segunda-feira, 29 de junho de 2009
Notícias da Leila Jalul
Entrevista
Temos uma Bienal do Livro em Rio Branco entre 29 de maio e 7 de junho. Você vem?
- Rio Branco está ficando chique demais. Até Bienal do livro? Como diria minha comadre Marlize Braga, chique perde! Olha, ir para este evento é um caso a pensar. Estou com mais de dez mil milhas para ir de graça e voltar sorrindo em qualquer avião da TAM que não enfrente turbulências. Porém, sempre existe na vida um “porém”, lembra desse bolero? Acontece, querido Elson, que ando meio jururu e você vai entender as razões nas respostas que abaixo darei, está certo?
Minha saudade é brutal. O Acre é a razão dela. Esse torrão torrado, por mais que seja sacaneado e vilipendiado é meu torrão torrado e a parte que me cabe deste latifúndio. Longe dele, sou menina passarinha com vontade de voltar. Tenho medo, muito medo, pelos motivos que bem conhece.
Seu livro Suindara (genial!) estava por ser traduzido para outra língua... Aconteceu?
- Suindaire, genial ou quase, foi cogitada para uma versão francesa. Elucubrações e devaneios - amigo! Puta e pura fantasia de quatro heróis da resistência inorgânica, de Aurélia Hübner, André Alexandre, Simony Pessoa e esta que vos fala. Tudo coisa da mente fantasiosa de quem cria que a grande obra de Leila Jalul alçasse grandes vôos e atravessasse fronteiras. Atravessou, a bem da verdade, mas não foi além de Portugal, congêneres e adjacências, entende? Não pude contratar marqueteiros e... Apenas uma amiga de Londres e outras de São Paulo arriscaram a queimação dos seus dedos e de suas almas. Quem tem cu, tem medo, entende? Não tenho culpa de gostar de Hilda Hilst. As pudicas que me perdoem. Mas nada mudou. Está tudo “très joulie de boucett enfant”, oui, monsieur? Vamos deixar como está para ver como é que fica! Suindaire é linda, inclusive no português de barranco.
Conta pra gente: Em que jornal, revista, blog ou site você publica seus textos, atualmente?
- O que faço em Porto Seguro? Porto Seguro é, digamos, um lugar que não existe. Fico e estou sempre perto dele, porém, moro num porto inseguro, onde me escondo da insensatez da justiça brasileira, “aun que jamás tenga” infringido as normas do bem da coletividade e dos bons costumes. Esse é um assunto para depois. A justiça do Acre soube, e como soube! afastar um cancro neurótico e maligno da sociedade. Infelizmente, na instância superior, fica provado que, culpado, é quem denuncia sem máscara. Coisas das leis retrógradas e dos códigos seculares. Se o Acre se viu livre de mim, em compensação, ganhou dois bandidos experientes que riem da lei, da justiça, dos magistrados, jurisconsultos e dos comerciantes locais.
Esse tópico me faz mal, entenda. Se posso dar conselhos ou sugestões, espero que os pais cuidem de suas filhas e filhos. Pedófilos, sejam americanos, índios, astronautas, governantes, hoteleiros, jornalistas, desembargadores, profetas e militantes hão de sempre ser e sempre serão. É um tipo de crime desprezível e continuado.
Xô, depressão!
Antes de deixar o Acre, você admitiu ter outro livro na agulha. Seria uma história proibida para menores, sobre a Universidade Federal do Acre. O projeto está de pé?
- O livro está pronto! Não será uma história proibida. A Universidade é nauseabunda para quem bunda não tem. Tem mais, meu camarada, o novo livro não aceitará, nem sob tortura, que você sugira o título, compreende? Aquele “rasga mortalha” ainda ecoa e rasga meus intestinos, minhas orelhas, além dos meus mortos, claro! Crash! Crash! Piuí, piuí, abacaxi! Sem chancha, negão! No novo livro tá todo mundo vivinho da Silva e Souza & Cia Ltda! Tudo e todos rescendem a suor, lágrimas e cerveja.
O projeto está de pé, eretíssimo, com ou sem Viagra financeiro. Alguns personagens você vai reconhecer, mesmo com dificuldades. Estamos velhos, brother! Os textos, crônicas, contos, causos, ou seja lá o que sejam, já estão sob os olhos de Aurélia Hübner. Quer ser o orelhista ou o apresentador? A escolha é sua!
Finalmente: Como você vê o Acre e os acreanos de onde você está?
- Amigo Elson, eu vejo o Acre talqualmente como ele é. Nasci acreana e assim morrerei. Não harará nem haverá acordo ortográfico que altere o meu pensar. A mim me ofende ver os apressadinhos, incorruptos e desfraldados de imaginação, em tão curto espaço de tempo mudarem minha identidade. Diga-se de passagem, esta não foi a única correção que desagradou. Os reformistas são muitos... são muitos, mas não sabem voar. Substituir jabá por charque, confesso, até que não me assusta ou deprime. Agora esse tal de acriano, rejeitarei até meus últimos dias. Se o lema do Juventus é crescer e a alegria do Juventus é vencer, acreana, acreana, acreana, eu sou e serei até morrer. Ponto final.
E assim, jamais serei baiana, exceto no que diz respeito ao fuso horário.
Faço a última pergunta, parecida com a penúltima: é difícil para você, se sentir baiana?
A Bahia é linda! De longe, muito longe, confesso, jamais será mais linda que meu Acre de hoje e de antes.
Não sei mais falar de meus patrícios acreanos. Há dias que leio sobre o Seu Arnóbio, o the Best, e balanço pés, pernas, pescoço e bacia. Se ele apoiar um pedófilo, seja secretário, seja gente comum, sem sombra de duvidas pisarei no seu cadáver. Não consegui entender as razões de Binho não afastar um suspeito até que as acusações contra ele fossem apuradas. Se Joana D’Arc é doida, que seja queimada de pronto. Perto do Obelisco, de preferência. Se Binho estiver correto, desculpas devo e ele que me entenda, entende? Nós, os contrários, sem bastões ou coroas, saberemos, quer de longe, quer vizinhos, avaliar o nosso sentido de caminhar junto e encaminhar os que sentam nos tronos e nos dirigem para um caminho que acreditamos seja o mais correto para o Acre.
Amigo Elson Martins, se honrarias tive nesta vida, não foi apenas com acreanos de nascença. Sou feliz e continuarei sendo por havê-lo conhecido quando, por razões óbvias, deixei que você ajudasse a formar a cabeça que tenho e a capacidade de saber dizer, inclusive nesta entrevista.
E tenho dito!
Notas: 1- Leila Jalul é advogada aposentada, da Universidade Federal do Acre (UFAC); 2- O que teria causado sua saída do Acre tem a ver com um pedófilo e presumível psicopata que se envolveu com sua família. O sujeito foi preso em 2007, mas, já foi solto e representa ameaça social.
Uakti: música tirada do vento

Músicos excelentes, instrumentos altamente instigadores, muita criatividade e sensibilidade formam o grupo mineiro Uakti, personagem de uma lenda amazônica materializado por Arthur Andrés, Décio Ramos, Paulo Santos e Marco Antônio Guimarães, fundador do grupo e principal idealizador dos instrumentos simples e exóticos que tornam Uakti referência mundial na música instrumental.
Os três músicos passaram 15 dias em Rio Branco, dando uma oficina de música instrumental aos alunos dos cursos de música, teatro e artes plásticas da Usina de Arte João Donato, auxiliados por João, assistente do grupo.
O Uakti existe há 30 anos, tendo gravado 11 CDs e 1 DVD neste período, e participado do trabalho de diversos outros artistas consagrados como Milton Nascimento e Philip Glass, em trilhas sonoras para balés e filmes, sendo o trabalho mais recente a trilha do longa Ensaio sobre a Cegueira de Fernando Meirelles.
Com este currículo dá para notar que não estão aqui para brincadeira. São músicos compenetrados que passam além de didática específica para o estudo rítmico, uma noção de concentração e envolvimento com a música, além do respeito com os instrumentos. Estes, por sua vez, são de tirar o fôlego de qualquer um. Por menor conhecimento musical que se tenha, é impossível não se admirar com a sonoridade produzida a partir de tubos de PVC afinados para serem batidos, assoprados, tocados com a mão ou pedaços de borracha encapados com meia soquete. Para não falar das marimbas de vidro e madeira que podem levar seus ouvintes aos recantos mais inusitados de sua imaginação, tamanha a transcendência alcançada pela sensível sonoridade produzida pelas teclas nas mãos de seus tocadores.
Nem por isso, este trio de virtuoses é sisudo e esnobe. Com grande humildade e graciosidade, ensinaram os oficineiros a ler as figuras geométricas, que são um tipo de partitura rítmica criada por eles, através de dinâmicas e brincadeiras, levando todos às gargalhadas inúmeras vezes. Com cerca de 50 participantes na oficina, em sua maioria não músicos, Décio comenta que este público sempre recebe muito bem a proposta, pois acredita que a música está em todas as coisas, basta sabermos lê-la.
E assim foi feito: no Teatro Plácido de Castro, logo nos primeiros dias de oficina, os alunos fizeram música a partir das poltronas, portas, janelas e escadas. “O resultado é muito bom, porque a pessoa não tem nenhum tipo de vício, está fresquinha, pura, recebe e entende facilmente tudo aquilo que é proposto. Geralmente estas pessoas, como a gente trabalhou aqui, com pessoas que nem todas são da área de música, têm idéias muito boas, que se tornam idéias musicais e que soam muito bem”, observa Décio.
E sobre estar pela primeira vez no Acre, Paulo comenta: “foi uma grata surpresa, pelo que a gente esperava do Acre, pois a gente tem sempre uma visão meio distante, meio indígena e a gente encontra uma cidade super-estruturada, com pessoas de várias partes do Brasil a fim de trabalhar; e pra gente isso é muito bom, pois viemos fazer um trabalho que teoricamente poucas pessoas conhecem. Mas, na verdade tem um público aqui que quer vivenciar isso, que quer fazer um trabalho bom e passar pra frente esta nossa didática, o que é muito legal. É uma coisa que a gente sentiu bem surpreendente, muito agradável. Foi muito além da expectativa”
O show
Fechando sua programação no Acre, o grupo Uakti se apresenta neste fim de semana (16 e 17) no Teatro Plácido de Castro, a partir das 21 horas. O repertório foi composto para um balé do também mineiro Grupo Corpo, mas no show as músicas estão adaptadas para a performance dos instrumentistas com seus instrumentos. “Nós temos vários repertórios, mas este show é para um primeiro contato, onde tocamos uma variedade grande de instrumentos. O Uakti tem esta nuance em seus repertórios, de apresentar os instrumentos e mostrar que é possível tocar coisas muito simples e fazer música com aquilo”, comenta Paulo.
A lenda
O nome UAKTI deriva de uma lenda indígena dos índios Tukano do Alto Rio Negro, Estado do Amazonas, como descreve Elza Camêu, estudiosa da música indígena brasileira:
“Os estudo de E. Bianca sobre os índios do rio Tiquiê, (afluente do Alto Rio Negro) revela mais um aspecto da criação de instrumentos. Uma lenda, referente ao herói Uakti, desses índios, diz que ele violava e pervertia as mulheres, por isso foi capturado. Era um monstro de formas humanas, horrendo e tendo o corpo aberto em buracos. O vento, ao atravessar-lhe o corpo, produzia sons soturnos e lúgubres. Uakti foi morto e sepultado. No lugar em que o enterraram nasceram três palmeiras altas, que passaram a guardar o grande espírito de Uakti. Desde então, os instrumentos de Uakti são feitos do caule dessa palmeira. O timbre dos instrumentos corresponde aos sons tirados pelo vento ao passar pelo corpo esburacado de Uakti. E em razão do comportamento de Uakti, as mulheres que vissem ou ouvissem o som dos instrumentos ficariam imundas. Por isso, se uma coisa dessas acontece, a mulher teria ou terá que fatalmente ser sacrificada”.
O fim é o começo
O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, conheceu o Uakti em 1966, ficou encantado e escreveu o texto a seguir que está na apresentação do CD 21 lançado em 1997:
Metade Deus. Metade Diabo. Na exata e mineira medida, como é a vida. Num único espaço e tempo estão juntos porque necessariamente diferentes, e necessários um ao outro: não há vida sem morte, prazer sem dor, sim sem não, princípio sem fim, agudo sem grave, veloz sem lento, grande sem pequeno. Deus sem Diabo. Tudo é metade e o contrário da outra parte, diferente para fazer a unidade do que é contrário. Foi escutando o Uakti que aprendi o que sempre me recusei a aceitar: que todo diferente é, no fundo, parte de um mesmo igual. ‘Yin’ e ‘Yang’. Deus e o Diabo, num empate aceito pelos dois, eis o mistério. Negado em todas as partes, mas não em Minas Gerais, onde o empate é reconhecido no se, no talvez, no não sei se sim ou se não, na indefinição que define todo o saber e fazer.
Em Minas o normal é o empate. O desempate é puramente provisório. Minas Gerais, estado particular e único do Brasil. Central, no meio de tudo, com extremos, mas sem se definir. Um lugar onde a vida e a morte conversam todo o tempo sem se despedir. Terra de Milton Nascimento, de João Guimarães Rosa e do Uakti, sem mar, mas com imensidão. Terra onde a liberdade foi esquartejada na Inconfidência Mineira de Tiradentes no século 18, mas permanece de corpo inteiro. O lugar onde a liberdade dura ainda que tardia. Enfim, o mistério.
Foi lá que nasceu o Uakti e só poderia ser. Quatro anjos vertidos em demônios entraram na música e fizeram uma grande filosofia pela via das notas, do estalo, do contraste, do espanto, da doçura e da violência sem limites do som que ultrapassa todas as barreiras. Transcenderam o tempo e o espaço, reescreveram Einstein por cima de toda relatividade. Foram tão acima de tudo que tiveram que inventar até os instrumentos. E inventaram como Deus fez no começo e o Diabo ajudou.
Deus inventou a humanidade, o Uakti inventou o instrumento da música. Não se pode entender o Uakti sem se levar esse choque do totalmente Deus e totalmente Diabo, uma coisa que todo mineiro entende e aqueles que podem praticam.
O fim do mundo está no começo. E o Uakti é esse Verbo.
Vale a dica
Entre os 11 álbuns do grupo, Águas da Amazônia se destaca por esta particularidade: tem inspiração em nossos rios, foi composto por Philip Glass para o espetáculo “Sete ou oito peças para um ballet” do Grupo Corpo, e interpretado pelo Uakti. As músicas recebem nomes dos rios da região, como “Xingu River” e “Purus River”, sugerindo corredeiras e redemoinhos que revelam a linguagem (ou alma) da cada um. O álbum custa 20 reais.