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Iaco, o rio da minha infância (Foto:Sérgio Vale/Secom) |
Um menino de Tarauacá de nome Leandro Tocantins se tornou escritor
e historiador premiado. Lá pelos anos 30, cunhou a expressão “o rio comanda a
vida” que definiu, poeticamente, a descoberta e ocupação do Acre. Também descreveu
a saga dos homens e mulheres que nos idos de 1877 escaparam da seca do Nordeste
para mergulhar no dilúvio amazônico.
Um outro menino, nascido na França do século 19, também se
deixou inspirar pela relação com o rio de sua comunidade. Filho de sapateiro,
Gaston Bachelard se tornou filósofo e surpreendeu ao escrever o livro A Água e os Sonhos só com poemas. Num
dos textos ele afirma:
“Meu prazer é ainda acompanhar o riacho, caminhar ao longo
das margens no sentido da água que corre, da água que leva a vida à povoação
vizinha”...Segundo o cientista brasileiro Antônio Carlos Diegues, que o
estudou, Bachelard “considerava a água doce a verdadeira água mítica”.
Bom, eles - homens e rios, - se encontraram na Amazônia com
boa dose de misticismo. Se conheceram, se apalparam e teceram vida nova num
espaço selvagem e lúdico. Por isso
surgiu o Acre das águas e da floresta, por onde fervilham, por alguns séculos, índios e carius, negros e pardos, borracha e sucuris, botos e
iaras...
Quando criança, eu também tive a felicidade de viver às
margens de um rio, o Iaco, e me envolver com seus mistérios. Sabia da morada de
uma sucuri no poço fundo em frente da nossa casa; acreditava que em noites de
festa, dançarinos vestidos de branco
saiam de suas águas; e tinha medo que a
Iara aparecesse, até imaginava que o rio tinha um espírito.
Através dele, do rio, eu marcava as estações: porque no
verão andava por suas praias desertas catando ovos de tracajá; e no inverno,
quando me recolhia temeroso, queria ver de perto o que descia das cabeceiras: melancias,
troncos e arvores inteiras arrastados pela correnteza.
O Iaco é um rio estreito e fundo, de barrancos altos,
portanto perigoso! Mas o que acontecia de novo no seringal passava por ele. De
cima e de baixo vinham lanchas e canoas transportando cargas e gente com
novidades de uma civilização ficava distante e desconhecida. Dava pra ouvir com
dois dias de antecipação o zumbido de um batelão se aproximando.
Um dia, fui entregue ao dono de uma embarcação para que me
lavasse do seringal para a cidade (Sena Madureira) onde morava uma irmã casada.
Foi uma experiência doída seguir com os olhos o movimento revoltoso e sem
retorno das águas. As redemoinhos, o eco do motor nas margens, pessoas
estranhas acenando, o que podia alegrar, mas assustava, porque eu estava sendo
arrancado do meu pequeno e amado mundo.
Só com a maturidade entendi melhor o que dizem Tocantins e
Bachelard; e passei a ver como aquelas estradas líquidas e sinuosas são
fundamentais pro corpo e pra alma das pessoas que vivem na Amazônia. Abrem
horizontes, permitem negócios, regam as várzeas, alimentam sonhos.
Ah! Mas ando desanimado porque vejo como as pessoas traem a
amizade antiga com esses rios de água mítica. Esquecem das vantagens usufruídas
e os maltratam: com lixo, exploração excessiva de seus recursos, destruição das
matas ciliares...Ainda se zangam quando a natureza reage com enxurradas, quem
sabe pedindo socorro, agonizando!
Até meados do século passado a relação dos acreanos com esses
rios incluía troca, zelo, muito respeito entre ambos. Agora, homens e rios se
mostram apartados, se estranham e se agridem mutuamente. Como se a sobrevivência
de ambos não dependesse de uma reaproximação.