* Por Vássia Silveira
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Exercício nº 3 (Leila Jalul) |
** Para ler a primeira parte da entrevista
clique aqui.
E
a literatura enquanto escrita, como e quando ela entrou na sua vida?
No livro Coisas de Mulher eu contei sobre viver
enlatada na burocracia e entalada ao lado do Marmo. Por toda uma vida escrevi
despachos, pareceres, ofícios e memorandos. Quando separei do Marmo e quebrei a
perna em oito lugares, fiquei de cama e aproveitei para chamar a vida à tona.
Foi quando comecei a
ensaiar as primeiras letras queridas. Tudo muito simples e eivado de
contradições. Decidi dar uma voltinha na
infância e foi ai que começou a minha vida de artista. Um dia, Elson (Martins),
Toinho Alves e Altino Machado foram comer meu rabo no tucupi e foi quando falei
que tinha uns textos guardados. Altino já tinha o blog. Eu nada sabia de
computador. De Olivette e Remington, sabia tudo.
Para mandar o primeiro
texto foi uma novela. Fui xingada e execrada. Altino me chamava de burra!
Depois o Elson também gostou. Outros gostaram. E foi assim. Foi assim que
nasceu Suindara.
Isso
foi em que ano, Leila?
A realidade dos fatos é
uma: Marmo sofreu até conseguir separar de mim. Hoje entendo isso. Não foi nada
fácil. O ano de ensaio da separação foi 1993. O da separação propriamente dita
foi 1995, começo de 95. Neste mesmo ano lancei Coisas de Mulher. Eu já sentia necessidade de escrever. Morri
muitas vezes para dar vida ao Marmo. Ele era pesadão. E negro! É difícil ser
negro, é difícil ser pobre. Ser pobre e negro!
Ouvi coisas aí no Acre
que não me permito lembrar. Muitos amigos meus não entendiam o meu vigor casado
com o peso do Antonio. Mas se quiser ser honesta, decente e falar de amor de
forma clara e limpa, digo: Marmo foi o único amor que tive na vida. Pena que
ele não sabia disso. Senão... (teria corrido atrás de outro rabo de saia bem
antes!)
Voltamos pra estaca
zero? Ao início?
Não,
acho que voltamos aos amores... Até que ponto você acredita que o amor (e mais
ainda sua ausência) é alimento para a literatura?
Você conhece algum
poeta alegre e saltitante? Se a dor ensina a gemer...
Sou chegada aos
parnasianos. Aos românticos. Aos viscerais. Gosto de Augusto dos Anjos. Agora
mesmo vou te mostrar a cobra e o pau de um dos meus poemas baseados nos
simbolistas. Aguarde. É cheio de aliterações e de dor.
Masocação
ah!
como eu adoro uma calamidade pública…
como
eu escolho emergir pro fundo
e
brincar na lama
e
amamentar a dor
ah!
como eu adoro!
banhar-me
nas minhas próprias lavas,
chicotear-me,
atar-me com minhas próprias tripas…
ah!
como eu adoro!
invocar
espíritos cancerosos para chorar
e
é tão fácil!
vou
nas gavetas e reavivo o tempo da tuberculose
arranco
o Cruz e Souza das cavernas
é
como se vivesse nas ruelas de N. Sra. do Desterro, hoje Florianópolis.
ah!
como eu adoro!
fazer
aliteração com os sons da minha hemoptise
de
vermelho cardeal,
de
emitir vagidos,
ah!
como eu adoro!
fazer
bandeiras com tiras da minha pele
que
eu mesma retiro e seco ao sol,
com
o sal por mim retido
esfrangalhar
a alma, fritá-la em alho e óleo
ah!
como eu adoro!
me
enterrar torrando na quentura do fogo
que
acendi
que
me cozinha viva
ah!
como eu adoro!
deixar
cair uma mosca em minha sopa!
e
ser a mosca no meu quarto
azumbizar!
Você tinha falado antes que morreu muitas vezes para dar vida ao Marmo. Como
era esse "morrer"?
Depois de nossa ida
para São Paulo ele foi trabalhar na Globo. Deixei de ser a Leila para ser uma
brega do Acre casada com o Marmo globeleza. Para arrumar a vida a dois perdi
muito da espontaneidade. E da vergonha, também! A Globo, o ambiente da Globo,
numa cidade do interior paulista, mudou
a personalidade do rapaz. Eu vi e senti as coisas assim. Ele deve ter a versão
dele.
Como
vocês se conheceram?
Conheci o Marmo em 69.
Ele foi para o Acre junto com o Sílvio Martinello, cumprir um expurgo. Ambos
eram seminaristas (frades) e escreveram um artigo com uma imagem de Jesus atrás
das grades. O título do artigo era O Procurado. Essa é a história que sei. A
que gravei na mente.
No Acre, continuaram
freis e faziam o programa da Ave Maria na Rádio Difusora, acho. Eu, na época,
fazia parte de um grupo de jovens sob o comando do Clodovis Boff, primo do Leonardo
(Boff). As reuniões dos jovens aconteciam na residência dos padres, no segundo
piso do Colégio Meta e numa saleta de uma igrejinha que derrubaram. Havia muito
mais que isso e muitas outras pessoas conhecidas, mas preciso resumir.
Foi através desse grupo
de jovens que conheci o meu primeiro marido, um alemão de boa índole. Com ele
namorei e casei. Ele trabalhava como monitor do Senai e também morava na casa
dos padres.
De 69 até 77, 78,
convivi com o Marmo como “maninhos! Ele ficava no Acre, ficava em São Paulo...
Nos correspondíamos, enfim.
Em 77, 78, não lembro
ao certo, já separada, Marmo foi à minha casa e...rolou! Ele já não era mais
frei. Era homem. Só homem!
Ah,
então você teve um casamento anterior?
Sim, casei com o alemão
que dava aulas de marcenaria na oficina dos padres. Um homem bom. Casei de
papel passado. Vivi apenas quatro anos com ele. Viramos amigos. Também sou
"amiguinha" do Marmo. Com reservas, mas sou.
E
como era o nome desse pastor alemão?
Altir Bretz. É o pai do
Eulen. Até pouco tempo atrás eu o via. Ele sempre visitava o filho na Bahia.
Como
é ser amiga, com reservas, do grande amor?
Por ter perdoado a
falta de lealdade. O fato do seu homem arranjar e desejar uma nova parceira, é
bastante comum. E não é caso de vida ou morte. Mas que avise a idiota que lhe
queria bem. Foi esse o grande pecado do Marmo: deslealdade. Ele viveu vida
dupla por cinco anos.
Não posso falar de
fidelidade. Isso é outro departamento! Bastava que tivesse sido leal. Como na
música da Nora Ney, eu sairia pela porta por onde entrei. Mas uma coisa é
certa: se Marmo me fez mal, também devo ter feito muito mal a ele.
O importante é ser
passado. É ter passado. É estar aliviada.
Leila,
quando eu voltei para o Acre, em 1999, você parecia estar vivendo um
autoexílio. Era isso mesmo?
Sim. E nele continuo.
As decepções me fizeram arredia. Ganhei de presente uma síndrome do pânico e
minha vida desandou.
Agora sei que ainda
tenho o pânico, mas decidi que ele não me tem. Desmamei do Rivotril e dispensei
os psicólogos e psiquiatras. De l993 a 2012... Chega, não é?
Minha terapia é
escrever. Como disse alguém aí do Acre, escrever é distribuir abraços. No meu
caso, escrever é tirar espinhos do peito. Tiro do meu e enfio no dos outros.
A
palavra, então, ocupa papel importante na sua vida...
A palavra, a latinha e
o cigarro. Ainda não tive vergonha para abandonar o vício. Apenas reduzi.
Também reduzi as latinhas. As palavras podem correr frouxas! Não têm efeitos
colaterais.
Como
é seu processo de criação?
Não tenho processo.
Tenho estalidos. Às vezes lembro de uma música, ou de uma pessoa, ou de um caso
e anoto.
Sou uma pessoa
descuidada com a escrita. Preciso cuidar das vírgulas. Preciso não cansar o
leitor. Sei que meus livros (já estou preparando o sétimo) jamais despertarão o
interesse dos “grandes” editores. Nem penso em venda. Estou sob exame de uma
editora que tem nome de gigante. E que vai ser gigante. Vamos ver o que
acontecerá.
Quando decidi
sistematizar o que escrevo e colocar em livros, acredite, foi por puro deleite.
Talvez queira que meus netos saibam quem foi a avó deles.
Acho que é isso. Estou pensando em dar uma parada em publicar
nos sites e blogs. Tenho algumas ideias para me aventurar num romance. Já tenho
até o título: A Cornuda do São Francisco. Bem sugestivo, não? É que eu morava
no Bairro São Francisco.
O
que é um bom conto para você?
É o que os outros
escrevem!
Gosto dos contos que
deixam coisas em suspenso. Mas tenho pecado com a obviedade. Gosto de contar
coisas que aconteceram. Daí o pecado: as coisas ficam com começo, meio e fim...
Se eu soubesse, escreveria contos sem final. O leitor que decidisse. Tem um
autor que não lembro agora que não finaliza nada. É como um “cointo"
interrompido.
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Leila em sua Primeira Comunhão, na Igreja São Sebastião, em 20/04/1956 (aquivo pessoal) |
Como
você vê a literatura produzida no Acre?
Não tenho lido nada daí.
Li o primeiro livro do (Sílvio) Martinello e gostei muito. Não li os outrosdois
por falta de uma visão decente. Gosto do Marcos Vinicius. É um historiador, eu
sei. Não li o Moisés Diniz. Gostaria mesmo de ler um livro escrito pelo Toinho
Alves e outro pelo Elson. Talvez fosse bem genuína. Bem acreana.
(Recebo outro e-mail de Leila: Não respondi bem essa pergunta. Acho que
feri o Miguel Ferrante, o José Potiguara, a Florentina e outros. Outro dia,
lendo o Terras Caídas, vi em alguns textos meus o embalo dos dele - do
Potiguara. Posso dizer uma coisa? Prefiro ler coisas mais universais.)
O
que faz um bom escritor?
Em primeiro lugar ler,
ler muito! Depois, não se achar um bom escritor. Sempre querer melhorar. E essa
melhora só acontece se ler muito, escrever muito e sempre achar que não é
gênio. Que para ser ruim ainda tem que melhorar muito.
Há
autores que dizem escrever para si mesmo. E você, para quem escreve?
Bem, eu continuo
achando que escrevo para que meus netos saibam quem foi a avó deles. Escrever para
o site do Lima, no entanto, traz um bom retorno para os meus ouvidos. As
pessoas dizem gostar. E eu acredito. Em
primeiro lugar, penso que quero deixar algo para os meus netos. Isso que dizer
que faço testamento e não literatura. É certo?
Não
sei, mas isso me faz pensar: você acredita que a literatura pode ser espelho do
que chamamos de “realidade”? Quer dizer, é realmente a Leila Jalul quem fala em
seus textos?
É, sou eu mesma. Às
vezes pareço estar recebendo procuração de alguém que já se foi... Isso é
brincadeira. O que sai no papel sai de mim. Dizendo melhor, o que sai na tela,
é fruto da minha realidade.
Alguns
textos seus, como o Rosa dos Ventos e
o Oleiro Galanteador, ambos de Minhas Vidas Alheias, parecem endossar a
ideia de Sartre de que o inferno são os outros...
Parece sim, só que a
gente presencia e até vive o inferno dos outros. Eu adoraria ser uma Maristela
(personagem de Rosa dos Ventos), acredita nisso? Maristela reagiu. Adoro
mulheres que reagem. O caso é verídico e tive que me contorcer inteira para
contá-lo. Os personagens são vivos, ainda. Acho que são...
O Oleiro, idem, ele
reagiu às imposições da professora louca. O inferno do João José também foi
presenciado por mim. O inferno dele foi o meu. Senti na pele o que foi um
garoto simples ser execrado publicamente por uma pessoa que não conhecia a
realidade em que ele nasceu e viveu. Assumo as dores alheias, ao que parece.
Nesses
casos, os personagens tomaram conhecimento dos textos?
Não. Camuflei o
suficiente para despistar os acontecidos. Enfeitei o maracá. Deixei morto quem
estava vivo e dei vida a quem estava morto. Costumo agir assim. Como também
costumo inserir fatos que nunca aconteceram. Ou casar acontecimentos. Tenho um
conto que envolve três acontecidos. É a famosa “casadinha” ou o econômico “três
em um”. (risos)
Esse
camuflar cabe na Luzinete ou não? Fale um pouco dessa personagem...
Não. A Luzinete é tudo
verdade. Só que a Luzinete são muitas. E todas elas sabem o que escrevo. Exceto
uma: a verdadeira. Mas há poucos fatos sobre ela. A maioria é de Lúcia,
Luziene, Lucila e Patrícia. Mas acho bom não revelar o que é de quem.
Tenho uma admiração
enorme pelas meninas. A baianada é muito boa de prosa e faz coisas muito
engraçadas. São meninas espirituosas até no sofrer.
Outro dia fiquei
embaralhada e comecei a confundir as peruas. Contei para a Patrícia sobre um
texto que escrevi contando que Luzinete caiu dentro de uma sepultura e até
pisou na alça do caixão. Não havia sido a Luzinete e sim, a própria Patrícia!
Ainda hoje, lendo a boneca que o André está preparando, percebi que faço
confusão entre as protagonistas.
Estive com muita
vontade de acabar com a Luzinete. Criar um acidente fatal e fazê-la desaparecer
da minha vida. Mas desisti de matá-la. Como crônica, para quando falta assunto,
ela é perfeita.
Em
que situação você chegou a pensar em matá-la?
Quando começou a minha
confusão mental, pensei num acidente de carro. Vi que seria mórbido demais.
Pensei numa despedida por mudança de cidade, bem mais tranquilo. Mas acontece
que as Luzinetes principais que são a Patrícia e a Luziene estão todos os dias
aqui em casa e desde que aqui cheguei. Já lá se vão quase cinco anos. É na minha
cozinha que acontecem as aulas de culinária e onde se joga conversa fora.
Patrícia toma conta de mim como se eu fosse a mãe dela. Nos meus dias de
desespero ela chora junto, quando fiquei hospitalizada ela esteve junta.
O livro de Luzinete, a
bem da verdade, ficou como o nascer e o crescer de uma amizade que começou de
forma torta.
Patrícia não sabia ler
uma letra. Eu ficava com medo de tomar qualquer medicamento que ela me
entregava. De conversa em conversa, incentivei-a a estudar e hoje, para minha
alegria, ela está no que corresponde à antiga quarta série do ensino
fundamental. Sua vida modificou completamente. E a da família, também. Ela
batia muito nas crianças (4) e, de conversa em conversa, não levanta mais a mão
para bater. O marido tem vitiligo. Expliquei para ela sobre a doença e hoje,
graças a ela, não existe mais a vergonha que ele tinha de fazer sexo sem estar
vestido dos pés à cabeça.
Há uma troca, entende?
Não dá para pensar em fazê-la deixar de existir. Meu grande pecado foi juntar
um monte de Luzinete num livro só. Ainda assim, consegui (os textos começaram
com um propósito e o livro construiu outro.)
Você
continua pintando?
Que nada! Furaram meus
óios! Fiz uma cirurgia que não deu certo. Todo o humor vítreo do meu olho vazou
e perdi um tanto de visão. Estou aguardando um momento para operar a outra
vista (o estepe). Preciso de uma clínica e de um médico de alta especialização.
Mas minha pintura era
medíocre demais, não me faz falta. Escrevo um pouco
melhor do que pinto. Meu forte, no entanto, é o fogão! E minha missão agora é acabar com a
formatação do Luzinete e entrar na correção dos novos textos para o novo livro.
Também de contos e mais aprimorado.
O
que você anda cozinhando no seu fogão?
Comida
acreana: feijão com maxixe, couve, quiabo, jerimum e jabá e rabada no tucupi.
Também faço uns vatapás e outras comidinhas baianas. E comida síria, minha
especialidade maior.
Além
do Luzinete você está organizando outro livro? Para quando?
Sim. André estará aqui
em casa até o dia 10 de julho para tocarmos o novo empreendimento. Este, ainda
sem título, será prefaciado por Henrique Silvestre.
São trinta e poucos
contos. Selecionaremos uns 25 ou mais um pouco. É que não parei de produzir.
Durante a estadia dele
aqui arrumaremos o Minhas Vidas Alheias
que ficou com uns defeitos na formatação. Logo após revisaremos os novos
escritos. Em minha opinião, alguns textos são bem melhores do que os que se
encontram no Minhas Vidas. Afinal, as mães acham seus filhos bonitos...
Na fé em Deus, este
ano, parirei Luzinete e o outro.
(Antes
de enviar outra pergunta, recebo de Leila uma nova mensagem: Parece produção em
massa, não é? Acontece que tenho motivos de ter pressa. Sei lá até quando me
será permitido produzir!)
Como
é sua parceria com o André?
Nem sei explicar
direito. É uma relação de amor e ódio. De concreto, ele é meu revisor e meu
crítico. E cuida do visual do produto final. Escolhe capas, etc e tal.
Nosso momento mais
conflituoso é na hora da escolha do nome do livro: É guerra!
O que eu queria, de
verdade, era casar com ele. Mas... Ele já é casado.
Você
disse, no começo, que o Acre foi seu lar e seu cárcere. E hoje, o que é o Acre
pra você?
Sim, o Acre foi meu lar
e meu cárcere. Aí nasci. Nasci ao lado do Instituto São José, quando ele nem
existia. Bem na entradinha do bairro das meretrizes sem luxo.
Enquanto vovô esteve
vivo, tudo ia de vento em “polpa”. Era um lugar, meio que mato, meio que centro
da cidade. Cobras, macacos, lagartos, aranhas venenosas, formigas tucandeiras e
outros animais sem grande significado de peçonha adoravam perturbar meu sono. E
o calor debaixo do mosquiteiro de filó, hein? Tudo mórbido demais! O clima do
Acre é mórbido.
Do lado bom, a mesa
farta, a vida em família, os teatrinhos e as danças domingueiras para agradar
as vistas do velho Ibrahim e da velha Otília. Depois tinha a loja cheia,
pequena no tamanho e grande para os meus olhos. Tinha do charque e do querosene
à renda francesa e aos sapatos de luxo da época. A vitrine de perfumes da Coty
e as caixinhas musicais onde pequenas bailarinas saracoteavam ao som do “Il
lago di Como” e “Pour Elise”. E tinha o principal, o elemento humano: os
fregueses.
Foi ali, naquele
ambiente, que conheci o Mestre Irineu Serra, o filho de escravos Teodorico
Francisco do Sacramento, a negra Eugênia e outros pretos velhos de grande valia
e bondade. Também, ali, conheci o velho Montenegro, que ainda tem muitos
parentes circulando “pelaí”.
Morreu vovô, morreram
os seringais, morreu a infância e começou a hora de botar meu bloco na rua. Ao
trabalho, pois!
Tenho vontade de contar
detalhes. Isso daria um texto de muitas laudas. Contar do meu Acre, do que foi
ter sido brasileira por opção daria direito a ser demitida pelo editor chefe do
meu jornal. E por justa causa! A prolixidade não é mais meu forte. É que o
tempo “ruge”. Poderia escrever um livro, mas, em respeito aos que morreram e à
cadeia hereditária que formaram e ainda circula por aí, melhor deixar de lado.
E foi na fase adulta
que o Acre virou prisão. Meu desejo era estudar e alçar voo. Voos longos,
distante de empregos públicos, de preferência. Embora deva tudo ao Acre e saber
que o Acre não me deve nada, essa é pior parte da história de qualquer um que
viva nessa dependência. Mamar nas tetas da grande vaca, como pensam alguns
(muitos), não alimenta. Ao contrário, adoece.
Um ilustre nome da área
trabalhista, depois de ler minha monografia, perguntou-me, em particular, o que
estava fazendo no Acre. Dei calado por resposta. Mesmo insatisfeita, sempre
soube dos meus vínculos e das razões de estar onde estive e dos porquês de ter
debandado. Tudo tem sua hora. Hoje, pode parecer besteira, prefiro crer que
minha estrada não foi traçada só por mim.
O mundo diminuiu de
tamanho, você sabe disso. As distâncias encurtaram. Estar na Europa, nos
Estados Unidos ou nos Emirados Árabes deixou de ser viagem e virou
deslocamento. Tudo é “bem ali”! E
“baratim, baratim”! Nem mais desperta tesão. Pelo menos em mim, não! Basta uma ou duas vezes, no máximo! Já
fartei, pois!
O Acre de hoje, para
mim, é o único lugar que está longe. Muuuito longe! Embora digam que “longe é
um lugar que não existe”.