O projeto "Resistir é preciso..." tem um canal de vídeos (youtube) com trechos de entrevistas dadas por jornalistas que fizeram parte da imprensa alternativa brasileira entre 1964 e 1979 (este vídeo, por exemplo, mostra um resumo de meu relato sobre o Varadouro). O projeto é uma iniciativa do Instituto Vladimir Herzog e tem como equipe executiva a Clarice Herzog, Ricardo Carvalho, Vladimir Sancchetta e José Luiz Del Roio. Para saber assistir a outros vídeos clique aqui e para saber mais desta importante iniciativa, aqui.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Samaúma
*Elson Martins
Enorme, ela caiu do céu numa
tarde quente de verão amazônico imersa numa nuvem de algodão. Eu a vi pousar no
meio de um lago cercado de floresta densa. Deslumbrado, acompanhei sua decida
suave e então a coloquei na palma da mão, plantando-a, cuidadosamente, num vaso
com estrume.
Eu morava na Chácara do Ipê, condomínio
afastado do centro de Rio Branco, numa casa com quintal amplo e piscina, que
vendi (1991) a um amigo. Da piscina, observei o floco branco caindo do céu
azul.
A cena era comum nos seringais: identifiquei
a sementinha no meio do floco e a retirei para plantar. Depois, voltei ao banho
e ao trabalho. Três meses depois, minha mulher me chamou atenção: “A semente
nasceu!”.
A pequena samaúma estava com 30
centímetros de altura, mas já com ares de rainha. Escolhi um lugar no quintal,
longe da casa, transplantando a muda para a terra. E a pequena árvore cresceu.
Ao vender a casa fiz exigência: “Vamos
colocar no contrato que é proibido derrubar a samaúma”. A tal clausula nunca
existiu de verdade, mas o novo proprietário passou a cuidar da ceiba
pentandra (como os cientistas denominam a espécie) com zelo e carinho.
A árvore cresceu imponente e bela,
destacando-se dos velhos ipês que cercam a residência. Tanto que algumas mentes
temerosas começaram a assustar o novo proprietário: “Derruba, ela vai acabar
com o teu muro... A raiz não resiste a uma tempestade”!
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| Imagem de uma Samaúma. Foto de Fernando Júnior |
Pode ser, e não vou desejar um mal desse
ao amigo. Mas acho que ele pode deixá-la chegar à fase adulta, como um
monumento que mostrará, orgulhoso, aos convidados e às crianças. Tem tempo para
isso, o que um bom técnico poderá atestar instruindo sobre como preservá-la sem
riscos.
Sei que a samaúma atinge 60 metros de
altura, possui um tronco com diâmetro de três metros e meio e uma copa de 22
metros. Suas raízes não penetram o solo a fundo, mas tecem uma malha à cata de
húmus com alguns tentáculos de mais de 500 metros, que servem também de
alicerce.
Possuindo fibras delicadas, dos
galhos às raízes, chamadas sapupemas, de onde se extrai uma água cristalina boa
para beber, a samaúma poderia ser uma árvore sagrada da Amazônia. Ela cresce
nas margens dos rios, junto aos lagos ou no coração da mata densa, servindo de
bússola para os povos da floresta.
Na minha infância, sempre tive olhos para
essa árvore que voa. Ficava abismado com a semente preta e minúscula (também
comestível) à semelhança de um amendoim torradinho. A semente paira sobre a
floresta e os rios na sua nave tenra, sabe-se lá quanto tempo. Como se a mãe
natureza mandasse espalhar suas rainhas pelas florestas do mundo, plantando-as
nos locais mais inacessíveis ao homem.
Os índios Kaxinauá (Huni Kui) afirmam que a samaúma
tem espírito, ou que o espírito vive dentro dela. Apenas os pajés têm o direito
de apreciá-la de perto. Os não-índios costumam descansar no seu dorso e
imaginar seu voo, certamente, à procura de um lugar fértil na terra e na
consciência das pessoas!
P.S. Desengavetei o texto após ter assistido a reportagem (do post anterior) com o Arquilau, amigo que "herdou" a tarefa de preservar a samaúma, e que ao longo dos anos vem transformando espaços de sua casa num museu a céu aberto da história acreana.
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Patrimônio Imaterial
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Mapinguari
* Elson Martins
A figura
horripilante do Mapinguari está no imaginário dos povos da floresta. Vira e
mexe a gente ouve falar de alguém que em algum ponto remoto da Amazônia se
deparou com o bicho. Sua fama chegou até o Japão interessando a Television Broadcasting
Sistem (TBS) que mandou uma equipe filmá-lo nas matas do Acre. É claro que não
conseguiu: 10 técnicos transportando 40 volumes com uma tonelada de material de
filmagem passaram uma semana (em agosto de 1996) procurando o gigante lendário
sem ver nem o rastro do animal.
O biólogo
norte-americano David Oren, pesquisador do museu paraense Emílio Goëldi, em
cujos estudos a TV japonesa se baseou, andou bem perto de dar uma explicação
científica dos relatos de seringueiros e índios. Eu o entrevistei em 1996 em
Macapá, no Amapá, e ele disse estar convencido de que o Mapinguari é uma
preguiça terrestre que viveu há 10 mil anos em várias regiões do planeta e que
ainda pode ser encontrada em lugares isolados e impenetráveis da Amazônia.
Já o poeta
Amâncio Leite, de Cruzeiro do Sul, em 1930 publicou um poema mostrando o
estrupício em que se meteu o seringueiro João Tomé por conta do estrambótico
animal. A entrevista completa com o biólogo eu publiquei no jornal “Folha do
Amapá”, e em 2003 fiz um resumo dela para a revista “outraspalavras”, editada
pela Fundação Cultural Elias Mansour, do Acre. Para a revista eu juntei parte
do poema Mapinguari, do ex-seringueiro e poeta acreano Amâncio Leite, que viveu
no começo do século passado em Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá. Esta é a
versão que decidi incluir no livro:
“As pessoas ficam embriagadas”
Os depoimentos
colhidos por David Oren, de seringueiros e índios que já viram ou pensam ter
visto o Mapinguari, são quase idênticos na descrição do bicho: “Eles o descrevem
como um animal que deixa rastros redondos, é cabeludo, fede muito e quem já o
viu uma vez não quer ver de novo”, disse Oren acrescentando: “Muitas pessoas
falaram para mim que deram de cara com o diabo. Quando ele fica de pé,
cambaleando, torna-se assustador. Uma coisa é você andar no mato e, de repente,
a Virgem Maria aparece para você. Outra é o diabo em carne e osso aparecer. As
pessoas ficam completamente perturbadas”.
Segundo o
pesquisador, uma explicação lendária para o Mapinguari é que ele seria um
índio, um pajé que descobriu o segredo da imortalidade, mas o preço que pagou
por isso foi se transformar num animal horrível e fedorento. Cerca de 100
pessoas disseram para Oren ter tido contato ou pelo menos ter ouvido o grito do
Mapinguari. Outras 60 são testemunhas que viram o animal. Algumas afirmam tê-lo
matado, mas não conseguiram chegar perto porque ficaram embriagadas,
desnorteadas e intoxicadas com o fedor.
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| Figura do Mapinguari no Parque Chico Mendes, em Rio Branco, no Acre. |
Um
seringalista chegou a oferecer uma recompensa para quem matasse o bicho, e um
seringueiro entrevistado por Oren afirma que o matou, mas não conseguiu chegar
perto para tirar uma amostra de cabelos e unhas para levar para o dono do
seringal. Ele tirou a camisa e a envolveu no pescoço, tapando o nariz, mesmo
assim ficou embriagado. A sorte dele é que estava acompanhado de um amigo que
havia corrido assim que o bicho apareceu. O amigo serviu de guia para abandonar
o local depois.
Onde pode ser encontrado
David Oren
afirma ter relatos de quase toda Amazônia, sempre com uma coisa em comum: o
Mapinguari aparece nos lugares mais longínquos, aonde quase ninguém vai. As
histórias são a de um seringueiro abrindo novo caminho (varadouro) mata adentro
por uma área onde ninguém andou antes. “Em todas as tribos indígenas que eu
conheço, os índios têm muito medo desse animal. Mesmo os Caiapós, que são mais
brabos, têm um tipo de zoneamento dentro da reserva deles. Onde o animal
aparece, eles não vão. É uma reserva para esse bicho, que consideram perigoso,
e não querem encontrar”, disse o biólogo.
Existem
evidências da presença do Mapinguari no Acre e no Amapá. Neste estado, que faz
limites com o Estado do Pará e a Guiana Francesa, o animal poderia ser
encontrado no alto Jarí. A lenda é recorrente entre os castanheiros do rio
Iratapuru, afluente do Jarí, que conhecem um relato semelhante ao dos
seringueiros do Acre. Três caçadores da região teriam sido contratados há
algumas décadas para matar o estranho bicho que vivia assustando madeireiros e
castanheiros. Eles prepararam um mutá (local de espera numa árvore) na mata,
onde dormiram três noites. Dois caçadores desistiram e o terceiro viveu a
terrível experiência na quarta noite. O animal aproximou-se com seu grito
apavorante na escuridão da mata, até aparecer no foco da lanterna do caçador.
Este disparou a arma num vulto cinzento, monstruoso, e não lembra de mais nada
até o dia seguinte, quando acordou do desmaio. Viu sangue e mato quebrado no
local e os mesmos rastros redondos. Tomado de pavor, procurou o caminho de
volta para nunca mais andar por aquela região.
“Nossa ignorância é mais abrangente...”
David Oren
está convencido de que o Mapinguari é uma preguiça terrestre: “Hoje em dia,
explica, a gente só conhece as preguiças que vivem em árvores, que são de médio
porte e pesam no máximo 5 quilos. Mas até aproximadamente 10 mil anos atrás
tinham 8 espécies de preguiça, aqui na Amazônia, que andavam somente no chão.
Uma dessas espécies era maior que um elefante”.
Segundo o
biólogo, existem fósseis da preguiça gigante no Museu Nacional do Rio de
Janeiro. Na Universidade do Acre, o professor Alceu Ranzi reuniu outros
fósseis, e na Universidade de Minas Gerais, o pesquisador Cartelli, com mais de
25 anos de experiência, possui acervo maior ainda. A preguiça terrestre é da
família do Tamanduá-bandeira, que fica de dois pés para se defender. “Esse
animal (a preguiça terrestre) quando fica de dois pés, cria uma relação entre a
cabeça, os braços e as pernas que se assemelha a do ser humano”, argumenta
Oren.
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| David Oren na selva amazônica: busca ao Mapinguari. |
Mas o problema
para a pesquisa, esclarece o biólogo, é que muitas pessoas que tiveram contato
com o bicho imaginam ter visto o diabo e não querem falar. Tem também o fato de
grande parte da população não acreditar nos relatos e as pessoas não querem ser
ridicularizadas. E mais: de tão terrível, as pessoas não gostam de lembrar a
experiência.
David Oren
esclarece que a ciência trabalha com o mundo físico e com o que pode ser
comprovado cientificamente, entretanto, ele se questiona se esse mundo material
que pesquisa é o único mundo que existe: “Tem várias coisas que não podem ser
explicadas pela minha ciência”, declarou.
“Nosso conhecimento sobre a Amazônia é uma coisa que fica muito clara
para qualquer cientista que anda por aqui. Eu gosto de repetir que nossa
ignorância é muito mais abrangente que nosso conhecimento. Estou tentando
aumentar um pouco os nossos conhecimentos para a sociedade como um todo
refletir sobre a nossa ignorância”, disse Oren.
Mapinguary**
Certo seringueiro, um dia
Chegou correndo da estrada
Na qual, há tempos não ia,
Não trouxe leite que desse
Para melar a bacia!
Chegou cedo, muito cedo;
Antes da hora marcada,
Seu companheiro ainda andava
Lá pela volta da estrada.
Fez assim, só porque dera
Uma carreira danada!
O triste vinha afrontado,
Verde-amarelo e sem fala!
Saltando dentro de casa
Deitou-se em meio da sala.
Seu rifle de doze tiros
Não trazia uma só bala!
Que teria acontecido
Com aquele pobre rapaz!
Teria ele esbarrado
Com o velho satanás?
Talvez, depois saberemos
Quando chegar Zé Thomaz.
Zé Thomaz -- o companheiro
-- Chegou, depois de uma hora.
Quando o viu, gritou de longe:
“Que foi “seringueiro espora?!”
Teria você “encontrado”
Mapinguari ou caipora?
Encontrei mapinguari:
(Respondeu-lhe João Tomé)
Me “atrepei” numa “pupunha”
“Com as alpargartas no pé...”
“Então me conte “direito”
como esse danado é!”
“Ele é maior que um boi
Daqueles do rio da Prata...
Chega “estremecia” a mata...
Fez-me “atrepá” na “pupunha”
Calçando as alpargatas!
“Mas rapaz...será “possível”
Que não deste “ao menos” um
tiro?...”
“Ora, eu não dei...dei só doze!
Mas, de que mais me admiro
É “que ele” fez tanta conta
Que não mudou nem de giro!”
“Mas onde foi que encontraste
Tamanha “fera” de fama?...”
“Foi no “cabeço” da volta
Junto à madeira da “cama”
Cá mais atrás, eu vi, “fresco”
O rasto dele na lama...”
“Esse bicho é cabeludo
E todo cheio de escama?”
“Eu lá pude “reparar”
“Pra esse “filho de mulher-dama?”
Que além de ser muito feio
É todo cheio de trama!...
“E o resto dele, como é?
Se parece com o de burro?”
“Parece, mas é maior!
E se tu lhe visse o “esturro!...
Eu penso que aquele figa
Mata as “onça” só de murro.”
“Qué vê, “vamo” quinta-feira
Que é dia que ninguém corta...
Hoje é segunda e é das “arma”
(Santo pra quem tem mãe morta)
Tu vai só vê o “esfolado”
Na baixa da “ponte-torta”...
Eu tava “cuiendo” o leite
Da madeira do “cabeço”
Quando vi um grito longo
“Como” outro não conheço!
Me deu um tremor nas perna
Que quase a terra eu não desço...
Mas, afinal desci sempre
Me assustando de Cupim!
“Rifle com bala na agulha
Mão no cabo do “ispadim”.
Quando eu cheguei debaixo
Ele gritou mesmo assim
Desta vez foi “redobrado”
Gargalejando no fim!
Eu armei o “pau-furado”
Me encostei na “seringueira”
Quando o monstro “pretejou”
Eu pensei que era um bandeira...
Baixei a bala pra cima...
Mas qual, José. Foi “besteira”!
Enquanto o cão coça o olho
Dei dez tiros no danado...
Mas ele, nem mode coisa!
Nem ficou “arrepiado”
Continuou avançando
No meu rumo, me provando
Que tinha o “corpo-fechado”.
“Aí dei-lhe mais dois tiros.
Pronto! O rifle virou pau...
Meus cabelos espencaram
As pernas virou mingau...
Meti a mão na poltrona,
Nem uma bala, sinha dona,
Danou-se seu “Nicolau”
“Aí, eu vi “que morria...”
- A coisa tava amarela! –
Na “madeira” eu não subia
Pois é de sete tigelas
Chorei de ser seringueiro...
“Cacei”os dois “companheiros”
Já tavam no “pé-da-goela!”
Me pus de trás da “madeira”
Me deitei rés com o chão.
“Me peguei” com São Francisco
De todo o meu coração...
{Mas, o lá do Canindé!)
Nisto, o bicho pois-se em pé”
Olha lá o estirão!...”
Tanto é alto “como” é grosso
O renegado “Mapim”
Eu me pegava com os santos
Não da “fé” ele de mim!
Oh! Que aperto...”que agonia...”
Meu...- aquele- não cabia
Nem um talo de capim...!
Ele “arreganhou” as unhas
E me arranhou a “madeira”!
Nisto, eu me ergui e corri
“Pro pé da Tucumanzera;
Nesta, - “calcule você” –
Subi mais depressa que
Largatixa em cajazeira!
Ele só fez “espiar”!
Mas nem ligou-me “importância...”
Se não fosse o São Francisco,
-Adeus “história” adeus dança! –
Quem diabo a coisa contava?...
“Porque nesta hora eu tava”
No “porão”daquela pança!...
** Versos do poeta-seringueiro
acreano
Amâncio Leite, extraídos de
“Os cantares
Seringueiros”, edição de 1930.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Os Martins
Outro dia postei no
blog o texto “Bolero no Colégio”, falando de como aprendi a dançar esse
ritmo dentro de classe, no Colégio Acreano, em meados dos anos cinquenta. Na
história inclui o colega de classe Edilson Martins, que tinha o apelido de
Come-Açúcar. Bem humorado, e muito melhor redator que eu, ele enviou um belo
comentário, cheio de tiradas Machadianas, e não resisti em publicá-lo (segue no
final deste post). Antes, reproduzo uma explicação que dei há alguns anos sobre
a semelhança que carregamos no nome, ou seja, Elson Martins e Edilson Martins:
“Ele afirma ser mais novo que eu, mas, no fim dos anos
cinqüenta, serviu o Tiro de Guerra antes de mim. O jornalista e produtor de TV
Edílson Martins é acreano que nem eu e esteve em Rio Branco em dezembro
(2008) para receber anistia política em sessão solene. Fui encontrá-lo,
tomamos café no hotel e falamos mal do Altino Machado. “É saudável falar mal
dos melhores amigos”! – disse ele que, no dia anterior, tinha tomado café com
o Altino e falado mal de mim. Estou publicando a foto porque ainda tem gente
pensando que somos irmãos, ou a mesma pessoa. Na verdade, existem mais
coincidências: Saímos de Rio Branco para estudar em alguma faculdade em 1958
(ele pro Rio, eu pra Belém), nos tornamos jornalistas, fomos presos pelo regime
militar e recebemos o Prêmio Chico Mendes...Só falta eu também ser anistiado
e ganhar uma pensão”.
![]() |
Eu e Edison (direita) na foto batida pelo garçom do hotel |
Eis o texto-comentário que recebi do Edilson:
Caríssimo Elson:
Comovente o seu texto. Por gentileza do Carlos Celso, nem só
de maledicência ele se alimenta, tive acesso ao resgate de parte de nossas
vidas, e talvez, quem sabe, o melhor que ela nos ofereceu. Sem saudosismos. É
que naquele mundo dominado pela inocência, sem prejuízo dos desejos mais
pecaminosos, mais depravados, vivíamos um mundo muito além da transgressão.
A 2ª Grande Guerra não estava distante, e dela praticamente
não tínhamos memória, o getulismo dominava nossos corações, o povo brasileiro
ainda era um vira-latas, sem grande autoestima, sem Copa do Mundo, e nós todos
mergulhados num mundo mágico, no meio de uma selva isolada, pantagruélica, de
que sequer tínhamos consciência, sem
luta de classes aparente, sonhando e desejando as coxas da Marlise, encantados
com a arte de ensinar da Florentina, entediados com as aulas de latim do
professor Rufino, e sem jamais imaginar
que duas mulheres, de verdade, pudessem brincar de guerrear com suas aranhas.
No centro de tudo isso, o Colégio Acreano, as ruas de Rio
Branco, os lamaçais pós-chuvas, as meninas lindas para os nossos olhos
caipiras, a loucura do Tom Mix, a veadagem inaugural e evolucionária do
Chaguinha, o culto ainda vivo à pessoa do Major Guiomar, o melhor estadista de
todos os que pisaram a terra acreana.
Por arredias, fugazes como um cometa, as calcinhas de nossas
colegas de aula, num cruzar de pernas enlouquecedor, num momento de vacilo e
imprudência que alguns garantiam ser sincero, inocente, se é que existe
inocência na sedução, certamente eram mais cobiçadas que o liberou geral dos
anos posteriores.
Mas este registro acima certamente é ridículo, por careta e
premiar o passado, e passado não enche a barriga de ninguém. Mas que pareciam
ter mais mistério, até porque o mistério é a vitamina do desejo, lá isso
parecia!...
Como eram dóceis os nossos sonhos; o meu nem tanto por
vender chá de burro, mucunzá, à noite, morrendo de vergonha, e sabendo que essa
prática clandestina e criminosa me tirava do páreo de aspirar às alunas mais
assediadas, mais deslumbrantes, mas apesar de tudo vivendo um mundo delirante,
que o seu texto, preciso, preciso como você, nada piegas, resgatou. E o fez de
forma sublime, mermão. (Edilson Martins)
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sábado, 7 de setembro de 2013
Papalagui Apressado
* Elson Martins
Estamos na Semana do Meio Ambiente
(2006) e nós, indivíduos chamados civilizados, convencionamos que a data é
adequada para se falar sobre a natureza, a ecologia, os homens da floresta,
essas coisas...
Por isso escolhi o tema Papalagui,
título de um livrinho de pouco mais de 100 páginas (Editora Marco Zero) que tem
uma dezena de edições em português e, certamente, muito mais em outras línguas.
A versão original foi impressa em alemão.
Os textos colhidos por Erich
Scheurmann são comentários do chefe indígena Tuiávii, dos mares do sul. Scheurmann
esclarece que o autor jamais pensou em fazer tal publicação e que vivia com a
mulher em sua ilha, desinteressado de contatos com a civilização branca. Esta,
num determinado tempo histórico, teria ensinado muita coisa errada a seu povo.
A expressão papalagui é
traduzida como branco ou estrangeiro, mas significa literalmente “aquele que
furou o céu”. Surgiu como explicação ao aparecimento do primeiro missionário
europeu que desembarcou em Samoa, num veleiro cujas velas brancas apareceram no
horizonte como um buraco que se abriu no céu azul.
![]() |
| Livro reúne comentários de chefe indígena |
Quando criança, eu gostava muito de
ver os filmes rodados no arquipélago de Samoa, geralmente protagonizados por
Jeff Chandler, um ator cujos traços fisionômicos se assemelhavam aos dos
habitantes da região. O cenário feito de águas limpas, floresta e pessoas
sorridentes valiam mais que todo o enredo dos filmes série “c” de Hollywood.
Tudo parecia natural e compensador!
A descrição que Tuiávii faz
sobre como vivem os brancos nas grandes, médias ou pequenas cidades,
entretanto, não são nem um pouco honrosas. Ele não entende como nós, os papalagui,
conseguimos viver trancados em blocos de cimento se fechando para as coisas singelas
(e essenciais) da vida, ou correndo como tolos ou malucos atrás do tempo.
O tempo, segundo ele, escapa da gente
“tal qual a cobra na mão molhada quando a seguramos com força demais”. Para sua
tribo o tempo sobra:
Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adiante aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele... Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega. Sabemos que no devido tempo haveremos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas luas nossas passaram.
Neste começo de milênio vemos que o
conceito de eficiência em qualquer atividade pressupõe a correria não
recomendada por Tuávii. No moderno governo da floresta do PT acreano, por
exemplo, os amigos quase nem conversam mais porque precisam cumprir agenda de
atividades, e o tempo parece “curto”. Além disso, quem não se enquadra na
velocidade exigida vai ficando para trás como lerdo, ineficiente, descartável.
Durante a solenidade de abertura da
Semana do Meio Ambiente, realizada na Praça Chico Mendes, em Rio Branco, um
artista com função no governo chegou perto de mim e desabafou: “Estou meio
angustiado porque não consigo trabalhar bem, fora do meu tempo. Eu preciso
sentir o que faço e nunca sei quanto tempo isso leva”. Nessa hora, enquanto o
governador lia a programação da semana, minha cabeça voltou-se para um trecho
do chefe indígena de Samoa:
Devemos livrar o pobre
papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro
sentido do tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o
tempo e lhe ensinar que, do nascer ao por do sol, o homem tem muito mais tempo
do que é capaz de usar.
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Patrimônio Imaterial
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Parto Impossível
* Elson Martins
Na Vila Icoaracy, nas proximidades de Belém, Estado do Pará,
vive um artesão acreano, especialista em entalhe em madeira e na produção de
cerâmica marajoara. Trata-se do José Maria Pinho, nascido no Seringal Nova
Olinda, no alto Rio Iaco. Ele tem 60 anos (2007) ou quase isso, é casado e
possui duas filhas bonitas: uma delas é formada em medicina, a outra é
comissária da companhia aérea Tam.
A história
do Zé Maria poderia começar com um
espanto: “É um milagre que tenha nascido”!
Sua mãe (minha irmã) Aldery viveu
45 anos no alto rio Iaco, no seringal Nova Olinda, e faleceu em Icoaracy com
mais de 80 anos. Na década de quarenta, ela casou em Sena Madureira com Salomão Pinho, um
“arigó” (nordestino que migrava para a Amazônia atraido pela economia da
borracha). Alfaiate de profissão, ele costurou calças e blusões de mescla azul
para seringueiros, mas, a partir de 1950, passou a viver na cidade (Sena
Madureira, depois Rio Branco) vestindo a elite seringalista. Na capital, sua
alfaiataria funcionou no segundo distrito, nas proximidades do histórico Hotel
Madrid, numa época em que o “fato” (terno) de linho branco ou de casimira
Aurora azul impunha-se em todas as solenidades, e até no dia-a-dia das
repartições públicas.
Morando com o casal, durante muito tempo eu fui o “cristo” que saindo do cruzamento da avenida Ceará com a rua Marechal Deodoro, junto ao campo do Rio Branco Futebol Clube, no primeiro distrito da cidade, levava seu almoço até a alfaitaria no segundo distrito. Fazia uma longa caminhada a pé, tendo que atravessar o rio Acre de catraia. Muitas vezes, por conta da travessia, o cunhado recebia a comida fria, porque, para sobrar dinheiro para o picolé e sem que ele soubesse, eu aguardava o Jabuti, uma catraia grande e modorrenta que mantida pelo governo fazia a travessia de graça.
Aldery tinha o útero pequeno, e por isso não devia engravidar. Mas só descobriu o risco na primeira gestação, que terminou por abortar. Como não havia, à época, nem preservativos nem campanhas para limitação de filhos, engravidou uma segunda vez. Aí, a familia providenciou para que fosse atendida onde a medicina oferecia mais recursos. A escolha foi Fortaleza, capital cearense aonde chegou de navio, precisando retirar o feto que estava morto no útero.
“A senhora não vai sobreviver a uma terceira gravidez”, advertiu o médico que a atendeu. Mas, imagina se não ia acontecer de novo! E dessa vez ela foi recomendada a um especialista de Goiânia, que confirmou o risco e a desenganou: morreriam mãe e filho durante o parto.
Aflita, mas conformada, Aldery retornou a Sena Madureira decidida a morrer no meio da família. Subiu o rio Iaco e passou a morar num casebre no topo de um morro no seringal Nova Olinda, a um quilômetro da casa dos pais. Separava-os apenas um descampado com ladeiras e arbustos.
Quando não estava costurando calças de mescla azul para os seringueiros e os parentes, o marido Salomão se enfiava no mato ou montava numa canoa para caçar e pescar. A mulher o aguardava no barracão da família. Ao retornar, ele soprava (apitava) um cartucho seco avisando, ao que Aldery respondia soprando outro cartucho.
Assim, chegou o dia em que Salomão apitou, apitou, sem resposta. Aldery estava sentindo as dores do parto e nossa mãe, Lelé, tinha mandado alguém buscar a parteira Maria Carneiro numa colocação do Centro (nas entranhas da mata onde vivem e trabalham os seringueiros). O comboieiro havia partido na burra chamada Ligeira, com a recomendação para trazê-la na garupa, voando. Enquanto isso, o desespero tomava conta dos irmãos e das comadres, e as crianças foram levadas para longe da casa, para pescar mandi no igarapé ou brincar numa ponta de praia em frente.
Como a parteira demorava chegar, uma outra pessoa pegou o varadouro (caminho aberto na floresta ligando a sede do seringal às colocações dos seringueiros) para ver o que tinha acontecido. Não tardou a descobrir que o primeiro emissário montava a burra e dona Maria Carneiro, coitada, um “tiquim” de gente vinha a pé com lama no joelho. A situação foi corrigida e a burrinha irrompeu na margem, finalmente, com sua carga preciosa.
A essa altura, uma senhora de nome Palmira, amiga da familia, tentava ajudar recorrendo a métodos supostamente utilizados pelos índios para fazer o parto: amarrou uma toalha molhada em volta da barriga da parturiente, pedindo a esta que ficasse de cócoras sobre uma caixa de sabão Zebu, de forma que o bebê pudesse ser despejado no caixote. Palmira acreditava ser útil soltar umas baforadas com cigarro “porronca” em volta da cena insólita.
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| Zé Maria em foto recente (2013), com mais de 60 anos, mora em Coaracy, próximo a Belém (PA). |
Ah, pra quê! Quando a miúda Maria Carneiro viu aquilo foi logo esbravejando: “que diabo de marmota é essa”? Desamarrou a toalha, chutou a caixa de sabão para longe e começou novo procedimento deitando a parturiente na cama, examinando-a com sua sabedoria de parteira. O braço do menino estava de fora; ela o empurrou para dentro, em seguida preparou um chá e banho quente com ervas; rezou baixinho, depois tranquilizou a todos com o informe de quem domina o que faz :
- O menino (seria adivinhação?) vai nascer, mas só daqui a umas seis horas.
Nem mais nem
menos, o Zé Maria nasceu; só que veio ao mundo sem a placenta, ficando roxo e
sem chorar o choro da vida. Pelo menos a mãe estava salva, pensou a família,
enquanto Maria Carneiro, incrivelmente calma, tentava palmadinha, sopro na
boca, pressões no ventre do bebê...Como ultimo recurso, perguntou se existia na
casa algum vinho, mesmo aberto e encostado? Com a resposta positiva, pediu que
esquentassem um pouco numa xícara, pegou uma colherinha com a bebida e enfiou
na garganta da criança que ”esgoelou”, provocando alívio geral. O avô (meu pai)
disparou os três tiros de espingarda apara avisar que o seringal tinha mais um
homem.
Enquanto os tiros ecoavam na floresta, a curiosa Palmira acompanhou, com total encantamento, Maria Carneiro retirar a placenta de dentro do útero da Aldery, uma tarefa complicada mesmo para um especialista em medicina. E a percebeu reconfortada, por ter colocado em prática, com êxito, suas habilidades.
Só então a pequenina parteira saiu do quarto. De forma acanhada, cumprimentou a todos na cozinha e aceitou um café. Depois, discretamente, escolheu um canto para ficar sozinha. E, discretamente, começou a chorar.
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sábado, 24 de agosto de 2013
Bolero no Colégio
*Elson Martins
A revitalização em 2006 do Colégio Acreano, construído há 70
anos, faz um bem enorme a alma dos seus ex-alunos. A minha, por exemplo,
transborda de orgulho porque passei a década de cinquenta dentro da
instituição: fiz o antigo primário no Grupo 7 de Setembro (que funcionava pela
manhã), depois o ginásio e o primeiro ano científico no mesmo prédio. Saí de
lá, em 1958, “desasnado” por mestres como Florentina Esteves, Geraldo Mesquita,
João Coelho, Rufino (aulas de Latim), Miguel Ferrante, José Potyguara, entre
outros. Nunca esqueci a figura do João Bracinho, o mais perene fiscal de sala e
de corredores.
Fui colega de classe ou contemporâneo de gente que faz
sucesso mundo afora. Posso citar alguns nomes próximos como Edílson Martins,
jornalista e escritor que alguns pensam ser meu irmão; Odacyr Soares, também
jornalista, que se enfiou na política tornando-se senador pelo Estado de
Rondônia; o líder estudantil e político Elias Mansour (falecido), um dos mais
brilhantes alunos do colégio; Flora Valladares Coelho, ex-presidente do Banco
da Amazônia e que integra hoje a equipe do governo da floresta; a colunista
social Marlize Braga; o advogado e escritor Joaquim Nogueira, com dois livros
recentes lançados pela Companhia das Letras, em São Paulo.
![]() |
| Instituto Getúlio Vargas, atual Colégio Acreano (Acervo Patrimônio Histórico) |
![]() |
| Colégio Acreano após revitalização (Acervo Secom) |
Não é exagero afirmar
que o CA funcionava como uma universidade. Para ingressar no Ginásio, os alunos
saídos do primário enfrentavam rigoroso exame de admissão. A maioria frequentava
o cursinho preparatório do médico Marinho Monte, que funcionava na Rua Benjamin
Constant, onde hoje está localizada a Secretaria da Fazenda. Os bem-sucedidos
na prova escrita ainda tinham que se submeter a uma sabatina oral de português,
história, química e física.
Mas a seleção
premiava os competentes, fossem pobres ou ricos. Aos eliminados, restava
aguardar o ano seguinte ou tentar duas outras opções de nível secundário: a
Escola Normal Lourenço Filho, que formava professores; e a ETCA (Escola
Comercial) para contabilistas. Não havia ainda universidade. Após o segundo grau,
os alunos pegavam o avião da FAB para o Rio de Janeiro; ou navio tipo gaiola,
até Manaus ou Belém.
Alunos do Colégio Acreano na década de 40 (Acervo Patrimônio Histórico)
A história do CA tem passagens de muito brilho. O colégio
era bom em tudo: nos desfiles de 7 de Setembro, então, mexia com o coração da
cidade de Rio Branco. Lembro que a mãe da jornalista Rose Farias, Maria Celeste
(atualmente professora de Letras na UFAC), foi uma baliza lindíssima e
competente. Morríamos de inveja do Aramis (Sarará) escolhido como seu par nos
desfiles. A escolha era feita pelo técnico de Educação Física Walter Felix, o
Té, rigoroso na disciplina: ele ficava possesso com quem errava o passo ou ria
enquanto marchava.
Uma de suas
“vítimas” foi o Edílson Martins, hoje jornalista, escritor e produtor de vídeos
para a televisão. Nosso simpático Come-Açúcar (seu apelido na época) tinha
traços africanos com cabelos enrolados e lábios grossos, além do quê, era um
poço de emoções. Nos desfiles não se continha ao passar em frente ao palácio do
governo vestindo o uniforme de gala que lembrava o de um almirante. A emoção
era tanta que ele não conseguia juntar os lábios deixando a impressão de riso.
O instrutor Té, que nunca entendeu esse sentimento “almático”, o repreendia aos
berros.
Eu tomei gosto pela leitura e tive
o primeiro contato com o jornalismo no Colégio Acreano. Quando faltava algum
professor, íamos para a biblioteca onde não se podia dar um pio. Li Euclides da
Cunha, Guimarães Rosa e clássicos franceses e russos nesse confinamento
instrutivo. Com o Edílson Martins e o Odacyr Soares, fizemos o jornalzinho
estudantil “O Selecionado” que chegou a publicar reportagens e entrevistas
despertando interesse até fora do meio estudantil.
Às sextas-feiras, as últimas aulas cediam tempo a um show
“lítero-musical” no auditório, onde também eram exibidos filmes bang-bang
antiquérrimos, aos sábados. Cansei de ouvir a Clícia Montenegro recitar “Navio
Negreiro”, do poeta Castro Alves. Ali apareceram também alguns conjuntos
musicais. Lembro de um formado por alunos do 3o ano do curso
científico. O hoje engenheiro Fernando Castro era membro de um desses
conjuntos.
Aos domingos, durante o verão, turmas de alunos e
professoras desciam ou subiam o rio Acre fazendo piqueniques nas praias ou nos
seringais próximos.
Portanto, e apesar de sisudo – com professores que davam
aulas vestindo paletó e gravata, com inspetores plantados em cada sala de aula,
o carimbo de “presente” ou “ausente” na carteirinha valendo pontos para aprovar
ou desaprovar os alunos no final do ano –, o Colégio Acreano sabia incentivar o
lazer e a cultura.
Eu mesmo aprendi a dançar valsa, bolero e samba-canção em
sala de aula, em sessões preparatórias para o baile de formatura do Ginásio.
Entre as professoras de bolero guardo na memória a performance da colega
Marlize Braga (hoje colunista social), com as curvas e o charme dos seus 18
anos.
N.E - O texto acima foi escrito antes do Colégio Acreano completar 80 anos, em 17 de julho de 2013.
N.E - O texto acima foi escrito antes do Colégio Acreano completar 80 anos, em 17 de julho de 2013.
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sábado, 17 de agosto de 2013
Revolta de Pigmeu
* Elson Martins
Nasci em 1939, mas conheci os quadrinhos somente em 1950, creio, quando passei a morar com uma irmã mais velha na capital. Ela me matriculou no Grupo Escolar 7 de Setembro e eu, por minha conta e risco, ingressei na “sociedade secreta” Gabino Besouro (ora, ninguém sabia que o cara tinha sido um escroto histórico!) de forte atuação clandestina nas imediações do Estádio José de Melo, do Rio Branco Futebol Clube. A GB agia ao cair da noite, com seus membros vestindo orgulhosamente uma camiseta com o símbolo do Fantasma (uma caveira), uniforme com o qual partiam para as aventuras planejadas sob uma imensa mangueira existente no cruzamento da Avenida Ceará com a Rua Marechal Deodoro.
As aventuras não passavam de brincadeiras mais ou menos inocentes, circunscritas à formação religiosa e moral do grupo. As mais ousadas, empreendidas em noitadas especiais, não iam além do seqüestro de uma lata de biscoitos do bar do Coriolano, que funcionava onde fica hoje o Shopping Miragina, ou da retirada de cartazes e fotos dos filmes em exibição no Cine Rio Branco – uma tarefa de alto risco, executada de madrugada. O risco era o técnico de projeção Dedé – que dormia num quartinho nos fundos do cinema e tinha o sono leve – acordar com o barulho das taxinhas caindo no piso de madeira da sala de projeção. Tanto os biscoitos quanto os cartazes e fotos iam para uma caverna escavada num baixio do campo do Rio Branco, também vigiado pelo Walter Felix de Souza, o Té, que, no entanto, nunca a descobriu. Fora isso, cometíamos algumas brechadas nas meninas do bairro e, raramente, acirrada guerra de baladeira com outras sociedades secretas.
Não se falava em drogas, estupros ou o que pudesse sinalizar para a violência infanto-juvenil dos dias atuais. Rio Branco era uma cidade que dormia de janelas abertas e tinha como periferia o Papôco, a Capoeira e o Bosque. Os jovens acompanhavam a banda de música da Guarda Territorial desde o quartel até a Praça do Palácio, marchando e batendo palmas. O sexo perpassava pela “sociedade secreta” de forma natural e contida, cabendo apenas alguma esperteza compartilhada.
Em algumas ocasiões, adotávamos a brincadeira do esconderijo com a participação de meninas que permitiam deliciosa iniciação à bolinagem. Apenas os mais graduados da “sociedade” participavam do ávido revezamento entre os que fingiam esconder-se e os que fingiam procurá-los. Quando a iniciação rareava – afinal, não havia tantas garotas liberadas para o esconderijo – a turma recorria ao ingênuo jogo do “tirando bolo” com as menos assanhadas.
Que saudade dos guerreiros da Gabino Bezouro, como os irmãos Pitoco e Sarará, irreverentes e destemidos; e os também irmãos Stélio e Sílvio que brigavam como malucos dando trabalho para apartar. O Sílvio gostava de meter medo na turma dizendo que adorava o satanás. Quando aconteciam tempestades com raios e trovões, o que era comum naqueles tempos, ele corria gritando com os braços abertos para o céu: “Anda, meu satanás, mostra tua força e me fulmina!”.
A debandada era geral.
Outro maluco de pedra era o “Mão”, que ao se irritar, virava o próprio satanás evocado pelo Silvio. Já eu, o Zé Henrique e o Neguinho, vulgo Rock Hudson, formávamos a ala moderada, que se destacava no planejamento das ações da GB. Eu não tinha físico para sair no braço com ninguém. Quando algum outro grupo nos provocava, assumia resignadamente minha vocação de pigmeu.
Pois foi esse sentimento, do pigmeu que investia na paz com o inimigo, que me inspirou este texto. Aquele povo miúdo que conduzia os “buanas” aos tesouros da floresta me enternecia e irritava ao mesmo tempo. A história começava sempre com um avião monomotor em meio a um intenso temporal, rodopiando e caindo no meio do mato. Em seguida, apareciam os nativos que resgatavam os ocupantes do aparelho sinistrado e os levavam para a aldeia oferecendo hospitalidade. Como leitor, eu sabia que o Fantasma logo ia aparecer e salvar o tesouro, mas a indignação se repetia de história em história.
O pior é que, após 40 anos de jornalismo na Amazônia, começo a pensar que tenho repetido à exaustão o gesto dos pigmeus. Só no Acre, passei 16 anos (75 a 91) como repórter de conflitos entre nativos e forâneos, trabalhando para os jornais O Estado de S. Paulo, Folha do Acre, Gazeta do Acre, O Rio Branco, Varadouro e Repiquete, sem falar nos “frilas” para revistas nacionais. Disparava setas envenenadas sem a ajuda do Fantasma, e sem perceber que os “buanas” que buscam o tesouro do Acre não são os mesmos das histórias em quadrinhos; ou que tesouro sagrado cobiçam ainda hoje.
Só agora, sob novas e diferentes ameaças à Amazônia vejo como reluzem os depoimentos, os relatos, as histórias, as imagens que o povo da floresta passa para os invasores da floresta: tudo fácil, tudo grátis, pilhas de papéis, fotografias, fitas gravadas, filmes, emoção e lagrimas. Tesouro recebido com beijinhos no rosto, abraços públicos e falsos que se extinguem nos espaços climatizados e distantes.
E agora que precisamos tanto deles, os heróis dos quadrinhos ficaram para trás no júbilo da infância... E por onde andam os heróis em carne e osso da Gabino Besouro? Cadê o Sarará, o Pitoco, cadê o Rock Hudson?
N.E - O texto acima foi publicado originalmente no número 10 (dezembro de 2000) da extinta revista outraspalavras, publicação que circulou no Acre de outubro de 1999 a dezembro de 2002.
Eu comecei a ler revistas em quadrinhos cometendo
pecado. Assim entendiam as famílias da sossegada cidade de Rio Branco dos anos
cinquenta, de cultura nordestina conservadora e passagem pelo seringal como a
minha. Lembro de ter cumprido penitências pelas coleções de Mandrake, Homem
Borracha, Tarzan e Fantasma que escondia sob o colchão da cama. Um flagra no
colégio podia resultar em suspensão ou outra constrangedora penalidade. Só aos
poucos, a inquisição diminuiu até desaparecer de vez. Quando isso aconteceu -
que pena! - eu já me convertera a outras leituras menos atraentes.
O
Fantasma era dos heróis em quadrinhos o que mais me fascinava, talvez porque
suas histórias rolavam na floresta entre índios pigmeus, uma ficção criada em
cenário parecido com o da realidade que conheci na infância no seringal.
Nasci em 1939, mas conheci os quadrinhos somente em 1950, creio, quando passei a morar com uma irmã mais velha na capital. Ela me matriculou no Grupo Escolar 7 de Setembro e eu, por minha conta e risco, ingressei na “sociedade secreta” Gabino Besouro (ora, ninguém sabia que o cara tinha sido um escroto histórico!) de forte atuação clandestina nas imediações do Estádio José de Melo, do Rio Branco Futebol Clube. A GB agia ao cair da noite, com seus membros vestindo orgulhosamente uma camiseta com o símbolo do Fantasma (uma caveira), uniforme com o qual partiam para as aventuras planejadas sob uma imensa mangueira existente no cruzamento da Avenida Ceará com a Rua Marechal Deodoro.
As aventuras não passavam de brincadeiras mais ou menos inocentes, circunscritas à formação religiosa e moral do grupo. As mais ousadas, empreendidas em noitadas especiais, não iam além do seqüestro de uma lata de biscoitos do bar do Coriolano, que funcionava onde fica hoje o Shopping Miragina, ou da retirada de cartazes e fotos dos filmes em exibição no Cine Rio Branco – uma tarefa de alto risco, executada de madrugada. O risco era o técnico de projeção Dedé – que dormia num quartinho nos fundos do cinema e tinha o sono leve – acordar com o barulho das taxinhas caindo no piso de madeira da sala de projeção. Tanto os biscoitos quanto os cartazes e fotos iam para uma caverna escavada num baixio do campo do Rio Branco, também vigiado pelo Walter Felix de Souza, o Té, que, no entanto, nunca a descobriu. Fora isso, cometíamos algumas brechadas nas meninas do bairro e, raramente, acirrada guerra de baladeira com outras sociedades secretas.
Não se falava em drogas, estupros ou o que pudesse sinalizar para a violência infanto-juvenil dos dias atuais. Rio Branco era uma cidade que dormia de janelas abertas e tinha como periferia o Papôco, a Capoeira e o Bosque. Os jovens acompanhavam a banda de música da Guarda Territorial desde o quartel até a Praça do Palácio, marchando e batendo palmas. O sexo perpassava pela “sociedade secreta” de forma natural e contida, cabendo apenas alguma esperteza compartilhada.
Em algumas ocasiões, adotávamos a brincadeira do esconderijo com a participação de meninas que permitiam deliciosa iniciação à bolinagem. Apenas os mais graduados da “sociedade” participavam do ávido revezamento entre os que fingiam esconder-se e os que fingiam procurá-los. Quando a iniciação rareava – afinal, não havia tantas garotas liberadas para o esconderijo – a turma recorria ao ingênuo jogo do “tirando bolo” com as menos assanhadas.
Que saudade dos guerreiros da Gabino Bezouro, como os irmãos Pitoco e Sarará, irreverentes e destemidos; e os também irmãos Stélio e Sílvio que brigavam como malucos dando trabalho para apartar. O Sílvio gostava de meter medo na turma dizendo que adorava o satanás. Quando aconteciam tempestades com raios e trovões, o que era comum naqueles tempos, ele corria gritando com os braços abertos para o céu: “Anda, meu satanás, mostra tua força e me fulmina!”.
A debandada era geral.
Outro maluco de pedra era o “Mão”, que ao se irritar, virava o próprio satanás evocado pelo Silvio. Já eu, o Zé Henrique e o Neguinho, vulgo Rock Hudson, formávamos a ala moderada, que se destacava no planejamento das ações da GB. Eu não tinha físico para sair no braço com ninguém. Quando algum outro grupo nos provocava, assumia resignadamente minha vocação de pigmeu.
Pois foi esse sentimento, do pigmeu que investia na paz com o inimigo, que me inspirou este texto. Aquele povo miúdo que conduzia os “buanas” aos tesouros da floresta me enternecia e irritava ao mesmo tempo. A história começava sempre com um avião monomotor em meio a um intenso temporal, rodopiando e caindo no meio do mato. Em seguida, apareciam os nativos que resgatavam os ocupantes do aparelho sinistrado e os levavam para a aldeia oferecendo hospitalidade. Como leitor, eu sabia que o Fantasma logo ia aparecer e salvar o tesouro, mas a indignação se repetia de história em história.
O pior é que, após 40 anos de jornalismo na Amazônia, começo a pensar que tenho repetido à exaustão o gesto dos pigmeus. Só no Acre, passei 16 anos (75 a 91) como repórter de conflitos entre nativos e forâneos, trabalhando para os jornais O Estado de S. Paulo, Folha do Acre, Gazeta do Acre, O Rio Branco, Varadouro e Repiquete, sem falar nos “frilas” para revistas nacionais. Disparava setas envenenadas sem a ajuda do Fantasma, e sem perceber que os “buanas” que buscam o tesouro do Acre não são os mesmos das histórias em quadrinhos; ou que tesouro sagrado cobiçam ainda hoje.
Só agora, sob novas e diferentes ameaças à Amazônia vejo como reluzem os depoimentos, os relatos, as histórias, as imagens que o povo da floresta passa para os invasores da floresta: tudo fácil, tudo grátis, pilhas de papéis, fotografias, fitas gravadas, filmes, emoção e lagrimas. Tesouro recebido com beijinhos no rosto, abraços públicos e falsos que se extinguem nos espaços climatizados e distantes.
E agora que precisamos tanto deles, os heróis dos quadrinhos ficaram para trás no júbilo da infância... E por onde andam os heróis em carne e osso da Gabino Besouro? Cadê o Sarará, o Pitoco, cadê o Rock Hudson?
N.E - O texto acima foi publicado originalmente no número 10 (dezembro de 2000) da extinta revista outraspalavras, publicação que circulou no Acre de outubro de 1999 a dezembro de 2002.
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terça-feira, 13 de agosto de 2013
É inevitável o incêndio da biblioteca da floresta?
Ennio Candotti (*)
1. De ribeirinhos e hidroaviões
Os ribeirinhos, que encontramos às margens de rios e igarapés em toda a Amazônia, são parte do problema ou da solução da questão da defesa, da produção de conhecimentos científicos de botânica e zoologia, da conservação ambiental e do desenvolvimento econômico e social da região?
Se a resposta for que eles são parte do problema, deveríamos pensar em removê-los para núcleos urbanos e oferecer a eles oportunidades de trabalho, educação, moradia e cuidados de saúde, direitos da cidadania.
Se a resposta for que eles são parte do problema, deveríamos pensar em removê-los para núcleos urbanos e oferecer a eles oportunidades de trabalho, educação, moradia e cuidados de saúde, direitos da cidadania.
Se a
resposta for que são parte da solução, uma vez que é dever do Estado estar
presente em todo o território nacional, eles são muito importantes para
monitorar o movimento de pessoas e animais e o trânsito das mercadorias pelos rios, apoiar como guias e
conhecedores da floresta a coleta de material para pesquisa (sementes, resinas
e amostras de fauna e flora) e colaborar nas diferentes etapas na construção
dos conhecimentos no campo e nos laboratórios dos centros de ciência e
tecnologia.
Podem
também colaborar com os trabalhos de monitoramento do clima, da fauna, da flora
e do nível e velocidade das águas. Adequadamente treinados, poderiam
participar, quando necessário, de ações de defesa do território.
Candotti: "No dia em que demonstrarmos o valor da ‘biblioteca’ ninguém mais desmatará"
O
Vietnam foi um exemplo de como os ribeirinhos dos rios e igarapés das florestas
tropicais ofereceram decisivo apoio ao exército vietnamita que derrotou em 1972
o exército de ocupação dos Estados Unidos.
Neste
caso deveríamos valorizar sua presença ao longo dos rios, reconhecer seus
direitos de posse das terras tradicionalmente ocupadas[1],
e observar com maior atenção as soluções técnicas e de organização social que
eles encontraram para trabalhar, se alimentar, plantar, pescar, construir
casas, fabricar barcos e canoas, cuidar mesmo que precariamente da saúde e da
educação dos filhos, além de oferecer apoio
a viajantes e embarcações que transitam pelos rios.
Deveríamos
pensar e contribuir para implementar uma política específica de apoio a estas
comunidades. Os instrumentos e diretrizes usuais de assistência e serviços
públicos não têm funcionado. Como aliás
não têm funcionado também para as vilas e aglomerados urbanos do interior (um Sedex enviado de S.Gabriel da Cachoeira
para Manaus leva de 8 a 15 dias para chegar, são raros nas cidades dos interior
os postos de gasolina certificados, os foros de justiça, etc.).
O
meio mais eficiente para prover uma assistência regular para estas comunidades
é através de hidroaviões. Contam-se porém em pouco mais de uma dezena os
hidroaviões que operam na região. Seria interessante conhecer as razões que impedem seu amplo uso.
Solução simples, adotada por exemplo em condições ambientais mais severas do
que as Amazônicas para assistência às comunidades das áreas dos grandes lagos do Canadá.
Enquanto
aguardam a adoção de um sistema de transporte e comunicação rápido, centenas de
milhares de ribeirinhos podem contar apenas com a visita irregular dos barcos
de assistência e comércio, raros e lentos no percurso das tortuosas hidrovias.
2. O incêndio da ‘biblioteca’
Nos últimos anos, na Amazônia, tem se investido nos Institutos de C&T, renovaram-se os equipamentos dos laboratórios e acelerou-se a formação de recursos humanos. Falta, no entanto, definir um foco, uma prioridade na qual concentrar as forças científicas, de industria e defesa para alcançar resultados em áreas estratégicas e criar competências do mais elevado nível, segundo padrões nacionais e internacionais, definindo tempos e modos para atingi-los.
A floresta é uma imensa ‘biblioteca’ em que estão registrados segredos e tesouros do conhecimento que aguardam ser decifrados. A conservação desta biblioteca, impedir que ela seja incendiada, depende da demonstração pública e reconhecida por todos, que o hectare de floresta com sua vida e segredos, com as árvores em pé, tem valor de mercado maior do que o hectare de terra desmatada, cultivada com soja, cana ou utilizada para o pasto de duas cabeças de gado.
Isso
é evidente para quem teve a oportunidade de aprender a ler e interpretar alguns
dos códigos inscritos nos livros desta ‘biblioteca’, mas obviamente não é
evidente para quem desmata e ocupa a terra com plantios e gado.
No
dia em que demonstrarmos o valor científico e
de mercado da ‘biblioteca’ ninguém mais desmatará. A repressão aos
desmatadores e o controle armado da integridade da floresta, por sua extensão e
condições operacionais não conseguem protegê-la, o valor de mercado da terra
desmatada (e os créditos bancários associados) comanda, é ele que devemos
combater.
Surge então a pergunta: por onde começar, qual
seria o foco, quais são os segredos da ‘biblioteca’ que mais nos interessam e poderiam
interessar ao mercado? Creio que os mais importantes deles estão nas plantas e
no micromundo de microrganismos, fungos, toxinas, enzimas, que degradam folhas
e árvores caídas e os transformam nos nutrientes que
alimentam a exuberância da floresta. Uma floresta que em sua maior
extensão ocupa solos pobres.
Que
microrganismos são esses? Quais são as toxinas,
os fungos e as resinas que têm sólido valor de mercado e que poderíamos
estudar e extrair da floresta, isolar e sintetizar nos laboratórios, sem
comprometer os ciclos de sua reprodução?
Preocupa-nos
saber que após inúmeras tentativas de implantar na região institutos de
microbiologia e biotecnologia os resultados permanecem modestos (a Embrapa
possui na Amazônia apenas seis dos sessenta centros instalados no país e o CBA,
o Centro de Biotecnologia da Amazônia, passados dez anos de sua criação e
despendidos recursos para o equipamento de seus laboratórios ainda não funciona
regularmente por falta de um estatuto jurídico de consenso entre Brasilia (Min
Ind e Comercio) e Manaus (Suframa).
Curiosamente
as atenções das organizações nacionais e internacionais de conservação da
natureza (como p.e. o WWF e o Fundo
Amazônia) voltam-se para programas preocupados em evitar o desmatamento (e as
emissões de CO2) mas não priorizam a formação de pesquisadores,
microbiologistas, botânicos, entomólogos e o fomento de programas de pesquisa e
interpretação do micro e macro mundo registrado na grande ‘biblioteca’.
Surge
nesse ponto a questão de como defender a soberania nacional e proteger a
propriedade do patrimônio genético registrados nos ‘livros’ da floresta.
Estudando,
interpretando o que está escrito nos ‘livros’ que encontramos na biblioteca,
antes que outros o façam. “Conhecer ainda que tarde” o “cognoscere quae sera
tamen” deveria estar escrito nas bandeiras da batalha amazônica.
Não
há outro caminho para combater a biopirataria no micro ou no macromundo. O
proibir, fiscalizar, controlar a coleta e o transporte de amostras do material
genético, não defende os nossos interesses e nem oferece proteção eficaz ao nosso patrimônio.
Uma vez que é difícil distinguir nessas amostras as que tem de fato algum
valor, de mercado ou científico e as que não se sabe se tem algum valor, por
não terem sido ainda estudadas.
Trata-se de um tesouro codificado através de ‘bites’ de informação, que podem circular a ‘cavalo’ das ondas eletromagnéticas, nas redes internautas ou ser transportados, ‘in natura’, fisicamente em amostras microscópicas. Um universo de informações inscritas em amostras de dimensões micrométricas (10-6 m) dificilmente detectáveis por humanos atentos ou mesmo por instrumentos especializados. Lembro a título de exemplo que há mais de 100 mil microrganismos em uma gota de nossas salivas, todos eles portadores de informações significativas em seus códigos genéticos!
Para estudar o micromundo da floresta são necessários laboratórios equipados e técnicos de alta especialização, além de financiamentos significativos. Sabemos que o retorno, que pode ocorrer em um caso em dez dos compostos estudados, compensa as despesas realizadas para estudar os dez.
Trata-se de um tesouro codificado através de ‘bites’ de informação, que podem circular a ‘cavalo’ das ondas eletromagnéticas, nas redes internautas ou ser transportados, ‘in natura’, fisicamente em amostras microscópicas. Um universo de informações inscritas em amostras de dimensões micrométricas (10-6 m) dificilmente detectáveis por humanos atentos ou mesmo por instrumentos especializados. Lembro a título de exemplo que há mais de 100 mil microrganismos em uma gota de nossas salivas, todos eles portadores de informações significativas em seus códigos genéticos!
Para estudar o micromundo da floresta são necessários laboratórios equipados e técnicos de alta especialização, além de financiamentos significativos. Sabemos que o retorno, que pode ocorrer em um caso em dez dos compostos estudados, compensa as despesas realizadas para estudar os dez.
O
extrativismo voluntário, desarmado de instrumentos, sem a assistência de
laboratórios equipados não é sustentável social e economicamente, pode prover
sustento para as famílias que a ele se dedicam, mas dificilmente pode
retirá-las da pobreza.
3. As margens irregulares da floresta inundada
Há obviamente outros tesouros na floresta, outros alvos que clamam por nossa atenção pesquisa e entendimento. Entre eles menciono:
1. as férteis terras pretas de índio que ao que tudo indica têm origem antrópica (10% das terras de floresta);
2. o imenso aquífero que se estende no subsolo profundo das florestas e rios do Atlântico aos Andes;
3. as jazidas de minerais;
4. os ecossistemas da foz de água doce e salgada. Antes porém de examinar os pontos acima quero mencionar uma questão que revela o tratamento dado pelo Governo Federal e pelo Congresso Nacional à floresta amazônica na elaboração do Código Florestal.
Em
um dos primeiros Artigos (o de número três) do Código é introduzido um novo
conceito, o de ‘margem média’ dos rios em substituição às margens altas (a
média dos níveis máximos das últimas cinco cheias) que tradicionalmente (desde
1823) definiam os limites do território de propriedade (e proteção) da União às
margens dos rios.
Estima-se
que a área ocupada na Amazônia pelas águas em época de cheia é de 500 mil km2.
[2]
Com a nova definição das margens ‘médias’, a área de propriedade da União
recuará para aproximadamente 350 mil km2. Isto é a União cedeu (pelo novo Código) aos
proprietários de terras às margens dos rios cerca de 150 mil km2, 15
milhões de hectares periodicamente inundados!
O
que significa também que deixará aos novos proprietários a responsabilidade
pela proteção e monitoramento dessas extensas áreas ( e seus ‘livros’ ainda
indecifrados) submersos em boa parte do
ano. Hoje a ocupação urbana e/ou o plantio nestas áreas depende de autorizações
e avaliações realizadas caso a caso pela União através da SPU.
Se a
nova definição, na maioria dos rios encaixados, planaltinos recua de poucas
dezenas de metros as margens tradicionais e os limites das responsabilidades e
propriedades da União, no caso amazônico este recuo propicia a alienação da
propriedade da União de centenas de milhares de quilômetros quadrados.
Estima-se em 300 000 km2 a diferença entre a área delimitada pela
margem alta na época da cheia e pela margem baixa na época da sêca dos rios
amazônicos. Esta grande extensão se deve em grande parte ao fato que a
diferença entre o nível mais alto e o nível mais baixo das águas dos rios é também
muito grande, variando anualmente de 12 a 15 metros!
No Código não há sequer uma menção à diferença entre as florestas alagadas e as florestas ‘secas’ planaltinas. É bom lembrar que a extensão das áreas das florestas alagadas amazônicas, mais as terras também alagadas do Pantanal, é da ordem de grandeza das demais florestas de todo o país.
Do ponto de vista dos ecossistemas e do patrimônio genético é nessa área de floresta alagada que se concentram os segredos mais importantes da ‘biblioteca’ amazônica, uma vez que se trata de ecossistemas particulares, que por serem periodicamente inundados obrigou os seres que lá vivem, plantas e animais, fungos e microrganismos a encontrar soluções engenhosas e bem sucedidas de adaptação e sobrevivência (vale notar por exemplo que a floresta quando submersa suspende a sua respiração não absorvendo mais CO2).
No Código não há sequer uma menção à diferença entre as florestas alagadas e as florestas ‘secas’ planaltinas. É bom lembrar que a extensão das áreas das florestas alagadas amazônicas, mais as terras também alagadas do Pantanal, é da ordem de grandeza das demais florestas de todo o país.
Do ponto de vista dos ecossistemas e do patrimônio genético é nessa área de floresta alagada que se concentram os segredos mais importantes da ‘biblioteca’ amazônica, uma vez que se trata de ecossistemas particulares, que por serem periodicamente inundados obrigou os seres que lá vivem, plantas e animais, fungos e microrganismos a encontrar soluções engenhosas e bem sucedidas de adaptação e sobrevivência (vale notar por exemplo que a floresta quando submersa suspende a sua respiração não absorvendo mais CO2).
A
questão das margens dos rios no Código Florestal revela que há uma
significativa distância entre a prática política e o discurso emocionado
dedicados pelas diferentes instâncias de Governo e do Congresso Nacional à
Amazônia.
Vamos
examinar agora os quatro pontos mencionados acima: terras pretas, aquíferos,
minérios e os ecossistemas da foz onde a água doce dos rios encontra a salgada
do oceano.
1) As terras pretas de índio são terras muito férteis que se encontram espalhadas pelo território amazônico (encontram-se em cerca de 10% do território) e que, segundo as mais recentes pesquisas têm origem antrópica. O seu estudo procura revelar a sua composição e permitir assim a sua reprodução em laboratório ou em natura, o que propiciaria a possibilidade de produzir terras férteis para a agricultura.
Por outro lado os estudos ao revelarem a origem antrópica desta terra , uma vez que é encontrada em locais ocupados também por sítios arqueológicos, demonstram que a ocupação indígena da floresta foi numerosa e intensa em extensas áreas de floresta, o que sugere que a floresta, pelo menos em parte, foi manejada pelos povos que a habitaram, e a habitam, desde tempos muito antigos. [3]
1) As terras pretas de índio são terras muito férteis que se encontram espalhadas pelo território amazônico (encontram-se em cerca de 10% do território) e que, segundo as mais recentes pesquisas têm origem antrópica. O seu estudo procura revelar a sua composição e permitir assim a sua reprodução em laboratório ou em natura, o que propiciaria a possibilidade de produzir terras férteis para a agricultura.
Por outro lado os estudos ao revelarem a origem antrópica desta terra , uma vez que é encontrada em locais ocupados também por sítios arqueológicos, demonstram que a ocupação indígena da floresta foi numerosa e intensa em extensas áreas de floresta, o que sugere que a floresta, pelo menos em parte, foi manejada pelos povos que a habitaram, e a habitam, desde tempos muito antigos. [3]
As
terras pretas, junto com os fragmentos
cerâmicos e líticos dos sítios arqueológicos nelas encontrados, revelam uma
história de mais de 9000 anos. Culturas de povos antigos adaptados aos
ambientes florestinos, que encontraram técnicas próprias e eficientes de caça e
pesca, navegação, agricultura e sistemas de convivência social.
Fatos
estes que justificam plenamente as políticas que buscam proteger os territórios
e valorizar as culturas indígenas ainda presentes na região, testemunhas e
registros vivos de sistemas sociais bem sucedidos na convivência com a floresta
e defesa frente aos agressivos patógenos, ainda hoje não controlados (ex.
malária).
2)
Com o segundo ponto quero chamar atenção para outra dimensão submersa da
Amazônia: a existência de um extenso
aquífero de Manaus aos Andes, estimado em 2,5 milhões de km2 com uma
profundidade de mil a três mil metros
(foram destinados para seu mapeamento cerca de 5 milhões de Reais no fim
de 2010). Esse aquífero se soma ao do
Alter do Chão (que se estende do Atlântico ate Manaus), [4]
melhor conhecido e mapeado, e influencia a carga e escoamento dos rios
amazônicos, interferindo portanto nos
equilíbrios ambientais de superfície.
Observo
também que se trata de vasto campo de pesquisa hidrológica e geofísica, com
influência no estudo do papel climático da bacia amazônica, além de ser
potencial fonte de água potável para uma população (e uma indústria) que vive às margens de rios cuja água não é
potável.
A
dinâmica das águas e seus movimentos verticais (entre o subsolo e a superfície)
e horizontais deveria ser melhor explorada. São raros ou inexistentes os
centros de pesquisa voltados ao seus estudo. Não há, por exemplo, um instituto
de hidráulica e recursos hídricos da Amazônia ocidental, equipado com tanques
de provas – e equipes competentes - para estudo da dinâmica do movimento das
águas e sedimentos, a exemplo do tanque oceânico instalado na COPPE da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ.
3)
Quanto às ricas jazidas minerais, frequentemente mencionadas, pode se afirmar
que não estão completamente localizadas
e nem dimensionadas. Sabemos também que não contribuíram para elevar os baixos
índices de IDH ou propiciaram o desenvolvimento econômico, científico e
tecnológico da região onde foram ou estão sendo exploradas ( ver por exemplo a
mineração de bauxita em Trombetas no município de Oriximiná). O que é agravado pelo fato que a exploração
mineral, em muitos casos, tem sido responsável por significativos e irrecuperáveis danos ambientais, como no caso dos garimpos de ouro
em Serra Pelada e a exploração da bauxita pela INCOME no Amapá.
Os
grandes projetos de mineração não fixaram na região, em escala proporcional ao
volume dos lucros auferidos, uma significativa competência técnica e gerencial
dos sistemas de mineração.
Nos
investimentos programados pelo PAC para a próxima década em mineração, portos,
hidroelétricas não há notícias da previsão de que uma porcentagem dos recursos
será destinada a promover a consolidação da competência local de gerenciamento,
manutenção das instalações de engenharia de projetos e de consultoria para a
preparação de novos empreendimentos.
A
criação e fixação na região de competências locais na área de engenharia teria
influência na atração e fixação de quadros em outras áreas estratégicas para o
desenvolvimento da Amazônia uma vez que dificilmente se consegue atrair e
formar quadros de elevada especialização em áreas restritas.
O
processo de fixação e desenvolvimento de competência local requer a formação na
região e a atração de profissionais de múltiplas áreas, por vezes
complementares e principalmente em áreas básicas ( física, matemática, química,
geologia ) que permitem a reprodução da competência instalada (o que
dificilmente ocorre nas áreas tipicamente aplicadas como as engenharias,
importantes para a execução, mas lentas na reprodução).
4) O
ecossistema foz do Amazonas é único no planeta pelo volume de água doce que
adentra por cerca de 300 km no oceano
Atlântico e pelo volume de sedimentos transportados pelas águas e que se
depositam na foz. Inúmeras espécies de
plantas e animais encontraram nos ecossistemas da foz formas de sobrevivência
em ambientes salgados e doces. O estudo
dos fenômenos biológicos e podológicos poderá nos levar a desvendar importantes
segredos da natureza (um dos grandes desafios da agricultura é descobrir
plantas alimentares que possam ser irrigadas com água salgada).
Não
há no entanto um só Instituto da Foz, nacional,
dedicado a estudar a fauna e flora e os ambientes que ocorrem nesse
canto inexplorado da ‘biblioteca’. Inexplorado em termos, uma vez que a
prospecção do subsolo tem sido uma exceção, revelando que ele é rico em petróleo. Observe-se também que a França
está construindo na Guyana Francesa um instituto de pesquisas biológicas,
hídricas e podológicas e destina a ele importantes quantias de recursos
financeiros e humanos.
4. O PAC não conhece o PAS
Um
exemplo das ambiguidades dos interesses que cercam os investimentos do PAC em
infraestrutura na Amazônia foi descrito em recente seminário promovido pelo
BNDES[5],
contabilizado-o como investimento do PAC ( Programa de Aceleração do
Crescimento) na Amazônia: o linhão Santo Antônio (Ro) – Araraquara (SP).
Cabe
a pergunta: quem se beneficiará com este
investimento? É a rede (nacional) de abastecimento elétrico que se
ramifica a partir de Araraquara (ou
proximidades). São Paulo, ou o Estado de Rondônia? O IDH de Rondônia melhorará
com o linhão?
Basta
verificar se melhorou (em taxas acima do crescimento médio do país) nos últimos
dez anos o IDH da região próxima a hidroelétrica de Tucuruí para obter a
resposta.
Considerando
que o consumo de energia elétrica recolhe impostos nos estados onde ele ocorre,
pouca riqueza restará para a região detentora da fonte energética (água e seu
desnível) onde está instalada a ‘usina’ hidroelétrica.
Pode-se
também perguntar se as compensações ambientais pagas aos Estados de origem da
eletricidade respondem por uma fração do valor da energia fornecida à rede de
consumo, correspondente aos royalties do
barril de petróleo (para equivalentes de energia produzida) atualmente pagos
aos estados produtores.
O
próprio Governo deu resposta às ambiguidades das diretrizes que orientam o
PAC ao preparar, na mesma época em que
ele foi elaborado, o PAS o Plano Amazônia Sustentável. No PAS se traçam
diretrizes voltadas a promover um desenvolvimento da Amazônia, atento às três
dimensões da sustentabilidade dos empreendimentos: social, econômica e
ambiental, além da formação e fixação de recursos humanos especializados e a
criação de uma infraestrutura que permita ao Estado Nacional estar presente nos
povoados e pequenas cidades do interior.
Não
há notícias quanto à implementação das diretrizes e programas propostos pelo
PAS, mas têm sido confirmados os investimentos de cerca de 200 bilhões de reais
nos próximos dez anos em obras do PAC ( principalmente hidroeletricas, portos,
mineração e linhões).
Questiona-se
a efetiva contribuição destas obras para elevar o IDH da região e de seus povoados do interior ou
mesmo para fomentar a pesquisa cientifica que permita decifrar os códigos
inscritos nos ‘livros’ da floresta ou promover a fixação no interior de
empresas e recursos humanos especializados.
Cabe
aqui lembrar uma história que retrata a dificuldade de resolver o conflito
entre o poder central, onde se decidem os projetos, e a periferia amazônica.
Menciono uma célebre página do livro de Samuel
Benchimol, “Amazônia um pouco Antes e além depois “ [6] em que escreve: ”... Como experiência pioneira a partir dos
anos 60 os Bancos Oficiais dos Estados e suas Comissões de Desenvolvimento
representam uma nova tendência de regionalizar e descentralizar o processo de
desenvolvimento em resposta aos reclamos das unidades federadas que passaram a
ter a oportunidade de construir o seu próprio núcleo de decisão política,
econômica e financeira. É pena...que o
nosso projeto (de incentivos fiscais para
capitalizar bancos dos Estados) apresentados na 1ª reunião dos investidores
e empresários Brasileiros .... em 1966 ...foi torpedeado pelo segundo escalão
hierárquico....essa derrota atrasou a Amazônia Interior pelo menos vinte
anos...
A partir dessa denúncia os
empresários usaram em seus projetos políticos o lema ‘não é importante quem decide, mas onde se decide’ e defenderam a ideia de criação de órgãos de
financiamento regionais com poder de decisão local .
Dos reclamos do grupo de pressão
formado por empresários e professores da Universidade surgiu a SUDAM, a Zona
Franca e outros instrumentos de desenvolvimento da região, mas a questão do
quem e onde se decide ainda não encontrou equilibrada resposta: o Fundo
Amazônia tem sede no BNDES, no Rio de
Janeiro!
Por outro lado, passados quarenta
anos, o que se produz na Zona Franca
ainda não responde a projetos de concepção e desenho local. Não há uma
só industria que explore os produtos naturais da floresta. Os executivos das
empresas instaladas em Manaus respondem às matrizes no exterior ou em S.Paulo.
Nada se decide aqui.
Pergunta-se o que fariam as empresas
instaladas em Manaus se os incentivos da ZF fossem suspensos? Onde estão sendo
projetados os portos que serão construídos na Amazônia? Portos capazes de
resistir às severas condições ambientais causados pela variação de 15 metros no
nível das águas!
E a manutenção dos linhões das usinas
hidroelétricas será efetuada e planejada por escritórios de engenharia
instalados em Manaus, em Porto Velho ou Belém?
Quem orienta e realiza a construção dos barcos que navegam pela maior
rede de rios do planeta e hoje transportam centenas de milhares de
amazonenses? Os hidroaviões, tão
necessários, quem os desenharia e fabricaria?
Os reclamos de 1966 ainda são atuais,
desde então novos desafios e oportunidades abriram-se para a Amazônia. Passados
cinquenta anos as decisões sobre o que importa para a Amazônia ainda são
tomadas longe daqui.
É um desafio promover um efetivo
desenvolvimento social associado aos empreendimentos que exploram as riquezas
minerais e energéticas. Acreditava-se naquela época que elevar os índices de
IDH seria consequência natural dos investimentos produtivos. A previsão se
revelou equivocada. A indefinição das relações entre centro e periferia
comprometeram a equilibrada distribuição dos benefícios.
Por outro lado um novo portal de
oportunidades abriu-se com o papel climático e geopolítico da Amazônia no
planeta e sobretudo com as novas técnicas de exploração das riquezas da
biodiversidade, que na época ainda não se revelavam com todo seu potencial.
A riqueza do ‘patrimônio’ genético da
floresta amazônica multiplicou-se, mas a capacidade de explorá-la no interesse
da ciência e para benefício do povo que aqui vive não se multiplicou com a
mesma velocidade. Acelerar o crescimento é o desafio desta década. Recuperar o
PAS e temperar o PAC acrescentando - lhe
um A, de Amazônia são os desafios
políticos que encontramos na mesa das negociações do papel da Amazônia no ainda
inconcluso projeto de construção da Nação. Negociações locais e nacionais.
(*) Ennio Candotti é diretor-presidente do Museu da Amazônia, em Manaus; e vice-diretor nacional do CNPq.
[1] Alfredo Wagner Breno de Almeida, Terras Tradicionalmente ocupadas,
Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, Manaus, PGSCA UFAM, 2008
[2]
J.M
Melack, J.L.Hess Remote sensing of the
distribution and extent of wetlands in
the Amazonian basin, in
W.Junk et alii, Amazonian
floodplains, Ecological Studies,
Springer 2010
[3] Eduardo Goes Neves, O Lugar dos Lugares: Escala e Intensidade
dasMmodificações Paisagisticas na Amazônia Central pre Colonial em Comparaçào
com a Amazonia Contemporânea. Ciencia e
Ambiente 31 jul dez 2005, UFSM.
[4] Paulo Henrique Ferreira Galvão e outros, Hidrogeologia e geometria
dos aquíferos das formações cretáceas Içá e Solimões, Bacia Paleozoica
do Solimões, na região de Urucu, Amazonas, Revista Brasileira de Geociências 42(Suppl 1): 142-153, dezembro de
2012
[5] Ennio Candotti, É sustentável o desenvolvimento da Amazônia?,
em Um Olhar Territorial para o
Desenvolvimento: reflexões sobre a atuação do BNDES na Região Norte do Brasil,
Ed. Helena Lastres e outros, BNDES, Rio de Janeiro 2013
[6] pg. 562, Calderaro,
Manaus 1977
N.E - Este texto foi escrito para o encontro do VII ENABED ( Estudos da Defesa), realizado de 4 a 7 de agosto, em Belém. A apresentação foi feita em mesa redonda sobre Ciência&Tecnologia e a defesa da Amazônia.
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