No período de 2007 a
2010 eu trabalhei na Biblioteca da Floresta, em Rio Branco, participando de uma
equipe que desenvolveu trabalhos importantes sobre o diálogo entre os saberes,
ou seja: os saberes da tradição e os saberes da modernidade. Em 2009, gravamos
dois chefes indígenas ashaninka do
rio Amônia, Shãsha e Txeni, que falaram com desenvoltura
sobre seu modo de vida. Os ashaninka possuem
reserva na fronteira do Acre com o Peru e são descendentes dos Inca. Durante a
gravação, fiz algumas anotações e fiquei impressionado com o alto nível do
discurso sobre a organização deles. Vale a pena refletir sobre o que falaram:
Francisco Shãsha Ashaninka:
- Os povos indígenas se
organizam com um projeto de vida bem complexo. Para nós, o defeito quando
acontece não está na pessoa, mas no nosso jeito de orientar. A responsabilidade
é de todos. Na aldeia você é membro de uma grande família. Eu não posso ter o
respeito só com meu pai, meu avô. Tenho que chamar a todos de pai, mãe, avô,
irmão. Falo que tenho 50 pais, 50 mães, 200 irmãos. Essa é uma segurança que a
gente tem. Não se chama ninguém pelo nome. Chama de pai, irmão, avô...
- O particular está no
contexto social do grupo: é praticando que se mostra o que faz. Uma criança
cresce aprendendo a fazer tudo. Isso é básico, para ele aprender a viver na
sociedade. Quando dois jovens se casam, eles vão construir isso, para serem
contados como parte da aldeia.
- Entre nós existe uma organização profunda, o nosso mundo funciona bem. Não tem burocracia. Sai tudo de dentro da pessoa, nada vem de fora.
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Imagem do filme A gente luta mas come fruta, sobre o manejo em terras Ashaninka |
- Quando separaram nossa
floresta em Brasil e Peru, no passado, sentimos que estávamos morando na terra
dos outros. Os não índios impuseram regras. Então, um outro tempo de nossa vida
foi garantir nosso território. Foi difícil, a maioria de nós desconfiava: será
que querem acabar com a gente? Mas começamos a nos sentir seguros com o
movimento dos seringueiros e de outros grupos indígenas.
- Esses processos não mudaram nosso jeito de pensar. Mas fomos forçados a colocar em questão o diálogo com outros grupos. Estamos vivendo hoje um momento que nos deixa muito felizes.
- Nós entendemos o canto dos pássaros e outros sons da floresta, e ficamos tão íntimos dela que passamos a entender tudo. Quando um não índio chega a nossa aldeia, a partir do jeito como ele olha a gente, já entendemos como nos vê. Nem precisa falar. Às vezes as pessoas falam coisas bonitas mas não passam segurança. Elas precisam começar a “ver” de verdade.
- O problema dos Ashaninka é um problema do planeta. Queremos dialogar com o mundo inteiro. Não queremos ser do jeito de vocês, nem que vocês sejam como nós. Mas estamos no mesmo barco.
Moisés Txeni Ashaninka:
- Tradição é uma palavra muito forte. É como uma árvore que está em pé, fincada na terra, mostrando sua beleza e dando frutos. A mesma coisa é a idade. Uma geração trabalha para as novas gerações.
- Muitos não índios
fazem perguntas sem sentido para as quais não temos resposta. É como colocar um
barco onde não tem rio. É preciso dar significação às perguntas. Eles costumam
tratar a gente como pessoas que não sabem nada. Eu não vou perguntar algo assim
a vocês. É preciso haver respeito entre os povos. Sem respeito não existe
diálogo.
- Semente, árvore,
folha, flor... nosso povo conhece isso e também o espírito das árvores. É dessa
forma que sabemos respeitar a floresta. Para nosso povo todo mundo é doutor e
todo mundo é mestre. Porque você sozinho não sabe de nada. Mas, juntos, sabemos
tudo.
- Esse diálogo (entre
saberes) é uma coisa muito bonita. É uma coisa que, mais para frente, vai
permitir aos não índios entenderem que no nosso mundo tem tudo que precisamos,
como no mundo de vocês.