* Elson Martins
![]() |
A seringueira Marina Silva, a caminho de um "empate" (Foto: Tião Fonseca) |
Acabo de ler na UOL que Antônio Campos, irmão do candidato
Eduardo Campos (PSB) à Presidência da República, falecido na manhã de
quarta-feira num desastre aéreo, em S. Paulo, apoia a indicação de Marina Silva
(a vice) para substituir Campos na cabeça de chapa. Devo admitir que a noticia
calou bem no meu coração ideológico, de esquerda, acreano e amazônico.
Estava propenso a votar na Dilma, do PT, mas se o nome de
Marina for confirmado, vou alterar a escolha, para ser coerente com os
sentimentos que moldam minha vida. Entendo que Marina terá mais compromisso com
o Acre e com a Amazônia que a Dilma, porque é filha de seringueiro; porque
abriu caminho numa vida sofrida na floresta; porque é iluminada e sabe enxergar
com o coração as necessidades fundamentais dos povos da Amazônia.
Pessoalmente, até que tenho queixa contra ela. Acho que nunca
deu muita importância ao jornalismo que pratico no Acre há meio século, supostamente,
porque não fiz parte (sou mais velho) do iluminado grupo de História da
Universidade Federal do Acre que ela liderou e arrastou para os movimentos
socioambentais e para a politica, com brilho. Ou porque nunca aprendi a rezar. Ou, ainda, porque escrevi um texto discordando
do projeto de florestas públicas que ela aprovou quando ministra do Meio
Ambiente no governo Lula.
“Mas o negócio não é bem eu...”
Lembrei da música “Minha História”, do compositor e cantor
João do Vale. Analfabeto, nascido no pequeno município de Pedreira, no
Maranhão, aos 16 anos migrou para o Rio de Janeiro e foi trabalhar na
construção civil. Na época já compunha baião, tão bem, que um deles caiu nas
mãos da famosa Dalva de Oliveira que o gravou. Seus amigos de profissão riam
quando dizia: “Olha, essa música que a Dalva está cantando no rádio é minha”!
Quem ia acreditar naquele negrinho bobo dos anos cinquenta? Só
mais tarde, em plena ditadura militar, levaram pro palco o autor de “Carcará”, “Pisa na Fulô”, “Carolina”... E de “Minha
História”, esta gravada por Chico Buarque de Holanda:
Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião
Minha história pro senhor, seu moço, preste atenção
Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá
Enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar
A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
E quando era de noitinha, a meninada ia brincar
Vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar:
-O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
Hoje todos são "doutô", eu continuo joão ninguém
Mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
Ver meus amigos "doutô", basta pra me sentir bem
Mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
Ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
E dizem: - João foi meu colega, como eu me sinto feliz
Mas o negócio não é bem eu, é Mané, Pedro e Romão,
Que também são meus colegas e continuam no sertão
Não puderam estudar, e nem sabem fazer baião
Embarco nessa sabedoria. Não vou escolher Marina para o meu
próprio bem; eu a escolho pelo bem dos acreanos de um modo geral, sobretudo, dos
que ainda não puderam estudar e “não sabem fazer baião”. Quero o bem dos
extrativistas, dos indígenas, dos agricultores mal assistidos... Quero o bem dos ribeirinhos,
das famílias que foram expulsas de suas colocações na floresta, num passado
recente (décadas de setenta e oitenta), e tiveram que migrar para as cidades
acreanas onde vivem ainda desarrumadas, dependendo de mais investimento
estadual e federal para melhorar de vida.
Reconheço que o Acre avançou muito nos governos do PT e da Frente Popular, e que Lula e Dilma fazem bem ao estado e ao Brasil. Mas, no cenário politico atual, vejo Marina próxima da ideia de sustentabilidade, mais que os demais candidatos à Presidência. Também me anima saber que ela participou das comunidades eclesiais de base da igreja de D. Moacyr Grechi, foi amiga de Chico Mendes e lutou, com coragem e inteligência, contra a destruição de nossas florestas.
Ah, ela é (ou foi) amiga dos irmãos Jorge e Tião Viana, e ajudou a fundar o PT.
N.A: Texto publicado na sexta-feira, 15,
no jornal A Gazeta, no Acre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário