sua identidade, que um ato de  discriminação qualquer não afetava sua segurança. Senti-me, de certa forma, perdoada.
E fiquei ainda mais curiosa de conhecer sua história. Contou-me que nasceu no campo, na localidade de Duraznos, e ali viveu, como lavradora, até os 11 anos de idade. Depois foi para Potosí, trabalhar como empregada doméstica. Casou-se aos 21, quando aprendeu a fazer artesanato têxtil. Foi então que começou a se envolver com movimentos sociais, sobretudo com mulheres e geração de renda. “Sempre quis aprender e ensinar”, diz ela. Tarefa que não fluía com tanta naturalidade, pois eram os anos setenta, de “gobierno muy duro”, relata. Mas foi dessa forma exposta a injustiças sociais gritantes que forjou seu caráter de batalhadora incansável pelos direitos do povo.
Pouco mais tarde, o marido a abandonou com três filhos pequenos, o que tornou sua tarefa ainda mais árdua. Ainda assim fundou, em 1989, a Associação Artesanal Boliviana Senhor de Maio, de economia solidária.
Criou os filhos, formou-os; Juan Carlos é engenheiro agrônomo, Benjamín é técnico superior em eletricidade e Miguel Ángel, dentista. Tem quatro netos: “un varón y tres mujeres”.
Em 2007, elegeu-se vereadora por La Paz. Angariou ainda mais visibilidade e em janeiro deste ano foi empossada Ministra do Desenvolvimento Produtivo e Economia Plural da Bolívia pelo presidente Evo Morales.
Sabe que alcançou o elevado cargo devido ao valor supremo da sua experiência: “o meu doutorado é a vida”. Trabalha muito. Marca reuniões com os líderes dos movimentos sociais às 5 da manhã, o único horário livre que tem. Mostra-se profundamente tocada com o problema da fome, e no seu discurso comove os presentes.
Quando fala de sua infância, vê-se o que a impele a ser tão verdadeira e forte. Pequena, chegava a passar dois ou três dias sem comer e conta que seu estômago doía de fome. Diz, também, que quando era doméstica, davam-lhe “qualquer coisa para comer”. As experiências terríveis, como não poderia deixar de ser, marcaram-na profundamente. Por isso entende que o mais fundamental dos direitos sociais é o de comer.
De minha parte, declaro que aprendi, ou pelo menos comecei a aprender a minha lição, que, a bem da verdade, é a lição de todos os seres humanos. E tem implicações diretas sobre a economia. Já passa da hora de cada um se responsabilizar, pessoalmente, em abandonar os velhos modelos centralizadores e autoritários, o orgulho, a cobiça, o individualismo. Está na hora de saltar para a instância coletiva. Para a cooperação e compartilhamento, atitudes que ainda podem salvar o planeta, a que Antonia chama tão carinhosamente de “Madre Tierra”. Está na hora da economia solidária.

* A jornalista Onides Bonaccorsi Queiroz nasceu no Paraná, mas vive em Rio Branco, Acre, desde 2010. Escreve semanalmente no jornalzinho Meu Lugar, da Prefeitura e assina o blog verbodeligacao.wordpress.com onde expressa forte sabor de literatura.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Amazônia precisa de cientistas


Ao abrir, na manhã de segunda-feira (18) em Rio Branco, Acre, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o cientista Ennio Candotti, presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) criticou e ironizou o Ministério de Ciência e Tecnologia, o CNPq e outros órgãos responsáveis pelo desenvolvimento científico e tecnológico da Amazônia. Ele disse que “ não haverá paz nem sustentabilidade enquanto não se questionar os modos atuais de intervenção na natureza”.

Ao responder à pergunta da platéia - constituída, principalmente, de estudantes de níveis médio e universitário, - sobre o que fazer se os órgãos de ciência continuam com olhar torto para a Amazônia, Candotti, que é biólogo e atualmente comanda experiência de vanguarda no Museu da Amazônia (MUSA), de Manaus, respondeu com ironia: “ Talvez tenhamos que pressionar com tanques de guerra”!

O cientista declarou ser imprescindível que planejadores e pesquisadores aprendam a conciliar o conhecimento científico com o conhecimento dos que vivem na floresta; do contrário, os programas de desenvolvimento regional com o rótulo da sustentabilidade se limitarão a retirar da região, de forma sempre predadora, apenas o que já é conhecido dos mercados.

Ennio Candotti recomendou aos jovens que sejam curiosos e não aceitem qualquer proposta de desenvolvimento para a Amazônia. Ilustrou sua preocupação informando que em Coari, no Estado Amazonas, a Petrobrás explora petróleo, mas a 10 quilômetros de lá tem uma aldeia indígena que vive na extrema miséria. “ A ciência - enfatizou, - não fará sentido se não ajudar acabar com a miséria humana”.

Os futuros cientistas, segundo Ennio Candotti, deverão aprender a conversar com as formigas e as onças se quiserem entender de verdade a Amazônia. As formigas, explicou, não têm celular nem GPS, mas se comunicam em rede e se juntam com incrível rapidez para carregar migalhas de pão deixadas sobre uma mesa. Esta é uma ciência que os que vivem na floresta parecem mais próximos de entender, embora enfrentando discriminação e ceticismo dos acadêmicos.

A índia Taiza, de 12 anos, do grupo indígena a Saterê Awé, sofreu constrangimento numa escola amazonense de não-índios por declarar numa redação que gostaria de ser “ farinheira” . Os professores e alunos riram e debocharam dela que, entretanto, tinha argumento forte: queria aprender a fazer farinha para não deixar que os membros de sua tribo viessem a passar fome. “ Saber fazer” , inclusive farinha é muito importante, disse o cientista, e ser “ farinheira” de profissão também.

A riqueza gerada na Amazônia pode ser enorme e socialmente justa, desde que a região não seja explorada como depósito de coisas conhecidas dos mercados. Que não tenha que vender preferencialmente petróleo, madeira (mesmo certificada) ou Carbono (porque está na moda). “ Não é possível que uma floresta que tem uma diversificada e rica microbiologia não tenha produtos mais interessantes a oferecer” – disse Candotti, exemplificando: “ Só o veneno de uma aranha vale mais que todo as árvores existentes em 1 hectare da floresta” . Os óleos e as informações que estão la no meio da floresta valem milhões de dólares.

Entretanto, a regiâo precisa contar com pesquisa científica e com tecnologia. O ideal, segundo Candotti, é que 300 a 400 mil cientistas pudessem estar pesquisando cada quilômetro quadrado da região, na atualidade. “ E as instituições de pesquisa, bem como os órgãos de planejamento não podem continuar subestimando o conhecimento dos que vivem na floresta”.