sábado, 10 de maio de 2014

BR 364: Acreana por excelência

* Elson Martins

No feriadão da Semana Santa, entre 17 e 21 de abril, percorri os 650 km da BR-364 de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, num carro pequeno (um Fiat Siena 1.0), para ver se é verdade o que alguns políticos que desdenham das coisas do Acre dizem da estrada. Não é. Ela pode parecer imperfeita, mas  não oferece riscos, e tem qualidades que a torna fundamental para a sustentabilidade do Estado.
  
Saí na madrugada de quinta-feira, 17, de carona com um casal cruzeirense. Paramos para algumas fotos e para comer uma farofa num restaurante na beira do Rio Gregório. Não demoramos mais que 9 horas na ida, e também na volta. Afirmo com todas as letras que a estrada não é o inferno que alardeiam. Eu até me preveni, induzido pelo agouro, optando por um tênis velho e uma calça esgarçada para empurrar o Fiat, escapar de algum atoleiro, afora os riscos de trombar com veículos pesados que nos jogassem pro meio do mato.

Fui preparado para enfrentar o pior a partir de Sena Madureira. Sabia que de Rio Branco até o município, passando pelo Bujari, os solavancos persistem desde que o trecho foi asfaltado, no inicio dos anos 90. Não importa! Há pelo menos duas décadas, tem sido possível trafegar sem interrupção, e isso vale muito. Quantas vezes, mais atrás, quis visitar minha irmã Altinha, que mora lá com uma reca de filhos e netos, mas teria que escolher a opção avião, já que a estrada passava a maior parte do tempo interrompida. Então, pensava na pista de pouso que tem lá e desistia!

A estrada de 650 km tem mais de 30 pontes sobre
rios e igarapés, quatro acima de 300 m e uma,
sobre o Rio Juruá, de 550 metros. (Foto: Elson Martins)

Nos anos 1970, participei como jornalista da Operação Amizade, que contou com aviões e helicópteros de países da América Latina para sobrevoar o espaço aéreo do Acre, levando serviços médicos aos seringueiros e ribeirinhos em áreas remotas. Embarquei num Bandeirante da FAB, com escala em Sena Madureira, e o piloto era o brigadeiro Protásio de Oliveira, da Aeronáutica, um pioneiro da aviação na Amazônia que calculou mal o pouso e teve que arremeter a aeronave causando arrepios nos passageiros. Imaginem se não fosse um brigadeiro!

Agora, no pequeno Fiat, mantive olhos e ouvidos abertos. Sabia que o fantasma do Rio Madeira obrigara o governo a escancarar o trecho  até Cruzeiro, vulnerável no inverno, para trazer combustível e gás de cozinha comprados em Manaus, o que me pareceu uma baita provocação à temida tabatinga existente entre Manoel Urbano e Feijó. Na verdade, esperava encontrar a estrada em frangalhos, e me aborrecia ter que concordar com políticos boquirrotos que não gostam do Acre e por isso vivem a esculhambar com nossas dificuldades e tradições.

Em 1986, fiz a primeira viagem pela BR, ainda sem asfalto, do jeito que o 7o. BEC (Batalhão de Engenharia e Construção) do Exército a deixou, em 1975. Naquele ano (86), o jovem engenheiro Flaviano Melo, que tinha entrado na politica como prefeito biônico de Rio Branco, nomeado pelo Presidente da República na ditadura militar, se lançou candidato ao Governo do Estado pelo PMDB. Como fez boa gestão na capital, os acreanos (eu inclusive) acreditavam que seria também um bom Governador. Ele, entretanto, conhecia pouco da efervescência política do  Estado, na época,  e tanto quanto outros que o antecederam temia a belicosa “bancada do Juruá” na Assembleia legislativa, numerosa, mas nem sempre edificante.

Já se respirava a volta dos militares aos quarteis e no Acre começavam pesar fatores eleitorais fortes à esquerda: além dos oito sindicatos de trabalhadores rurais fundados pela Contag, e a Igreja de Dom Moacyr Grechi, com mais de mil Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) e o Partido dos Trabalhadores (PT)  engatinhando no caminho das urnas. Longe das encrencas locais, porque vivia no Rio de Janeiro, Flaviano, amparado politicamente pelo pai deputado Raimundo Melo (PMDB), considerado “o pai dos pobres”, precisava de luz própria. Por isso, sua equipe de campanha recomendou que enfiasse o pé na BR-364, no rumo do Juruá.

Afinal, como engenheiro da Construtora Mendes Junior que ajudou a construir a ponte Rio-Niterói , o candidato poderia realizar o sonho dos acreanos de asfaltar a estrada. Montou uma caravana com três ônibus novos da Viação Rio Branco, mais três a quatro camionetes F-1000 com tração nas quatro rodas, colocadas à sua disposição, além de alguns veículos menos adequados,, de puxa-sacos de plantão, e seguiu em cortejo embalado pela musiquinha de campanha: “O que o povo quer será”!

Após cinco dias de atoleiro e pernoites mal dormidos, a caravana chegou a Cruzeiro em festa, causando um “frisson” na cidade. Os atropelos da viagem e também o acanhamento do candidato estreante, contudo, não atrapalharam a estratégia eleitoral. Foi eleito governador com votos dos vales do Acre e do Juruá em clima esperançoso. Mas o que o povo queria de verdade – a conclusão da estrada com asfalto - só aconteceria três décadas e meia depois, em 2013, no governo  da Frente Popular. E coube ao governador Tião Viana cortar a fita.


Acreanidade vence os agouros

Famílias oriundas da floresta ocupam a beira da estrada e acenam
aos passantes dando boas vindas (Foto: Elson Martins)

Com a cadernetinha de repórter e esferográfica em punho, passei a fazer anotações. Em Sena Madureira começa o pior trecho, que vai até o rio Caeté, na direção de Manoel Urbano. Em vários pontos tem buracos, afundamento no asfalto e desmoronamento nas laterais, mas nada que prudência e velocidade reduzida não resolvam. E logo aparecem duas belas e sólidas pontes construídas sobre os rios Caetés (175 m)  e Purus (407 m) que animam. Até Cruzeiro, são mais de trinta, das quais são imponentes as que atravessam, além do Purus, os rios Envira (300 m), Tarauacá (300 m) e Juruá (550 m), em concreto armado, com investimento de R$ 245 milhões.

Na sequência vem o trecho mais temido, de Manoel Urbano a Feijó, que até  surpreende: a profunda tabatinga que parecia intransponível deu lugar a toneladas de brita, pedra e cimento importados da Colômbia, restando um leito sólido com pequenos afundamentos pelo tráfego pesado. Sem exagero, dá pra falar em tapete sobre a tabatinga. Outro trecho ruim, só vai aparecer nos 46 km entre Feijó e Tarauacá, que é meio antigo e demanda recapeamento. Daí pra frente a viagem flui cada vez melhor. Ou seja, dos 650 km do percurso, apenas 80, se muito,  vão exigir reparos no próximo verão.

Logo, percebi que a estrada tem importância especial para os acreanos, os “nascidos” e os “de coração”. Pode parecer imperfeita, presumo, para quem não consegue enxergar os traços de acreanidade que existe nela, nem valoriza seu perfil histórico, ambiental e cultural. Ela não se parece, por exemplo, com a BR-317, Rio Branco-Brasileia, porque nas suas margens não tem cerca de arame farpado, nem pastos imensos afastando a floresta, nem mansões coloniais vigiadas por vaqueiros e capangas. Também não se vê o boi tomando o lugar do homem, como tão bem registrou o nosso magistral pintor primitivo, Hélio Melo .

O que se vê na BR-364 é a união dos extremos do Acre, um traço paralelo à Linha Cunha Gomes que faz divisa com Rondônia e Amazonas ao norte; e ao sul, amarra os rios que levam às comunidades das cabeceiras, onde convivem extrativistas e ribeirinhos com grupos indígenas em reservas que, somando com os parques nacionais e áreas protegidas, desenham um corredor ecológico na fronteira internacional com a Bolivia e o Peru. Com a estrada, mesmo imperfeita, os vales do Purus, do Juruá e do Acre podem ser considerados uma coisa só, alimentando a ideia de um futuro com florestania.

Ao longo dos 650 km aparecem sítios e casinhas com excelência acreana: varais estendidos com roupas coloridas, pequenos açudes, bananais, roça de mandioca e cana Caiana, para fazer açúcar mascavo e alfinim. Também se vê muitas crianças e a família inteira na janela, acenando, dando boas vindas. No cruzamento de rios e igarapés, que ganharam pontes reforçadas, nascem as vilas com povos da floresta. Anotei sinais (plaquinhas) dessa cultura desarmada e original privilegiando a simplicidade e o afeto: “Pensão da Tia”, “Aqui tem café com bolo”, “Temos açaí de Feijó”...

Não consegui por a mão, ainda, num projeto detalhado que o governo tem para ocupar e desenvolver a região da rodovia. Sei, entretanto, que a ideia é apostar nos sitiantes tradicionais para plantar cocos, açaí, café e outras espécies, bem como incentivar a criação de peixes, galinhas e suínos. Também prevê hortas e um pouco de gado leiteiro. As famílias assentadas já contam com a propriedade da terra e com a energia do programa Luz para Todos. Falta melhorar o transporte, mantendo ônibus novos em circulação. Os poucos que vi estão sucateados e oferecem riscos que não podem ser atribuídos à estrada.

Na travessia do Rio Gregório, paramos num restaurante da pequena vila que brota no lugar e almoçamos a farofa que levamos, feita com carne de sol. A dona do estabelecimento, sorridente, cedeu os pratos e os talheres, e mandou que uma jovem nos atendesse sem cobrar pelo atendimento. Isso é um gesto generoso, tipicamente, da cultura da floresta.


Uma epopeia

Já se vão mais de 40 anos desde que a BR-364 Rio Branco-Cruzeiro do Sul começou a ser aberta pelo 7o. BEC, do Exercito,  com duas frentes de trabalho: uma partindo de Cruzeiro até o Rio Gregório; outra na direção contrária, saindo de Rio Branco. Carlinhos, o condutor do Fiat em que viajávamos, era do batalhão e participou da primeira equipe de 14 homens que entrou na mata bruta em 1971 para uma permanência de dois meses na frente pioneira. Ele disse que parte dos alimentos era lançada de avião, em paraquedas,  e os militares completavam o rancho com a caça, o peixe e frutos colhidos na floresta. Havia fartura: o soldado Do Vale matou, de uma só vez, 12 pacas.

Em meados dos anos setenta o Batalhão largou a estrada, cabendo ao desestruturado Departamento de Estradas de Rodagem do Acre operar o milagre de manter o que estava feito. Assim se passaram os anos até o início de 2001, quando o então governador Jorge Viana se interessou em avançar com a melhoria dos trechos mais complicados. Conhecendo o histórico da estrada e ouvindo horrores sobre a tabatinga, Viana chegou a pensar em estrada de ferro como alternativa. Mas a ideia não vinga. É forte no Congresso Nacional o lobby que defende o transporte rodoviário.

Ou seja, a alternativa era conseguir recursos de Brasília para finalizar a estrada problema. O ex-governador Orleir Cameli (falecido), antes do Jorge Viana, tentou isso, mas o buraco era mais embaixo. Como dono de construtora, asfaltou alguns trechos, ganhou dinheiro e se aquietou. Jorge foi além porque contou com o mestre e tutor politico Luís Inácio Lula da Silva para abrir o cofre federal. No seu Governo da Floresta, cujo logotipo era uma arvorezinha daquelas que se vê enfeitando cadernos escolares, o Acre ganhou estatura ecológica. Digamos que fez o dever de casa: produziu o ZEE (Zoneamento Econômico Ecológico) e ajudou a formar um corredor de áreas protegidas junto a fronteira internacional com Peru e Bolivia. O Parque Nacional da Serra do Moa, a Reserva Extrativista do Juruá, , as terras indígenas, incluindo a dos Isolados e o Parque Estadual do Chandless, entre outras, passaram a fazer parte desse corredor.

Cada trecho pronto foi uma festa para o governo, parlamentares,
técnicos e moradores da beira da estrada (Foto: Secom)

O ex-governador (hoje senador) saiu com o irmão Tião Viana, atual governador (na época senador) para arrancar recursos do PAC e convencer o DNIT, o órgão gestor das estradas federais,  a enxergar sua responsabilidade nesta ponta ocidental da Amazônia. Coube ao historiador e professor Binho Marques, sucessor de Jorge no governo (2006-2010), com dinheiro em caixa promover a conclusão do trecho acreano. Nunca se viu tanto rebuliço no império da tabatinga: seis empresas construtoras, 1500 máquinas pesadas, 3 mil e quinhentos homens metendo a mão na massa, montanhas de terra, brita, areia, cimento e ferro sendo removidas de um lado para outro, tudo acontecendo sobre a critica insensata dos pregoeiros do Apocalipse.

Binho passou o bastão ao Tião Viana que enfrentou um contingenciamento de verbas em Brasilia, mas o superou, após remover a tabatinga de alguns gabinetes. Nos anos 2011, 2012 e 2013, as seis empresas que tocavam a obra abandonaram os canteiros e coube o Deracre, mais uma vez, garantir sobrevida à BR. O engenheiro Marcus Alexandre, atual prefeito de Rio Branco, então na direção do departamento, com seus funcionários e 100 empresas terceirizadas na execução concluiu a rodovia em 2013.

“Eu fui ao Acre e vi que, realmente, a construção da BR-364 no estado é uma epopeia”- declarou o ministro do Transportes, César Borges, ano passado. Que bom que ele viu!

Riqueza da floresta

A BR-364 entre os extremos do Acre tem no entorno da parte sul um potencial natural ainda pouco conhecido, mas que já se sabe enorme. A estrada é  quase uma linha reta de 520 quilômetros contados a partir de Sena Madureira, ou de 440 quilômetros se contados a partir de Manoel Urbano. No entorno se estende o complexo florestal do Mogno e Liberdade (referencia ao Rio Liberdade), onde se acha a maior concentração de mogno na Amazônia. Da linha em zigue-zague da fronteira com o Peru e a Bolivia descem rios poderosos como Purus, Envira, Tarauacá e Juruá correndo no sentido  transversal, com mistérios e tesouros a serem desvendados.

A informação parte de quem tem a responsabilidade de cuidar desse patrimônio ambiental no Estado: o titular da Secretaria de Indústria e Comércio e do Desenvolvimento Florestal, Edvaldo Magalhães, e seu secretário –adjunto  Fábio Vaz. Os dois trocam experiências enriquecedoras com as comunidades tradicionais que ocupam as margens da rodovia e, na medida do possível, vão adequando a linguagem técnica aos anseios dos sábios da floresta.

Até agora, a estrada tem sido ocupada por ex-seringueiros e ribeirinhos, além dos indígenas cujas aldeias acompanham 20 quilômetros da rodovia nas proximidades de Cruzeiro do Sul. Isso impõe, de algum modo, um diálogo entre saberes, entre as tecnologias do planejamento governamental e as praticas tradicionais.

Levei algum tempo conversando com os dois na quinta-feira passada. Edivaldo lembrou um encontro que manteve com moradores sobre a formação de vilas ao longo da BR-364 que poderão se transformar em cidades no futuro. Uma senhora de nome Aparecida fez um discurso que ficou gravado e o deixou emocionado:

-Ela disse que queria uma vila com cara de floresta. E essa vila está nascendo na beira do Rio Gregório. Construímos casas de madeira como a comunidade quer, e até o coordenador do projeto foi escolhido entre eles.  A coisa funciona rápido e simples quando são eles que escolhem como fazer.

Segundo o secretário, vários projetos estão em andamento nas cidades de Feijó, Tarauacá e Cruzeiro do Sul, e todos estão relacionados às possibilidades de desenvolvimento sustentável envolvendo famílias extrativistas. Em Feijó, por exemplo, foi criado um projeto de fruticultura com uma despolpadora de frutos e empacotamento de grãos, prevendo o crescimento da produção de açaí. Já foram plantados 2 mil hectares  da espécie. E está previsto em curso, também, a produção de bananas prata, maça e comprida, e 115 moradores desenvolvem a criação de peixe em açudes.

Outro projeto considerado promissor é o manejo comunitário de madeira com 200 famílias já contratadas. O secretário garante que o manejo será feito “do jeito deles”, com serraria portátil e modo tradicional de arrasto. “Vamos legalizar a prática deles, tradicionalmente sustentável”. A atividade será fortalecida, segundo Edvaldo, com polos moveleiros montados em Tarauacá  e Cruzeiro do Sul. Neste município já existem 15 industrias trabalhando.

Considerada capital do Vale do Juruá, Cruzeiro tem uma população com característica empreendedora invejável. Há décadas se ouve falar bem da farinha local, considerada a melhor do país (e quiçá do mundo); do pó de guaraná, do biscoito de goma, dos barcos que eles constroem por lá e do refrigerante de guaraná. Edivaldo, que é cruzeirense, se orgulha de contar a história da “Vó Didi” (falecida há cerca de um mês, com 90 anos), que trouxe do Ceará a receita do biscoito de goma. A mágica é simples: o biscoito só presta se for secado ao sol.

Pois uma fábrica de biscoitos será inaugurada na cidade no próximo dia 10 de maio, com 12 secadores de sol. Várias mulheres que receberam a receita como herança de Vó Didi organizaram a cooperativa Cooperbiscoitos e vão tocar a fábrica construída pelo governo com financiamento ambiental. Outra novidade vem de uma família que constrói barcos em Cruzeiro. Trata-se da “Bajola”, uma voadeira com motor de “rabo” que bate os modelos de metal em velocidade e estabilidade. Certamente, também no preço. Tem mais: Os filhos do senhor Zinho  (falecido), tradicional plantador  e industrial do guaraná, decidiram manter a atividade do pai e acabam de lançar o refrigerante “Cruzeirense”, produzido numa fábrica que em julho  começa a funcionar em escala regional.

Todos esses produtos made in Vale do Juruá, como preveem Edivaldo Magalhaes e Fabio Vaz, poderão sair pela estrada e conquistar mercados com protagonismo e cultura diferenciada. Quem sabe, substituindo gostos, práticas e conceitos bolorentos.   


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Quem tem medo de Leila Jalul?

* Por Vássia Silveira

A ideia veio em uma sexta-feira de friagem, em Rio Branco. Eu havia acabado de receber um e-mail de Leila avisando que Luzinete tinha virado livro. Daí ao convite para a entrevista e a resposta positiva da autora, foi um pulo. Mas como entrevistá-la à distância – sem correr o risco de perder sua intensidade ou espontaneidade?

Encontrei a resposta no conta-gotas do remédio à minha frente: era preciso ir devagar, sentir aos poucos as palavras e os silêncios dessa escritora acreana que, aos 64 anos e do alto de seu apartamento em uma cidade baiana, nos brinda com textos cada vez mais inteligentes e ácidos.

Propus-lhe, então, enviar apenas uma pergunta: Quem é Leila Jalul? E foi a partir da resposta dada que eu e Leila fomos construindo, no ciberespaço, a prosa que resultou nesta entrevista.  Uma experiência iniciada no dia 8 de junho e encerrada, quase um mês depois, com um saldo de 69 e-mails, oitenta cigarros e alguns goles de cerveja.


Quem é Leila Jalul?

Esta eu respondo por música: “Sou como um resto de bebida/ Que alguém jogou fora/E agora, farto de mim, me esqueceu/ Eu fui mais uma taça desprezada/ Quis ser tudo e não fui nada/Ninguém é mais triste do que eu”.

Isso me fez pensar em outra composição cantada por Nora Rey: “Se o caminho da rua ainda é a porta/ Se você não me suporta/Eu sei sair por onde entrei”. Nos dois casos, Leila, o que ou quem é esse outro que despreza?

No meu caso, sou eu mesma. Vou te contar uma do Marmo (Antonio Marmo, ex-marido de Leila): Ele estava procurando emprego e bateu na redação de um jornaleco, pior do que esses daí, e foi direto para a sala de entrevista. Entrou uma moça, que se apresentou como psicóloga, com uma página em branco e fez a seguinte pergunta, com recomendação para ser respondida em apenas vinte linhas: Quem sou eu?
Marmo, prepotente como ele só, tasca a resposta, mais ou menos assim: “Você, segundo me foi comunicado, é uma psicóloga do setor de Recursos Humanos e está aqui para entrevistar os que aqui estamos em busca de uma vaga de jornalista. Sua pergunta me deixou perplexo e digo por quê: Como poderia, em apenas cinco minutos de convivência, dizer quem é você? Do que vejo e sinto, você é uma pessoa extremamente séria e disposta a cumprir seu papel de selecionadora dos candidatos aqui presentes. Fisicamente, com todo o respeito, você é uma mulher bonita e bastante simpática...”
E foi por aí... Saiu da sala e desistiu do emprego.

Você teria feito diferente?

Um pouco pior, talvez!

Já que você tocou no nome do Marmo, como foram ou são os amores de Leila?

Você quer dizer dissabores? Os amores não foram. De bom, de ótimo, há um bem querer enorme pelos netos, Hector e Catarina. Tomara que vingue! Tomara que cresça!
(Logo em seguida recebo uma mensagem de Leila: “Ei, pareço amarga, não? Mas é verdade. E em outro e-mail: “Reformulo: só se tem um grande amor. Quando acabou, acabou. Não há mais que falar de amor”)

Por falar em crescer: eu passei parte da infância frequentando sua casa e a imagem que guardei é a de que era um ambiente criativo, revolucionário, inquieto. Era isso mesmo?

Os tempos eram inquietos. Eu tinha hormônios selvagens. Minha casa era o reflexo disso, do tempo e dos hormônios.

Fale um pouco dessa época...

Havia um acre perdido dentro de um país fudido. Um acre sendo vendido aos pedaços para os "paulistas" – como eram tratados os sulistas, de forma generalizada – e uma trinca de jornalistas dispostos a ganhar uma guerra com um estilingue chamado Varadouro. Um estilingue possante, diga-se. E que cumpriu seu papel. Não fiz parte direta do Varadouro, mas fui, em algumas vezes, a braçal que ajudava na encadernação e levava uns lanchinhos para os “cobras grandes”.

Havia medo, principalmente. Depois havia uma universidade em gestação e muitos brutos no comando. E mais medo. Muito medo. Mas havia, também, uns meninos enjoados e valentões que pensavam grande (e pequeno, também).

Junte-se tudo isso num caldeirão e pense nas borbulhas salpicando água quente para todos os lados. E pense que o fogão, na maioria das vezes, era o lá de casa (você, mesmo criança, entendia tudo. A partir das preocupações do seu pai, entendia e bem!).

Leila Jalul, escritora, pintora e inquieta (Foto:arquivo pessoal)

Quem eram esses meninos enjoados e valentões?

A começar pelos “oficiais”, Binho e Marina (Marina Silva, ex-senadora e candidata à presidência do Brasil). Havia o Toinho Alves, o chefe dos Libelúdicos. Não vou lembrar o nome de todos, mas o Toinho é bem representativo. O bastante, eu diria!

Vou te contar uma do Toinho: Quando ele era pequeno, numa noite de Natal, ganhou uma roupa de soldado romano. No outro dia, doido para mostrar o presente, vestiu a roupa e foi fazer inveja aos colegas de rua. Quase morreu de raiva! Os meninos da rua estavam todos vestidos de caubóis, com revólveres de espoleta e dizendo: “Mãos ao alto, não se movam!” Tudo no estilo Roy Rogers (Ator estadunidense de faroeste)!
Mas hoje, reflito que aquela roupa de soldado romano, com a reluzente espada e capacete dourado, foi muito importante para a formação do Toinho. Ele jamais atiraria com balas.

Olhando hoje para o passado, no que resultou aquele caldeirão de água quente?

No que deveria resultar: os verdadeiros combatentes, para usar uma palavra da época, continuam coerentes. E pobres! Outros venderam a alma.

Enquanto movimento, o melhor resultado chegou com o reconhecimento de que a floresta é importante. O mundo conheceu a luta do Chico; os "paulistas" aposentaram os chicotes e os troncos.
Na universidade mudaram os esquemas do CCC e do SNI, apareceram novas lideranças e, por um período, ficou parecida com uma Instituição de Ensino Superior de verdade.

Honestamente, minha análise é tão xucra, que me envergonha. Muitas coisas mudaram, isso é certo. Muitas coisas, no entanto, devem ter piorado. O estado, ao que parece, está à mercê dos grupos religiosos...
Sou bastante livre para dizer o que penso, até por não ter religião. Se não bati continência para os milicos, por que bateria para pastores? Acho que o inferno está cheio de milicos danosos, políticos canastrões e de falsos pastores. E de analistas xucros! (risos)

O Acre (e um tanto do Brasil) não sabe o que deve ser um estado laico. Arrisco dizer que o Brasil está equivocado em questão de fé e de política.

Falando em religião, a Marina Silva, que você citou com uma das pessoas que compunha o grupo de jovens enjoados e valentões, hoje faz parte da Igreja Evangélica. Qual sua leitura a respeito?

Veja, Vássia, eu não tenho nada contra religiões. Tenho contra espertalhões, principalmente das igrejinhas e denominações que proliferam nos fundos de quintais e de vinculações e vertentes duvidosas. Tenho tudo contra os exploradores de pessoas ingênuas.

Religião, perfume, roupas, músicas, escritores, maridos, maridas, são escolhas pessoais. Fiquei realmente espantada quando soube que a Marina havia se tornado evangélica. Talvez por deformação de entendimento de minha parte. Fiquei igualmente pasma quando soube que a Jane Villas Boas também havia se convertido. Demorou um tempo para que o meu tico e o meu teco entendessem as razões.

Nesse mesmo espanto, quase estupor, acompanhei a rendição da Baby Consuelo. A louca encontrou Jesus, não é espantoso?

Só que, com o passar do tempo, a conversão de Marina me soou diferente. Todos nós sabemos que ela é sobrevivente dos metais pesados e das cacetadas de malárias que contraiu na sua vida seringueira. E que a ciência aceita a fé como instrumento de cura. Então é isso aí: por questão de foro íntimo, por necessidade, Marina encontrou Jesus e fez com ele um pacto. E está aí, para quem quiser ver.

A prova dos nove, tanto faz ser Marina ou Dilma Rousseff, é não confundir Estado com opções pessoais. Droga, aborto, casamento gay e outras tantas questões não devem e nem podem ser resolvidas à luz da fé pessoal de quem quer que seja. A droga é. O aborto é.

Você é acreana de onde? Fale um pouco de sua família, sua infância.

Sou acreana de Rio Branco. Filha de Zizinha (Azize) e de Manoelzinho Araújo, dois perdidos numa noite suja. (Referência à peça de Plínio Marcos, encenada em 1966)

Vovô Ibrahim era o manda-chuva e vó Otília uma megera adorável. Fui (in) feliz na medida justa. O acre foi meu lar e meu cárcere.

O bonito e o feio, o certo e o errado, enquanto lição, eu aprendi onde nasci e com quem me criou. E ai de quem achar que não foi!

A referência à peça de Plínio Marcos para retratar seus pais tem algum fundo de verdade? Ou é uma ficção de Leila Jalul?

Não ao pé da letra! Mas tudo a ver. Adoro o Plínio Marcos!

Mamãe era de Umbanda e papai de Quimbanda. As bandas não batiam. Os dois eram filhos de família e se uniram em família. Mas continuaram perdidos numa vida suja.

É uma ficção. Quase! Se houve alguma coisa boa, com certeza, esconderam de mim. Papai era muito sujo! (risos) E muito gente!

Retrato a carvão de Leila, feito por Jorge Rivasplata

E o que isso representou para sua infância? Como era a vida em família, os irmãos, seus medos e sonhos?

Papai era alcoólatra de renomada. Mamãe era triste. Também de renomada.

Papai era jogador e “quengueiro” por vocação... Mamãe era escrava do pai dela.

Não lembro de quase nada do núcleo. Vovô era o grande ditador: ditava normas e cagava regras.

Ao mesmo tempo em que essa parafernália deu medo, também deu desejo de libertação. Fui pai e mãe de meus irmãos mais novos. Ao todo éramos cinco. É que as duas mais velhas não contavam. Papai fugia, voltava e emprenhava mamãe. E nasciam um após outro. Cuidei de todos com certa dose de amor.

Fiquei cansada. Não havia espaço para sonhos. Entrei de sola na vida para alimentar bocas. Não houve retorno. E nem pedi.

De tudo isso sobrou uma constatação: se ninguém morreu de fome, que sejam felizes. Muito felizes. Sempre!
E parece que são.

Não sei avaliar a infância. Nem a adolescência, nem a fase adulta. Estou melhor na velhice. Sozinha e dona de mim.

E como foi em meio a tudo isso, estudar e chegar aonde você chegou?

Foi difícil. Muito difícil...

Aos cinco anos fui para um internato em Sena Madureira. Completei seis anos neste internato e ganhei de presente um copo de leite com Nescau. Mamãe não podia cuidar dos filhos por causa do trabalho escravo na loja de vovô.

Aos 12 anos fui ficar com uma irmã de mamãe que morava em Niterói. Nesta época, vivi terror e preconceito.

Tudo foi lição, entretanto. Aprendi a ser independente: Voltei para o Acre e, com atestado de arrimo de família concedido pelo Dr. Lourival Marques, comecei a trabalhar como aprendiz (de feiticeira).

Tentei estudar num curso noturno e desisti. Só havia contabilidade e eu não tinha habilidade para números e contas a pagar. Só voltei a estudar aos vinte e um anos, já casada e grávida. Fiz um supletivo de vergonha, com aulas presenciais e excelentes professores. Aos vinte e dois entrei no curso de Direito com excelente classificação. No ano seguinte fiz vestibular para o curso de Letras, também com excelente classificação.

Não dei conta de fazer os dois cursos simultaneamente e fiquei só no curso de Direito. Mas não parei por aí. Ainda fiz duas pós-graduações: Administração de Recursos Humanos e Direito do Trabalho. Enquanto estudei, por sorte, fui muito focada e dei conta do recado.

Você falou da loja de seu avô, que loja era e onde ficava?

O comércio do meu avô ficava ali na esquina da Floriano Peixoto com a Ruy Barbosa. Era um comércio de secos e molhados; rendas francesas, calçados, brinquedos, armarinho e tudo em geral. O nome da loja era casa Paraybana, em homenagem à segunda esposa.

Mamãe era peça-chave do comércio.  Vovô não falava português. Ele conseguiu ser mais preguiçoso que eu. Além de preguiçoso era irascível!

Fala um pouco dessa experiência em Niterói... De que forma você viveu o terror e o preconceito?

Em Niterói convivi com a tia, o tio e dois filhos deles. Fui com a obrigação de ajudar nas tarefas domésticas e estudar. Ajudei e estudei. Mas o tratamento era bastante diferenciado entre nós, meninos.

Havia também uma tia da minha mãe. A mulher era uma louca. As filhas da mulher eram loucas. Fui bastante humilhada por causa do meu pai. Qualquer um se achava no direito de cuspir na minha cara.

As histórias de vida são engraçadas. Há pessoas que se vangloriam e ganham pontos com elas. Até porque despertam piedade. Não é meu caso! Lavei panos de bunda, ouvi impropérios, fui sugada na minha juventude. E daí? Contabilizei tudo de bom e de ruim para buscar a liberdade.

Com quantos anos você voltou para Rio Branco?

Antes de completados os 14 anos. Cheguei pouco antes do Natal e já no dia 27 de dezembro comecei a trabalhar.

Nesta época você tinha os livros como companhia?

Sim. Quando saí da casa da tia fui para o internato do colégio onde estudava (Colégio São José, em Niterói). A biblioteca era enorme. Muitos livros do Monteiro Lobato. A coleção Tesouros da Juventude e mais um tanto de títulos bons. Era um colégio de freiras mineiras. Freiras de Manhuaçu e Manhumirim.
Havia ordem e premiação por méritos. Comecei as minhas atividades tomando conta de uma cadela, a Zoraide. Depois passei para a horta. Depois para a cozinha. Terminei minha vida acadêmica na secretaria do colégio.

Este colégio, o São José, das Sacramentinas de Nossa Senhora foi a minha base educacional. Foi nele, também, que iniciei minha vida política (frustrada). Pertencia ao movimento Juventude Estudantil Católica (JEC). Minha professora de inglês, a Maria Helena, era comunista da hora.

Como leitora, que livros marcaram mais a sua vida?

Tudo marcou. Aprendi a ler. Às vezes não entendia o que lia, mas lia. Devorava livros, esta é a verdade.

Ainda em Niterói fiquei sabendo que mamãe estava passando necessidades. Para voltar para o Acre, creia, mamãe vendeu um fogão esmaltado (movido a carvão). Voltei e comecei a trabalhar. Depois de um tempo fiquei sócia do clube do livro. A estas alturas tinha dinheiro para comprá-los.

Li com ansiedade. Com sofreguidão, diria.  Entre muitos, O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), Ulisses (James Joyce). Li Os Miseráveis (Victor Hugo). Li Dante, Tolstóí, Marquês de Sade. Li, li, li. À luz de velas, de lamparina e de candeeiro. Entrei nos livros de bolso. Li Tex, li CorinTellado.

Um dos livros mais marcantes foi a tragédia de Sacco e Vanzetti (
contada por Katherine Anne Porter em livro traduzido no Brasil por Sebastião Uchoa Leite). E Crime e Castigo. Para uma delinquente juvenil, nada melhor. Também adorava os latinos: Vargas Llhosa, (Carlos) Fuentes, (Manuel) Scorza e Gabo (Gabriel Garcia Marques). O Clube do Livro era sortidão! Também fui sócia e limpadora de cadeiras do Cineclube do Carlitinho da Núbia. Período de ouro, diria! (continua...)

N.E. Esta entrevista foi realizada em 2012, originalmente para uma revista acreana que segue sendo gestada. Dada a extensão da conversa, ela será publicada em partes no blog.

domingo, 4 de maio de 2014

É mais sustentável no seringal

* Elson Martins

A cheia do Rio Madeira em fevereiro e março, que para os acreanos ainda não terminou, colocou em cheque a ideia de que o Acre de Galvez e Chico Mendes pratique de verdade o desenvolvimento sustentável. Bastou 60 dias de interrupção do trecho da BR-364 entre Rio Branco e Porto Velho para que governo, comerciantes, “barnabestas” e todo mundo corressem para estocar gasolina, gás de cozinha, cerveja, arroz, leite em caixinha e em pó, ovos etc – com as mãos e o caos na cabeça.

Os ricos donos de supermercados foram os primeiros a alarmar a população dizendo que não conseguiriam repor estoques; e os postos de gasolina venderam num mês o dobro do que costumavam vender, porque muitos enchiam o tanque, corriam para esvaziá-lo em casa, em depósitos diversos, depois voltavam para a fila para pegar mais. Os executivos do comércio e da indústria correram a pressionar o governo para que conseguisse créditos especiais e o alargamento de prazos para os comerciantes poderem liquidar faturas no banco.

O choro espalhou e contaminou atividades que não tinham nada a ver com alagação. Uma feirante que nos abastecia de ovos caipira a 7 reais a dúzia, sem mais nem menos, passou pra 10  e sem corar pôs a culpa no Madeira. Tomate, mamão, cheiro verde, farinha, macaxeira, banana, tudo subiu de preço e até agora se mantém lá em cima, como se as águas não tivessem baixado, ainda.

O pior é que ninguém conseguiu uma explicação plausível sobre o que aconteceu nas cabeceiras do rio no Peru.  Ouvimos falar que o Madre de Diós teve a maior enchente dos últimos cem anos e só! O que mais se viu foi autoridade falando que as hidrelétricas Girau e Santo Antônio, recém-construídas em Rondônia, não tiveram nada a ver com transbordamento. Até a Presidenta, que sobrevoou a região atingida num helicóptero, se apressou em negar qualquer influencia das barragens das usinas.

Mas eu li pelo menos dois artigos de estudiosos, afirmando que não se pode descartar, pelo menos, um agravamento da inundação . Afinal, as usinas enfiaram no leito do Madeira toneladas de cimento, pedra e aço, e esse entulho só pode ter atrapalhado o escoamento natural pela calha do rio.

Com relação à sustentabilidade, pensei que o Acre aproveitaria a crise de abastecimento para provar que é possível recorrer a formas alternativas de sobrevivência. Se me chamassem a opinar sobre o assunto, eu diria que na Rio Branco dos anos cinquenta a gente se virava nos trinta. Faltava pão, comíamos macaxeira cozida, pão de milho, banana comprida (cozida ou feito mingau), bejú, farofa com banha de porco, jerimum...

O governador Tião Viana agiu como um herói dos trópicos, querendo apagar centelhas por todos os lados, brigando contra a força da natureza. Quase esqueceu que tinha acabado de concluir  o trecho Rio Branco- Cruzeiro do Sul da 364 acreana, garantindo tráfego no inverno. Quando lembrou, mandou vir gasolina e gás de Manaus, utilizando balsas até Cruzeiro, e de lá, a estrada com trinta pontes até Rio Branco. Seria como se os macapaenses precisassem se valer de produtos importados de Caiena, via BR-156.

Caminhões de combustível vieram do Peru (Foto: Arison Jardim)

O pior de  tudo, acho, foi que a população de um modo geral se mostrou fragilizada, em pânico, correndo para fazer estoques antes que o vizinho saísse na frente. Tem consumidor que comprou tanta caixinha de leite que parte delas pode estar apodrecendo. E outros talvez precisem abrir uma vendinha de gás de cozinha. Ninguém pensou em improvisar um fogão a lenha no quintal, juntar  pedaços de pau entulhados na rua, inventar um chá das cinco para substituir o café sumido.

Pior do que o pior de tudo foi não refletir sobre o recado que a natureza ofereceu com a tragédia. Seria tão fácil, com a ajuda da Internet, saber dos monstros que estão se formando pela aí, no mundo! Li que, na Groelândia, o gelo tá derretendo com velocidade imprevista, fazendo o nível do mar subir mais rápido do que supunham os cientistas. Está dito que se o gelo continuar derretendo assim, num tempo estimado em décadas, nem tantas, toda a massa gelada vai virar água e fazer o nível do oceano subir 7 metros.


Isso seria suficiente para deixar debaixo d’água 80 das 100 maiores cidades do mundo, alertam os pesquisadores. Quanto ao Rio Madeira, será que tem algum monstro se formando nas cabeceiras?

domingo, 16 de março de 2014

Meton

* Elson Martins

Meton e sua alegria: foto tirada por Waldemar Marinho 

Ele foi precoce na boemia. Se enturmou com os mais velhos na pacata Macapá da segunda metade dos anos sessenta e se fez imprescindível. Devia ter uns 16 anos, na época. Era inquieto, divertido e provocador. Revelava-se, também, quando se falava em cultura, um excepcional ator. Ou escritor, ou um bom contador de histórias. Graças a ele, conheci a poesia fascinante do pernambucano Manuel Bandeira. Ficava pasmo ao ouvir aquele moleque tão chegado à putaria, de modo anárquico, recitar o “Berimbau” com tanta ternura, perfeição e graça:

“Os aguapés dos aguaçais
Nos igapós dos Japurás
Bolem, bolem, bolem.
Chama o saci: - Si si si si!
- Ui ui ui ui ui! Uiva a iara
Nos aguaçais dos igapós
Dos Japurás e dos Purus.

Isso era a cara, melhor dizer, espírito e corpo do Meton: “A mameluca é uma maluca/Saiu sozinha da maloca/ O boto bate – bite bite.../ Cruz, Canhoto”!
Ele recitava com as pernas, os braços, retorcia a boca, virava os olhos, imagino que o Manuel Bandeira escangotava de rir lá no céu!

Isso valia uma rodada de pinga!

Jamais vi amapaense mais amapaense que ele. Da poesia para o mau humor e o destempero era um passo. Manifestava com a mesma desenvoltura todas as ambiguidades e ambivalências locais. Também conhecia as anedotas e lembrava de cór os personagens e pessoas de todos os tempos, que fizeram e fazem a história lúdica do Amapá. “Bota mais uma”! Ele era crítico impiedoso dos maus políticos, sobretudo dos “estrangeiros” que apareciam por sua terra querida “puxando uma cachorrinha”, depois, pela via da corrupção e do cambalacho, empunhavam garras contra o povo.

Do dinheiro até que ele gostava, mas não para guardar em banco fazendo planos de capitalista babaca. O que tinha ganho era pra beber e comer bem, viajar, comprar novidade eletrônica. Foi na casa dele, há pouco tempo, que vi uma TV Sony de 60 polegadas adornada de uma parafernália de som de última geração. Tinha custado o preço de um carro, a prestações. E como ele gostava de mostrar aos amigos, naquela maravilha de tecnologia, suas preferências em vídeo: Que tal Beatles, ou Maria Betânia, ou jazz clássico?

Ah! Esse ambiente era apropriado para o que tinha de melhor a oferecer: sua performance como chef de cozinha. Pense num tucunaré na manteiga! Numa caldeirada de filhote! Numa gurijuba ao tucupi! Sua mesa era grande, dessas em que se serve banquetes. E com a ajuda da Solange, sua alma gêmea, ele orquestrava o ritual gastronômico fingindo que não se exibia, orgulhoso de sua culinária.

Eu fui, posso afirmar, um privilegiado sujeito que durante mais de quarenta anos privei de sua amizade. Chegamos a ser sócios num bar (a Thenda) montado nos fundos da Galeria Comercial da avenida Getúlio Vargas, nas proximidades do Colégio Amapaense. Um terceiro sócio era o Capi. Isso, lá pelos idos de 1970. Tratava-se de um bar, como diria outra velha amiga minha, para “filosofias e trapaças”. No bom sentido!

Segunda-feira, 11, ao abrir meus e-mails, li um recado do Bené da Comissão da Verdade: “O Meton morreu nesta madrugada. Dormindo”! Meu Deus! La se foi embora mais um pedaço do Amapá que não se quer perder. E meu amigo Meton me prega mais essa: Como morrer dormindo, em paz, sem ensinar aos amigos como se faz?

Bom, imagino que o porteiro do céu o recebeu tal qual a mameluca de um dos poemas do Manuel Bandeira:

- “Entra, Meton, você não precisa pedir licença”!


quinta-feira, 13 de março de 2014

Florestas do meu exílio


*Elson Martins


Li o livro do Capi faz algum tempo e sei que ele aguardava que escrevesse algum comentário, mas eu vinha sentindo dificuldade de desenvolver qualquer texto, por menor e simples que fosse. Talvez por ter vivido muito próximo dos personagens durante boa parte da narrativa, antes e depois do exilio, o que poderia resultar em intromissão indevida. Também não me agradava a ideia de parecer piegas ao tentar fazer avaliação literária. Sou péssimo nisso.

Preciso dizer, entretanto, que gostei muito do livro e o recomendo a todos, principalmente aos jovens que pouco sabem da ditadura militar que infernizou a vida de gerações passadas no Brasil. A história é real, está bem contada e pode servir de exemplo nos dias de hoje: de coragem, desprendimento, ideologia, amor coletivo e, também, amor e confiança extremos entre duas pessoas nascidas nas entranhas da Amazônia.

Ousaria dizer, com algum receio de ser contrariado, que esse amor entre os dois foi o que houve de mais verdadeiro e revolucionário durante toda a saga que eles viveram. Sem esse amor imenso, enriquecido por outros sentimentos humanistas fecundos, particulares e universais, eles não teriam resistido a tanto horror e provação.

Leiam e releiam, portanto, o “Florestas do meu exilio” com esse olhar diferenciado, com mais sentimento e menos conceito, pra ver se não vão se deparar com a história numa dimensão duplicada da vida, com afeto, confiança, sonho, ousadia e desapego material infinitamente ampliados!

Eu fui testemunha privilegiada desse acontecimento. Talvez por ser também da Amazônia, nascido nas brenhas de um Acre isolado e invisível, ao conhecer o casal já estava predestinado a ser cúmplice “para o que desse e viesse”. Acompanhei choros, ciúme, medos, desentendimentos que não passavam de encenação na construção de um elo afetivo indestrutível, com mil matizes de ação  nem sempre clara, nem sempre acolhedora, nem sempre justificável do ponto de vista de quem pensa coletivamente.


Janete e Capi em lançamento do livro

Aí, me dispus a ser parte dessa revolução imprevisível, nervosa, de ida e volta sem fim.

Acho que, de algum modo, nunca me desgarrei dos dois (Capi e Janete), mesmo quando a ditadura espalhava o boato de que tinham sido “eliminados” pelas forças da repressão, para não dar mau exemplo. Nem quando sumiram para atravessar não uma, mas quatro ditaduras da América Latina até ressurgirem de braço com a liberdade no Canadá distante, e na África do fim do mundo.

Eu me orgulho dessa história por ter restado parte dela na minha casa em Belém, após a fuga do Capi da Santa Casa de Misericórdia, onde se encontrava com licença de saúde do Presídio São José, mantido sob forte guarda. Fui algumas vezes à casa da Janete atrás do presídio, uma delas na tal noite (relatada no livro) em que o Capi convenceu, com argumento infalível, um segurança a saírem os dois do hospital, de madrugada, para visita-la e logo retornar. Eu e uns poucos amigos aguardávamos na casa suspeita tomando cuba-libre (rum com cocacola), ouvindo o vinil que Caetano Veloso (também no exilio) tinha gravado na Inglaterra.

Ah! Ninguem estava sossegado. Capi e o policial somente chegariam por volta das 3 horas da madrugada, e quando chegassem, Capi ou Janete levaria um copo de cuba-libre para o segurança, que teria de permanecer na sala, numa rede, sem identificar as visitas. Na cozinha, ouvíamos “A Little More Blue,” “London, London” e uma versão estonteante da música “Asa Branca”, do velho Luiz Gonzaga.

Deu tudo certo. Era apenas um teste para o que aconteceria numa outra noite: a extraordinária fuga do casal com a filhinha Artionka, de oito meses de idade, numa canoa rio acima para a história tão detalhada no livro.O risco na casa da Janete ficou indelével nos que permaneceram no prolongado medo e nojo da ditadura militar.

Na versão reinventada de “Asa Branca”, Caetano canta um refrão em forma de grunhido: nhaung- nhaung- nhaung- nhaung... Tão novo, tão lindo, tão triste, tão ameaçador que nos provocou um riso geral e descontrolado, um mal súbito, um prenúncio de saudade e dor.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Deus nos acuda!

* Elson Martins

As alagações não são novidades  na Amazônia. E no Acre temos notícia de que no passado aconteceram algumas maiores que as que se vê nos invernos da atualidade. Uma vez eu entrevistei um idoso de Tarauacá, no vale do Juruá, e ele contou que seus avós falavam de um dilúvio que invadiu a floresta assustando até os macacos. Estes, coitados, são sempre lembrados nas tragédias que viram piada. No tempo da malária braba, se dizia que eles trocavam um cacho de banana por um comprimido de Aralem na fronteira com a Bolívia. Imagino que nas inundações preferem sacos encauchados.  

O problema é que hoje tem mais gente a ser acudida nas áreas urbanas e isso agita os segmentos políticos, a mídia e, claro, as famílias socialmente desarrumadas que moram nos bairros atingidos. Tanto que já contamos com alguns “bruxos” fazendo previsões e manchetes que ignoram os macacos. Um deles é o doutor professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), David Friale, especialista em climas que acerta nas previsões de chuvas, temporais e friagens.

Mais recentemente um outro professor, o Reginâmio Bonifácio de Lima, licenciado em história e doutor em Teologia apareceu com previsões nem tanto científicas quanto as do Friale, mas que em 2008, contrariando as previsões oficiais, alertou que as águas subiriam muito em 2009 e acertou: 1.500 famílias tiveram que abandonar suas casas naquele ano.

Da mesma forma, contrariando as expectativas, ele descartou alagação em 2013, mas advertiu que em 2014 o aguaceiro poderia atingir 60% da capital.
Reginâmio, 32 anos, acreano de Rio Branco, é especialista em Cultura, Natureza e Movimentos Sociais na Amazônia e atua como pesquisador e policial  na diretoria de Ensino da Polícia Militar do Acre. Também lidera o “Grupo de Pesquisa Sobre Terras e Gentes: Amazônia em Foco, que publica livros na área de história e estudos culturais, entre os quais “Memórias de Velhos”.

Rio Madeira, foto de Sérgio Vale
 Ele encabeça um grupo de estudiosos  que inclui a esposa, Maria Iracilda, os irmãos Pedro e Regineison e a especialista em história e cultura Lelcia Maria Monteiro de Almeida. Reginâmio recorre a estudos feitos pelo professor Antônio Monteiro, da Universidade de São Paulo (USP), que permite previsões bastante confiáveis; à Prefeitura de Rio Branco que disponibiliza mapas obtidos por satélite; ao Ministério de Ciência e Tecnologia e ao Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) que também fornecem pistas.

Nas suas fontes “confiáveis” estão os velhinhos da floresta. Essa turma tem entre 90 ou cem anos de idade e sabe coisas “do Acre da velha” que beiram a precisão. Eles sabem que quando as formigas ficam agitadas na floresta é sinal de muita água. E que os jabutis tratam com antecedência de subir os barrancos mais altos quando o inverno vem com força. Os mais sofisticados se guiam pelas safras de manga e outros frutos: se são grandes num ano, tem alagação no outro.

As previsões para 2014, entretanto, oferecem elementos novos que, certamente, as formigas e os jabutis desconhecem. A Organização das Nações Unidas divulgou ano passado que o aquecimento global até o final do século 21 será “provavelmente superior” a 2 graus, superando o limite considerado seguro pelos especialistas. E que até 2100 o nível do mar deve aumentar perigosamente de 45 a 82 centímetros; e o gelo do Ártico poderá diminuir até 94% durante o verão local. Isso pode significar que também o gelo dos Andes derreta em nossa proximidade, gerando enchentes capazes de encobrir cidades amazônicas como Manaus, Belém e Macapá, para citar somente capitais.

Mas isso são previsões remotas, ainda, e quem sou eu pra me arvorar a “bruxo” e sair assustando as pessoas! De qualquer modo, é novidade que fortes chuvas nas cabeceiras do Rio Madre de Dios, no Peru,  estejam influindo na alagação do Rio Madeira em Rondônia. Tanto que a BR-364 foi interrompida e o Acre permanece sem contato terrestre com o mundo, sem gasolina etc.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mundo sem burocracia

* Elson Martins

No período de 2007 a 2010 eu trabalhei na Biblioteca da Floresta, em Rio Branco, participando de uma equipe que desenvolveu trabalhos importantes sobre o diálogo entre os saberes, ou seja: os saberes da tradição e os saberes da modernidade. Em 2009, gravamos dois chefes indígenas ashaninka do rio Amônia, Shãsha e Txeni, que falaram com desenvoltura sobre seu modo de vida. Os ashaninka possuem reserva na fronteira do Acre com o Peru e são descendentes dos Inca. Durante a gravação, fiz algumas anotações e fiquei impressionado com o alto nível do discurso sobre a organização deles. Vale a pena refletir sobre o que falaram:

Francisco Shãsha Ashaninka: 

- Os povos indígenas se organizam com um projeto de vida bem complexo. Para nós, o defeito quando acontece não está na pessoa, mas no nosso jeito de orientar. A responsabilidade é de todos. Na aldeia você é membro de uma grande família. Eu não posso ter o respeito só com meu pai, meu avô. Tenho que chamar a todos de pai, mãe, avô, irmão. Falo que tenho 50 pais, 50 mães, 200 irmãos. Essa é uma segurança que a gente tem. Não se chama ninguém pelo nome. Chama de pai, irmão, avô...
- O particular está no contexto social do grupo: é praticando que se mostra o que faz. Uma criança cresce aprendendo a fazer tudo. Isso é básico, para ele aprender a viver na sociedade. Quando dois jovens se casam, eles vão construir isso, para serem contados como parte da aldeia.

- Entre nós existe uma organização profunda, o nosso mundo funciona bem. Não tem burocracia. Sai tudo de dentro da pessoa, nada vem de fora.


Imagem do filme A gente luta mas come fruta, sobre o manejo em terras Ashaninka

- Quando separaram nossa floresta em Brasil e Peru, no passado, sentimos que estávamos morando na terra dos outros. Os não índios impuseram regras. Então, um outro tempo de nossa vida foi garantir nosso território. Foi difícil, a maioria de nós desconfiava: será que querem acabar com a gente? Mas começamos a nos sentir seguros com o movimento dos seringueiros e de outros grupos indígenas.

- Esses processos não mudaram nosso jeito de pensar. Mas fomos forçados a colocar em questão o diálogo com outros grupos. Estamos vivendo hoje um momento que nos deixa muito felizes.

- Nós entendemos o canto dos pássaros e outros sons da floresta, e ficamos tão íntimos dela que passamos a entender tudo. Quando um não índio chega a nossa aldeia, a partir do jeito como ele olha a gente, já entendemos como nos vê. Nem precisa falar. Às vezes as pessoas falam coisas bonitas mas não passam segurança. Elas precisam começar a “ver” de verdade.

- O problema dos Ashaninka é um problema do planeta. Queremos dialogar com o mundo inteiro. Não queremos ser do jeito de vocês, nem que vocês sejam como nós. Mas estamos no mesmo barco.

Moisés
Txeni Ashaninka:

- Tradição é uma palavra muito forte. É como uma árvore que está em pé, fincada na terra, mostrando sua beleza e dando frutos. A mesma coisa é a idade. Uma geração trabalha para as novas gerações.
- Muitos não índios fazem perguntas sem sentido para as quais não temos resposta. É como colocar um barco onde não tem rio. É preciso dar significação às perguntas. Eles costumam tratar a gente como pessoas que não sabem nada. Eu não vou perguntar algo assim a vocês. É preciso haver respeito entre os povos. Sem respeito não existe diálogo.
- Semente, árvore, folha, flor... nosso povo conhece isso e também o espírito das árvores. É dessa forma que sabemos respeitar a floresta. Para nosso povo todo mundo é doutor e todo mundo é mestre. Porque você sozinho não sabe de nada. Mas, juntos, sabemos tudo.
- Esse diálogo (entre saberes) é uma coisa muito bonita. É uma coisa que, mais para frente, vai permitir aos não índios entenderem que no nosso mundo tem tudo que precisamos, como no mundo de vocês.