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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Xapuri dá nome e inspira revista em Goiás

* Elson Marins

Zezé Weiss - Foto: Facebook


Aqui no Acre pouca gente viu, mas circula em Brasília e outras cidades do país, desde o fim do ano passado, a revista “Xapuri Socioambiental”, cujo n.13 circulou em novembro. É uma publicação de muito bom gosto, colorida, que explora temas diversos em reportagens muito bem escritas, com fotos lindas e diagramação impecável! Ainda se dá ao luxo de usar papel reciclado.

Quando a vi, fiquei impactado e quis logo saber: quem, em Xapuri, está editando uma revista tão bonita?

Por isso fui direto ao expediente. E me deparei com o nome da Zezé Weiss, que puxa outros bem conhecidos e qualificados jornalistas, escritores e pesquisadores. Lá estava o Jaime Sautchuk, cujos textos aprecio desde o tempo da imprensa alternativa nos jornais Opinião e Movimento. Ele brilhou também na grande imprensa: em O Globo, Estadão, Folha de S.Paulo e Veja. E escreveu livros. E fez vídeos bonitos, até ganhou o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos com “Balbina, Destruição e Morte”

Colaboradores de peso como Joseph Weiss (engenheiro,PhD) Leonardo Boff (teólogo, filósofo, escritor), Lúcia Resende (mestra em Educação), Jacy Afonso (dirigente nacional da CUT), Eduardo de Deus (acreano, pesquisador) e mais gente especial vai se chegando para colaborar com a revista dando o seu tom. No Conselho Editorial encontramos o nosso ex-governador Binho Marques e mais uma dezena de jornalistas, escritores e militantes

A Zezé Weiss, que aparece como produtora e editora-chefe, é uma velha conhecida dos acreanos. Foi ela quem produziu o livro-album Vozes da Floresta, em 2008, montando histórias e perfis de pessoas que protagonizaram entre os anos 1970 e 1990 os movimentos socioambientais que projetaram Chico Mendes para o mundo. Zezé conheceu Chico Mendes e se envolveu com sua luta em defesa dos povos da floresta.

É ela quem explica de onde vem a inspiração da revista Xapuri, “made in” Formosa, no Estado de Goiás, onde vive: “Nossa inspiração vem do exemplo de nossas populações indígenas, ribeirinhas, extrativistas e quilombolas que, desde o “princípio das coisas”, sempre fizeram e ainda hoje fazem o ‘que tem de ser feito’ para viver uma vida inteligente, saudável, feliz e sustentável.”

Explica também o que seu qualificado grupo faz:

“De tudo, fazemos um pouco, e sempre com muito carinho. Em comunicação: mídia eletrônica, jornais, revistas, livros, planos de mídia, planos de marketing. Em projetos: planejamento, projetos técnicos, projetos sociais, captação de recursos, gestão, execução, acompanhamento e prestação de contas. Em especial, prestamos consultoria técnica a entidades e governos na captação de recursos junto ao governo federal”.

Entrevero - A revista Xapuri ainda não se espalhou pelo Acre, que a inspirou, porque sua editora-chefe foi acometida de um câncer e teve que permanecer mais tempo em Formosa (Goiás) se submetendo a tratamento rigoroso. Mas a revista continuou crescendo com a ajuda de vários “anjos”, como ele mesma diz. Zezé está vencendo também a doença, com tempo para alimentar sua página no Facebook. Eis um dos recados que colocou recentemente:

“SALVE! A partir de 16 de novembro, você paga 95 reais por 12 edições que circulam mensalmente. Contamos com sua parceria para fazer uma revista cada vez mais linda, mais alto astral e mais cheia de bons conteúdos. Vem com a gente! www.xapuri.info/assine”.

Para fazer justiça, preciso dizer que a revista Xapuri, embora junte renomados especialistas em suas edições não é uma publicação para acadêmicos, ou melhor, para entendidos, que de tão especial vire uma “chatice”. Nada disso. A revista é faceira, tem a cara do Brasil, da Amazônia e se parece também com o Acre na sua singeleza. Por exemplo: na edição n.4, de fevereiro, a publicitária Amanda Lima ocupa duas páginas para ensinar a receita de “Requeijão caseiro – delícia da Roça”.

Aqui e ali o leitor se depara com uma encantadora história de vida de personagens que vivem pelos sertões brasileiros, ou nos confins da Amazônia. Ou se surpreende com uma tradição indígena, ou com um poema da Cora Coralina, ou com experiência de educação ambiental que podia ser desenvolvida em seu bairro, em sua comunidade. Também puxa a orelha de prefeitos que não enxergam que cuidar das calçadas nas grandes e pequenas cidades é uma questão prioritária.


Aproveite! Assine Xapuri!

Capas de revista Xapuri Socioambiental produzidas em 2015 – Foto: Reprodução

Prováveis consequências do aquecimento global para o Brasil

(Trecho de uma matéria assinada por Joseph S. Weiss* na edição de Novembro da atraente revista de Zezé Weiss):

Caso o mundo não consiga limitar o aquecimento a 2 graus centigrados com relação a meados do século 19, como se prevê com a COP-21, o Brasil sofrerá várias consequências. Algumas delas:

Amazônia – até 60% da floresta pode virar cerrado a partir de 2050.

Nordeste – aumentará a tendência à desertificação. O calor aumentará a evaporação, os solos serão mais secos, prejudicando a agricultura familiar e a irrigação.

Sul – o clima muito mais quente tornará inviável a produção de grãos. Haverá chuvas e ventos fortes, porém infrequentes.

Centro-Oeste – as chuvas serão mais concentradas, entremeadas de vários veranicos. A erosão prejudicará a agricultura. Assim mesmo, a produção deslocará do Sul pata essa região.

Sudeste – Na Bacia do Prata, que corresponde a 1/6 do Brasil e onde vive a maior parte dos brasileiros, haverá muito menos água para beber e para gerar energia.

Cidades – serão mais quentes, prejudicando os bairros pobres, sujeitos a mais inundações, enchentes e desmoronamentos. Haverá mais doenças, como dengue e malária.

*Engenheiro Agrônomo Ph.D – diretor da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica.

Amazônia tem “oceano subterrâneo”

Elton Alisson

O Acre inteiro tem um mar de água doce por baixo (conforme mapa publicado pela Fapesp)
A Amazônia possui uma reserva de água subterrânea com volume estimado em mais de 160 trilhões de metros cúbicos, estimou Francisco de Assis Matos de Abreu, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), durante a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que terminou no dia 27 de julho de 2014, no campus da Universidade Federal do Acre (UFAC), em Rio Branco.

O volume é 3,5 vezes maior do que o do Aquífero Guarani – depósito de água doce subterrânea que abrange os territórios do Uruguai, da Argentina, do Paraguai e principalmente do Brasil, com 1,2 milhão de quilômetros quadrados (km2) de extensão.

“A reserva subterrânea representa mais de 80% do total da água da Amazônia. A água dos rios amazônicos, por exemplo, representa somente 8% do sistema hidrológico do bioma e as águas atmosféricas têm, mais ou menos, esse mesmo percentual de participação”, disse Abreu durante o evento.

O conhecimento sobre esse “oceano subterrâneo”, contudo, ainda é muito escasso e precisa ser aprimorado tanto para avaliar a possibilidade de uso para abastecimento humano como para preservá-lo em razão de sua importância para o equilíbrio do ciclo hidrográfico regional.

De acordo com Abreu, as pesquisas sobre o Aquífero Amazônia foram iniciadas há apenas 10 anos, quando ele e outros pesquisadores da UFPA e da Universidade Federal do Ceará (UFC) realizaram um estudo sobre o Aquífero Alter do Chão, no distrito de Santarém (PA).

O estudo indicou que o aquífero, situado em meio ao cenário de uma das mais belas praias fluviais do país, teria um depósito de água doce subterrânea com volume estimado em 86,4 trilhões de metros cúbicos.

“Ficamos muito assustados com os resultados do estudo e resolvemos aprofundá-lo. Para a nossa surpresa, descobrimos que o Aquífero Alter do Chão integra um sistema hidrogeológico que abrange as bacias sedimentares do Acre, Solimões, Amazonas e Marajó. De forma conjunta, essas quatro bacias possuem, aproximadamente, uma superfície de 1,3 milhão de quilômetros quadrados”, disse Abreu.

Denominado pelo pesquisador e colaboradores Sistema Aquífero Grande Amazônia (Saga), o sistema hidrogeológico começou a ser formado a partir do período Cretáceo, há cerca de 135 milhões de anos.

Em razão de processos geológicos ocorridos nesse período foi depositada, nas quatro bacias sedimentares, uma extensa cobertura sedimentar, com espessuras da ordem de milhares de metros, explicou Abreu.

“O Saga é um sistema hidrogeológico transfronteiriço, uma vez que abrange outros países da América do Sul. Mas o Brasil detém 67% do sistema”, disse.

Uma das limitações à utilização da água disponível no reservatório, contudo, é a precariedade do conhecimento sobre a sua qualidade, apontou o pesquisador. “Queremos obter informações sobre a qualidade da água encontrada no reservatório para identificar se é apropriada para o consumo.”

“Estimamos que o volume de água do Saga a ser usado em médio prazo para abastecimento humano, industrial ou para irrigação agrícola será muito pequeno em razão do tamanho da reserva e da profundidade dos poços construídos hoje na região, que não passam de 500 metros e têm vazão elevada, de 100 a 500 metros cúbicos por hora”, disse.

Como esse reservatório subterrâneo representa 80% da água do ciclo hidrológico da Amazônia, é preciso olhá-lo como uma reserva estratégica para o país, segundo Abreu.

“A Amazônia transfere, na interação entre a floresta e os recursos hídricos, associada ao movimento de rotação da Terra, cerca de 8 trilhões de metros cúbicos de água anualmente para outras regiões do Brasil. Essa água, que não é utilizada pela população que vive aqui na região, representa um serviço ambiental colossal prestado pelo bioma ao país, uma vez que sustenta o agronegócio brasileiro e o regime de chuvas responsável pelo enchimento dos reservatórios produtores de hidroeletricidade nas regiões Sul e Sudeste do país”, avaliou.

Vulnerabilidades - De acordo com Ingo Daniel Wahnfried, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), um dos principais obstáculos para estudar o Aquífero Amazônia é a complexidade do sistema.

Como o reservatório é composto por grandes rios, com camadas sedimentares de diferentes profundidades, é difícil definir, por exemplo, dados de fluxo da água subterrânea para todo sistema hidrogeológico amazônico.

“Há alguns estudos em andamento, mas é preciso muito mais. É necessário avaliarmos, por exemplo, qual a vulnerabilidade do Aquífero Amazônia à contaminação”, disse Wahnfried, que realizou doutorado direto com Bolsa da FAPESP.

Diferentemente do Aquífero Guarani, acessível apenas por suas bordas – uma vez que há uma camada de basalto com dois quilômetros de extensão sobre o reservatório de água –, as áreas do Aquífero Amazônia são permanentemente livres.

Em áreas de floresta, essa exposição do aquífero não representa um risco. Já em áreas urbanas, como nas capitais dos estados amazônicos, isso pode representar um problema sério. “Ainda não sabemos o nível de vulnerabilidade do sistema aquífero da Amazônia em cidades como Manaus”, disse Wahnfried.

Segundo o pesquisador, tal como a água superficial (dos rios), a água subterrânea é amplamente distribuída e disponível na Amazônia. No Amazonas, 71% dos 62 municípios utilizam água subterrânea (mas não do aquífero) como a principal fonte de abastecimento público, apesar de o estado ser banhado pelos rios Negro, Solimões e Amazonas.

Já dos 22 municípios do Estado do Acre, quatro são totalmente abastecidos com água subterrânea. “Apesar de esses municípios estarem no meio da Amazônia, eles não usam as águas dos rios da região em seus sistemas públicos de abastecimento”, avaliou Wahnfried.

Algumas das razões para o uso expressivo de água subterrânea na Amazônia são o acesso fácil e a boa qualidade desse tipo de água, que apresenta menor risco de contaminação do que a água superficial.

Além disso, o nível de água dos rios na Amazônia varia muito durante o ano. Há cidades na região que, em períodos de chuva, ficam a poucos metros de um rio. Já em períodos de estiagem, o nível do rio baixa 15 metros e a distância dele para a cidade passa a ser de 200 metros, exemplificou.
*Graduado em jornalismo pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), com extensão em jornalismo impresso pela Universidade de Navarra, da Espanha, e em jornalismo econômico pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) – Agência FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Olê, olê, olê, olá!

* Elson Martins
Lula: “Quando comecei a vir ao Acre, nos anos 80, eu fazia reunião com 5 pessoas, mas fazia discurso para um milhão” (Foto: Sérgio Vale)

Oficialmente, tratava-se apenas da realização do 3º Encontro de Piscicultores do Acre. No local (BR-364, a 34 km de Rio Branco) foi construído, recentemente, uma central de produção de alevinos, uma fábrica de ração e um frigorifico para o processamento industrial de peixes com investimento de R$ 80 milhões. Mas a enorme tenda montada para o evento sugeria mais coisa: sob ela tinha um palco, também ancho, que caberia até um desfile de modas.
Logo se viu por quê: o ex-presidente Lula era o convidado principal e, de quebra, tinha o presidente da Bolívia, Evo Morales, que veio acompanhado de quatro ministros da área de produção. O cenário se completava com a presença do governador Tião Viana e do senador Jorge Viana, além do governador do Piauí, Wellington Dias, e mais secretários de estado, políticos estaduais, empresários e algumas lideranças populares. Em volta, cerca de metro e meio abaixo, a plateia estimada em três mil pessoas.
O letreiro do evento, colocado ao fundo parecia conspirar: “Uma nova economia, começa vendendo seu peixe”. Bem que poderia ser: uma “nova politica”…
Era o dia (quinta, 7) e a hora (11h) do grande amigo do Acre Luís Inácio Lula da Silva. Quando ele chegou, a plateia se manifestou ruidosa e festivamente, todos cantando “Lula… Lula” acompanhado do “olê, olá”! – como nas campanhas passadas que o levaram a Presidência da Republica. O ambiente estava virando uma festa acreana. Um grupo gritava em coro: “Lula, guerreiro do povo brasileiro”!
No sul e sudeste, onde vive e esgrima com sua força politica bombardeada, Lula tem falado pra pouca gente. Porque virou saco de pancadas da mídia elitista de São Paulo e Rio de Janeiro. Mas, no Acre, ele é um rei amado. Por isso, e inteligentemente, o cerimonial estabeleceu o tempo de 2 minutos para as falas, mas não fixou tempo pra ele e pro Evo Morales.
O Encontro dos Piscicultores acabou se transformando num acontecimento histórico. Primeiro, porque a “furiosa” (banda) da PM tocou os hinos do Brasil e da Bolívia igualmente aplaudidos. Nada de ressentimentos quanto a guerra de 114 anos atrás na fronteira. Evo Morales postou-se com a mão direita no peito e o punho esquerdo levantado, num gesto revolucionário.
Também porque o Lula, em estado de graça, tratou a todos como amigos de infância, até mesmo o presidente boliviano: “A Bolivia – disse – nunca viveu antes o tempo de paz que vive agora com esse índio cocaleiro (Evo é índio Quexua, o grupo indígena mais numeroso, expressivo e original do seu país)”. Dirigindo-se diretamente ao presidente vizinho, com intimidade, reforçou: “Você é motivo de orgulho para a esquerda brasileira”!
Lula prometeu ajuda a Evo Morales para fazer uma fábrica de processamento do peixe igual a do Acre, na Bolívia. Um assessor boliviano informou, depois, que já estão previstos três frigoríficos – um em Cobija, outro na região do Bene e mais um em Cochabamba, – mas menores, com menos investimento.
Evo Morales falou em espanhol e teve a ajuda de um tradutor (nem precisava). Referiu-se ao Lula como “irmão de alma” da luta em favor da união da América Latina.

Recomeço?

Desfilando na passarela, com o microfone na mão, o ex-presidente brincou com as palavras e renovou esperanças. Com o cabelo meio assanhado, vestindo camisa vermelha semiaberta no peito, falava e cumprimentava (com gestos) amigos ao mesmo tempo. “Tem gente que se incomoda quando a gente coloca a filha de uma empregada doméstica para estudar medicina”- disse, referindo-se aos programas educacionais de seu governo e de Dilma Rousseff que permitiram que estudantes pobres entrassem na faculdade: “Nós, do PT, viemos para mudar a história deste país”!
Por algum tempo, naquela manhã, o Acre desligou-se do outro Brasil que fica mais ao sul e sudeste, ignorou os panelaços e as “demonizações” contra o PT, Lula e Dilma Rousseff. O PT do Acre se salva e todos estavam ali para aplaudir seu benfeitor. Pessoas de todas as idades queriam apertar sua mão. Um grupo de jovens, no final, subiu ao palco e fez, literalmente, uma revoada sobre o ex-presidente.
E ele se despediu com uma mensagem de esperança: “Não se constrói um pais sem sonhos. A mãe pobre que coloca o feijão na panela para alimentar os filhos, coloca também o seu amor”.

A marcha dos derrotados tucanos e seus sabujos

“A função de um jornalista é contar o que está acontecendo nos dias atuais, sem brigar com os fatos, gostando ou não deles, mas para entende-los é preciso recuar no tempo e buscar as raízes das crises cíclicas vividas pela nossa jovem República, como esta de agora. É uma das poucas vantagens de se ficar velho nesta profissão. Naqueles dias de 1964, quando tinha acabado de completar 16 anos, vivíamos o auge da Guerra Fria, com o mundo dividido ao meio entre o capitalismo dos Estados Unidos e o comunismo da União Soviética.
A Guerra Fria acabou junto com a União Soviética, as siglas Ipes, Ibad, UCF e MAF sumiram na poeira, a ditadura morreu de velhice e os militares estão nos quartéis, fora da cena política, cumprindo suas missões constitucionais, não há navios da esquadra americana rondando as costas brasileiras, acabamos de sair da sétima eleição presidencial consecutiva após a redemocratização do país, mas tem gente poderosa, principalmente na burguesia paulista, que ainda vive com o espírito de 1932 e 1964.
Só o que não mudou foram os barões da mídia, que continuam exatamente os mesmos, utilizando os mesmos métodos. Essa gente não esquece, não aprende e não perdoa. Se ontem o inimigo a ser abatido era Getúlio Vargas e, mais tarde, foram os seus herdeiros políticos Jango e Brizola, hoje são Lula e Dilma. Em lugar dos gaúchos, os inimigos são os nordestinos que votam no PT. Para combate-los, os udenistas que levaram Vargas ao suicídio, criaram vários partidos e acabou sobrando só o PSDB”.
(Por Ricardo Kotscho, no seu blog Balaio do Kotscho, de 01/03/2015)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Túmulo sem velas

* Elson Martins

Numa colocação do Seringal Cachoeira, cercada de arame, no ramal que leva à comunidade, está a lápide da mãe de Chico Mendes, e tambem do irmão Raimundo (Foto: Lourenço Chacon)
Em Março de 2007 encontrei em Brasília o José Alves Mendes Neto, o Zuza, irmão mais novo de Chico Mendes com o qual puxei uma longa conversa sobre a vida de sua família no seringal. Eu queria saber como era o jovem Chico antes de se tornar o grande líder dos anos 70/80, assassinado em 1988. Mais que irmão, Zuza se tornara seu companheiro de lutas em defesa da floresta e do extrativismo, e tal qual CM, vivia ameaçado de morte.

Zuza não se fez de rogado para falar com emoção da família marcada pela tragédia. Disse que Chico Mendes, aos 16 anos, tornou-se “pai e mãe” de uma escadinha de irmãos menores; a mãe, Iraci Lopes Mendes, lhe pediu isso ao falecer aos 42 anos em circunstâncias dramáticas.

A tragédia acompanhou a família Mendes o tempo todo. O pai, Francisco, aleijado de uma perna, tinha dificuldade para percorrer as “estradas” de seringa no fabrico da borracha. E sua situação piorou quando, ao cortar um cipó fino com terçado afiado, quase decepou o joelho da outra perna sã. Desde então suspendeu o trabalho na seringa permanecendo, apenas, no cultivo de um pequeno roçado com a ajuda de um dos filhos.

Raimundo, mais novo que Chico Mendes, aos 14 anos era o xodó da mãe e ajudante do pai na agricultura de subsistência. Mas queria mesmo era ser seringueiro. Insistiu tanto, que o pai pediu ao Chico que abrisse para ele uma “estrada” – caminho precário aberto na mata para ligar cerca de 150 árvores, das quais o seringueiro extrai o látex.

Na véspera da estreia da nova atividade, entretanto, o pai deu outra tarefa a Raimundo: era preciso matar um porco para tirar a banha usada como óleo de cozinha, depois levar comida para o grupo de seringueiros que, juntamente com Chico Mendes, se encontrava acampado na mata fazendo a limpeza de outras “estradas”.

Na época, Zuza tinha 7 anos de idade e vivia grudado a Raimundo. Os dois combinaram sair para o primeiro “corte” de madrugada, escondido do pai, a tempo de retornar no meio da manhã, antes da matança do porco. Assim, deixaram o barraco de mansinho, embrenhando-se na mata. Raimundo se vestiu a caráter: bermuda encaronchada, sapatos de seringa, facão na cintura, poronga na cabeça e uma espingarda calibre 12, carregada, atravessada no ombro.

Lá na frente, num descampado conhecido por Taquara, os dois encontraram caído no caminho um tronco imenso. Foi preciso que Raimundo arriasse a espingarda para dar a mão ao pequeno Zuza. Com pouca luz e a emoção de se tornar seringueiro, deixou a arma escorregar sobre o tronco. A arma disparou e atingiu sua cabeça.

“Foi horrível!”- lembra Zuza, que se assustou com o tiro repentino, a fumaça e o corpo de Raimundo caindo sobre si. Quando se refez do susto e procurou sair de baixo do irmão, apalpou sua cabeça e só encontrou miolos e sangue. Correu então aos gritos pela mata, no escuro, mas por sorte cruzou com o grupo de Chico Mendes que se desesperou também. “O que aconteceu? Cadê o Raimundo?” – até que Zuza respondeu: “Raimundo morreu”!

Chico pediu a um dos companheiros que o levasse à casa e voltasse com uma rede para juntar e transportar o cadáver do irmão. Meu Deus! -pensou – dona Iraci não ia suportar tanta dor! Ela que tivera 19 filhos, quatro dos quais mortos ao nascer, estava gravida de três meses do vigésimo. Raimundo era o mais querido. Não ia suportar!

Não suportou. Ao receber o filho morto, ajoelhou-se no terreiro da casa, olhou para o céu e suplicou: “Se existe um espírito, um Deus, peço que me leve com meu filho. Não quero mais viver”. Desde então, passou a morrer um pouco a cada dia. Despedia-se de um e de outro, dava conselhos…Impediu que chamassem a parteira de costume para cuidar dela e não deixou cortar a peça de murim para fazer fraldas pro filho que ia nascer. “Vai estragar a fazenda”! – dizia resoluta.

Chico chorava ao ver a mãe escolhendo a morte. Mas tentaria salva-la. Era tão nova, tão bonita e terna… Ia leva-la para a cidade, numa rede, para atendimento médico. Começou uma peregrinação de colocação em colocação, juntando amigos para carregar a mãe pelo mato (não tinha estrada) até Xapuri. A mãe, entretanto, implorava: “Filho, não se afaste de mim. Preciso lhe dar conselhos antes de partir”. O pai, em pé encostado à parede do quarto, também chorava, aquela e outras dores, mas resignado dizia: “Sua mãe vai morrer mesmo, Chico”.

Chico ainda buscaria socorro numa última colocação, quando a mãe lhe chamou: “Vem cá Chico, me abraça”. Os dois permaneceram abraçados, chorando por longo tempo. Foi quando ela disse: ”Chico, se acalme. Você terá que ser pai e mãe dos irmãos pequenos. Seu pai não pode mais trabalhar. Não deixe que eles passem fome”.

Mesmo transtornado, ele seguiu em prantos em busca de mais carregadores. Quando retornou, dona Iraci tinha morrido. Ele a viu inerte, com sua tez branca, os cabelos loiros e cacheados, sem a voz doce e conselheira que repetia, repetia… Era a imagem da mãe resignada de seringal que, em situação inesperada, emparelha fragilidade e força, ternura e frieza, escuridão e luz.

Assim Chico se fez homem, completamente determinado: aprendeu a ler, pensar e agir. Não somente para criar os irmãos, mas também liderar os “empates”, defender a floresta, criar as reservas extrativistas, garantir a permanência dos seringueiros acreanos em suas colocações, avisar a quem quisesse ouvir que, no Acre, existe uma sociedade diferente, amiga da natureza, desejando o bem do universo.

Túmulo ignorado

Semana passada, no feriado de 21 de Abril, visitei o seringal Cachoeira onde familiares e companheiros de Chico Mendes vivem em paz, usufruindo o legado que o amigo e parente imprescindível deixou. Um deles, o primo Nilson Mendes, que nos acolhia como guia, parou no meio da estrada e apontou:

– Alí depois daquela cerca de arame, nesse descampado, tá vendo um tumulo no meio do mato? É a mãe do Chico! Ela e o filho Raimundo estão enterrados ali!

Meu Deus! Pensei logo na história que o Zuza me contou em Brasília e senti uma profunda tristeza. Os dois, Iraci e Raimundo, merecem uma lápide melhor, com muitas velas acesas, muitas visitas que venerem vidas tão amorosas… Ah! Imagino o poeta Mário de Andrade, ajoelhado, a rezar os versos: “Quero ver si consigo/Não passar na sua vida/numa indiferença enorme”…

segunda-feira, 23 de março de 2015

Homens e rios se parecem!

* Elson Martins

Iaco, o rio da minha infância (Foto:Sérgio Vale/Secom)

Um menino de Tarauacá de nome Leandro Tocantins se tornou escritor e historiador premiado. Lá pelos anos 30, cunhou a expressão “o rio comanda a vida” que definiu, poeticamente, a descoberta e ocupação do Acre. Também descreveu a saga dos homens e mulheres que nos idos de 1877 escaparam da seca do Nordeste para mergulhar no dilúvio amazônico.

Um outro menino, nascido na França do século 19, também se deixou inspirar pela relação com o rio de sua comunidade. Filho de sapateiro, Gaston Bachelard se tornou filósofo e surpreendeu ao escrever o livro A Água e os Sonhos só com poemas. Num dos textos ele afirma:

“Meu prazer é ainda acompanhar o riacho, caminhar ao longo das margens no sentido da água que corre, da água que leva a vida à povoação vizinha”...Segundo o cientista brasileiro Antônio Carlos Diegues, que o estudou, Bachelard “considerava a água doce a verdadeira água mítica”.

Bom, eles - homens e rios, - se encontraram na Amazônia com boa dose de misticismo. Se conheceram, se apalparam e teceram vida nova num espaço selvagem e lúdico.  Por isso surgiu o Acre das águas e da floresta, por onde fervilham, por alguns séculos,  índios e carius,  negros e pardos, borracha e sucuris, botos e iaras...

Quando criança, eu também tive a felicidade de viver às margens de um rio, o Iaco, e me envolver com seus mistérios. Sabia da morada de uma sucuri no poço fundo em frente da nossa casa; acreditava que em noites de festa, dançarinos  vestidos de branco saiam de  suas águas; e tinha medo que a Iara aparecesse, até imaginava que o rio tinha um espírito.

Através dele, do rio, eu marcava as estações: porque no verão andava por suas praias desertas catando ovos de tracajá; e no inverno, quando me recolhia temeroso, queria ver de perto o que descia das cabeceiras: melancias, troncos e arvores inteiras arrastados pela correnteza.

O Iaco é um rio estreito e fundo, de barrancos altos, portanto perigoso! Mas o que acontecia de novo no seringal passava por ele. De cima e de baixo vinham lanchas e canoas transportando cargas e gente com novidades de uma civilização ficava distante e desconhecida. Dava pra ouvir com dois dias de antecipação o zumbido de um batelão se aproximando.

Um dia, fui entregue ao dono de uma embarcação para que me lavasse do seringal para a cidade (Sena Madureira) onde morava uma irmã casada. Foi uma experiência doída seguir com os olhos o movimento revoltoso e sem retorno das águas. As redemoinhos, o eco do motor nas margens, pessoas estranhas acenando, o que podia alegrar, mas assustava, porque eu estava sendo arrancado do meu pequeno e amado mundo.

Só com a maturidade entendi melhor o que dizem Tocantins e Bachelard; e passei a ver como aquelas estradas líquidas e sinuosas são fundamentais pro corpo e pra alma das pessoas que vivem na Amazônia. Abrem horizontes, permitem negócios, regam as várzeas, alimentam sonhos.

Ah! Mas ando desanimado porque vejo como as pessoas traem a amizade antiga com esses rios de água mítica. Esquecem das vantagens usufruídas e os maltratam: com lixo, exploração excessiva de seus recursos, destruição das matas ciliares...Ainda se zangam quando a natureza reage com enxurradas, quem sabe pedindo socorro, agonizando!

Até meados do século passado a relação dos acreanos com esses rios incluía troca, zelo, muito respeito entre ambos. Agora, homens e rios se mostram apartados, se estranham e se agridem mutuamente. Como se a sobrevivência de ambos não dependesse de uma reaproximação.

domingo, 1 de março de 2015

Quem avisa, amigo é!

* Elson Martins

Pela primeira vez na história de Xapuri, as águas do Rio Acre invadiram a Igreja (Foto: Kenny Roger/arquivo pessoal)

Comece a se instruir sobre o produto vital chamado água, do contrário, vai ter que aprender a conviver com miragens. O momento é propício, pois estamos em pleno inverno amazônico testemunhando alagações jamais vistas na região. Tá vendo Xapuri? Quem diria que as águas do pacato Rio Acre subiriam até 18 metros, chegando a inundar a estátua do santo Sebastião na praça do comércio e alcançar o altar da igreja, muito mais acima?

A doutora em engenharia ambiental (também bióloga e, nas horas vagas, hidróloga e meteorologista) Vera Reis, professora da Uninorte e técnica da Secretaria do Meio Ambiente, me disse quarta-feira passada (25) que tudo pode acontecer daqui para frente por conta da “variabilidade climática”. Ou seja, no que diz respeito ao clima, o mundo está virado de ponta-cabeça.

Aqui, estamos vendo o nível dos rios subir, o governo socorrer os desabrigados, muita gente perder tudo que tem, alguns pilantras rezando por mais chuvas e trovoadas só pra aparecer… Mas isso tudo é “tiquim”, se comparado com o que vem ocorrendo em outras partes do mundo. Aliás, o xerife do planeta, Estados Unidos, já tem previsão (punição) anunciada: a partir do ano 2050 vai entrar numa mega-seca milenar; e a Califórnia, do “exterminador do futuro” Arnold Shwarzenegger, será um dos estados atingidos.

Convém recapitular: a maior parte da água do nosso planeta (97%) está nos oceanos e é salgada; uma pequena quantidade (2%) fica nas geleiras, com acesso caro e difícil; um mínimo (1%) serve para consumo humano. Da água potável superficial disponível, a porcentagem maior (80%) está nas regiões menos habitadas, como na Amazônia; enquanto a menor fica em regiões mais habitadas onde as pessoas sofrem com seca e racionamento. Na verdade, 96% clamam por mais água.

Veja só o quanto o produto água é vital: O ser humano pode passar 50 dias sem comer, mas não consegue passar 5 dias sem água.

Durante a reunião da SBPC em Rio Branco, em junho do ano passado, juntei uns livrinhos preciosos sobre mudanças climáticas, escritos por gente inteligente que vive debruçada sobre o assunto. Um deles, o TOMO I do GEEA (Grupo de Estudos Estratégicos da Amazônia), apesar da capa austera, tem informações convincentes (algumas assustadoras) sobre as mudanças do clima no planeta, notadamente, no planeta Amazônia. Vários pesquisadores assinam textos, entre eles Philip M. Fearnside, um norte americano que vive há mais de 40 anos em Manaus como pesquisador do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), contribuindo para o conhecimento do ambiente. Dele reproduzo este trecho:

“O efeito estufa é uma ameaça séria para o mundo inteiro, e o Brasil, inclusive a Amazônia, é um dos lugares onde espera-se que os impactos sejam mais severos se a emissão de gases de efeito estufa continuar incontrolada. É então necessário reduzir a emissão global de todas as fontes, independentemente se elas contam como “emissões diretamente induzidas pelo ser humano”. Isso é responsabilidade de qualquer país em particular.

Segundo Fearnside, “simulações indicam que um ponto crítico seria alcançado se mais de 40% da floresta original fosse derrubada, o que conduziria ao avanço da degradação no resto da floresta”. Mais a frente ele esclarece: “Cada árvore que cai aumenta ligeiramente a probabilidade de que serão iniciados ciclos viciosos (retroalimentações) irreversíveis que destroem a floresta restante.” Finalmente, adverte: “Este é um risco que o Brasil e o mundo não podem correr”.

A bióloga Vera Reis chamou a atenção, na conversa que mantivemos na quarta-feira, para a necessidade de todo mundo plantar arvores, pelo menos uma por dia, a começar pelo quintal de casa. Ensinou que cada árvore grande da Amazônia lança mil litros de água por dia na atmosfera, em forma de gases, possibilitando a formação de novas chuvas.

Quer dizer: floresta, água e clima estão juntos, constituem um sistema integrado que realimenta o mundo natural do qual não podemos prescindir, se quisermos manter uma vida saudável.


ÁGUA: o Brasil a descobre** 

Lúcio Flávio Pinto

O suprimento de água potável no Brasil é uma calamidade pública. Talvez o impacto atual, especialmente em São Paulo, consiga mudar esse panorama. A conta do descalabro será cobrada de qualquer maneira e agora os maus administradores públicos já não contarão com o alheamento (em alguns casos, ignorância) da sociedade.

Gestão de água deverá ser a nova qualificação profissional requerida pelo mercado. Não uma gestão fracionada, esgotada em cada especialidade. Uma gestão multidisciplinar. A sociedade precisa estar bem informada (e formada) para não deixar mais que um assunto de tal gravidade seja conduzido apenas pelo governo. O chamado controle social é indispensável. Na Amazônia, que abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, essa deve ser uma função de Estado.

Não são apenas os rios voadores que migram do norte para o sul: é também a energia, extraída dos cursos d’agua e conduzida por longas e caras linhas de transmissão. A Amazônia tem sido apenas a base física desse processo. As decisões sobre onde, como e para quem destinar essa energia são tomadas fora da região e ignorando-a. Aos nativos cabe apenas as rusgas da resistência, exercidas através de manifestações de protesto que paralisam ocasionalmente as obras e retardam o seu cronograma físico e financeiro. Mas não as inviabilizam. Nem, eventualmente, modificam seu perfil.

A Amazônia é província colonial para todos os usos da água. Mas não inevitavelmente tem que ser assim. Essa função é uma exigência de entidades mais poderosas, dentro e fora do país, que precisam de muita energia para sua produção. Tal premissa elide qualquer consideração que ameace essa demanda. Mas a posição amazônica podia estar melhor exercida se pudesse se consolidar com os conhecimentos e as informações adequadas.


** Trecho extraído de um texto maior publicado no Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, edição n. 578, primeira quinzena de Fevereiro de 2015.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A foto e seu autor

Foto: Tião Fonseca


Esta foto da seringueira Marina Silva liderando um “empate” na Fazendo Bordon em Xapuri, no Acre, no inicio dos anos oitenta, tem sido largamente utilizada em jornais, revistas, livros e sites diversos. Também tem aparecido em vídeos e documentários que tratam da ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, sobretudo, nas duas últimas eleições (2010 e 2014) como candidata a Presidente da República.

Raramente, porém, se deu o crédito ao fotógrafo. Por isso, e para corrigir a injustiça, decidi apresenta-lo: trata-se do baiano Sebastião Fonseca, ou Tião Fonseca, que na época do “empate” visitava o Acre e se ofereceu para colaborar com o efêmero tabloide Repiquete, que eu e outros jornalistas, após a experiência do Varadouro, tentávamos viabilizar como empresa jornalística. Tião pegou a pauta e foi a Xapuri onde obteve o revolucionário registro. 


Tião Fonseca (foto: Yasmim Martins)

Ano passado ele voltou ao Acre para um trabalho em vídeo numa aldeia indígena no alto Rio Tarauacá, e aproveitamos para comemorar com uma taça de vinho o feito do passado. Melhor seria que, daqui para frente, as pessoas que vierem a utilizar a extraordinária foto da Marina não esqueçam de acrescentar o nome de quem a produziu. E, até, pagar pelo direito autoral! (EM)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Ciência e tecnologia sem arrogância!

* Elson Martins

Com seu qualificado e ousado Jornal Pessoal, o jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, que mora em Belém, vive alertando que para desenvolver a Amazônia com sustentabilidade é preciso aplicar ciência e tecnologia em alta escala, através de politicas públicas decentes. Um aliado dele, com a visão de quem conhece e quer o bem do povo da região é o cientista Ennio Candotti, diretor do Museu da Amazônia, de Manaus, para quem a ciência encontra meio caminho andado nos nossos caboclos do mato ou da beira dos rios. Até recomendo aos amazônidas nascidos e de coração, principalmente aos jovens que estão saindo das faculdades de jornalismo, que acompanhem de perto o trabalho desses dois.

Lúcio Flávio mantém seu bravo jornalzinho em circulação nas bancas de Belém há 27 anos e já produziu mais de 12 livros que reúnem o que há de mais confiável sobre as patadas históricas cometidas contra a Amazônia. Por conta disso, tornou-se um jornalista premiado, nacional e internacionalmente, embora ameaçado pela conservadora, ambiciosa e truculenta elite paraense. Eu diria que também pela elite do outro Brasil, que fica mais ao Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

No livro “Guerra Amazônica”, volume 1, publicado em novembro de 2005, Lúcio Flávio reproduz entrevista que deu a um grupo de pesquisadores de Belém que lhe pergunta: “como avalia a ciência produzida na Amazônia?”

Ele responde que os cientistas não deveriam produzir apenas ciência, mas como “colonos-cientistas” poderiam ser assentados em projetos de colonização para demonstrar na prática as propostas que desenvolvem na universidade:

“Se esse colono-cientista estuda arroz, vai plantar arroz. Vai ensinar como é que se faz, fazendo. Vamos pegar o cara e coloca-lo no campo (e não no campus) com bolsa de pesquisa, uma estrutura mínima. Se a gente não colocar a formação antes da transformação, a Amazônia estará liquidada. Sei que serão necessários muitos milhões de reais no começo.”

Para o jornalista, que também é sociólogo, esse investimento deveria ser concebido como “vanguarda”:

“Vamos pegar a meninada da USP, da UFRJ, da UFPA (também da UFAC) etc. – com uma boa bolsa e vamos para o campo aprender. Os orientadores também devem ir ao campo com boas condições e bons salários (…) É como se estivéssemos em Israel. A nossa guerra é a guerra da ciência. Guerra da ciência não é ficar fazendo o seu trabalhozinho acadêmico. É fazer a difusão da ciência lá no campo, enquanto se faz ciência de vanguarda nos laboratórios, nos gabinetes, nas bases de observação”.

Lúcio Flávio Pinto (foto: Elson Martins) e Ennio Candotti (foto: divulgação)

Segundo Lúcio Flávio Pinto, os colonos não cientistas iam aprender e também ensinar. Ele acrescenta que o doutor tem que deixar a postura arrogante de ficar repetindo: eu sei, eu vou ditar. “Se você sabe, você faz”.

Já o diretor do Musa de Manaus, Ennio Candotti, num texto recente, indaga se os ribeirinhos que habitam as margens dos rios e igarapés da Amazônia “são parte do problema ou da solução da questão da defesa, da produção de conhecimentos científicos de botânica e zoologia, da conservação ambiental e do desenvolvimento econômico e social da região”:

“Se a resposta for que são parte da solução, uma vez que é dever do Estado estar presente em todo o território nacional, eles são muito importantes para monitorar o movimento de pessoas e animais e o trânsito das mercadorias pelos rios, apoiar como guias e conhecedores da floresta a coleta de material para pesquisa (sementes, resinas e amostras de fauna e flora) e colaborar nas diferentes etapas na construção dos conhecimentos no campo e nos laboratórios dos centros de ciência e tecnologia”.

Ora, lembra Candotti, todos sabemos que foram os ribeirinhos dos rios e igarapés das florestas do Vietnam que, oferecendo decisivo apoio ao exército vietnamita derrotaram, em 1972, o poderoso exército de ocupação dos Estados Unidos. Ou seja, os caboquinhos da Foz do Amazonas não seriam, também, determinantes em programas de defesa de nossa região?

Em tempos de paz, os gringos já se rendem à sabedoria que as elites brasileiras teimam em ignorar: os navios de grande porte que chegam com cargas ou passageiros lá do mundo desenvolvido, por exemplo, para navegar nas águas do portentoso Rio Amazonas, precisam contratar, pagando boa quantia em dólares, a um dos “práticos” que vive em Macapá ou Belém, sabendo (sabe-se lá como!), enxergar a profundeza das águas barrentas a partir do movimento delas na superfície. E não contratem, pra ver!

* Texto  publicado originalmente na Coluna Voz das Selvas (2013) e republicado em 13 de fevereiro de 2015, na coluna Almanacre (Jornal Página 20). 

domingo, 10 de agosto de 2014

Misturado e perigoso

*Elson Martins

A eleição para governador do Acre de 2014 é a terceira em que sou levado a votar com sobrosso, pensando no risco de entregar nossa terra a um grupo de pessoas estranhas à sua história, cultura e tradições. Portanto,  pessoas sem identidade com os nossos sentimentos e modos de vida, que tentam nos impingir a barbárie que trouxeram de outras regiões. Em 2002, 2006 e 2010, escrevi meus temores de que, entre “Nós”, acreanos nascidos ou de coração, e “Eles”, representados por agressores que nos anos 1970/1980 agiam como se fossem “os novos donos do Acre”, tivéssemos que abrir mão de nossas conquistas como povos da floresta para cair na ambição capitalista que os movem.

O quadro que vejo na politica atual é difuso, uma mistura de siglas e discursos que dificulta a opção pelo voto consciente, sobretudo, entre os eleitores mais jovens, que não possuem a memória do que aconteceu por aqui há três décadas. Sei que o que aconteceu é recente, à luz da história, mas a novidade da informação eletrônica, a ascensão do capitalismo no mundo e os erros políticos de quem não consegue valorizar o protagonismo de quem faz a nossa resistência, acabam abrindo uma fresta perigosa aos inimigos da acreanidade.

Um observador atento poderá enxergar, mesmo no amontoado de asneiras que é  lançado diariamente nas redes sociais, pela internet, a força politica que permanece viva entre as nossas raízes. Uma simples fotografia da Gameleira num fim de tarde desperta, como se viu esta semana na Fanpage do senador Jorge Viana, uma unanimidade amorosa, um sentimento verdadeiro de quem se enleva com uma natureza exuberante, de cujo mistério, certamente, vamos poder construir o mundo novo e bom que tanto queremos para todos. O mesmo sentimento estava presente, há duas ou três semanas, nos espaços da universidade Federal do Acre, apinhados de jovens curiosos e esperançosos, durante a 66a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Nos amplos e promissores espaços fervilhavam gerações num diálogo entre saberes, entre tradição e modernidade...

 Seringueiros preparados para um "empate" na Fazenda Bordon, em 1987. (foto: Elson Martins)

Era como se a universidade estivesse acordando de um sono profundo, abrindo os olhos para enxergar o conhecimento dos extrativistas e dos indígenas, dos povos da floresta, o amor e a irreverencia dos jovens, a mente aberta dos cientistas apontando para o admirável mundo novo de uma comunidade fraterna possível.  Esse mundo está tão perto: está na periferia de nossa morna cidade, nas beiras de rios que desbarrancam preguiçosamente; nas periferias pobres, mas solidárias de nossas cidades e vilas; no conhecimento ancestral que decifra venenos e curas; nos gestos suaves e sábios de quem há séculos dorme com a natureza e sonha, sem maldade, para acordar com o rosto limpo e belo da simplicidade.

Ah! Doutores!  Políticos! Gestores da vida pública! Ah! Candidatos que exploram as dores do povo! Não se deixem enganar pelas aparências. Aquele senhor que vende pipoca e bombons numa birosca na esquina sabe mais que vocês, sobre como entrar e sair da floresta densa e não se perder nela; conhece remédios e fibras; sabe os nomes de quem vive muito longe; não se ofende com a solidão; tem tantas ideias simples de como viver em paz.. Sem ambição! A natureza está em nós, acreanos, e atrai, às vezes, com o hálito quente da jibóia que precisa se alimentar. Mas isso não é dominação. Não é arrogância. Não é desejo mesquinho de se apropriar de corações e mentes.

A história do Acre é uma história de bravos que orgulha aos filhos e os empurra para a resistência contra os invasores que ofendem. Essa é a politica que está em jogo nas eleições de 2014. Durante cem anos vivemos como povos invisíveis, alimentados por duas espécies da floresta – a seringueira e a castanheira. Hoje, sabemos que podemos viver outros tempos mais longos, com novas espécies, descobertas ou a serem descobertas, porque a riqueza do estado é a floresta e os que a reconhecem como tal.  Não precisamos de agouros de quem quer colocar outra forma de vida no seu lugar.

Se isso é um recado? Acho que sim! E o deixo, a quem interessar possa, porque não quero ver o Acre parecido com São Paulo, ou com o Paraná, ou com o Mato Grosso. Quero ver o Acre prosperar e se tornar um lugar bom para se viver, mas com a cara do Acre. Com a riqueza da sua floresta explorada com parcimônia, sem destruição e partilhada por todos.

Quem duvida que isso seja possível, procure acompanhar o encontro internacional do GCF que vai acontecer em Rio Branco no período de 11 a 14 deste mês. Especialistas de 7 países (Estados Unidos, Brasil, Indonésia, México, Nigéria, Peru e Espanha) vão apresentar estratégias e propor negociações que garantam pagamento a quem não desmata e, portanto, não lança dióxido de carbono na atmosfera gerando o efeito estufa. Quem age assim, presta um serviço ambiental: preserva a Natureza, salva o Planeta  e, claro,  precisa ser bem pago.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Deus nos acuda!

* Elson Martins

As alagações não são novidades  na Amazônia. E no Acre temos notícia de que no passado aconteceram algumas maiores que as que se vê nos invernos da atualidade. Uma vez eu entrevistei um idoso de Tarauacá, no vale do Juruá, e ele contou que seus avós falavam de um dilúvio que invadiu a floresta assustando até os macacos. Estes, coitados, são sempre lembrados nas tragédias que viram piada. No tempo da malária braba, se dizia que eles trocavam um cacho de banana por um comprimido de Aralem na fronteira com a Bolívia. Imagino que nas inundações preferem sacos encauchados.  

O problema é que hoje tem mais gente a ser acudida nas áreas urbanas e isso agita os segmentos políticos, a mídia e, claro, as famílias socialmente desarrumadas que moram nos bairros atingidos. Tanto que já contamos com alguns “bruxos” fazendo previsões e manchetes que ignoram os macacos. Um deles é o doutor professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), David Friale, especialista em climas que acerta nas previsões de chuvas, temporais e friagens.

Mais recentemente um outro professor, o Reginâmio Bonifácio de Lima, licenciado em história e doutor em Teologia apareceu com previsões nem tanto científicas quanto as do Friale, mas que em 2008, contrariando as previsões oficiais, alertou que as águas subiriam muito em 2009 e acertou: 1.500 famílias tiveram que abandonar suas casas naquele ano.

Da mesma forma, contrariando as expectativas, ele descartou alagação em 2013, mas advertiu que em 2014 o aguaceiro poderia atingir 60% da capital.
Reginâmio, 32 anos, acreano de Rio Branco, é especialista em Cultura, Natureza e Movimentos Sociais na Amazônia e atua como pesquisador e policial  na diretoria de Ensino da Polícia Militar do Acre. Também lidera o “Grupo de Pesquisa Sobre Terras e Gentes: Amazônia em Foco, que publica livros na área de história e estudos culturais, entre os quais “Memórias de Velhos”.

Rio Madeira, foto de Sérgio Vale
 Ele encabeça um grupo de estudiosos  que inclui a esposa, Maria Iracilda, os irmãos Pedro e Regineison e a especialista em história e cultura Lelcia Maria Monteiro de Almeida. Reginâmio recorre a estudos feitos pelo professor Antônio Monteiro, da Universidade de São Paulo (USP), que permite previsões bastante confiáveis; à Prefeitura de Rio Branco que disponibiliza mapas obtidos por satélite; ao Ministério de Ciência e Tecnologia e ao Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) que também fornecem pistas.

Nas suas fontes “confiáveis” estão os velhinhos da floresta. Essa turma tem entre 90 ou cem anos de idade e sabe coisas “do Acre da velha” que beiram a precisão. Eles sabem que quando as formigas ficam agitadas na floresta é sinal de muita água. E que os jabutis tratam com antecedência de subir os barrancos mais altos quando o inverno vem com força. Os mais sofisticados se guiam pelas safras de manga e outros frutos: se são grandes num ano, tem alagação no outro.

As previsões para 2014, entretanto, oferecem elementos novos que, certamente, as formigas e os jabutis desconhecem. A Organização das Nações Unidas divulgou ano passado que o aquecimento global até o final do século 21 será “provavelmente superior” a 2 graus, superando o limite considerado seguro pelos especialistas. E que até 2100 o nível do mar deve aumentar perigosamente de 45 a 82 centímetros; e o gelo do Ártico poderá diminuir até 94% durante o verão local. Isso pode significar que também o gelo dos Andes derreta em nossa proximidade, gerando enchentes capazes de encobrir cidades amazônicas como Manaus, Belém e Macapá, para citar somente capitais.

Mas isso são previsões remotas, ainda, e quem sou eu pra me arvorar a “bruxo” e sair assustando as pessoas! De qualquer modo, é novidade que fortes chuvas nas cabeceiras do Rio Madre de Dios, no Peru,  estejam influindo na alagação do Rio Madeira em Rondônia. Tanto que a BR-364 foi interrompida e o Acre permanece sem contato terrestre com o mundo, sem gasolina etc.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mundo sem burocracia

* Elson Martins

No período de 2007 a 2010 eu trabalhei na Biblioteca da Floresta, em Rio Branco, participando de uma equipe que desenvolveu trabalhos importantes sobre o diálogo entre os saberes, ou seja: os saberes da tradição e os saberes da modernidade. Em 2009, gravamos dois chefes indígenas ashaninka do rio Amônia, Shãsha e Txeni, que falaram com desenvoltura sobre seu modo de vida. Os ashaninka possuem reserva na fronteira do Acre com o Peru e são descendentes dos Inca. Durante a gravação, fiz algumas anotações e fiquei impressionado com o alto nível do discurso sobre a organização deles. Vale a pena refletir sobre o que falaram:

Francisco Shãsha Ashaninka

- Os povos indígenas se organizam com um projeto de vida bem complexo. Para nós, o defeito quando acontece não está na pessoa, mas no nosso jeito de orientar. A responsabilidade é de todos. Na aldeia você é membro de uma grande família. Eu não posso ter o respeito só com meu pai, meu avô. Tenho que chamar a todos de pai, mãe, avô, irmão. Falo que tenho 50 pais, 50 mães, 200 irmãos. Essa é uma segurança que a gente tem. Não se chama ninguém pelo nome. Chama de pai, irmão, avô...
- O particular está no contexto social do grupo: é praticando que se mostra o que faz. Uma criança cresce aprendendo a fazer tudo. Isso é básico, para ele aprender a viver na sociedade. Quando dois jovens se casam, eles vão construir isso, para serem contados como parte da aldeia.

- Entre nós existe uma organização profunda, o nosso mundo funciona bem. Não tem burocracia. Sai tudo de dentro da pessoa, nada vem de fora.


Imagem do filme A gente luta mas come fruta, sobre o manejo em terras Ashaninka

- Quando separaram nossa floresta em Brasil e Peru, no passado, sentimos que estávamos morando na terra dos outros. Os não índios impuseram regras. Então, um outro tempo de nossa vida foi garantir nosso território. Foi difícil, a maioria de nós desconfiava: será que querem acabar com a gente? Mas começamos a nos sentir seguros com o movimento dos seringueiros e de outros grupos indígenas.

- Esses processos não mudaram nosso jeito de pensar. Mas fomos forçados a colocar em questão o diálogo com outros grupos. Estamos vivendo hoje um momento que nos deixa muito felizes.

- Nós entendemos o canto dos pássaros e outros sons da floresta, e ficamos tão íntimos dela que passamos a entender tudo. Quando um não índio chega a nossa aldeia, a partir do jeito como ele olha a gente, já entendemos como nos vê. Nem precisa falar. Às vezes as pessoas falam coisas bonitas mas não passam segurança. Elas precisam começar a “ver” de verdade.

- O problema dos Ashaninka é um problema do planeta. Queremos dialogar com o mundo inteiro. Não queremos ser do jeito de vocês, nem que vocês sejam como nós. Mas estamos no mesmo barco.

Moisés
Txeni Ashaninka:

- Tradição é uma palavra muito forte. É como uma árvore que está em pé, fincada na terra, mostrando sua beleza e dando frutos. A mesma coisa é a idade. Uma geração trabalha para as novas gerações.
- Muitos não índios fazem perguntas sem sentido para as quais não temos resposta. É como colocar um barco onde não tem rio. É preciso dar significação às perguntas. Eles costumam tratar a gente como pessoas que não sabem nada. Eu não vou perguntar algo assim a vocês. É preciso haver respeito entre os povos. Sem respeito não existe diálogo.
- Semente, árvore, folha, flor... nosso povo conhece isso e também o espírito das árvores. É dessa forma que sabemos respeitar a floresta. Para nosso povo todo mundo é doutor e todo mundo é mestre. Porque você sozinho não sabe de nada. Mas, juntos, sabemos tudo.
- Esse diálogo (entre saberes) é uma coisa muito bonita. É uma coisa que, mais para frente, vai permitir aos não índios entenderem que no nosso mundo tem tudo que precisamos, como no mundo de vocês.



sábado, 7 de setembro de 2013

Papalagui Apressado

* Elson Martins       

Estamos na Semana do Meio Ambiente (2006) e nós, indivíduos chamados civilizados, convencionamos que a data é adequada para se falar sobre a natureza, a ecologia, os homens da floresta, essas coisas...
          
Por isso escolhi o tema Papalagui, título de um livrinho de pouco mais de 100 páginas (Editora Marco Zero) que tem uma dezena de edições em português e, certamente, muito mais em outras línguas. A versão original foi impressa em alemão.
          
Os textos colhidos por Erich Scheurmann são comentários do chefe indígena Tuiávii, dos mares do sul. Scheurmann esclarece que o autor jamais pensou em fazer tal publicação e que vivia com a mulher em sua ilha, desinteressado de contatos com a civilização branca. Esta, num determinado tempo histórico, teria ensinado muita coisa errada a seu povo.
          
A expressão papalagui é traduzida como branco ou estrangeiro, mas significa literalmente “aquele que furou o céu”. Surgiu como explicação ao aparecimento do primeiro missionário europeu que desembarcou em Samoa, num veleiro cujas velas brancas apareceram no horizonte como um buraco que se abriu no céu azul.
          
Livro reúne comentários de chefe indígena
Quando criança, eu gostava muito de ver os filmes rodados no arquipélago de Samoa, geralmente protagonizados por Jeff Chandler, um ator cujos traços fisionômicos se assemelhavam aos dos habitantes da região. O cenário feito de águas limpas, floresta e pessoas sorridentes valiam mais que todo o enredo dos filmes série “c” de Hollywood. Tudo parecia natural e compensador!
           
A descrição que Tuiávii faz sobre como vivem os brancos nas grandes, médias ou pequenas cidades, entretanto, não são nem um pouco honrosas. Ele não entende como nós, os papalagui, conseguimos viver trancados em blocos de cimento se fechando para as coisas singelas (e essenciais) da vida, ou correndo como tolos ou malucos atrás do tempo.
          
O tempo, segundo ele, escapa da gente “tal qual a cobra na mão molhada quando a seguramos com força demais”. Para sua tribo o tempo sobra:

Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adiante aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele... Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega.  Sabemos que no devido tempo haveremos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas luas nossas passaram.
          
Neste começo de milênio vemos que o conceito de eficiência em qualquer atividade pressupõe a correria não recomendada por Tuávii. No moderno governo da floresta do PT acreano, por exemplo, os amigos quase nem conversam mais porque precisam cumprir agenda de atividades, e o tempo parece “curto”. Além disso, quem não se enquadra na velocidade exigida vai ficando para trás como lerdo, ineficiente, descartável.
          
Durante a solenidade de abertura da Semana do Meio Ambiente, realizada na Praça Chico Mendes, em Rio Branco, um artista com função no governo chegou perto de mim e desabafou: “Estou meio angustiado porque não consigo trabalhar bem, fora do meu tempo. Eu preciso sentir o que faço e nunca sei quanto tempo isso leva”. Nessa hora, enquanto o governador lia a programação da semana, minha cabeça voltou-se para um trecho do chefe indígena de Samoa:
Devemos livrar o pobre papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhe ensinar que, do nascer ao por do sol, o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar.

sábado, 17 de agosto de 2013

Revolta de Pigmeu

* Elson Martins

Eu comecei a ler revistas em quadrinhos cometendo pecado. Assim entendiam as famílias da sossegada cidade de Rio Branco dos anos cinquenta, de cultura nordestina conservadora e passagem pelo seringal como a minha. Lembro de ter cumprido penitências pelas coleções de Mandrake, Homem Borracha, Tarzan e Fantasma que escondia sob o colchão da cama. Um flagra no colégio podia resultar em suspensão ou outra constrangedora penalidade. Só aos poucos, a inquisição diminuiu até desaparecer de vez. Quando isso aconteceu - que pena! - eu já me convertera a outras leituras menos atraentes.


O Fantasma era dos heróis em quadrinhos o que mais me fascinava, talvez porque suas histórias rolavam na floresta entre índios pigmeus, uma ficção criada em cenário parecido com o da realidade que conheci na infância no seringal.

Nasci em 1939, mas conheci os quadrinhos somente em 1950, creio, quando passei a morar com uma irmã mais velha na capital. Ela me matriculou no Grupo Escolar 7 de Setembro e eu, por minha conta e risco, ingressei na “sociedade secreta” Gabino Besouro (ora, ninguém sabia que o cara tinha sido um escroto histórico!) de forte atuação clandestina nas imediações do Estádio José de Melo, do Rio Branco Futebol Clube. A GB agia ao cair da noite, com seus membros vestindo orgulhosamente uma camiseta com o símbolo do Fantasma (uma caveira), uniforme com o qual partiam para as aventuras planejadas sob uma imensa mangueira existente no cruzamento da Avenida Ceará com a Rua Marechal Deodoro.



As aventuras não passavam de brincadeiras mais ou menos inocentes, circunscritas à formação religiosa e moral do grupo. As mais ousadas, empreendidas em noitadas especiais, não iam além do seqüestro de uma lata de biscoitos do bar do Coriolano, que funcionava onde fica hoje o Shopping Miragina, ou da retirada de cartazes e fotos dos filmes em exibição no Cine Rio Branco – uma tarefa de alto risco, executada de madrugada. O risco era o técnico de projeção Dedé – que dormia num quartinho nos fundos do cinema e tinha o sono leve – acordar com o barulho das taxinhas caindo no piso de madeira da sala de projeção. Tanto os biscoitos quanto os cartazes e fotos iam para uma caverna escavada num baixio do campo do Rio Branco, também vigiado pelo Walter Felix de Souza, o Té, que, no entanto, nunca a descobriu. Fora isso, cometíamos algumas brechadas nas meninas do bairro e, raramente, acirrada guerra de baladeira com outras sociedades secretas.

Não se falava em drogas, estupros ou o que pudesse sinalizar para a violência infanto-juvenil dos dias atuais. Rio Branco era uma cidade que dormia de janelas abertas e tinha como periferia o Papôco, a Capoeira e o Bosque. Os jovens acompanhavam a banda de música da Guarda Territorial desde o quartel até a Praça do Palácio, marchando e batendo palmas. O sexo perpassava pela “sociedade secreta” de forma natural e contida, cabendo apenas alguma esperteza compartilhada.

Em algumas ocasiões, adotávamos a brincadeira do esconderijo com a participação de meninas que permitiam deliciosa iniciação à bolinagem. Apenas os mais graduados da “sociedade” participavam do ávido revezamento entre os que fingiam esconder-se e os que fingiam procurá-los. Quando a iniciação rareava – afinal, não havia tantas garotas liberadas para o esconderijo – a turma recorria ao ingênuo jogo do “tirando bolo” com as menos assanhadas.

Que saudade dos guerreiros da Gabino Bezouro, como os irmãos Pitoco e Sarará, irreverentes e destemidos; e os também irmãos Stélio e Sílvio que brigavam como malucos dando trabalho para apartar. O Sílvio gostava de meter medo na turma dizendo que adorava o satanás. Quando aconteciam tempestades com raios e trovões, o que era comum naqueles tempos, ele corria gritando com os braços abertos para o céu: “Anda, meu satanás, mostra tua força e me fulmina!”.

A debandada era geral.

Outro maluco de pedra era o “Mão”, que ao se irritar, virava o próprio satanás evocado pelo Silvio. Já eu, o Zé Henrique e o Neguinho, vulgo Rock Hudson, formávamos a ala moderada, que se destacava no planejamento das ações da GB. Eu não tinha físico para sair no braço com ninguém. Quando algum outro grupo nos provocava, assumia resignadamente minha vocação de pigmeu.

Pois foi esse sentimento, do pigmeu que investia na paz com o inimigo, que me inspirou este texto. Aquele povo miúdo que conduzia os “buanas” aos tesouros da floresta me enternecia e irritava ao mesmo tempo. A história começava sempre com um avião monomotor em meio a um intenso temporal, rodopiando e caindo no meio do mato. Em seguida, apareciam os nativos que resgatavam os ocupantes do aparelho sinistrado e os levavam para a aldeia oferecendo hospitalidade. Como leitor, eu sabia que o Fantasma logo ia aparecer e salvar o tesouro, mas a indignação se repetia de história em história.

O pior é que, após 40 anos de jornalismo na Amazônia, começo a pensar que tenho repetido à exaustão o gesto dos pigmeus. Só no Acre, passei 16 anos (75 a 91) como repórter de conflitos entre nativos e forâneos, trabalhando para os jornais O Estado de S. Paulo, Folha do Acre, Gazeta do Acre, O Rio Branco, Varadouro e Repiquete, sem falar nos “frilas” para revistas nacionais. Disparava setas envenenadas sem a ajuda do Fantasma, e sem perceber que os “buanas” que buscam o tesouro do Acre não são os mesmos das histórias em quadrinhos; ou que tesouro sagrado cobiçam ainda hoje.

Só agora, sob novas e diferentes ameaças à Amazônia vejo como reluzem os depoimentos, os relatos, as histórias, as imagens que o povo da floresta passa para os invasores da floresta: tudo fácil, tudo grátis, pilhas de papéis, fotografias, fitas gravadas, filmes, emoção e lagrimas. Tesouro recebido com beijinhos no rosto, abraços públicos e falsos que se extinguem nos espaços climatizados e distantes.

E agora que precisamos tanto deles, os heróis dos quadrinhos ficaram para trás no júbilo da infância... E por onde andam os heróis em carne e osso da Gabino Besouro? Cadê o Sarará, o Pitoco, cadê o Rock Hudson?


N.E
- O texto acima foi publicado originalmente no número 10 (dezembro de 2000) da extinta revista outraspalavras, publicação que circulou no Acre de outubro de 1999 a dezembro de 2002.