sábado, 25 de agosto de 2012

                                          Pedro Vicente em sua casa em Natal
 
O sociólogo, professor universitário e escritor Pedro Vicente Costa Sobrinho, pernambucano que  reside em Natal (RN), nos anos 70/80 foi delegado do Sesc e professor da Universidade Federal do Acre. Na época ele descobriu e projetou, nacional e internacionalmente, o extraordinário pintor primitivo Hélio Melo, seringueiro que trabalhava como vigia num órgão público, mas logo perambulou por alguns dos principais museus do mundo mostrando seu quadros. Também músico e escritor, Hélio se envolveu até sua morte, em 2001, com as lutas acreanas contra o desmatamento da Amazônia. Pedro conta a seguir como foi essa descoberta, com detalhes sobre a genialidade e singeleza desse artista acreano.
                 
                         Hélio Melo e o Rio Acre
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 Hélio Melo produzia sua tinta com a seiva de espécies vegetais

para expressar a luz delicada do interior da floresta acreana

 PEDRO VICENTE COSTA SOBRINHO
 
1978. Eu havia chegado a Rio Branco há poucos meses para assumir a Gerência de Bem-Estar da Delegacia do SESC no Acre e, certo dia,  fui convidado por Francisco Gregório, coordenador do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) da Secretaria de Estadual de Educação, para assistir a uma mostra coletiva de artistas plásticos acreanos na Biblioteca Pública Estadual, cujos trabalhos provinham de um curso de pintura promovido pelo DAC. O curador da mostra era o pintor Genésio Fernandes, mineiro que prestava assessoria ao DAC. O grosso do material exposto não me entusiasmou, mas os quadros do pintor Hélio Melo me chamaram a atenção,  artista que, segundo Genésio, pela primeira vez participava de uma exposição. Desde aí, eu comecei a me relacionar com Hélio, e passei a acompanhar, à distância, a evolução do seu trabalho artístico. A mostra coletiva que, então,  havia visto foi levada a Brasília e, segundo me disse meses depois o próprio Hélio, foram as suas obras que mais despertaram a atenção do público  e  todos os seus desenhos que estavam nela expostos foram vendidos, até por serem eles muito baratos.

Em 1979, meu amigo Jaime Ariston tomou a decisão de voltar para o Departamento Nacional do SESC no Rio de Janeiro e indicou-me para substituí-lo no cargo de delegado executivo no Acre. Quando eu assumi a Delegacia do SESC no Acre, ele já estava de cara nova, pois dispunha  de uma sede, ainda alugada,  porém  em condições bem diferentes das  instalações anteriores. Por iniciativa de Jaime, salvo engano, o prédio, que pertencia a Prelazia do Acre Purus, foi ampliado com a construção de galpão de madeira para instalação de sala de jogos e lazer; também ganhou duas salas para aulas, área para recreação infantil, e um teatrinho de arena, estes em alvenaria. Nesse novo prédio, conseguimos instalar e ampliar a biblioteca Dr. Meireles e desenvolver melhor todas as atividades, sobretudo os programas relacionados à cultura: cinema, teatro, artes plásticas e música.

Durante quase um ano que se seguiu à mostra em que eu vi pela primeira vez os trabalhos de Hélio, eu não me lembro de ter voltado a me encontrar com ele. Depois que assumi a direção do SESC, vez por outra, eu  cruzava com ele nas ruas de Rio Branco. Numa dessas ocasiões, eu cobrei insistentemente dele uma visita ao SESC, e ele me respondeu que sempre passava lá para conversar com Gregório, que à época era o gerente, e depois com seu substituto, o pintor Genésio Fernandes; a mim nunca visitou porque eu sempre estava muito ocupado, era o que a ele dizia a secretária. Num certo dia, eu casualmente o encontrei nos corredores do SESC  e o levei até minha sala.  Durante a conversa, eu perguntei como é que ia seu trabalho, se estava vendendo bem seus quadros, se tinha feito outras exposições etc. Hélio, então, respondeu-me que depois da exposição de Brasília nada havia mudado em sua vida. Vendia, vez por outra, um desenho, tudo muito barato. Ele fizera parte de uma nova mostra coletiva na Universidade, mas sem maior repercussão. Sugeri então que ele  expusesse  seu trabalho numa mostra individual, pois ele era, a meu ver, o melhor artista da cidade, e me comprometi a organizar essa exposição no SESC. Perguntei-lhe também em que trabalhava e onde era o seu emprego atual. Hélio me disse que era vigia noturno na Companhia de Desenvolvimento do Acre (CODISACRE), no Distrito Industrial de Rio Branco,  o que parecia inconveniente: além do local ser longe,  o trabalho era noturno, e tomava seu tempo quase todo, impedindo-lhe de produzir regularmente seus desenhos. Assumi, então, o compromisso de conversar com Antonio José, que era meu colega na Universidade e diretor da CODISACRE, a quem pediria que colocasse Hélio à disposição do SESC, mesmo sabendo  que na burocracia pública não havia legalidade para esse tipo de demanda. Dias depois, eu encontrei Antonio José e ele me pediu que fosse a sua procura na CODISACRE, para que ele certamente pudesse verificar o que  poderia ser feito. Fui ao seu encontro na data aprazada e já munido de oficio que tratava do assunto. Antonio José foi sensível e muito correto, e disse-me que não era possível pelos tramites do serviço público atender meu pedido, porque o SESC era uma instituição privada. Entretanto, diante da justificativa que constava do ofício, ele ia autorizar ao serviço de pessoal da empresa a liberação extraoficial sem qualquer ônus para o SESC, ficando condicionada, todavia, a validade do seu ato até enquanto ele estivesse na direção da CODISACRE. Fiquei muito feliz com a atitude de Antonio José, pois o seu ato iria contribuir para que Hélio Melo tivesse mais tempo para dedicar ao seu labor criativo, e portanto pudesse revelar todo o seu potencial artístico.Poucos dias depois do meu encontro com Antonio José, Hélio veio ao meu gabinete para se  apresentar, e perguntou onde iria ficar e o seu horário de trabalho. Respondi-lhe que fosse pra casa para fazer sua arte, e o quanto antes preparasse material suficiente para que o SESC organizasse uma mostra individual com seus quadros. Eu não sabia a data e o lugar em que faria a prometida exposição individual, mas, a meu ver, Rio Branco, a princípio, certamente estaria descartada para sediar essa mostra. Mas, não tendo alternativa, fizemos a exposição no saguão de entrada da Delegacia do SESC, no começo do ano de 1980. Pelo que me lembro, dos quadros expostos poucos foram negociados, afora os que foram adquiridos pelo próprio SESC, para constituir seu acervo de pintura acreana.  Eu reservei e adquiri alguns, certamente motivado pela qualidade de  sua obra e também  para prestigiar o artista Hélio Melo em sua primeira mostra individual.

Colônia: Casario na floresta
Ainda em 1980, numa reunião de diretores do SESC, no Rio, eu encontrei Ubiratan, diretor regional do SESC do estado do Rio de Janeiro, e falei sobre a  pintura de Hélio, de sua técnica original de usar nanquim misturado com  tintas naturais confeccionadas com sumo de vegetais sobre papel cartão,  e quanto a possibilidade de uma mostra individual dele, com o patrocínio do  SESC-RJ. Ubiratan tinha uma rara sensibilidade artística, e diante do meu entusiasmo quanto a qualidade da pintura de Hélio, se propôs a estudar com carinho o assunto. Para isso eu tinha que colocar no papel  e tornar oficial o pedido. Logo ele sugeriu que eu solicitasse o espaço para exposições do Centro de Atividades do SESC Tijuca, que estava no momento em obras de pequeno porte, e, portanto, a mostra de Hélio seria de reabertura da sala de exposições. Logo que voltei ao Acre, eu fiz o tal expediente com o arrazoado justificador e despachei via malote para o Regional do Rio de Janeiro.

Esperei por mais de um mês a manifestação favorável ou contrária de Ubiratan ao meu pleito e, já não contendo a minha ansiedade, telefonei pra ele cobrando a resposta. Ele me pediu calma e que aguardasse mais um pouco, que iria procurar o aludido ofício e daria uma resposta (que certamente seria favorável), pois logo depois de nossa conversa, ele pessoalmente já havia reservado o sugerido espaço. No mesmo dia, por telefone, me respondeu: “Pedro, manda outro expediente reiterando o pedido, pois quando você me remeteu o documento, eu havia saído de férias, e o Horácio, meu substituto, recebeu e despachou para o setor indevido; a coisa, meu caro, virou processo e ninguém mais localiza”. Orientou-me então que enviasse outra vez o tal expediente em envelope fechado e endereçado como carta pessoal; daí por diante a responsabilidade era dele, e eu podia ficar tranquilo e dizer ao Hélio para disponibilizar as obras que iriam fazer parte da mostra.

Localizei o endereço de Hélio, e eu mesmo fui até sua casa lhe dar a notícia e pedi pra que de imediato começasse a trabalhar com vistas à exposição, pois quando Ubiratan definisse a data, a gente, para evitar transtornos, já devia estar com tudo pronto.  Hélio era muito pobre, então eu pedi que ele passasse no SESC à tarde com a relação do material necessário para confecção dos quadros que fariam parte da mostra. Coisa de menos valia: nanquim e papel cartão, o grosso da tinta usada ele mesmo preparava com a mistura de seivas de origem vegetal. Pedi-lhe que caprichasse na confecção dos quadros, pois era essa uma rara oportunidade de mostrar sua obra individualmente para o Brasil. Assim foi feito, eu precisamente não me lembro do tempo gasto, mas sei que foi muito rápido; enquanto ele punha mãos à obra, eu acertava junto ao Departamento Nacional do SESC providências e detalhes para realização da mostra, tais como recepção dos quadros e entrega ao regional do Rio de Janeiro, hospedagem para Hélio, e quem seria destacado para acompanhá-lo  durante todo percurso: início, meio e final da exposição. O amigo Juvenal Fortes Filho, coordenador das Delegacias junto ao Diretor do Departamento Nacional, foi peça fundamental na organização da mostra, pois lhe deu todo o apoio possível para que ela fosse realizada e tivesse sucesso.

Cantanheira: quebrando ouriços
Na data definida por Ubiratan, creio que dezembro de 1980, tudo estava pronto. Conseguimos passagem e estadia pro Hélio ficar no Rio na abertura da mostra e mais alguns dias para acompanhar o seu desenrolar. O público foi muito pequeno, afora alguns convidados, quase tão somente o pessoal do DN-SESC, que já conhecia o trabalho de Hélio em Rio Branco quando de suas visitas técnicas à delegacia do Acre. Ao voltar conversei muito com Hélio, que estava encantado com a cidade do Rio e com o apoio do pessoal do DN, mas que, de início, ficou muito pessimista quanto aos resultados da mostra: “Nos dias que eu fiquei lá quase que não apareceu ninguém, somente comerciários que olhavam e não davam a menor importância. ao que estavam vendo.” Como estratégia comercial eu já enviara as obras para mostra com parte dos quadros  reservados: quatro deles comprados pro meu domínio pessoal, e outros dois adquiridos pro acervo  da Delegacia; também pedi aos meus amigos do DN que  fizessem o mesmo,  pois esse fato aparentava certo sucesso da exposição. E sejamos sinceros, as obras que eu havia reservado pro meu acervo pessoal e para o acervo da Delegacia eram certamente a parte mais representativa da mostra, mesmo levando em consideração que tudo era de muito boa qualidade.

Seringueira: fazendo o corte normal para extração do látex
É bom realçar que Hélio era, sobretudo, uma pessoa dotada de rara inteligência e de notável talento, mas certamente também um homem de muita sorte, e o acaso mais uma vez o favoreceu na loteria da vida. No decurso de sua exposição, ocorreu a visita ao SESC Tijuca do famoso e consagrado internacionalmente escultor Sérgio Camargo; ele fora até ao SESC Tijuca acompanhado de Ubiratan, diretor regional, para definir o local em que seria posto um seu novo trabalho.  Ao passar pela sala de exposições temporárias, Sérgio Camargo deparou-se com os quadros de Hélio, e logo se sentiu atraído pelo que viu, perguntando então ao Ubiratan: “Quem, e de onde é esse artista?”.  Ubiratan, que sabia de tudo, informou-lhe que era bem capaz do pintor aparecer dentro de instantes por ali, pois se encontrava no Rio. Sérgio encontrou-se e conversou demoradamente com Hélio, e não conteve o seu entusiasmo e  interesse em adquirir todo o acervo exposto. Das 26 obras   expostas, nove já estavam reservadas, restavam 17 quadros, que ele, imediatamente comprou a todos. Ainda se propôs a organizar uma nova exposição de Hélio na Galeria Sérgio Milliet, da FUNARTE, e iria convidar seus amigos que faziam crítica de artes plásticas em jornais e revistas para visitar a mostra. Sérgio era muito bem relacionado e tinha como amigos Frederico Morais, Walmir Ayala e outros críticos de renome com colunas em O Globo, Jornal do Brasil, revista Veja etc. Dias depois, ele escreveu pro Hélio, e se propôs a fazer a apresentação do catálogo da nova mostra.


Seringal: regatão
 A sorte estava lançada, e me fez lembrar uma lição de William Shakespeare, que me foi passada por Rainer Patriota: “A oportunidade no começo é cabeluda, mas com o passar do tempo fica careca e difícil de ser agarrada”. Cabia-lhe agora, portanto, que começasse de imediato a produzir novos quadros tendo em vista a já anunciada mostra no Rio de Janeiro, na prestigiada Galeria Sergio Milliet, e, para isso,  podia contar novamente com o apoio da Delegacia do SESC no Acre e certamente do Departamento Nacional.

Demorou pouco, pois Sérgio Camargo usou de seu prestígio junto à direção da FUNARTE e pôs na pauta a exposição do pintor acreano para fins de agosto de 1981. Além disso, fez o texto de apresentação do catálogo. A mostra foi um sucesso de público e de mídia, com notícias veiculadas em O Globo, Jornal do Brasil, revista Veja, e outros jornais do Rio de Janeiro. A guisa de ilustração,  transcrevo alguns trechos de artigos que foram veiculados na imprensa do Rio.  Frederico Morais (O Globo): No entanto, o que mais me emociona em seus desenhos é a maneira extraordinária como ‘descreve’ a luz da selva, o amanhecer, o entardecer./Para isso, Hélio cria suas próprias tintas com resinas vegetais, com elas, vai filtrando a luz entre as arvores, abrindo clareiras na noite, transmitindo uma sensação quase física dessa luz maravilhosa. Uma luz que está entranhada nos seus olhos, no seu coração e que ele passa com a maior naturalidade para o papel. Por isso, não fala dessa luz, ele a põe no papel. E pronto. Casimiro Xavier de Mendonça (VEJA): Outros, no entanto, têm uma perturbadora invenção poética. Como o seringueiro Hélio Melo, do Acre, apresentado no Rio há poucas semanas, que desenha cavalos empoleirados em árvores e cria uma luz misteriosa na paisagem dos seringais.”Outros críticos importantes, como Walmir Ayala, também chamaram a atenção para obra de Hélio, todavia muito dos recortes de jornais que faziam parte do meu arquivo pessoal se foram  em uma das rotineiras enchentes dos rios  e igarapés acreanos.

Por sua vez, Sérgio Camargo ao apresentar Hélio no catálogo dessa mostra disse em um dos trechos: ...A prova dessa qualidade superior quando desenha ou pinta com luz, que não me atreveria a definir, eu encontrei numa ano passado no SESC na Tijuca. Em todo caso, ali por ele soube dessa luz que tirou da floresta, aquela que pousa nos seus desenhos e logo nos oferece, ensina, obriga a ver./ Caso de simbiose estética com a mata em que viveu? Assim se explicaria naturalmente esse fenômeno, sem dar conta todavia de sua motivação profunda em documentar./... Essa luz da mata provavelmente existe por lá, mas a que aqui vemos nos vem de Hélio, seringueiro, seringalista, mestre maior da floresta, nosso amigo, obrigado.

Floresta: serrando madeira
Depois de sua mostra na Galeria Sergio Milliet, e sua exposição na mídia de maior repercussão no país, Hélio estava muito próximo do seu reconhecimento e consagração entre os mestres da pintura “naif” nacional. Hélio voltou muito feliz, e poucos dias depois foi a minha sala para saber minha opinião a respeito de carta que havia recebido de Roberto Rugiero, dono em São Paulo da Galeria Brasiliana, especializada em arte popular. Rugiero revelara na carta o interesse em comercializar a obra de Hélio, na condição de receber os quadros em consignação, com prestação de contas após a venda dos mesmos. Hélio ficou naturalmente desconfiado, eu disse-lhe, no entanto, que as galerias agiam assim, e essa, então, era a praxe no mercado de artes, eu poderia, contudo, me informar, através do regional do SESC de São Paulo, se o marchand era bem conceituado no mercado, mas somente a ele, Hélio, caberia decidir e correr o risco, porque o Acre era distante e isolado do resto do país. Hélio era resoluto e não vacilou, mandou os quadros pro Rugiero e deu início a uma parceria que durou anos.
Daí por diante, Hélio assumiu sua trajetória artística, eu apenas, como antes, o deixei livre de dar expediente no SESC para que pudesse  livremente produzir em casa sua obra, e continuei a ajudar, institucionalmente, com recursos financeiros de pequena monta para que suas mostras acontecessem em outros estados. Lembro-me ainda que durante a minha curta passagem pela direção do SESC no Acre, a instituição contribuiu para que a obra de Hélio participasse de mostras em Recife: Casa da Cultura de Pernambuco, Gabinete Português de Leitura e Regional do Serviço Social do Comércio em Pernambuco; SESC de Sergipe e IV Salão Nacional de Artes Plásticas – FUNARTE, Rio de Janeiro. 

Colônia: pescaria
Ainda, quando na direção do SESC no Acre, eu vivenciei dois momentos que considero digno de registro nesses pedaços de relatos sobre minhas relações com Hélio. Eu havia por indicação do DN-SESC contratado um professor de artes plásticas, salvo engano, do Parque Lages, Rio de Janeiro, para ministrar curso de iniciação à pintura em Rio Branco. Certa vez eu fui visitar o professor Urian Ágria na sala de aula e encontrei na primeira fila de carteiras Hélio Melo, fiquei surpreso e ensimesmado. No fim da tarde, eu chamei até minha sala o mestre Urian, professor e pintor já consagrado, para me visitar, e durante a conversa eu pedi-lhe que dedicasse atenção especial ao Hélio, orientando pra que ele não mudasse sua maneira de pintar, pois seria um desastre se isso viesse a acontecer. O professor Urian foi  muito sincero, e  disse-me: “Eu já conversei particularmente com Hélio, logo que ele me mostrou alguns dos seus trabalhos, e falei que ele nada tinha a aprender comigo, a não ser quanto a técnicas de uso de alguns materiais, no resto ele  era um artista pleno que, certamente, eu gostaria de já ter sido”.

De outra vez, Hélio chegou meio sôfrego, triste e amargurado em minha sala e me falou que sua casa havia sido inundada pelas águas do rio Acre na recente enchente. Ele morava numa área de risco, no bairro da Base, e viera me procurar para saber se eu podia lhe emprestar certo valor que somado as suas economias daria para completar o pagamento da entrada numa outra casa, e assim, ao se mudar de residência, ele poderia estar livre desse tormento e prejuízos que ocorriam nos anunciados invernos mais rigorosos, quando o rio Acre alagava parte de seu bairro.  Atendi de pronto ao amigo, que dentro de pouco tempo veio a quitar sua dívida que ele comigo havia contraído. Dias depois eu me encontrei com Hélio e perguntei sobre seu novo endereço, ele me respondeu: “Na Base, é que ali  residem os meus amigos, eu gosto da vizinhança e me acostumei com o bairro, e agora a minha casa está num lugar mais alto e só se Deus mandar um dilúvio pra minha casa agora ser inundada”.

No começo de1984, eu encontrei Hélio nos corredores da Universidade juntamente com Genésio Fernandes; ele me falou do seu projeto de editar livrinhos narrando o muito que aprendera no convívio com a floresta amazônica e seus habitantes: homens, animais, mistérios e mitos. Hélio me falou que estava produzindo muito, e que tinha obra suficiente para nova exposição, mas queria que ele se realizasse fora do Acre. Eu me propus, então, a sondar amigos em São Paulo e verificar se havia condições para tal mostra. De volta a São Paulo onde estava cursando mestrado na PUC, eu procurei Fernando, que gerenciava a livraria Belas Artes, esquina da Av. Paulista com a Rua da Consolação, sua livraria dispunha de pequena sala reservada para lançamentos de livros e exposições. Ao lhe falar sobre Hélio, ele logo se interessou, mas o espaço era muito concorrido e se não me esqueci, a mostra ficou programada para o segundo semestre. De pronto, eu me comuniquei com Hélio, para que, com tempo, ele viesse a providenciar a remessa dos quadros e passagem de vinda a São Paulo para acompanhar a exposição, a hospedagem ficava por minha conta.

Os tempos eram outros, nem o SESC nem a Fundação Cultural nada bancaram, e ele teve então de  pagar o frete dos quadros, e me comunicou que infelizmente não poderia estar presente na abertura da mostra, e que eu o representasse. A mostra foi um sucesso de público e mídia, sendo eu, inclusive, entrevistado pela TV Cultura de São Paulo; além disso, a mostra foi noticiada em colunas de jornais de circulação nacional. No jornal Voz da Unidade eu escrevi um texto sobre ele e a exposição a pedido do seu editor, meu amigo José Paulo Netto, que, no entanto, não reproduzo aqui por haver perdido o recorte contendo a matéria. Fato curioso, não se vendeu nenhuma obra, até porque Hélio se esqueceu de colocar os preços na relação dos quadros que me foi enviada.  

Hélio Melo e seu  violino
Em 1985, fui convidado pelo diretor do SESC no Acre, Luiz Celso, para redigir texto para o catálogo de mostra individual de Hélio que ele estava promovendo. Fiz o texto e fala na abertura da exposição. Na ocasião, conheci o conjunto musical “Sempre Serve”, que Hélio organizou e bancou a compra dos instrumentos, e dele participava seus velhos amigos. Em vez da velha Rabeca, Hélio agora era solista com ares de virtuose no uso de violino novinho em folha. Aqui transcrevo o texto que fiz para o catálogo:

Ao falar de Hélio Melo, sempre me vem a lembrança o que me disse sobre ele o sociólogo Luis Werneck Vianna: “os quadros  desse artista faz uma sociologia do trabalho na Amazônia”. A obra de Hélio, além disso, e sobretudo, deve ser  realçada pelos seus valores cromáticos. Nela vê-se a utilização precisa  da cor, com suas nuances e detalhes, ao retratar a floresta (flora e fauna) e o homem entrelaçados numa quase simbiose. / Hélio é um primitivo, naif acreano mas decerto dos mais representativos desse Brasil. O compromisso social com sua região e sua gente salta aos olhos, um artista sobejamente engajado. Também, nele, a faceta poética já foi revelada por críticos consagrados. Merece, ainda, atenção especial a luminosidade dos seus quadros. Os efeitos de sua luz na floresta ao figurar o amanhecer, o entardecer, o anoitecer. Paisagens carregadas de luz, claro/escuros e sombras densas, realçados por um desenho de traços e contornos precisos./ Hélio, mais uma vez, se integra ao SESC, nesses 45 anos de existência da instituição, fazendo dessa sua exposição o centro das atividades promovidas pela Delegacia Executiva no Acre. Ao SESC, que durante parte de sua trajetória como artista plástico, sempre lhe deu o apoio desinteressado e reconheceu nele, desde o início, o mestre do desenho que o país iria consagrar./ Encerro essa rápida apresentação tomando as palavras do já falecido grande escultor Sérgio Camargo: “Essa luz da mata provavelmente existe por lá, mas a que aqui vemos nos vem de Hélio, seringueiro, seringalista, mestre maior da floresta, nosso amigo, obrigado”.

Revendo nos meus arquivos o catálogo dessa exposição feita no SESC, eu observei que nele consta a relação de obras expostas e os seus preços de venda, e me causou espanto os baixos valores até então cobrados por Hélio pelos seus quadros. Os preços estavam numa faixa de 30 a 45 mil cruzeiros para os mais baratos, e de 50 a 65 mil cruzeiros para os mais caros. Comparei esses valores com o salário que eu percebia à época na Universidade Federal do Acre, cerca de 3 milhões e 500 mil cruzeiros. Da mostra constavam 31 quadros no valor total de 1 milhão 500 mil cruzeiros. Eu, pasmem, poderia folgadamente comprar todos os quadros em exposição somente empregando menos da metade do meu salário do mês. Eu chamo a atenção para esse fato, porque se estima que Hèlio durante seus anos de vida como pintor produziu cerca de milhares de quadros espalhados com compradores do Brasil e exterior que adquiriram suas obras através de galerias e exposições realizadas nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Brasília, Salvador, Fortaleza, Goiânia, Aracaju, e no exterior: Paris, Washington, Londres, Roma, Lucas, Verona, Florença, Pescara etc.; ou diretamente do autor em Rio Branco, e, no entanto, ele veio a falecer relativamente pobre em que pese esse hercúleo trabalho para sobreviver com sua obra. Cabe ainda realçar que ele era funcionário público de baixa remuneração, pouco significando seu salário para seu orçamento familiar.

Em 1986, Francisco Gregório Filho havia assumido a Presidência da Fundação Cultural Elias Mansour, e então eu falei pra ele que estava comigo em São Paulo todo o acervo que estivera em exposição na Livraria Belas Artes, e eu queria devolver as obras para Hélio, e também sugeria que ele adquirisse se possível todos os quadros desse acervo, pois se travava de material de alta qualidade artística e, portanto, não deveria sair do Acre. Gregório assumiu o frete, e não sei o destino que foi dado às obras enviadas, certamente parte foi adquirida pela Fundação, e outra parte foi entregue ao pintor. Em 1990, ao visitar Hélio no espaço que Gregório havia instalado em sua homenagem: ‘Sala Hélio Melo’, eu verifiquei que os quadros que lá estavam emoldurados, todos faziam parte do acervo da mostra realizada na Livraria Belas Artes, e que eu havia remetido à Fundação Cultural.  Na conversa com Hélio, ele entristecido me informou da morte do escultor Sérgio Camargo, personagem muito importante para sua vida, e me passou recorte jornal, onde Wilson Coutinho, em artigo, noticiava o falecimento de Sérgio, e comentava a respeito do homem e de sua obra. Seleciono aqui trecho em que se refere a Hélio: Mas havia pouco dogmatismo em sua posição. Ele admirava um artista primitivo acreano, Hélio Melo, que capta a luz filtrada da floresta amazônica, usando como cor apenas raízes de plantas, e fez o que pôde para que o artista fosse reconhecido. É que havia algo de sagrado para Camargo: a arte, e esta implicava em invenção sem se importar se o  artista fosse erudito ou popular.  Daí por diante os meus encontros com meu amigo Hélio foram se tornando raros; papos rápidos ao nos cruzar, vez por outra, nas ruas de Rio Branco. Mudei-me do Acre em 1992 sem me despedir dele.

Hélio Melo
Em 1996, eu me reencontrei com ele na sala Hélio Melo, em Rio Branco. Fiz uma longa entrevista gravada com ele que, no entanto, até hoje não editei, porém repassei anos depois cópia do original para sua filha Fátima, já gravada em CD. Um ano depois voltei a Rio Branco, para completar a coleta de material para minha tese de doutoramento junto a USP, e aproveitei para lhe fazer uma visita. É que precisava também checar informações que constavam de sua entrevista já transcrita, pois a gravação estava com muito ruído devido ao barulho de carros que trafegavam na Avenida Presidente Vargas e, naturalmente, havia trechos que ficaram incompreensíveis. Fiz os devidos ajustamentos, conversamos um pouco sobre tudo e eu aproveitei para adquirir, salvo engano, um quadro sem a moldura que ele havia me mostrado.
Colocação: a caça

1999, em Natal, eu recebi uma inusitada ligação telefônica de Hélio. É que ele viera ao Rio Grande do Norte, e estava expondo seus quadros numa Feira de Saúde que se realizava no Centro de Convenções do estado. De imediato eu me dirigi ao local da tal feira para me encontrar com ele, que já estava na cidade há três dias e somente agora conseguira comigo se comunicar. Fiquei muito chateado com a peça que haviam pregado nele, pois o local era inteiramente inadequado para exposição de sua obra. Os seus quadros estavam perdidos no meio de um monte de quinquilharias artesanais, muita coisa de quase nenhuma qualidade artística, o que certamente confundia e desvalorizava seu trabalho. Divulgação não houve nenhuma, pois o centro da feira era a Saúde. Disse-lhe, com clareza, que achava que ele não devia se envolver com esse tipo de aventura, pois já era um artista consagrado nacional e internacionalmente, e esse tipo de exposição depunha contra sua arte e não acrescentaria nada em termos financeiros para aumentar sua riqueza ou reduzir sua pobreza. Aproveitei para trazê-lo a minha casa e comigo almoçar. No outro dia, voltei a me encontrar com ele na Feira e conversamos amenidades; ele não estava se sentindo bem e pediu-me que o deixasse no hotel onde se encontrava hospedado. A noite, ele me telefonou avisando-me que estaria viajando para o Acre na madrugada do dia seguinte, e que  deixava na portaria do hotel um pacote com todos os quadros que havia trazido para Feira, pois nada tinha vendido, e que eu organizasse uma exposição em Natal, que ele faria de tudo para estar presente. No outro dia eu passei na portaria do hotel e apanhei a encomenda, e ao abrir o pacote encontrei uma relação dos quadros sem atribuição dos preços. Somente aceitei o encargo por se tratar de um pedido do meu estimado amigo Hélio Melo. É que eu estava muito angustiado e frustrado com o trabalho de sísifo que havia desenvolvido na Editora da UFRN, e, além disso, muito cansado, pois no ano anterior  havia me envolvido numa maratona desgastante ao participar da equipe de coordenação local da reunião anual da SBPC, sendo o responsável pela parte de editoração do evento.De quebra havia organizado a I Feira do Livro do Rio Grande do Norte, e ainda promovido a reunião da ABEU -  Associação Brasileira de Editoras Universitárias. Pedira também, no começo de 1999, o meu afastamento da EDUFRN para que pudesse concluir minha tese de doutoramento junto a USP. Aguardei uma ou duas semanas para me comunicar por telefone com ele, e disse-lhe que  nada  poderia assumir neste resto de ano, porque eu não teria tempo nem disposição para organizar  mostra de sua obra, e somente no próximo ano eu poderia tratar do assunto. Ele concordou e disse-me que eu ficasse com a guarda dos seus quadros até que eu pudesse tranquilamente organizar sua  exposição   em Natal.

Bilhete de Hélio orientando como expor seusa livros
Em 2000, após a defesa de minha tese de doutoramento na USP, no mês de maio eu voltei a assumir a direção da Editora Universitária. Fiz de imediato contato por telefone com Hélio pra que ele me enviasse seu currículo, material de imprensa com notícias, entrevistas etc., e que ele me mandasse também os preços dos quadros. Ele me falou que os preços estavam atrás dos quadros e de que não ia atualizar os valores. Tudo bem, mas falei pra ele que logo que a exposição ficasse com data definida e catálogos prontos, eu iria incluir nos preços a moldura. Demorei um pouco a adotar providências, mas lembro-me ainda que foi pedido ao consagrado artista natalense e meu amigo Dorian Gray  para escrever o texto de apresentação; ao pintor e também amigo Olavo Oliva foi pedido o projeto gráfico para o catálogo; com o crítico de arte e galerista Antonio Marques fiz contato para que assumisse a promoção da mostra. Por sugestão de Antonio Marques eu não emoldurei os quadros, pois, segundo ele, era melhor expor os desenhos colados num passe-partout improvisado, isso evitaria custos que certamente seriam adicionados ao preço de cada obra. Ao levar Antonio para ver o material que seria exposto: 36 desenhos, sendo que cinco ou seis deles eram de grande tamanho, ele disse-me que sua galeria era pequena e não comportava a exposição, e orientou-me que o único lugar adequado seria o Palácio das Artes, ou como alternativa mesmo que precária a Galeria Newton Navarro, da Capitania das Artes. Conseguir agenda nesses órgãos públicos era um dilema, e pra completar a sala de exposições do NAC-UFRN estava fechada para reforma, então, o remédio era adiar para o próximo ano a realização da mostra.

2001. Em março, precisamente no dia 22, eu tive através do amigo Marcos Inácio Fernandes a notícia que Hélio havia falecido. Fiquei muito consternado e procurei falar com sua família mas não consegui; agora, com a morte do meu amigo Hélio,  realizar a exposição não fazia mais sentido. Comecei de imediato a pensar como devolver seus quadros para família. Fiquei durante todo este ano, sem saber o que fazer, eu apenas tomei a iniciativa de emoldurar os quadros maiores para assim melhor protegê-los.

2002. Recebi ligação telefônica de Fátima Melo, filha de Hélio, a quem falei do acervo em meu poder, e perguntei pra quem enviar o material. Ela ficou de se comunicar novamente e silenciou. No começo do ano fui a Rio Branco proferir conferência e lançar meu livro: Comunicação Alternativa e movimentos sociais na Amazônia Ocidental, no auditório da UFAC, aproveitei, então, para procurar um filho de Hélio que trabalhava no restaurante do Aeroporto, mas ele se encontrava de férias.  O tempo era muito curto, e voltei sem me comunicar com a família.  Em 2003, aproveitei a carona de Marcos Inácio, que era também amigo de Hélio e de sua família, para ser portador em seu carro de um grande pacote contendo todos os quadros de menor tamanho, para ser entregue a Fátima Melo. Tudo foi entregue em Rio Branco, e fiquei tão somente aguardando, com uma a caixa de madeira já fechada contendo os quadros maiores, a necessária comunicação da família informando o endereço para remessa. Nada feito.

2006. Recebi carta de Roberto Rugiero, na qual ele me perguntou se estava disponível para colaborar com a Bienal de Artes de São Paulo na sua 27º edição, que iria prestar homenagem ao pintor Hélio Melo, pondo o meu acervo à disposição da coordenação do evento. Respondi-lhe que essa homenagem era mais do que merecida, e que colocaria a disposição não somente meu acervo constituído de sete quadros, mas tudo que eu dispusesse a respeito de Hélio, inclusive me comprometia a textualizar e ceder cópia da entrevista ainda inédita que havia feito com ele, para que ela fosse integralmente publicada na revista Raiz. Como nada se concretizou, restou-me a felicidade de saber que meu amigo Hélio foi recebedor, lamentavelmente após sua morte, dessa homenagem consagradora, e fiquei a acompanhar o farto noticiário que foi veiculado pela mídia nacional. Guardo ainda com muito cuidado o recorte da Folha de São Paulo que traz o artigo de Marcelo Coelho sobre a Bienal de 2006, no qual diz: ...O artista-seringueiro Hélio Melo ocupa uma sala inteira, onde a fantasia “naif” convive com o desenho sutil de cenas da mata; é uma das presenças mais marcantes desta Bienal. ... As pinturas de Hélio, por exemplo, podem ser pretexto para interpretações moralizantes a respeito da Amazônia. Nada contra; mas elas estão ali, em sua coerência de cores e recursos, em sua delicadeza sombria e feliz, porque não se reduzem a um conceito qualquer. Estão ali porque são arte.

2008. Já no Acre, onde  fiquei por três anos prestando trabalho de assessoria ao governo na área de cultura, eu reencontrei, em minha casa,com Fátima Melo, ora dentista com consultório na cidade de Brasiléia. Aproveitei para mostrar-lhe fotografias dos quadros do meu acervo, e também dos quadros que estavam comigo e que lhe pertenciam. A partir de então os nossos contatos se estreitaram, e em 2010 quando voltei a Natal, eu providenciei a remessa dos quadros que ainda se encontravam em meu poder. Tudo certo, dívida resgatada. Espero que dentre em breve minha amiga Fátima consiga organizar o seu desejado Instituto Hélio Melo, e a obra que com amor e tão criteriosamente conservou de seu querido pai, seja posta à disposição do povo acreano, e cumpra a missão de preservar a memória desse grande artista e homem de verdade. Artista que na condição de autodidata se coloca por formação e temperamento sob o signo do múltiplo e do diverso: desenhista, pintor, músico (tocava rabeca, violino, violão e cavaquinho), compositor de valsas, choros e marchas, escritor  com sete livros publicados, poeta popular, exímio contador de histórias etc., e ainda, o militante das comunidades eclesiais de base, engajado nas lutas em defesa da floresta e das causas sociais no Acre.

Como fecho dessas memórias do que não esqueci sobre Hélio Melo, eu quero contar uma das muitas histórias que eu sei sobre ele. Disse-me certa vez Roberto Rugiero que Pietro Maria Bardi, personagem lendária que organizou o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP), havia ido a uma exposição de Hélio. Lá chegando, deu uma olhada nos seus quadros expostos, verificou os preços e disse pro Hélio, você é com certeza muito bom artista, mas os preços dos seus trabalhos estão muito baixos, aumente isso e produza menos. Isso dito pelo grande Pietro Maria Bardi, simplesmente é consagrador. Hélio na sua santa ignorância não sabia quem era Bardi, e quando ele pediu a doação de um  quadro para o acervo do MASP, ele, então, prontamente negou. Confirmo essa história porque o Hélio havia também me contado esse fato, eu simplesmente havia dito a ele que perdera a rara oportunidade de ter um quadro em um dos museus mais importantes do mundo. Rugiero, rindo, disse-me que logo depois encontrou com Hélio para encomendar mais alguns quadros para sua Galeria, e ele havia lhe falado que não entregaria mais pelos mesmos preços, pois um italiano de nome Bardi havia lhe dito que estavam muito baratos. Durante vinte três anos em que fui amigo de Hélio, eu comprei dez dos seus quadros; hoje eu disponho apenas de sete no meu acervo, pois fiz presentes de três para amigos comuns, meu e dele: Ana Maria, Jaime Ariston e Jaci Bezerra Lima, que estiveram no Acre e também foram seus admiradores.   Ave Hélio, meu saudoso e inesquecível amigo acreano e, parafraseando o poeta Manuel Bandeira, eu digo: LOUVO HÉLIO MELO, LOUVO.

Hélio por ele mesmo

Nota: No meu acervo eu disponho de todos os livros publicados por Hélio: História da Amazônia; Os mistérios dos répteis e dos peixes; Os mistérios dos pássaros; A experiência do caçador e os mistérios da caça; Os mistérios da mata e os mistérios dos répteis e dos peixes; Via Sacra na Amazônia; O caucho, a seringueira e seus mistérios e História da Amazônia. Em todos os livros consta na capa a frase: Do seringueiro para o seringueiro. E ainda fotografias, dados curriculares, bilhetes, recortes de jornais e revistas com notícias, artigos e entrevistas. Publiquei artigos sobre ele, e fiz textos para catálogos, e tenho dele também uma longa entrevista gravada e ainda inédita. Todos os quadros que postei no blog fazem do meu acervo.
(postado por Elson Martins às 17h30 de 25/08/2012)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Aspectos socioeconômicos da produção de açaí no Amapá


Cláudia Chelala[1]

O contexto da produção regional

O açaizeiro, palmeira nativa do estuário amazônico, produz um fruto – o açaí – do qual se extrai uma espécie de “vinho”, que pode ser ingerido sem acompanhamentos ou com farinha de mandioca, tapioca, peixe e camarão, como é o costume local. Em outras regiões do país adiciona-se, habitualmente, guaraná, frutas e granola, sendo que o seu mercado extra-regional está vinculado ao dos produtos energéticos.
O consumo do açaí é um hábito tão arraigado na população amazônica, podendo ser considerado, inclusive, como parte de sua identidade cultural. O consumo do produto se faz diariamente, e a venda se dá por meio de pequenos estabelecimentos comerciais conhecidos como “batedeiras” ou “amassadeiras” de açaí, que proliferam em diversos bairros das cidades da região. As amassadeiras compram o fruto e realizam o seu processamento, que é feito em uma máquina na qual são colocados juntamente com água. A maior ou menor adição de água determina o tipo de açaí a ser vendido: especial, grosso ou fino.

Muitas são as pessoas envolvidas nesta atividade. Primeiramente, porque são em número considerável os pequenos estabelecimentos comerciais. Uma amassadeira é geralmente um empreendimento familiar de micro-escala e administrada, em média, por duas pessoas. Ao se decompor o sistema produtivo, identifica-se uma quantidade expressiva, mas ainda não estimada, de trabalhadores que transportam o produto, que são denominados “transportadores” ou “atravessadores”. Além dos produtores, envolvendo neste grupo os proprietários rurais, apanhadores e carregadores.
 Importante esclarecer que até os anos 1980, o consumo de açaí era quase que exclusivamente regional, contudo, a partir da década de 1990 o aumento da demanda nacional do consumo de açaí começou a se transformar em hábito nas academias de ginástica das regiões Sul e Sudeste, isto em função das propriedades energéticas que o fruto possui. Neste contexto foi criada uma bebida, que é uma mistura de açaí com guaraná, a qual muito contribuiu para a conquista de mercados extra-regionais. Os Estados do Rio de Janeiro (década de 90) e São Paulo (a partir de 1997) foram os primeiros a introduzir este hábito, seguidos por Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Tocantins, Pernambuco e Ceará.
Ao mesmo tempo o açaí foi ocupando espaço nos mercados internacionais, principalmente nos Estados Unidos, Japão, Coréia do Sul, Austrália e alguns países europeus.
O Estado do Pará, que é o maior produtor nacional de açaí, destina cerca de 10% de sua produção para o exterior e 70% para o mercado brasileiro. Nos últimos anos foram instaladas várias empresas de processamento de polpa de açaí na região amazônica. Esses empreendimentos foram sendo constituídos com o objetivo de atender a demanda externa, em plena fase de expansão.


Diversas Finalidades

O açaizeiro e o açaí possuem variadas formas de utilização. Da polpa do fruto fabrica-se, além do vinho, sorvetes, doces, geléias, licores, bombons, cosméticos, etc. Sua utilização também se dá como corante, e na fabricação de velas. A palma serve como telhado para habitações, os caroços são utilizados como adubo para plantas, energia para fornos de panificadoras e olarias, confecção de bijuterias e outras variedades de artesanato. Do caule se extrai um palmito de grande aceitação no mercado.
O avanço das pesquisas científicas com açaí revelou que o fruto é uma poderosa bebida energética. Pesquisas demonstram que o açaí possui 30 vezes mais antocianina que a uva, uma substância antioxidante que combate o envelhecimento.
Estudos realizados pela faculdade de medicina da Universidade de São Paulo - USP em Ribeirão Preto, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA, constataram que o açaí é um contraste natural para os exames de ressonância magnética de abdome. Existem outras possibilidades de utilização da palmeira e do seu fruto não relacionadas neste artigo.


O açaí do Amapá

O Amapá destaca-se como o 2º estado produtor da região, respondendo com 2,26% da produção, enquanto o primeiro colocado, o Estado do Pará participa com 94%. Sob este aspecto é importante considerar as porções territoriais dessas unidades da federação. O Estado do Pará possui uma área de 1.248.042 km2, que corresponde a 16,6% do território brasileiro, enquanto que o Amapá possui 143.453 km2, representando apenas 1,68%. Os principais municípios produtores de açaí no Amapá são: Mazagão, Santana e Macapá (o maior mercado consumidor local).
É válido destacar a localização privilegiada das duas cidades, Macapá e Santana, que estão na foz do rio Amazonas e possuem, portanto, facilidade geográfica para acessar tanto os mercados produtores, situados no estuário amazônico, como também os mercados consumidores nacionais e internacionais.
A produção de açaí é uma atividade de destacada importância para a economia do Amapá, em função do mercado interno e das exportações. No ano de 2010 a exportação do produto significou o quinto item na pauta de exportações amapaense, com US$ 7.640.339, representando 2,16% do total exportado. O açaí produzido no Amapá é destinado principalmente para o mercado norte-americano.
Pesquisas realizadas pela Universidade Federal do Amapá revelam que as cinco empresas de processamento de polpa de açaí em efetivo funcionamento no Distrito Industrial de Santana geraram em 2010, apenas 149 empregos.
Destaca-se, ainda, que o desempenho exportador de açaí no Amapá foi mais positivo no ano de 2009, quando o produto representou o quarto item da balança estadual, correspondendo a US$ 10.224.970. Provavelmente em função da crise econômica mundial que assola particularmente os Estados Unidos, os números do ano passado demonstram uma retração nas vendas externas.
Relativamente às atividades de micro-escala, destaca-se o grande número desses estabelecimentos. Estima-se em torno de 1.800 pontos de venda de açaí, somente nos municípios de Macapá e Santana, conforme pesquisas realizadas pelo SEBRAE-AP. Este número conduz a outra estimativa: aproximadamente 3.600 pessoas encontram-se envolvidas somente com o processamento artesanal do fruto. Não integram essas estimativas, os produtores e os atravessadores, o que amplia, por isso, a quantidade de trabalhadores envolvidos com a atividade.

Algumas considerações

Em que pese o fato de as instituições oficiais de crédito e fomento privilegiarem empreendimentos de grande porte como as indústrias de processamento de polpa de açaí, em detrimento das atividades tradicionais, representadas pela cadeia produtiva: produtor – atravessador - amassadeira, estas parecem contribuir mais decisivamente para o aquecimento da economia e o fortalecimento do sistema social local, do que aquelas.
A produção, transporte e comercialização de açaí é uma atividade econômica e social regional que requisita atenção especial do poder público. As instituições oficiais correntemente divulgam ações tais como: linhas de financiamento e crédito específicas, programas de qualificação da força de trabalho, cursos de higiene no manuseio do produto, dentre outras.
Entretanto, o que se observa é a pouca efetividades dessas políticas. O retrato das atividades tradicionais é de grande precariedade, dificultando o aperfeiçoamento do desempenho empresarial, a saúde dos trabalhadores, bem como dos consumidores finais.
O Pará, por exemplo, atravessa um surto da doença de Chagas provocado pelo consumo de açaí preparado inadequadamente, isto é, sem os cuidados básicos com a higiene do produto.
Notícias como essa precisam conduzir o poder público a refletir sobre a pouca efetividade de suas ações e propor medidas mais aproximadas da realidade dos integrantes da cadeia produtiva, principalmente pelo fato de se tratar de uma atividade de grande importância para a sociedade regional, conforme destacado, além da perspectiva de repercussão negativa no mercado nacional e internacional, comprometendo o elo da cadeia produtiva voltado para as vendas externas.

        


[1] Economista, Doutora NAEA/UFPA, professora da Universidade Federal do Amapá.

domingo, 3 de julho de 2011

A surra no general

José Maria Rabêlo, aos 82 anos

Em janeiro de 1963 eu aportei em Belo Horizonte me aventurando na vida. Em poucos dias e muita sorte, consegui um bico de redator na Rádio Inconfidência, do Governo de Minas, passando a escrever notas para o programa “O Domingo é Notícia”. Garantia, assim, a mensalidade da pensão no bairro Floresta.

Na emissora, consultando jornais e conhecendo jornalistas, fiquei sabendo da existência do José Maria Rabêlo, editor do jornal Binômio, que dois anos antes (1961) tinha encarado e surrado um general-de-brigada dentro da redação. Ouvi que após a refrega ele sumira, e também que tinha sido morto por militares no interior do Estado. Seu nome ficou na minha memória como primeiro grande herói da imprensa alternativa.

Terça-feira passada, 28 de junho, tive a oportunidade de vê-lo em carne e osso em São Paulo, no lançamento de 12 DVDs sobre a imprensa alternativa, um projeto da Fundação Vladimir Herzog nominado “Resistir é Preciso”. Aos 82 anos, o histórico jornalista me pareceu inteiro e combativo, fazendo jús à fama que tem.

Convidado pela Fundação, eu estava hospedado no Hotel Adress, na zona sul da cidade, juntamente com alguns baluartes da impresa alternativa. Naquela manhã, acabara de tomar café no 16º andar em companhia da viúva de Antônio Callado, Ana Arruda Callado, doutora em comunicação, e da cineasta Tetê  Moraes. Aguardávamos o elevador para descer para o 3º andar, quando a porta se abriu e um senhor alto e elegante, ladeado de sua mulher, saiu sorridente, cumprimentando minhas acompanhantes.

Já no elevador, perguntei a Ana Callado quem era ele: “Você não conhece o Zé Maria Rabêlo?”, – respondeu, indagando.

Voltei incontinente ao salão do café. Muito simpático, carinhoso com a esposa Thereza, que, segundo me disse, foi heróica ao acompanhá-lo no exílio político com sete filhos pequenos, o lendário jornalista não se fez de rogado para me contar sobre seu jornal, o Binômio, e sobre a surra que aplicara no general-de-brigada João Punaro Bley, que o agredira ao contestar uma reportagem que o apontaava  como nazista e antidemocrata.
Elson Martins, José Maria Rabêlo, Thereza Rabêlo e Tetê Moraes

Óleo de Rícino - O Binômio foi fundado em 1952 e logo ficou conhecido como “o jornal que virou Minas de cabeça para baixo”. O nome era uma referência ao plano de Juscelino Kubistchek, então governador, que não passava de um marketing populista. Humor e irreverência, com boa dose de coragem, projetaram o jornal, que logo bateu os concorrentes em vendagem. Mas os poderosos da época o perseguiram e, durante o golpe militar de 1964, fecharam-no.

A reportagem polêmica foi publicada em 1961. Naquele ano, o presidente Jânio Quadros tinha renunciado e os militares se opuseram à posse do vice João Goulart, o Jango, que acabou assumindo, mas em regime parlamentarista. Os militares golpistas ficaram indóceis.

Nomeado para o comando da DI-4 (Divisão de Infantaria), que reunia todas as forças federais em Belo Horizonte um deles, o general João Punaro Bley,  destacava-se como inimigo dos comunistas e da imprensa. Ficara conhecido na crise da renúncia de Jânio Quadros por deter sindicalistas e estudantes, estabelecer censura aos meios de comunicação, cercar a Assembleia Legislativa de Minas e ameaçar de prisão os deputados que defendiam a posse de Jango.

Diante dessa situação, o Binômio pautou a reportagem especial para levantar o perfil reacionário do militar. Descobriu que cometera muitas atrocidades no estado do Espírito Santo, onde, durante a Segunda Guerra Mundial, instituiu um campo de concentração nazista. As atrocidades foram tantas que recebeu o apelido de “Óleo de Rícino”.

A reportagem sobre o general foi escrita pelo repórter político José Nilo Tavares, que, por motivos óbvios, não a assinou. Foi publicada na contracapa do jornal no dia 18 de dezembro de 1961, com o título em caixa alta, pegando oito colunas:  QUEM É, AFINAL, ESSE GENERAL PUNARO BLEY? De quebra, trazia o subtítulo: “Democrata hoje, fascista ontem”.

“Quem escreveu essa merda?” - Rabêlo não interrompia o café para narrar a refrega com o general. Duas ou três vezes levantou da mesa para apanhar mais leite e pão-de-queijo para ele e sua Thereza, fazendo comentários do tipo: “Engraçado! Os paulistas estão comendo mais pão-de-queijo que os mineiros, e os mineiros estão comendo muita pizza, que é mais um hábito de São Paulo!”.

A reportagem foi um furor, ampliando o interesse dos leitores pelo Binômio, que já vendia 25 mil exemplares na época. Três dias depois (21), Rabêlo recebeu telefonema de Punaro querendo ter uma conversa com ele no jornal.  Apareceu por volta das 11 horas, e a  secretária  o anunciou assim: “Tem um senhor fardado, muito nervoso, dizendo que quer falar com você”.

Com ar maroto, Rabêlo conta: “Deixei-o esperando sozinho, algum tempo, o que era uma tática, depois mandei que entrasse na minha sala e tranquei a porta por dentro. Mas o general foi direto: “Eu não vim para conversar” – disse de cara. Tinha uma espécie de bastão metálico numa mão e um exemplar do Binômio na outra. “Quem escreveu essa merda contra mim? - perguntou furioso. “Isso não é merda, é uma reportagem muito bem fundamentada”- respondi. “E eu sou responsável por tudo que sai no jornal.”

Num ímpeto, o general o segurou pelo colarinho e disse: “Então você é um ‘fila’ da puta”. Era um alemaozão enorme, mesmo assim, Rabêlo não se acovardou:

“Eu achei que aquilo foi um desaforo e fui em cima dele. Rolamos pelo chão… E tinha uma outra porta pela qual o pessoal do jornal entrou e me tirou de cima dele. O general ficou com um hematoma no olho esquerdo, um corte no lábio superior e a farda toda rasgada. Foi assim que ele saiu da refrega”.

Enquanto os dois brigavam, a polícia apareceu e autuou os dois por “rixa em ambiente público”. Isso deixou Punaro Bley ainda mais furioso. Duas horas após,  veio a desforra:  200 soldados do Exército e da Aeronáutica, comandados por três coronéis, quebraram tudo na sede do Binômio.

José Maria Rabelo foi avisado por amigos do prédio onde ficava a redação, no centro de Belo Horizonte, e escapou. Refugiou-se em São Paulo e foi acolhido pelo presidente do Sindicato dos Jornalistas, Evaldo Dantas, que dias depois o acompanhou de volta a BH para retomar a direção do Binômio. O jornou voltou a circular, com a ousadia de sempre, até ser fechado durante a ditadura militar em 1964.

Desta vez, José Maria Rabêlo teve tempo de programar um almoço com os amigos e comemorar seu sumiço que durou 16 anos. Passou pela Bolívia, Chile, Canadá e França. Um irmão dele  conseguiu esconder e preservar  as coleções de 12 anos de existência do Binômio, em outro endereço, longe da redação. As coleções somam mais de 800 números, das edições que circulavam em BH e Juiz de Fora.

De volta ao Brasil desde 1983, Rabêlo foi diretor do alternativo “Pasquim” e também diretor do Banco do Estado do Rio de Janeiro, no governo Brizola. Hoje dá palestras em escolas de comunicação,  onde “a meninada morre de rir” das histórias que conta. Para o legendário editor do Binômio, “tem uma revolução em marcha na Internet, mas é a juventude que está nisso, porque os velhos não sabem mexer em compudador”.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Repórter Edilson

Edilson Martins vai mostrar Amazônia menos folclórica em documentário

Aos 72 anos de idade, descontadas as rugas e algumas queixas que a vida impõe aos humanos que chegam a tanto, o jornalista Edilson Martins, acreano que migrou para o Rio de Janeiro há meio século absorvendo o estilo carioca de vida, mantém o ímpeto dos mais jovens  e continua produzindo boas reportagens para jornais e TVs do país. A mais recente é um documentário para televisão que será exibido em cinco capítulos em rede nacional pela TV Brasil.

Nos anos 1950, quando era aluno do Colégio Acreano em Rio Branco, ele deixou sua marca produzindo o jornalzinho estudantil “O Selecionado” na companhia do Odacir Soares (que também virou jornalista e depois senador por Rondônia) e deste que vos escreve, por acaso, jornalista também.  Os três fizeram uma entrevista histórica (em 1958) com um juiz federal maluco que mandava prender quem passasse por perto dele assoviando.

O juiz se chamava Francisco Alves ou coisa parecida, tinha vindo do Rio e chegou ao cúmulo de achacar um advogado e professor durante a realização de um júri, porque ele entrou no fórum vestido com um paletó cor laranja, que contrastava com uma calça de casimira azul. Aos gritos, expulsou-o do recinto chamando-o de caneta Parker. O fato atraiu a revista O Cruzeiro, de circulação nacional, que deu uma esculhambação no magistrado provocando sua transferência de volta à cidade maravilhosa. O que, presumo, era o que ele mais queria.

A redação do jornalzinho “O Selecionado” era improvisada no Palácio Rio Branco, após o expediente, por paternalismo do então governador Coronel Fontenele de Castro que, provavelmente, não o lia. Pois se o lesse, não concordaria com sua irreverência e não permitiria que também fosse impresso na gráfica do governo, ainda que em papel de embrulho doado pelo comércio local. O trio produzia também um programa na Rádio Difusora intitulado Voz das Selvas.

Nos anos 1960, cada um pegou rumo para cursar faculdade. Após 17 anos, eu que tinha pego a trilha Belém-Macapá- Belo Horizonte estava de volta ao Acre como repórter regional de O Estado de São Paulo,  e fui cobrir um conflito indígena no Parque 7 de Setembro,  em Rondônia,  onde os índios Surui estavam sendo ameaçados por agricultores atraídos pelos projetos de colonização do Incra.  Ao pegar um aviãozinho da Funai em Porto Velho, sob a chefia do indigenista Apoena Meirelles, dei de cara com o Edilson Martins, representando o Jornal do Brasil.

Vivemos alguns dias de muita tensão entre os Suruis e aproveitamos para reatar o contato perdido. Na ocasião, Edilson propôs que a gente afinasse o sobrenome para que os leitores pensassem que somos irmãos, o que de algum modo aconteceu e ainda acontece.  Explico: o nome completo dele é Edilson Rodrigues Martins, o meu Elson Martins da Silveira. Com os cortes no sobrenome ficou Edilson Martins e Elson Martins, ambos jornalistas e  acreanos, da mesma idade, contemporâneos no Colégio Acreano e colegas de classe, mas sem nenhum parentesco.

A mudança levou ao partilhamento de elogios e críticas, até algumas inimizades, mas sobretudo, a uma parceria jornalística. Em 1988, quando eu respondia pela direção da TV Aldeia, a televisão educativa do Acre, emprestei equipamento e equipe para que ele viabilizasse o documentário que fez em Xapuri sobre os empates liderados por Chico Mendes. O resultado foi um bom documentário divulgado em rede nacional.

Na fim da tarde em que Chico Mendes  foi morto (22 de dezembro de 1988), eu telefonei para a redação do Jornal do Brasil e, por incrível coincidência, quem estava na redação, fora de hora, era ele, que dias antes  fizera a última grande entrevista com o líder seringueiro e não conseguia convencer os editores do JB a publicá-la. Graças à minha informação o JB deu a notícia da morte no dia seguinte, sozinho, publicando depois a entrevista completa.

Edilson Martins esteve em Rio Branco desde quarta-feira passada, retornando ao Rio nesta segunda-feira, para fechar um novo documentário para televisão: AmazôniAdentro,  que vai ao ar no fim deste mês em rede nacional pela TV Brasil. Na noite de sexta, 21, ele reuniu um grupo de pessoas para mostrar alguns capítulos, que mostra uma Amazônia menos folclórica e mais real, ameaçada como nunca.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Agradáveis imprevistos no Juruá

Nosso barco ancorado em Valparaíso, no rio Juruá

Na quarta-feira, 20 de abril, aproveitei uma das promoções da empresa aérea Gol e viajei com parte da família (Irizete e Yasmim) para passar a Semana Santa em Cruzeiro do Sul. Seguindo orientação do amigo Pedro Negreiro, que já foi prefeito do município, fiz reserva no Nosso Hotel. Ele explicou: “É um hotelzinho pequeno e barato, bem simples, oferece internet, o quarto é limpo, o café da manhã é bom”. Comprovamos tudo isso. Paguei  90 reais de diária pela família.

Ainda bem, pois a outra opção, que alias fica em frente ao Nosso Hotel, na mesma rua, era o Swamy. Como fazia tempo que eu não ia a Cruzeiro (desde 2006), imaginava que o Swamy era só um pouquinho melhor e mais caro. Estava por fora: é um espigão de 10 andares e no térreo tem um baita restaurante, de luxo, que não tem igual em Rio Branco. Não é para o bico de qualquer um.

Fui conhecer o restaurante e pedi uma moqueca de filhote e vinho seco para acompanhamento. Fiquei aliviado ao saber que o vinho pode ser servido em doses, não precisa o cliente comprar a garrafa. Durante a janta, vi um senhor de meia idade, baixo, moreno, com uma mascara higiênica sobre o nariz e a boca, conversando com funcionários do hotel. Era o dono.

Seu Arlindo Queiroz explicou que teve problema com os dentes, por isso a máscara. Não parece rico, mas progrediu financeiramente como dono de uma ótica. Somente há três anos entrou no ramo de hotelaria. Entrou , presumo, para ficar, pois o investimento com empréstimo do Basa é grande. O seu Swamy  opera com diárias que oscilam entre 200 e 300 reais.

Perguntei ao recepcionista do hotelzinho em que eu estava,  se o hotelzão do seu Arlindo lotava.  “Marrapaz!” – respondeu – isso nem no verão. É muito caro!”. Concluo, então, que seu Arlindo age como cruzeirense da gema, com a ousadia de quem não gosta de ”tiquim”. Trocando uma palavrinha com ele, ouvi que aposta nas mudanças que virão com a conclusão da estrada (BR-364) até o final de 2011.

Mas o Swamy não é nada, comparado com outro projeto de hotelaria e turismo em construção na cidade. Não tive tempo de ir ver, mas, quem viu, me informou que é coisa de cinema e que os proprietários são religiosos. O empreendimento se chamaria Vila Betânia. Fiquei curioso.

Que mudanças?

Quando ouço falar em “mudanças”, neste lado da Amazônia, sinto arrepios. Será, indago a mim mesmo, que Cruzeiro do Sul vai virar uma Rio Branco do Juruá? Faz sentido. Aqui no  Vale do Acre, perdemos mais que ganhamos nessa “viração”. Ganhamos carne, supermercados, pontes, uma enxurrada de carros novos, alguns prédios grandes e muita, muitíssima violência. E o que perdemos?

Do ponto de vista da acreanidade, perdemos terras, os melhores empregos, as melhores casas, o horário, alguns pratos típicos, algum tipo de música, enfim, perdemos paz e cultura. E quem duvida perde a vida. Ou seja: Cruzeiro do Sul tem muito a perder, se o progresso que chegar pela estrada e atravessar sua magnífica ponte sobre o rio Juruá, não tiver coração para enxergar suas belezas naturais e humanas.

Sem programa
Com uma vida inteira de repórter no lombo, estou acostumado à improvisação e à imprevisibilidade amazônicas. Por isso, cheguei à Cruzeiro, na quarta, sem um roteiro sobre o que fazer até domingo. Ainda em Rio Branco, pensei em alugar um barco e visitar a localidade do Crôa, que só conheço por fotos e vídeos. Mas pintou outra idéia: o Bertuca, membro de tradicional família cruzeirense, comprara um barco grande e programou uma ida ao seringal Valparaiso, oito horas Juruá acima. Um casal amigo nosso, Alíce/Carlinhos, nos convenceu a embarcar com eles.

Mesa de pôquer divertia a turma no barco do Bertuca

Saímos de Rio Branco com um pé atrás, quanto a isso. Mas, no bonito e funcional aeroporto de Cruzeiro, melhor que o da capital, encontramos o Bertuca convincente como nunca. Ele dava notícias de que na boca do rio ou igarapé Valparaiso, as matrinchãs (peixe saboroso da região) brincavam de pira. Devíamos sair na quinta feira bem cedo, na sua baleeira (lancha), que permite armar 26 redes ao longo dos 30 metros de comprimento (por 4 de largura) da embarcação, cujo motor é um Mercedes  de 114 cavalos de força (HP).

Ainda na noite de quarta, porem, surgiu o primeiro imprevisto: Yasmim, 11 anos, que viajara meio molezinha, passou a sentir febre alta (39 graus) e dor nas pernas. Tomou um comprimido de Dipirona, mas amanheceu com a mesma febre. A essa altura – passava das 8 horas da manhã de quinta - já tínhamos desistido da viagem. Fomos ao novo hospital do município e em curto tempo Yasmim foi atendida. A médica disse que era uma virose, passou medicação e não contraindicou a viagem. Partimos às 10 horas, com três de traso. 

A natureza compensa

Pu, pu, pu...Começamos a subir o rio. Passamos por baixo da majestosa ponte que cruzeirense nenhum desmerece. Na parte da frente do barco, foi montada uma mesa de baralho. A 1 real a ficha, rolaram Pôquer, Pife-pafe e 31. A bordo tinha 22 pessoas, entre crianças e adultos. Todos admiravam a pujança do rio que começava vazar, saindo da alagação que desalojara famílias em Cruzeiro. É incrível a movimentação de barcos e canoas motorizadas pra cima e pra baixo, o transporte definitivo de uma raça forte. Mulheres conduzem suas crianças em pequeníssimas canoas,  a remo, com o rio lambendo o beiço da embarcação. E parecem tão serenas!

Pu,pu,pu...8 horas, o dia acabou e a situação ficou, literalmente, preta. O gerador não funcionava, a navegação seguia sob a luz parca das estrelas, e não mais que de repente, o motorzão de 114 HP pifou. Ai, os embarcadiços começaram a dar palpites. Lima e Rui, irmãos do Bertuca, o filho Tiago, que é médico, os operadores de máquina e leme que, entretanto, não conheciam aquele trecho, todos  divergiam sobre em qual barranco encostar para consertar a máquina. Estávamos a um estirão da boca do Valparaiso, mas nem a Alice, que nasceu na região, sabia identificar o local.

Bom, os anjos ajudaram e a gente chegou lá, para satisfação das carapanãs. Felizmente, com a experiência de quem viveu no Amapá, indicamos a todos o óleo de andiroba como repelente. Funcionou contra os carapanãs, e melhor ainda contra os piuns que nos atacaram no dia seguinte.

Ah, o dia seguinte! Os ribeirinhos que passavam davam conta de que não existia peixe nenhum em Valparaiso. Sendo assim, ia faltar comida. Foi então que dona Marisa, outra irmã do Bertuca por parte de pai, deu seu jeito na cozinha realizando o milagre dos pães com algumas piabas. Dois enormes isopôres com gelo, sem finalidade, foram doados ao pescador da região, seu Marmoud, que conseguiu as piabas.

A essa altura, com os piuns sob controle, quem precisou tomar banho ou ir ao banheiro recorreu à escola municipal de Valparaiso, Alfredo Said, que se encontrava  vazia no feriado. E aos poucos, a criançada abriu caminho para o banho na água fria do igarapé.

Final feliz
Quando todos se preparavam para a descida, o Juruá ofereceu uma cena que comoveu a todos. Vários barcos pequenos começaram a chegar transportando crianças para uma reunião da Pastoral, na escola. Eram mais de 100, e vinham todas com um colete salva-vidas vermelho, parecendo um belo bando de guarás (pássaro). Apinharam o barranco verde com sua alegria e curiosidade.

Finalmente, às12h40, zarpamos de volta, com a certeza de que, na descida, levaríamos menos tempo para chegar a Cruzeiro do Sul. O motorzão ainda ameaçou falhar, duas ou três vezes, mas às 17 horas, passamos de volta sob a ponte. E Bertuca fez a pergunta obvia:

- Valeu o passeio, apesar dos mosquitos e da fome?

Claro que valeu, respondemos em coro. Eu, convencido de que sem esses imprevistos, muito da graça da viagem teria se perdido. Não acredito que o previsível tenha o mesmo encanto do imprevisível, acrescentei cá com os meus botões.

Bertuca riu à larga com essa cumplicidade amazônica.