sábado, 7 de novembro de 2015

Leila Jalul e sua dor risonha

Ela se mudou do Acre para a Bahia faz seis anos. Partiu no exato momento em que se insurgia como escritora com estilo, boa memória e muitíssima irreverência. Primeiro, produziu o livro de poesias Coisas de Mulher (1995). E somente uma década depois descobriu que os textos curtos, reunidos em Suindara (2007) e Das Cobras, Meu Veneno (2010) - atendiam melhor a veia criativa do seu escrachado humor. Na Bahia, mas com pés, mãos e cabeça no Acre, abriu as comportas nos contos: Minhas Vidas  Alheias (2011), Luzinete (2012) e agora Memórias Andantes.

É fácil perceber que Leila Jalul que escreve (mais compõe) textos tão agitados quanto harmoniosos, carregados de histórias e afetos é mais de uma pessoa: são várias Leilas. De vez em quando, uma delas prega uma peça nos leitores ao encobrir, parcialmente, uma autora triste e desapontada. Aquela que se proclama venenosa. Um veneno, contudo, que salva o amor fecundo e coletivo, incomparavelmente melhor que o amor pessoal e exclusivo.

Tanto faz! Nossa escritora recolhe no cotidiano e carrega no colo, aqui ou lá, as misérias e contradições de uma vida cada vez mais intangível. Entretanto, é fácil localizar nos faces, blogs e sites de hoje, o que podemos identificar como dor risonha e iluminada.

(Elson Martins)
 

Mea Culpa - Pessoas amigas, quem pensar que eu mereço glórias, elogios, essas coisas que todos gostam, tirem o cavalinho da chuva. Sou (?) merecedora de muitos castigos, isso sim.

Para me livrar da fome dos meus parasitas, confesso, quando meninota, cometi muitas safadezas. Para me divertir, cometi abusos.

O terreno da minha casa era do lado do Colégio São José. Vizinha das freirinhas bacanas e boazinhas que, sabedoras dos meus dotes artísticos, sempre me convidavam para fazer teatro. Nunca estudei no colégio e, por razões de foro íntimo, nunca dei muita bola pra padres e freiras. Até uma certa raiva deles eu tinha.

Coisas de gente ruim de gênio.

Gostava de me embrenhar nas capoeiras ao fundo do colégio. As noivinhas de Jesus criavam umas galinhas gordas, caipironas e botadeiras de ovos galados de primeira qualidade.

Meu trabalho era simples. Ficava escutando o cocoricó e, de forma certeira, descobria onde eram os ninhos. Tinha até um mapa onde marcava com uma cruzinha onde estavam os ovos do dia e os que aguardavam a chegada dos pintos. Aqui vale um esclarecimento: sempre deixava o indez.

Acho que fui a pessoa que mais comeu mujangué nesta vida. Até que, um dia, olhando de longe, descobri onde as freiras estendiam suas roupas. Isso aguçou a minha curiosidade, digo, meus instintos mais primitivos. Nada mais de pedir ovos 'emprestados'. Eu precisava, custasse o que custasse, fazer com que algumas peças desaparecessem do varal. Meu objetivo era um só: deixar as freiras sem calcinhas e sem um chapeuzinho que amarravam para esconder a cabeça. Somente isso. A farra pela farra. A maldade pela maldade. A safadeza pela safadeza.

Passada essa fase, bolei outra maneira de desvendar os mistérios das pobres irmãs. Precisava saber o que tinha debaixo daqueles véus negros. Teriam cabelos? Seriam carecas, como diziam as más línguas? Quem era loura? Quem tinha cabelo pixaim?

Um dia, durante uma campana, fui flagrada circulando pelo jardim proibido. A freirinha me conhecia e era uma das minhas melhores amigas.
De forma muito especial ela me chamou em particular e, sem sermões, fez questão de me levar para conhecer o interior do 'claustro'. E me revelou tudo que eu queria saber. As freiras tinham cabelos. Cortados rente, mas tinham. Usavam camisolas de cambraia branca, todas do mesmo modelo e, como todos os mortais, iam ao banheiro e gostavam de bolos e comidas boas.

Aproveitei a oportunidade do afeto e contei a ela que, naquele exato dia, havia levado uma surra de ripão que quase me decepou as pernas finas.

Choramos juntas.

Leila na Primeira Comunhão (arquivo pessoal)

Palmatória ou chicote -
Quando muito pequena, sete anos, mais ou menos isso, estudei com Dona Eutália, mulher do Seu Sabino. Ela morava perto da Rádio Difusora Acreana e fez da sua sala de visitas uma sala de aulas particulares. Seu método era o da palmatória para os mais burrinhos (que nem eu) e do chicote para os seus filhos. Dos meninos não consigo lembrar os nomes. Das meninas, sim. Elas se chamavam Sônia e Norma.

Pois bem, Sônia namorava escondido com o Libério, irmão do Nabor, um espécime de beleza rara. Olhos verdes e cabelos louros. Um charme! 
Um dia, na hora da tabuada, lá se vem a Sônia apavorada depois de um encontro atrás da igreja. Lembro como hoje, era a 'tomada' da multiplicação dos 9. Eu não sabia de nada e errei o quanto era 9 x 7. Na justa hora que Sônia chegou do namorico, Dona Eutália me pediu a palmatória e lhe entreguei o chicote. Quem apanhou? A Sônia, claro!

De outra feita, já aluna do exame de admissão, a professora era a Dona Wolitz França Maia, esposa do Seu Licênio e mãe da Bebezinha, do Cheiroso e do Marquinho. Na aula de geografia, vésperas de prova, Marquinho chorava sem parar e a professora chamava por seu esposo, a quem tratava por Filhinho. Este, um pouquinho cheio da pinga, dormia a sono solto numa rede atada na varanda. E a professora me diz: Leilinha, pega uma pedra, um cabo de vassoura seja lá o que for que é já que acordo o Filhinho.

Olhei para a varanda e vi um cacho de enormes cocos verdes. Tirei um e gentilmente entreguei nas mãos da minha professora querida.

Marrapaiz, como se fosse uma bola de boliche, ela mandou ver, atingindo a cabeça do Filhinho que, assustado, acordou e foi tomar de conta do Marquinho chorão.


Leila, hoje morando na Bahia (arquivo pessoal)

Alô, alô, Mãe - Ei, dona minha mãe! Deves estar bem por onde estás. Espero assim. Há oito anos, pensava eu, estavas fazendo de conta que não queria mais viver. E era verdade! Belém, a cidade que tanto amavas, estava se preparando para as comemorações do Círio de Nazaré. Eu falava contigo e te fingias de surda.

Em 2012, no dia das mães (e das madrastas), escrevi pra ti. Primeiro passei um perrengue danado pra juntar teus filhos e fazer com que cada um pudesse fazer um bilhetinho pra te mandar. Égua! Que sufoco!

Ainda assim o rola-papo rolou.

Decidi antecipar-me e dar notícias agora, sem nada pedir a nenhum deles. Tu sabes que cada filho é diferente do outro. Como são diferentes os dedos da mão. Cada um, em particular, te dirá da saudade a seu modo, sem qualquer tipo de pressão.

Hoje, particularmente, não é nada em homenagem a nada. É dor de perda, apenas. Partiste há oito anos. Se te escrevo agora é só para ganhar tempo, não mais confiar nos Correios e não querer desperdiçar lágrimas. Não mereces que chore por ti se o meu riso é o que sempre te importou e ainda importa. Gostavas das minhas histriônicas gargalhadas. Não negues! Não te finjas de surda!

Anota aí sobre teus filhos, do ponto de vista do meu pequeno modo de ver:

Latif está na sua santa fé. Distribuindo hóstias e ajudas espirituais e materiais a quem precisa. Latif é motivo do teu orgulho cristão. Não é qualquer uma que tem filha ministra. E a tua o é. Da Eucaristia! Se fosse de Estado, vixe! Sei que luta para estar de pé e com saúde.

Léa, a ‘segundona’, já nem se lembra das mesuras do Pe. Quevedo. Só dança e viaja. Só viaja e dança!

Lígia é fruta rara. Viaja, viaja, viaja e viaja. Vez por outra, quando lhe sobre um tempinho, vem me ver. Arrisco dizer que, se emagrecer, vai melhorar muito. Ela e seu Joãozinho se cuidam um do outro.

Manoel, o teu ‘Manezinho’, é irmão ingrato. Nunca veio dizer um oi pra sua irmã idosa e capengante. Culpa da Ritinha!

Por fim, Azize, teu filho ‘mais pequeno’, o Chico, cuida da missão do Santo Daime. Já esteve aqui e me trouxe lembranças comestíveis do Acre, inclusive pupunhas. Disse que voltará. Assim espero.

Uma novidade que tenho pra te contar. Criaram um tal Faceboock e arrumei um montão de outros irmãos. Lembras dos Sepetibas? O Alberto Moreno, filho do outro Alberto e da Holda, virou mano. Lembras do João de Almeida, da Rua da Palha e vizinho da tua costureira Corina? O filho dele também virou mano. A Célia Pedrina continua mana. A Vássia, da Jalva e do Elson, é alma-irmã. A Rose do Mozarino e da Lurdes é mana. A Núbia do Zé Nogueira, a Valdiva do Zé Fontenele e suas meninas Kátia Castro e Regyna Santos são manas de fé e irmãs camaradas.

Mulher de Deus, pode até faltar pão na padaria. Irmãos não me faltam!

Pra terminar, preciso lembrar que a música do Mau, mau, cantada pelo Moacyr Franco, de quem e que tanto gostavas, não é tão verdadeira quanto achavas que era. O mundo não é mau, Zizinha. Maus, verdadeiramente maus, somos os que não sabemos apreciar as belezas de Deus expostas na vitrine da vida. Maus são os homens que fazem guerras. Maus são os que não respeitam as minorias e as rejeitam. Maus, verdadeiramente maus, somos os que não sabemos amar de amor bonito e misericordioso os nossos semelhantes.

Te amo, Zizinha! Que a Virgem de Nazaré esteja contigo. Ela é o teu Lírio mimoso, do mais suave perfume.

(Leila Jalul)



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Escritor atormentado

* Elson Martins



Nascido em Xapuri, Genésio perdeu o pai cedo e foi criado pela mãe Marina e o padrasto numa antiga colocação de seringa. Aos 7 anos, foi levado pela mãe para a Fazenda Paraná, da família Alves, para fazer companhia à irmã Natália que havia fugido de casa para viver com Oloci, outro filho de Darli e gerente da propriedade. O cunhado passou a ser seu principal instrutor: aos 10 anos, exigiu dele a perigosa incumbência de montar e amansar um potro bravo, que o jogou no chão e desferiu violento coice na barriga. Ao completar 11 anos, o menino ganhou de presente um revólver e uma caixa de balas. Aos 13, já frequentava as boates de Xapuri na companhia dos irmãos “mineirinho”, matadores de aluguel contratados como peões.
Genésio tornou-se amigo e confidente de Darcy, quem disparou o tiro de espingarda calibre 20 no peito de Chico Mendes na noite de 21 de Dezembro de 1988, e ficou sabendo dos crimes cometidos na fazenda. Também testemunhou encontros de Darli Alves com fazendeiros que tramavam a morte de Chico Mendes. Todas essas histórias são narradas com detalhes no livro. A certa altura da narrativa, dá pra perceber que Genésio estava sendo treinado para também se tornar um matador de aluguel. Ele conhecia pouco o Chico Mendes, sobre quem diz que sempre admirou, mas sabia muito sobre a vida dos assassinos. O que ele não sabia era que nessa história assumiria o papel de principal testemunha, e que sua própria vida seguiria trajetória atormentada.
De fato, no dia seguinte à morte de Chico Mendes, Genésio foi detidoo pelos policiais encarregados de identificar e prender os suspeitos, permanecendo numa cela da delegacia de policia de Xapuri à disposição dos investigadores. Pressionado, sobretudo, pelo tenente H.Neto, da Policia Militar do Acre, e pelo delegado Nilson Oliveira, com a concordância de sua mãe Marina disse tudo que sabia. O depoimento à policia o deixou vulnerável diante da família Alves, embora pouca gente da segurança parecesse atenta ao detalhe.
     Genésio, aos 40, faz “mea culpa” e 
desabafa em livro (foto: Elson Martins)

Em maio de 1989, ao visitar o Acre com uma pauta do Jornal do Brasil para escrever sobre os conflitos na Amazônia, o jornalista e escritor Zuenir Ventura – que acabou ganhando o Prêmio Esso com uma série de reportagens sobre o caso Chico Mendes – encontrou Genésio vagando perigosamente entre a delegacia e o quartel da PM em Xapuri. No livro “Minhas Histórias dos Outros”, que escreveu em 2005, incluiu o capitulo “A Saga de uma Testemunha”, sobre Genésio, na qual admite que cometeu uma transgressão contra a lei básica do jornalismo: a de que “ao reportar os acontecimentos, não se deve interferir neles”.
Como não interferir! Percebendo que o menino corria riscos de morte, Zuenir Ventura, que foi visita-lo na delegacia de Xapuri, após consultar o juiz Adair Longuini decidiu “sequestra-lo” e o trouxe de avião para Rio Branco, deixando-o sob a responsabilidade do então comandante da PM, cel. Roberto Ferreira, no quartel da corporação. Apos alguns dias, o próprio comandante avisou ao jornalista que também ali Genésio vivia ameaçado, por isso o transferiu para o quartel do Exército (4o. BESF). Zuenir acabou levando-o para seu apartamento em Ipanema, no Rio, até conseguir com a ajuda do bispo D. Moacyr Grechi um bom colégio religioso na zona rural de Goiás. A partir daí Genésio passou a viver choques culturais e existenciais, e com a ajuda de seu tutor frequentou novos colégios em Minas e no rio Grande do Sul, sempre aprontando. Acabou se enfiando na bebida, precisando de tratamento em clinicas de recuperação no Recife e em Rondônia.
Quando já entrara na fase adulta, em Porto Alegre, vivendo entre marginais, recebeu de Zuenir uma boa notícia: os produtores do filme “Amazônia em Chamas” haviam concordado em pagar algo em torno de 60 mil reais de direitos pelo uso do personagem no filme. O dinheiro ficou depositado numa conta conjunta na Caixa Econômica e só podia ser retirado com duas assinaturas, a sua e a de Zuenir. Genésio pôde então movimentar o dinheiro, mas o fez de forma descontrolada, posando de rico diante das moçoilas e dos companheiros de farra que conheceu em Marabá, no Pará. Na segunda parte do livro ele conta como foi essa fase de sua vida, intensa, amorosa e fracassada. Após desbaratar os 60 mil reais recebidos da Warner Bros, entregou os pontos e voltou para sua origem acreana.
Em 2004, sem saber por onde ele andava, Zuenir, eu e Júlia Feitoza empreendemos uma busca pela BR-317, no trecho Rio Branco – Brasileia, parando e perguntando a pessoas que o conheciam ao longo do estrada. Fomos encontrá-lo entre um grupo que fazia trabalho de recuperação de uma igreja nas proximidades de Xapuri. Estava gordo e se sentiu envergonhado por encontrar-se embriagado. Mas ficou feliz ao rever o amigo e tutor, a quem informou que estava escrevendo um livro com sua própria história. “Faça isso, Genésio!”- incentivou Zuenir, recomendando que entregasse os originais a mim, para que os remetesse para seu endereço no Rio à medida que fosse concluindo os capítulos. Surpreendentemente, poucos dias depois Júlia Feitoza recebeu o calhamaço de 365 páginas escrito com esferográfica em papel almaço, na frente e no verso.

O livro do Genésio não é um primor de literatura, mas nem precisava ser, porque o que atrai nele é a sua própria história, incomum, e o modo como é narrada, com transparência, verdade e fragilidade que chocam. Mesmo com estudos interrompidos na 6a. série do Ensino Fundamental, Genésio escreve com incrível força, dando pistas confiáveis sobre o imaginário dos povos da floresta amazônica. É, no mínimo, um caso a ser estudado por psicólogos e sociólogos, e ajudado (quem dera!), por ambientalistas de verdade. Afinal, ele continua procurando um lugar ao sol com os riscos de sempre.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Com cupim e com afeto

*Elson Martins

Em Maio passei maus momentos no Hospital Santa Juliana, de Rio Branco, internado numa enfermaria com broncopneumonia. Fiquei pendurado num frasco de soro durante uma semana, durante a qual foram injetados antibióticos e outros remédios numa veia do braço direito. Apesar do atendimento médico correto, ao receber alta saí cambaleando, sem força e sem apetite; e demorei mais de 15 dias para me sentir vivo novamente.
A ressurreição completa só aconteceu com a ajuda de um lambedor de “cupim vivo”, receita acreana contra pneumonia que eu desconhecia. Do cupim, o que sabia até então é que destrói livros, fotografias e filmes de celulose com assustadora eficácia (ler box abaixo). Há três décadas, pelo menos, sofro com seus ataques ao acervo que cultivo desde 1975 sobre os conflitos socioambientais do Acre.
Por um acaso feliz, no local onde trabalho (Secom) tem uma jovem jornalista que se preocupou com minha saúde. E por outro acaso, também feliz, ela tem uma avó que me ofereceu o lambedor milagroso. Elas se tornaram minhas amigas salvadoras.
Márcia, a neta, tem 22 anos; a vó, Maria de Nazaré Moreira Nunes, Bia para os íntimos, tem 64. Em comum, possuem olhos asiáticos, são afáveis e valorizam as tradições provindas da floresta. Domingo passado nos encontramos num almoço patrocinado pela Andrea Zílio, secretária de comunicação, e mantivemos uma conversa sobre cupins. Bia não se fez de rogada para ensinar a preparar o lambedor:
-É simples: basta ferver por meia hora, com água, um bom pedaço da casa do cupim com os insetos dentro, vivos. Em seguida, coar a mistura em pano leve (murim); e no líquido coado, adicionar meio quilo de açúcar voltando a ferver até o ponto de mel grosso. Pronto: toma-se três colheres das pequenas (de chá) ao dia.
Bia descende de família tradicional de Sena Madureira, município onde nasceu e permaneceu até os 18 anos. O pai, Raimundo Moreira Cavalcante, morou em vários seringais dos rios Caetés e Iaco; já a mãe, cujo nome Porcina lembra personagem de novela, admirava as habilidades do marido e repassava aos filhos parte do seu conhecimento. “Meu pai gostava muito do mato, conhecia tudo quanto era planta e raízes; foi seringalista, mateiro e curandeiro” – informa Bia.
Ao se transferir para Rio Branco, Bia fez curso de enfermagem e passou a trabalhar na Fundação Hospitalar do Estado, onde ficou 30 anos como auxiliar de operações cirúrgicas até se aposentar.
Na relação entre Marcia e a avó transparece a existência de algo excepcional na história dessa família: a diferença de quase meio século na idade das duas, por exemplo, não as impediu de olhar na mesma direção com solidariedade e afeto. Bia, aliás, vê a neta como “um presente que Deus me deu” !
Dúvida – Bia não explicou, mas presumo que na segunda fervura do lambedor colocou alguma pitada do cupim vivo! Digo isso porque percebi, de um dia para o outro, no copo de plástico com a porção recebida, a presença de alguns bichinhos se arrastando pelas paredes internas. Claro que fiquei intrigado: como sobreviveram a tanta fervura? Não sei, mas isso me convenceu de que os cupins possuem alguma propriedade resistente e medicamentosa.
Ao vê-los misturados ao mel, num esperneio sobrenatural, apelei para a abstração para não repugná-los. Primeiro, porque o risco maior era a pneumonia. Mas tinha também algum sentimento de vingança: afinal, eles não estavam comendo meu acervo? Pois agora eu…
Brincadeira à parte, o que vale mesmo é valorizar os remédios advindos de uma vivencia secular na floresta. No caso, um produto da tradição acreana que precisa ser explicado pela ciência. Nos dias atuais, 80% da população do mundo utiliza produtos que se originam de plantas medicinais como tratamento e prevenção de doenças. Cerca de 25.000 espécies são usadas por tribos indígenas e comunidades amazônicas. Mas a ciência conhece menos de 1%, ainda, da riqueza que existe na natureza.
Meu pai, como o pai da Bia viveu meio século nas matas do rio Iaco, e também conhecia lambedores e unguentos com os quais socorria os filhos na hora das doenças graves do seringal. Lembro que em noite de lua cheia ele colocava no quintal, ainda cedo, uma bacia de gomos de cana Caiana descascados, e nos acordava à meia-noite para chupá-los. Era remédio contra a Coqueluche. Na cozinha, junto ao pote de água de beber, tinha um copo de osso aproveitado do gogó do Capelão (o maior macaco da Amazônia) pra gente usar sem cerimônia contra a tosse de um modo geral.
Valeu, Bia e Marcia! Estou alardeando a história do lambedor na esperança de que mais pessoas se sintam estimuladas a falar de suas ricas experiências de vida nas entranhas da floresta.

Realeza protegida

Os isópteros (cupins), conforme li num site de produtos inseticidas, se organizam numa sociedade de castas onde cada integrante possui uma função no ataque a propriedade e aos bens, sejam móveis ou imóveis. Eles se multiplicam em colônias a partir de um casal com um rei e uma rainha, cujas únicas funções são acasalar e produzir ovos. A rainha (bem protegida) vive de 25 a 50 anos.
Com uma vida tão longa (para um inseto), podendo botar milhares de ovos ao ano, imaginem quanto essa família real vai crescer tendo cupins-operários para cuidar dela! Após saírem dos ovos, em duas semanas, os bebes-cupins assumem posição nas castas, desenvolvem órgãos sexuais e asas, e a um sinal da natureza deixam a colônia para iniciar novos focos de ataque.

Respeitem nosso gentílico!

*Elson Martins

“Não somos um povo perdido, sem chão, mas uma gente heroica que escolheu sua pátria, assim como seu gentílico. Então, sejamos altaneiros em defesa do nome que designa às pessoas nascidas sob o brilho do sol, da lua e das estrelas que ornamentam o céu do Acre”!
A afirmação lapidar está no artigo da professora e doutora em Língua Portuguesa Luísa Galvão Lessa Karlberg, e foi publicado no jornal A Gazeta de 24 de junho passado. Alguém precisava ter escrito isso, e que bom que foi ela, porque seu currículo e certidão de nascimento (nasceu nas cabeceiras do Igarapé Humaitá, afluente do rio Murú, distante 8 dias de barco da cidade de Tarauacá) bastam. O currículo é mais que suficiente para desbancar os filólogos que posam de sabidos, mas elegem Tiriricas e hipopótamos para nos representar no Congresso Nacional.
No Novo Acordo Ortográfico que os “sabidos” propuseram em 2009 ficou dito e escrito que nós, nascidos no Acre, não somos acreanos, mas acrianos com “i” no lugar do “e”. E desde então um bando de tolos e tolas se apressam em cumprir a nova regra ortográfica ainda em discussão. Vejam o que diz a muruense recém-eleita presidente da Academia Acreana de Letras:
“Um gentílico não se muda por força de Acordo, Decreto, Lei. Um gentílico pertence à população do lugar, é nome sagrado que se guarda como tesouro raro, que dá voz ao adjetivar um povo”.
Do alto de um currículo invejável, Luísa Lessa lembra autores consagrados que ditaram rumos seguros para o trilhar de um idioma. Um deles é Charles Bally, para quem uma palavra torna-se usual em duas oportunidade principais: 1) quando designa algo indissoluvelmente ligado à vida de um grupo linguístico; e 2) quando se dá a qualquer membro do grupo linguístico a impressão de que isso não se diz assim, isso deve ser dito assim, isso sempre foi e será dito assim. E mesmo que tais assertivas contradigam a expectativa de constante evolução da linguagem, elas se constituem em realidade absoluta, sem a qual seria impossível descrever um estado de língua.
Bom, nossa linguista ensina que no caso acreano é fundamental olhar dois lados: o histórico e o linguístico. “O histórico assegura a manutenção de acreano, pela consagração do uso da forma ao longo de 188 anos. Do lado linguístico, deve-se considerar que o próprio Acordo está repleto de concessões ou exceções que permitem dupla grafia, palavras com acento agudo ou circunflexo, palavras com consoantes mudas, entre as muitas quebras de unidade entre o cânone europeu e o brasileiro”.
Como não sou versado em letras, muito menos em acordos ortográficos, desde 2009 venho adotando regrinhas intuitivas e básicas para perceber o que está por trás da mudança imposta ao nosso gentílico. Primeiro, considero que quem aceita escrever acreano com “i” é um desalmado, um desavergonhado que não se importa de abaixar as calças para quem se diverte ao colonizar os fracos.
A doutora Luísa Lessa dá uma enorme lição a esses fracos: fala como cientista do nosso idioma e, ao mesmo tempo, como acreana dos igarapés, dos grotões e dos cipoais, como aqueles que nos anos 1970 e 1980, chamados de sub-letrados, se organizaram para defender o Acre, suas florestas e seu povo transformando o estado numa referencia global de sustentabilidade. De outra maneira, mas com o mesmo efeito do artigo, eles disseram não aos agressores que queriam derrubar e queimar as florestas, a história, a cultura e nossas tradições mais caras.
É a doutora Luísa Galvão Lessa Karlberg quem afirma: “Acreano é o gentílico amazônico do Acre. E nesse sentido, nenhum Acordo é mais imperioso que os costumes, a história, a tradição do lugar”.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Não índios ameaçam reserva Apurinã

*Elson Martins

Aldeias Apurinã de Boca do Acre, no vizinho Estado do Amazonas, mesmo demarcadas pela Funai estão sendo invadidas por fazendeiros e madeireiros da região. Na reserva do Km 45 da BR-317, de 32 mil hectares, onde vivem 19 famílias com 200 pessoas, a derrubada da floresta para vender madeira e abrir pastos para o gado virou rotina, e conta com a cumplicidade crescente de indígenas. A estratégia dos invasores é casar com mulheres indígenas e passar a morar na aldeia introduzindo novos hábitos e preferencias culturais. Na margem esquerda do Rio Acre, no fundo da reserva, os madeireiros avançam ameaçando destruir os “barreiros” de caça. O Estatuto do Índio vem sendo descumprido o tempo todo, mas a Funai não liga!

Quem faz a denúncia é Manuel Apurinã, de 67 anos, uma velha liderança do Km 45 (BR-317) que veio a Rio Branco com a mulher, Raimunda Cruz, a tratamento de saúde, mas também procura por alguma autoridade que possa ajudar a salvar seu povo. O casal tem 11 filhos e 50 netos, e sobrevive a uma longa história de luta contra os não índios. Nos anos 70 sofreu ataques violentos do grileiro João Sorbile, o ”cabeça branca”, que com a ajuda de policiais e jagunços vindos de Manaus queimou seu barraco, fuzilou animais de criação e obrigou a família a fugir pela mata com os filhos pequenos, doentes de sarampo.

Manoel Apurinã e Raimunda Cruz temem pela perda da identidade indígena na Reserva Apurinã – Fotos: Elson Martins

Grilagem e esperteza


A agonia dos apurinã da BR-317 começou em 1972, quando o aventureiro Sorbile chegou a região dizendo ter comprado parte do seringal Aripuanã tradicionalmente ocupado pelos indígenas. Com a ajuda do cartório e da Prefeitura de Boca do Acre, o grileiro esticou 5 mil ha que dizia ter comprado, até 300 mil ha, invadindo terras indígenas do Km 45. Ele formou um latifúndio que retalhou em pequenas parcelas e vendeu a pequenos colonos do leste e do sul do país. Quando estes chegaram, com suas famílias, trataram de ocupar a terra entrando em conflito com os apurinã.

Na época, o lider José Miranda Apurinã explicou como o grileiro Sorbile agia:


“Ele chegou por estas terras com três mudas de roupa, 60 mil cruzeiros (cerca de 6 mil reais hoje) e uma camionete C-10 emprestada ou roubada. Só sei que o dono veio buscar o veículo. Ele chegou prometendo construir 40 casas com assoalho de tabuas, cobertas de zinco, tudo feito carreirinha como na cidade pra nós morar. Daí ele foi agradando o pessoal com um quilinho de açúcar, um pouco de café…acabou construindo a casa dele do lado. Então começou a abrir caminho para dentro da mata e cresceu o bicho lá, querendo ser dono de tudo” (declaração feita ao jornal Varadouro, edição de dezembro de 1981).

Na outra ponta, um dos colonos recém-chegados do Paraná, Plinio Bertoldo, já contrariado com o que viu, declarou: “Eu já vi essa estrada de Boca do Acre a Rio Branco asfaltada (na verdade não tinha asfalto, mas muita lama), em fotografia, na cidade de Cascavel onde eu morava. Nós viemos do Paraná por causa da propaganda que faziam lá e por incentivo do governo. Nós tínhamos 6 alqueires, aqui temos 150. Compramos essa terra do Danilo Nogueira Farias, sócio do João Sorbile (Varadouro)”.

Na medida em que os colonos como Bertoldo iam chegando, os apurinã eram forçados a abandonar o local onde viviam para ceder aos recém-chegados. Quando tentavam resistir, como Manoel e José Miranda, eram reprimidos com violência por “cabeça branca” e seus jagunços. Numa nova manobra, Sorbile desmanchou as 40 casas e ofereceu 10 alqueires para cada um dos indígenas, que não aceitaram a proposta.

A partir daí, Sorbile apostou na briga entre colonos e indígenas jogando uns contra os outros, ao mesmo tempo em que intensificava a violência contra os verdadeiros donos da terra. Foi aí que estes se juntaram e decidiram agir com base no Estatuto do Índio. E como o Estado do Amazonas representava ameaça, eles procuraram e encontraram apoio nos antropólogos, na imprensa, no governo e na sociedade do vizinho Acre que, na época, começava a discutir a União dos Povos da Floresta, eliminando antigas desavenças entre extrativistas brancos e indígenas.

Sorbile, que no fim dos anos 1970 tinha construído uma serraria dentro da reserva do Km 45, teve sua estrutura sequestrada pela Polícia Federal e acabou “capando o gato” de volta para suas origens, naturalmente, com bastante dinheiro em sua conta bancária. No Acre, a galera da resistência montou a peça “A grilagem do cabeça” no Teatro de Arena do Sesc e saiu exibindo o trabalho pelos bairros, parece que até fora do Estado. “Cabeça Branca” foi o apelido que os apurinã colocaram em Sorbile porque ele tinha cabelos e barba brancos, parecendo um albino.

Infelizmente, “o tempo dos direitos” que beneficiou a maioria dos grupos indígenas do Acre não chegou de forma completa aos apurinã. Eles tiveram suas terras demarcadas, receberam apoio para a produção, saúde e educação, mas a autonomia indígena continuou ameaçada, como advertem Manoel e Raimunda. Nem os não índios extrativistas da região de Boca o Acre estão livres das armadilhas montadas por fazendeiros e madeireiros em conluio com o poder local.
E agora?

Num documento que apresentou à C.R.Alto Purus – Funai, cujo recebimento aparece carimbado com data de 30 de abril de 2014, Manuel Apurinã afirma em português claro: “Estamos enfrentando sérios problemas com os brancos vindos de outros lugares e de assentamentos do Incra para se alojar dentro da nossa terra”.

Manuel envia denuncias à Funai desde 2012, mas nenhuma providência aparece. Num documento de 18 de Março daquele ano ele afirma: “Aqui tem uma família (indígena) que já vendeu terra duas vezes, e quem compra cria gado de fazendeiro dentro da reserva. O nome do comprador é Francisco Souza de Amorim”. Num outro documento, de 18 de Junho, cinco signatários indígenas denunciam que “Francisco está trazendo a família dele para dentro da terra indígena” ; e o acusam de estar “arrendando nossa terra para fazendeiros da região”.

Em documento mais recente, Manuel Apurinã esclarece que parceleiros do Incra vendem seu lote no assentamento e se introduzem na aldeia levando maus procedimentos para seu povo. Tem exemplos de drogado e até criminoso na terra indígena.

Boca do Acre possui quatro reservas Apurinã , três das quais ficam próximas à BR-317: a comunidade do Km 124, a do Km 137, e a do Km 45. Na parte do fundo elas fazem limite com o Rio Acre.

Colega de classe


Na época do conflito entre fazendeiros e apurinã acompanhei algumas vezes o representante da Funai no Acre, Porfirio de Carvalho, em visitas à Boca do Acre, e por orientação dele eu me hospedava no hotel Rosa do Acre com o nome de Orlando Villas-Boas, para não levantar suspeitas. Numa dessas vezes, alertado por um fazendeiro vereador (Adão Nunes), o juiz Francisco de Lima Neto mandou me prender por estar fotografando pelas ruas da cidade. Dois policiais me levaram até uma delegacia e arrancaram o filme que registrava cenas para ilustrar matéria que eu encaminharia para o jornal O Estado de S. Paulo, do qual era correspondente. Depois me levaram para uma sala próxima a do juiz, com um policial na porta. Só fui libertado no fim da tarde, após avisar que tinha sido colega de classe do magistrado.

Bom, o juiz tinha sido meu colega de classe no Colégio Acreano, nos anos cinquenta, e me pediu mil desculpas pelo constrangimento. Fez questão que eu o acompanhasse até sua casa e me ofereceu almoço (quase janta), mostrando álbuns da família, após o que providenciou transporte para me levar de volta a Rio Branco. Infelizmente, não pude evitar que o colega aparecesse na matéria sobre o conflito de Boca do Acre como suspeito de ajudar fazendeiros e grileiros a infernizar a vida de indígenas e posseiros.

sábado, 30 de maio de 2015

Piscicultura: os dragões da China

* Elson Martins

A revista Scientific American Brasil publica, em sua edição de Maio, uma reportagem de seis páginas na qual informa que a China, para dar conta de alimentar 1,4 bilhão de habitantes que consomem 50% mais peixe que o conjunto dos dez maiores países consumidores, age como se fosse dona das águas asiáticas do Oceano Pacífico chegando a gerar desavenças diplomáticas com o Japão e as Ilhas Filipinas. E preocupações ecológicas em outras partes do mundo. A matéria é assinada pelo jornalista cientifico Erik Vance, que vive no México e visitou experiências de piscicultura feitas em mar aberto e nos lagos e rios de água doce, bem como nas milhares de fazendas de criação no país de Mao Tse Tung.

Vance informa que a China é o maior produtor mundial de pescado: em 2012 produziu 57 milhões de toneladas das espécies “selvagens” e das criadas nas fazendas de piscicultura, o que representa um terço do total mundial. O país dispõe de 700 mil navios pesqueiros que percorrem as águas ao redor do globo arrastando “enormes gaiolas pelo leito oceânico e redes do porte de campos de futebol”. Em termos de ameaça ao meio ambiente, supera o Japão e os Estados Unidos e se torna o principal responsável por “esvaziar” cardumes mundiais.

Com algum sentimento de culpa, presume-se, alguns cientistas e empresários chineses tentam reinventar a aquicultura do país incentivando as milhares de fazendas de água doce e realizando experiências com algas, mexilhões e frutos do mar (preferidos dos chineses) em enormes “parques industriais” ou “piscinãos”, em mar aberto. Nessas engenhocas observam que algumas espécies aproveitam e se desenvolvem com excrementos ou efluentes de outras, mas dependem do equilíbrio entre elas para que uma não acabe com a outra. Os cientistas tentam fazer o mesmo com as milhares de fazendas de água doce grandes e pequenas, que fornecem 70% dos pescados do país. O jornalista observa, entretanto, que “o que está fora de questão é que a China continua carente de pescado”.
Diversidade: o acreano Walmir Ribeiro cria 120 mil tartarugas, espécie muito valorizada – Foto: Gleilson Miranda

“Qualquer semelhança”…

Coincidentemente, a reportagem sobre a piscicultura chinesa trata de um assunto que se torna recorrente no Acre. Aqui também o Governo do Estado investe na piscicultura sustentável como forma de gerar emprego e renda, e também para colocar na mesa dos acreanos alimento de boa qualidade tratado industrialmente. A diferença é que os números da China são descomunais, e que os consumidores chineses se interessam mais por pescados limpos e saudáveis para consumo que pela proteção ambiental. Eu disse “diferença”? Talvez uma pesquisa feita aqui mostre resultado parecido!

De qualquer modo, os chineses entram na vida acreana cada vez mais intensamente. Tem a história da exploração do bambu (o Acre possui florestas imensas da espécie) que há algum tempo vem aparecendo na mídia; e nesta semana, a noticia de que a China vai construir a ferrovia transoceânica ligando o Atlântico ao Pacífico passando pelo Acre na rota de Cruzeiro do Sul – Pucalpa (Peru) gerou euforia nos meios econômicos, políticos e sociais. O acreano – que segundo o jornalista Silvio Martinello “é pobre, mas enjoado” – já fala em viajar de Cruzeiro do Sul para o Rio de Janeiro em “trem bala”.

Antes de Cristo

Erik Vance esclarece que a aquicultura chinesa remonta a Fan Li, “filósofo, estrategista e conselheiro do poderoso rei Goujian de Yue, do século 5o. antes de Cristo. Após uma carreira militar de sucesso, Fan Li aposentou-se na cidade de Wuxi, à beira do lago, onde escreveu o primeiro manual de aquicultura do mundo. O livreto com 400 caracteres inclui detalhes como a quantidade de carpas necessária para começar, a melhor época para o crescimento e uma recomendação para incluir tartarugas para afastar o “dragão da inundação”.

As práticas antigas, segundo Vance, funcionaram durante milhares de anos com pequenos lagos que operam ao lado de fazendas terrestres “que mantiveram água limpa e peixes saudáveis”. Mas na década de 80 do século passado a indústria se alastrou e lagoas industriais proliferaram. “Essa mudança, juntamente com o crescimento enorme de outras indústrias, provocou poluição pesada” – diz o jornalista cientifico.

Como se vê, o Acre tem mais a ver com a China do que se pensa. Tem tradição, forte ancestralidade indígena, natureza exuberante e, embora pequeno e pouco desenvolvido, vive desde o começo – com a exploração da borracha – com um pé na modernidade. No fim de século 19 e começo do século 20 o Estado, então uma terra conflitada transformada em território federal vivia de braços dados com o capitalismo internacional, primeiro com os ingleses, depois com os norte-americanos. Essa relação histórica foi muito boa para eles…
Resta saber como será a relação de tradição e modernidade com a China, um país comunista que, surpreendentemente, virou capitalista e espalha, com celeridade e força seus dragões pelo mundo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Olê, olê, olê, olá!

* Elson Martins
Lula: “Quando comecei a vir ao Acre, nos anos 80, eu fazia reunião com 5 pessoas, mas fazia discurso para um milhão” (Foto: Sérgio Vale)

Oficialmente, tratava-se apenas da realização do 3º Encontro de Piscicultores do Acre. No local (BR-364, a 34 km de Rio Branco) foi construído, recentemente, uma central de produção de alevinos, uma fábrica de ração e um frigorifico para o processamento industrial de peixes com investimento de R$ 80 milhões. Mas a enorme tenda montada para o evento sugeria mais coisa: sob ela tinha um palco, também ancho, que caberia até um desfile de modas.
Logo se viu por quê: o ex-presidente Lula era o convidado principal e, de quebra, tinha o presidente da Bolívia, Evo Morales, que veio acompanhado de quatro ministros da área de produção. O cenário se completava com a presença do governador Tião Viana e do senador Jorge Viana, além do governador do Piauí, Wellington Dias, e mais secretários de estado, políticos estaduais, empresários e algumas lideranças populares. Em volta, cerca de metro e meio abaixo, a plateia estimada em três mil pessoas.
O letreiro do evento, colocado ao fundo parecia conspirar: “Uma nova economia, começa vendendo seu peixe”. Bem que poderia ser: uma “nova politica”…
Era o dia (quinta, 7) e a hora (11h) do grande amigo do Acre Luís Inácio Lula da Silva. Quando ele chegou, a plateia se manifestou ruidosa e festivamente, todos cantando “Lula… Lula” acompanhado do “olê, olá”! – como nas campanhas passadas que o levaram a Presidência da Republica. O ambiente estava virando uma festa acreana. Um grupo gritava em coro: “Lula, guerreiro do povo brasileiro”!
No sul e sudeste, onde vive e esgrima com sua força politica bombardeada, Lula tem falado pra pouca gente. Porque virou saco de pancadas da mídia elitista de São Paulo e Rio de Janeiro. Mas, no Acre, ele é um rei amado. Por isso, e inteligentemente, o cerimonial estabeleceu o tempo de 2 minutos para as falas, mas não fixou tempo pra ele e pro Evo Morales.
O Encontro dos Piscicultores acabou se transformando num acontecimento histórico. Primeiro, porque a “furiosa” (banda) da PM tocou os hinos do Brasil e da Bolívia igualmente aplaudidos. Nada de ressentimentos quanto a guerra de 114 anos atrás na fronteira. Evo Morales postou-se com a mão direita no peito e o punho esquerdo levantado, num gesto revolucionário.
Também porque o Lula, em estado de graça, tratou a todos como amigos de infância, até mesmo o presidente boliviano: “A Bolivia – disse – nunca viveu antes o tempo de paz que vive agora com esse índio cocaleiro (Evo é índio Quexua, o grupo indígena mais numeroso, expressivo e original do seu país)”. Dirigindo-se diretamente ao presidente vizinho, com intimidade, reforçou: “Você é motivo de orgulho para a esquerda brasileira”!
Lula prometeu ajuda a Evo Morales para fazer uma fábrica de processamento do peixe igual a do Acre, na Bolívia. Um assessor boliviano informou, depois, que já estão previstos três frigoríficos – um em Cobija, outro na região do Bene e mais um em Cochabamba, – mas menores, com menos investimento.
Evo Morales falou em espanhol e teve a ajuda de um tradutor (nem precisava). Referiu-se ao Lula como “irmão de alma” da luta em favor da união da América Latina.

Recomeço?

Desfilando na passarela, com o microfone na mão, o ex-presidente brincou com as palavras e renovou esperanças. Com o cabelo meio assanhado, vestindo camisa vermelha semiaberta no peito, falava e cumprimentava (com gestos) amigos ao mesmo tempo. “Tem gente que se incomoda quando a gente coloca a filha de uma empregada doméstica para estudar medicina”- disse, referindo-se aos programas educacionais de seu governo e de Dilma Rousseff que permitiram que estudantes pobres entrassem na faculdade: “Nós, do PT, viemos para mudar a história deste país”!
Por algum tempo, naquela manhã, o Acre desligou-se do outro Brasil que fica mais ao sul e sudeste, ignorou os panelaços e as “demonizações” contra o PT, Lula e Dilma Rousseff. O PT do Acre se salva e todos estavam ali para aplaudir seu benfeitor. Pessoas de todas as idades queriam apertar sua mão. Um grupo de jovens, no final, subiu ao palco e fez, literalmente, uma revoada sobre o ex-presidente.
E ele se despediu com uma mensagem de esperança: “Não se constrói um pais sem sonhos. A mãe pobre que coloca o feijão na panela para alimentar os filhos, coloca também o seu amor”.

A marcha dos derrotados tucanos e seus sabujos

“A função de um jornalista é contar o que está acontecendo nos dias atuais, sem brigar com os fatos, gostando ou não deles, mas para entende-los é preciso recuar no tempo e buscar as raízes das crises cíclicas vividas pela nossa jovem República, como esta de agora. É uma das poucas vantagens de se ficar velho nesta profissão. Naqueles dias de 1964, quando tinha acabado de completar 16 anos, vivíamos o auge da Guerra Fria, com o mundo dividido ao meio entre o capitalismo dos Estados Unidos e o comunismo da União Soviética.
A Guerra Fria acabou junto com a União Soviética, as siglas Ipes, Ibad, UCF e MAF sumiram na poeira, a ditadura morreu de velhice e os militares estão nos quartéis, fora da cena política, cumprindo suas missões constitucionais, não há navios da esquadra americana rondando as costas brasileiras, acabamos de sair da sétima eleição presidencial consecutiva após a redemocratização do país, mas tem gente poderosa, principalmente na burguesia paulista, que ainda vive com o espírito de 1932 e 1964.
Só o que não mudou foram os barões da mídia, que continuam exatamente os mesmos, utilizando os mesmos métodos. Essa gente não esquece, não aprende e não perdoa. Se ontem o inimigo a ser abatido era Getúlio Vargas e, mais tarde, foram os seus herdeiros políticos Jango e Brizola, hoje são Lula e Dilma. Em lugar dos gaúchos, os inimigos são os nordestinos que votam no PT. Para combate-los, os udenistas que levaram Vargas ao suicídio, criaram vários partidos e acabou sobrando só o PSDB”.
(Por Ricardo Kotscho, no seu blog Balaio do Kotscho, de 01/03/2015)

Cresce uma voz na floresta

* Elson Martins

O acreano Alexandre da Silva Maciel em Brasilia, representando a Reserva Extrativista Chico Mendes  (Foto: Acervo do Festival da Juventude Rural)



Quem o viu discursando no Pavilhão do Parque das Cidades, em Brasilia, para mais de uma centena de jovens, com voz firme, do alto de quase 1,90 metro de altura, magro, enroscado numa bandeira e usando óculos fundo de garrafa com mais de 10 graus em cada lente,- poderia pensar que se tratava de algum militante europeu protestando contra o racismo e a violência do capitalismo global no continente. Mas Alexandre da Silva Maciel, 23 anos, nascido no seringal Amapá em Brasileia, morador da colocação Itararé na Reserva Extrativista Chico Mendes estava longe disso.

Na verdade, ele participava do 3º Festival da Juventude Rural (27 a 30 de Abril) e representava os jovens da Resex CM que engloba áreas de sete municípios acreanos somando cerca de 1 milhão de hectares, abrigando mais de 10 mil moradores. O tema de sua intervenção era “Juventude Rural, Participação Social e Organização Sindical”. Conhecido por Xandão, por causa do seu tamanho, Alexandre é um jovem da floresta “feito de boa massa”, como diria um cacique Galibi que conheci no Oiapoque (AP): é inteligente, educado, tem amor à sua terra e ao seu povo, além de pertencer a uma família de bravos. O avô, Gerônimo Maciel, era delegado sindical e participou de “empates” contra o desmatamento (nos anos 1970/980) na companhia de Chico Mendes. O pai, Anacleto Maciel Moreira de Souza, é militante rural desde os 10 anos de idade e se tornou poeta revolucionário.

Xandão sabe de cor os poemas do pai e faz questão de recitá-los. Um deles é “Natureza Humana”:
“A vida humana é importante
Respira o ar puro
Embora esteja no escuro
Embrenhada nos matagais
Junto com os animais
Que percorrem a natureza

Falo com toda certeza
Que nós somos iguais
Porque temos a vida humana,
Os animais e os vegetais”

Como o pai, foi seringueiro, mas num tempo que o Acre já passava por transformações diversificando as atividades econômicas. A colocação em que vive possui oito “estradas de seringa” somando cerca de 800 hectares da floresta acreana, uma riqueza que Xandão percebe como poucos de sua idade. Solteiro, morando com os pais – Anacleto e Francisca Dias da Silva – ele desenvolve muitas tarefas diárias. Colhe castanha, planta arroz, feijão, milho, batata, cana de açúcar; cria galinha caipira e mantem oito cabeças de gado leiteiro; vende produtos na cidade e já calculou que a renda é maior que a obtida com a produção de borracha. Mas as oito “estradas” ainda representam um valor de reserva.

Como militante sindical Xandão não deixa por menos. Aos 21 anos já integrava a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia frequentando eventos importantes. Em 2012 participou do 3o. Congresso Nacional do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (antigo Conselho Nacional dos Seringueiros) no Estado do Amapá. Em 2013 foi ao Congresso do Ministério do Desenvolvimento Agrário em Brasilia, e do 41. Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Agora em 2015 foi ao Festival da Juventude Rural e participou da “Marcha das Margaridas”.

Xandão faz parte também do Coletivo Quilombo como um dos coordenadores do Movimento Extrativista do Coletivo.
"Mais pela dor, que pelo amor" - O jovem trabalhador e militante rural afirma convicto que seu projeto de vida é a Reserva Extrativista. Mas considera que isso é um sonho ainda distante da realidade. Lamenta que os poderes (as Resex são administradas no país pelo ICMBio – Instituto Chico Mendes da Biodiversidade) ainda não tenham definido alternativas adequadas de sobrevivência na floresta. Os jovens, sobretudo, migram cedo para a cidade, e os que permanecem na Reserva se mostram apáticos, desinteressados nas discussões. Tantos os homens como as mulheres só se movem quando se sentem de alguma forma ameaçados.

Xandão concluiu o segundo grau na Resex, mas faz criticas às regras da educação aplicada na floresta. Existem dois programas – Asas da Florestania e Educação para Jovens e Adultos – que dificultam a formação de turmas (de 10 alunos cada) por exigências de idade. Também faltam politicas públicas que ofereçam alternativas concretas de vida. Ele sugere a adoção de pesquisas como a de plantas medicinais. E se manifesta contra os projetos madeireiros, mesmo manejados, porque entende que a floresta não se renova fácil.

Atualmente, Alexandre pensa em organizar um evento para discutir maneiras de manter os jovens na Reserva. Acredita que eles ficariam se lhes fosse oferecido perspectivas de uma vida melhor em curto ou médio prazo. Segundo ele, a maioria dos jovens desconhece o que os poderes planejam para a vida deles. Por isso só participam de reuniões “quando querem ganhar” ou “não deixar levar”. 

Em tempo: na foto principal, em Brasilia, Alexandre aparece no Pavilhão das Cidades envolvido com a Bandeira do Acre. E assume ares de uma figura messiânica, mas disposta a empreender o diálogo entre tradição e modernidade.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Túmulo sem velas

* Elson Martins

Numa colocação do Seringal Cachoeira, cercada de arame, no ramal que leva à comunidade, está a lápide da mãe de Chico Mendes, e tambem do irmão Raimundo (Foto: Lourenço Chacon)
Em Março de 2007 encontrei em Brasília o José Alves Mendes Neto, o Zuza, irmão mais novo de Chico Mendes com o qual puxei uma longa conversa sobre a vida de sua família no seringal. Eu queria saber como era o jovem Chico antes de se tornar o grande líder dos anos 70/80, assassinado em 1988. Mais que irmão, Zuza se tornara seu companheiro de lutas em defesa da floresta e do extrativismo, e tal qual CM, vivia ameaçado de morte.

Zuza não se fez de rogado para falar com emoção da família marcada pela tragédia. Disse que Chico Mendes, aos 16 anos, tornou-se “pai e mãe” de uma escadinha de irmãos menores; a mãe, Iraci Lopes Mendes, lhe pediu isso ao falecer aos 42 anos em circunstâncias dramáticas.

A tragédia acompanhou a família Mendes o tempo todo. O pai, Francisco, aleijado de uma perna, tinha dificuldade para percorrer as “estradas” de seringa no fabrico da borracha. E sua situação piorou quando, ao cortar um cipó fino com terçado afiado, quase decepou o joelho da outra perna sã. Desde então suspendeu o trabalho na seringa permanecendo, apenas, no cultivo de um pequeno roçado com a ajuda de um dos filhos.

Raimundo, mais novo que Chico Mendes, aos 14 anos era o xodó da mãe e ajudante do pai na agricultura de subsistência. Mas queria mesmo era ser seringueiro. Insistiu tanto, que o pai pediu ao Chico que abrisse para ele uma “estrada” – caminho precário aberto na mata para ligar cerca de 150 árvores, das quais o seringueiro extrai o látex.

Na véspera da estreia da nova atividade, entretanto, o pai deu outra tarefa a Raimundo: era preciso matar um porco para tirar a banha usada como óleo de cozinha, depois levar comida para o grupo de seringueiros que, juntamente com Chico Mendes, se encontrava acampado na mata fazendo a limpeza de outras “estradas”.

Na época, Zuza tinha 7 anos de idade e vivia grudado a Raimundo. Os dois combinaram sair para o primeiro “corte” de madrugada, escondido do pai, a tempo de retornar no meio da manhã, antes da matança do porco. Assim, deixaram o barraco de mansinho, embrenhando-se na mata. Raimundo se vestiu a caráter: bermuda encaronchada, sapatos de seringa, facão na cintura, poronga na cabeça e uma espingarda calibre 12, carregada, atravessada no ombro.

Lá na frente, num descampado conhecido por Taquara, os dois encontraram caído no caminho um tronco imenso. Foi preciso que Raimundo arriasse a espingarda para dar a mão ao pequeno Zuza. Com pouca luz e a emoção de se tornar seringueiro, deixou a arma escorregar sobre o tronco. A arma disparou e atingiu sua cabeça.

“Foi horrível!”- lembra Zuza, que se assustou com o tiro repentino, a fumaça e o corpo de Raimundo caindo sobre si. Quando se refez do susto e procurou sair de baixo do irmão, apalpou sua cabeça e só encontrou miolos e sangue. Correu então aos gritos pela mata, no escuro, mas por sorte cruzou com o grupo de Chico Mendes que se desesperou também. “O que aconteceu? Cadê o Raimundo?” – até que Zuza respondeu: “Raimundo morreu”!

Chico pediu a um dos companheiros que o levasse à casa e voltasse com uma rede para juntar e transportar o cadáver do irmão. Meu Deus! -pensou – dona Iraci não ia suportar tanta dor! Ela que tivera 19 filhos, quatro dos quais mortos ao nascer, estava gravida de três meses do vigésimo. Raimundo era o mais querido. Não ia suportar!

Não suportou. Ao receber o filho morto, ajoelhou-se no terreiro da casa, olhou para o céu e suplicou: “Se existe um espírito, um Deus, peço que me leve com meu filho. Não quero mais viver”. Desde então, passou a morrer um pouco a cada dia. Despedia-se de um e de outro, dava conselhos…Impediu que chamassem a parteira de costume para cuidar dela e não deixou cortar a peça de murim para fazer fraldas pro filho que ia nascer. “Vai estragar a fazenda”! – dizia resoluta.

Chico chorava ao ver a mãe escolhendo a morte. Mas tentaria salva-la. Era tão nova, tão bonita e terna… Ia leva-la para a cidade, numa rede, para atendimento médico. Começou uma peregrinação de colocação em colocação, juntando amigos para carregar a mãe pelo mato (não tinha estrada) até Xapuri. A mãe, entretanto, implorava: “Filho, não se afaste de mim. Preciso lhe dar conselhos antes de partir”. O pai, em pé encostado à parede do quarto, também chorava, aquela e outras dores, mas resignado dizia: “Sua mãe vai morrer mesmo, Chico”.

Chico ainda buscaria socorro numa última colocação, quando a mãe lhe chamou: “Vem cá Chico, me abraça”. Os dois permaneceram abraçados, chorando por longo tempo. Foi quando ela disse: ”Chico, se acalme. Você terá que ser pai e mãe dos irmãos pequenos. Seu pai não pode mais trabalhar. Não deixe que eles passem fome”.

Mesmo transtornado, ele seguiu em prantos em busca de mais carregadores. Quando retornou, dona Iraci tinha morrido. Ele a viu inerte, com sua tez branca, os cabelos loiros e cacheados, sem a voz doce e conselheira que repetia, repetia… Era a imagem da mãe resignada de seringal que, em situação inesperada, emparelha fragilidade e força, ternura e frieza, escuridão e luz.

Assim Chico se fez homem, completamente determinado: aprendeu a ler, pensar e agir. Não somente para criar os irmãos, mas também liderar os “empates”, defender a floresta, criar as reservas extrativistas, garantir a permanência dos seringueiros acreanos em suas colocações, avisar a quem quisesse ouvir que, no Acre, existe uma sociedade diferente, amiga da natureza, desejando o bem do universo.

Túmulo ignorado

Semana passada, no feriado de 21 de Abril, visitei o seringal Cachoeira onde familiares e companheiros de Chico Mendes vivem em paz, usufruindo o legado que o amigo e parente imprescindível deixou. Um deles, o primo Nilson Mendes, que nos acolhia como guia, parou no meio da estrada e apontou:

– Alí depois daquela cerca de arame, nesse descampado, tá vendo um tumulo no meio do mato? É a mãe do Chico! Ela e o filho Raimundo estão enterrados ali!

Meu Deus! Pensei logo na história que o Zuza me contou em Brasília e senti uma profunda tristeza. Os dois, Iraci e Raimundo, merecem uma lápide melhor, com muitas velas acesas, muitas visitas que venerem vidas tão amorosas… Ah! Imagino o poeta Mário de Andrade, ajoelhado, a rezar os versos: “Quero ver si consigo/Não passar na sua vida/numa indiferença enorme”…

domingo, 26 de abril de 2015

Os meninos de Turvo

* Elson Martins

Meninos do Seminário de Turvo fotografados em 1962 (Foto cedida pela organização do encontro)


Na primeira quinzena de janeiro aconteceu no interior de Santa Catarina o 1o. Encontro Nacional de “Os meninos de Turvo” com a presença de 150 pessoas entre ex-alunos ( e familiares) do seminário da Ordem dos Servos de Maria, que funciona na cidade (Turvo) desde meados do século passado. O ex-bispo da Diocese de Rio Branco e atual arcebispo emérito de Porto Velho, D. Moacyr Grechi, foi aluno, professor e reitor do seminário e participou do evento como “nosso menino mais querido”. Outros meninos, que ele trouxe para o Acre a partir dos anos 1970, são os jornalistas Silvio Martinello e Antônio Marmo, o professor de filosofia da UFAC, Silvio Birolo e os fundadores do Colégio Meta, Itamar Zanin e Evaristo de Lucca. Antônio Marmo, que atualmente mora em Ubatuba (SP), integrou a equipe do jornal Varadouro que eu e o Silvio Martinello editamos nos anos 1970/1980 em Rio Branco; por isso pedi a ele que relatasse para o Almanacre como foi a confraternização dos hoje velhinhos turvenses. Ele me mandou a seguinte cartinha eletrônica:

Caro Elson: “Não terei tempo de resumir tudo o que significou este 1º encontro Nacional dos Meninos do Turvo em emoção e resgate de memória, um encontro costurado por uma comissão que percorreu vários estados durante todo o ano de 2014, para concretizar-se nos dias 11, 12 e 13 de janeiro em Santa Catarina. A maioria dos que lá compareceram não se viam há 30, 40, 50 anos.

Mas nesta carta ai abaixo, entregue em mãos a Dom Moacyr Grechi em Porto Velho, numa das viagens de preparação, estão alinhavados o que nos motivou. Dom Moacyr era nosso convidado especial, ponto de referência mais que marcante para todos nós, como nosso orientador desde a infância e depois, por sua atuação firme ai no Acre, exemplo de engajamento e coerência.

Ele compareceu ao Turvo mas, infelizmente, sua saúde não permitiu que participasse cem por cento do evento. Já está debilitado em seus 79 anos.

Acre e Santa Catarina, dois Estados distantes mais de 4 mil km, mas têm tudo a ver. Do seminário de Santa Catarina saíram dezenas de estudantes, padres e colaboradores que seguiram para atuar em terras acreanas, muitos deles, todos catarinenses, ainda trabalhando ai, como o Silvio Martinello, Itamar Zanin, Silvio Bez Birolo, Evaristo de Lucca, entre outros.


Santa Catarina e Acre têm ligações estreitas desde os idos de 1920, quando se instalou a Missão dos Servos de Maria em Rio Branco, sendo o padre Paolino Baldassari, hoje em Sena Madureira, um dos mais antigos a trabalhar aí. Ele foi direto do Turvo para o Acre, em 1956.


Mas tivemos presenças do Brasil todo e do Exterior, como o José Aparecido, hoje trabalhando em Austin Texas, incluindo outro acreano, hoje morando em Fortaleza, o Claudio Oliveira (o Baioco), Narciso Cechinel, do Recife, o médico José Francisco Furtado, de São José dos Campos, todo o grupo do Acre, Porto Velho, Paraná, São Paulo, Minas enfim.


Um encontro inesquecível. Veja ai a carta ao Dom Moacyr explicando os objetivos…


Caríssimo Dom Moacyr Grecchi:

Nós, portadores desta carta-convite somos parte de uma Comissão de ex-alunos seus, engajados há alguns meses na viabilização de um encontro de colegas que passaram pelos vários seminários e/ou conventos da Ordem dos Servos de Maria nos últimos 60 anos.

Todos, desde Turvo, em Santa Catarina até São José dos Campos, passando por São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Branco, no Acre, outros pela Europa, todos carregamos conosco um sentimento real de profunda gratidão pela oportunidade e privilégio que tivemos de absorver a educação que tivemos, da forma como a recebemos e , depois, de aperfeiçoá-la em especializações diversas.

Hoje formamos um grupo que, heterogêneo em suas histórias pessoais mantém-se homogêneo e unido nessa origem comum de seminário. São histórias pessoais que, de uma forma ou de outra, nos colocam em uma escala privilegiada dentro das comunidades onde vivemos, seja como professores em faculdades, doutores, reitores, Juiz, Procurador de Estado, médicos e jornalistas, economistas, executivos empresariais, técnicos, agricultores, consultores. Cidadãos participantes, enfim.

Há um número significativo de membros do grupo ainda fortemente engajado em ações de igreja, como leigos ou mesmo no diaconato e outros, alheios a vínculos com igrejas ou confissões, atuam em ações diretas decorrentes de suas respectivas profissões.

Deste encontro, após tantos anos, esperamos que seja algo mais que simples confraternização festiva entre um churrasco e um abraço. Sua presença para uma conversa amiga no domingo e de outros que esperamos em um painel de troca de experiências, no sábado à noite, poderão levar-nos a amadurecer no grupo objetivos concretos.

É isso que buscamos! É para isso que viajamos até Porto Velho, num reconhecimento da força de sua vivência e exemplo local e nacional. Esperamos pelo senhor no Turvo, nos dias dez e onze de janeiro próximo. Desde já, agradecemos.

A Comissão Organizadora:
Osni Rabelo Quinto Piazza, José Carlos Bueno, Osni Alves,
Joaquim Aparecido, Antônio Marmo e Gabriel Nogueira
São Paulo 10 de outubro de 2014

Os meninos de turvo em janeiro de 2015 (Foto cedida pela organização do encontro)
           
Dom Moacyr Grechi deixou sua impressão sobre o encontro em Turvo no jornal Volta Grande, na edição de 15 de Janeiro de 2015. O atual arcebispo emérito de Porto Velho declarou:

“Eu me sinto feliz ao rever cada um deles e até mesmo reconhece-los, e embora muitos não tenham seguido o caminho de padre, estão conseguindo seguir um caminho de verdadeiros cristãos. Eu queria que nós Servos de Maria, aprendêssemos com Nossa Senhora, é como um velho pai ou velho avô ao ver os filhos, ao ver cada um deles como continuam parecidos”.