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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A luta de Lula no Acre

* Elson Martins



Em dezembro de 1988, Lula discursa junto ao caixão de Chico Mendes, no velório dentro da igreja de Xapuri



Em toda a história deste País, nenhum chefe politico e Presidente da República visitou e fez tanto pelo Acre quanto Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores. Hoje, na condição de ex-Presidente “demonizado” pelas elites do Sul e Sudeste, com utilização em larga escala das redes sociais via Internet, ele chega a Rio Branco pela 25ª vez e na segunda-feira, 30*, segue cedinho a Brasileia, na Fronteira com a Bolívia, para participar do I Encontro das Cadeias Produtivas Sustentáveis. Na ocasião vai inaugurar o Frigorífico Dom Porquito, inserido na parceria governo- empresa-comunidade que inova com atividades produtivas sustentáveis em áreas abertas da região do Alto Acre.

Lula começou sua amizade com os acreanos em fins dos anos 70, quando era líder metalúrgico na região do ABC paulista. De lá para cá, nunca deixou de participar dos acontecimentos sindicais e políticos que promoveram mudanças fundamentais no Acre. Em julho de 1980, participou em Brasileia do protesto pelo assassinato do presidente do sindicato dos Trabalhadores Rurais Wilson Pinheiro, a mando de fazendeiros. Ao discursar de um palanque improvisado na carroceria de um caminhão, em frente ao sindicato, declarou: “Está na hora da onça beber água!”

O recado foi entendido pelos companheiros de Wilson que ao retornarem para suas colocações de seringa, toparam no caminho com o capataz da Fazenda Nova Promissão, Nilo Sérgio, principal suspeito do crime, e meteram bala nele. A Policia Militar prendeu e torturou mais de 40 seringueiros, enquanto Lula e outras lideranças como Chico Mendes e o delegado regional da Contag, João Maia, eram enquadrados na Lei de Segurança Nacional do regime militar.

No dia 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi morto em condições semelhantes pelo peão Darcy Alves a mando do pai fazendeiro Darli. Desta vez, Lula, na condição de deputado federal (PT) fez longo e polêmico discurso ao lado do caixão do líder seringueiro durante o velório na igreja de São Sebastião em Xapuri. Como diretor da TV Aldeia na época, encaminhei a gravação em fita Umatic (ver na foto).

Nas eleições de 1990 para o Governo do Estado, o candidato Edmundo Pinto, do PDS (partido antecessor do DEM), ganhou do estreante Jorge Viana (PT) no segundo turno. Preocupado com o destino que seria dado à fita na nova administração, favorável aos fazendeiros, tomei o cuidado de fazer cópia e levar comigo para o Amapá onde vivi 13 anos como assessor do governador João Alberto Capiberibe (1995-2002) e editor do jornal Folha do Amapá. De volta ao Acre, em 2003, consegui fazer cópia digital dessa e de outras 33 fitas que passei para o acervo da Biblioteca da Floresta e para a TV em 2008.

Em 2010, portanto 22 anos depois daquele acontecimento trágico, transcrevi e publiquei no Almanacre o discurso ontológico que marca a relação do atual ex-Presidente como amigo e parceiro dos acreanos desde aqueles tempos tristes. Vale a pena ler de novo.

Discurso corajoso (1988):

O Chico termina numa entrevista que ele deu ao jornal do Brasil dizendo o seguinte: “Eu quero ficar vivo para ajudar a salvar a Amazônia, eu não quero morrer, porque esse negócio de ato público depois da morte, esse negócio de grandes enterros acaba no dia seguinte”. Esse era o pensamento do velho Chico, há tempo, pois ele participou junto comigo do ato de solidariedade ao companheiro Wilson Pinheiro, morto em Brasiléia dentro do sindicato em 21 de julho de 1980, e falou isso (…).

Chico conseguiu juntar a bandeira do direito ao trabalho, do direito à vida dos trabalhadores desse Estado e dessa região com uma luta pela defesa do meio ambiente. Por quê? Porque preservar o meio ambiente para os trabalhadores que moram na região amazônica, preservar as árvores, preservar as castanheiras, preservar as seringueiras é, na verdade, preservar o direito do feijão e do arroz de cada criança dessa região. Porque o gado traz riqueza pro dono do gado, mas não traz sequer carne para os companheiros que trabalham aqui. E o que o companheiro Chico queria? Ele queria pura e simplesmente que deixassem a mata, que era instrumento de sobrevivência de milhares e milhares de trabalhadores, em paz; que fossem plantar gado noutro lugar, criar gado noutro lugar, mas deixassem aqui a mata, as seringueiras, as castanheiras, pros trabalhadores sobreviverem.

Na TV Globo o doutor Romeu Thuma, a quem o Chico enviou várias cartas, dizia o quê? Que a culpa do que está acontecendo aqui é da Polícia Militar… Mas nós precisamos dizer que a culpa não é apenas da polícia militar, a culpa é de todos eles juntos: é da polícia federal, é da polícia militar, da justiça brasileira, da Presidência da República (José Sarney- PMDB), porque, quando eles inventam que vêm aqui desarmar o povo, quem que eles desarmam? Eles pegam a espingardinha de caçar preá do trabalhador e deixam os fazendeiros com metralhadoras, calibre 12.

O companheiro Chico não ganhou as eleições (Chico foi candidato a deputado estadual em 1982 e a prefeito de Xapuri em 1985) e alguns imaginavam que a partir daí fosse desanimar. Qual não foi a surpresa dele: ao invés de desanimar, a luta do companheiro Chico ganhou outra dimensão; ele começou a ser reconhecido por organismos internacionais, pelo Banco Mundial, pelo BID, pelo movimento ecológico do mundo inteiro; começou a ser reconhecido, a ganhar prêmio, a viajar e a contar no mundo o que acontecia aqui; e começou inclusive a dar palpite, opinião sobre empréstimos que empresas estrangeiras ou bancos estatais iam fazer aqui, e por isso aumentou o ódio dos grandes proprietários contra o companheiro Chico. Aumentou o ódio a ponto de culminar com a morte dele no dia 22.

O quê que essas pessoas imaginam? Será que essas pessoas são tão burras que imaginam que matando Chico Mendes, mataram a luta do Chico Mendes? Será que eles não percebem (aplausos), será que esses ricos não têm exemplo na história, será que eles não percebem que esse mesmos grupos de ricos mandaram matar Jesus Cristo há dois mil anos atrás? E o povo não esqueceu as ideias de Jesus Cristo. Será que esses mesmos não estão lembrados que foram eles que mandaram matar Tiradentes, esquartejar e colocar sua carne pendurada nos postes, para que o povo nunca mais se lembrasse quem era Tiradentes? 30 anos depois o Brasil conquistou sua independência.

Eu queria dizer pra vocês uma coisa bem simples, pra cada um de vocês guardar na cabeça. Vocês conheciam bem o caboclo Chico, vocês sabiam bem o que Chico queria, vocês sabiam o que Chico dizia, vocês sabiam o que o Chico pensava. Pois bem, o que o companheiro Chico, que deve estar no céu nesse instante, espera de cada um? Ele espera que aumente a coragem e a disposição de luta de cada companheiro. Ele dizia sempre: no dia em que eu morrer meus companheiros vão se dobrar, cada um vai valer por 10 e a luta vai continuar. E é isso que tem que acontecer (aplausos). Porque se agora houver por parte dos trabalhadores e de todos nós, medo e preocupação, o quê que vai acontecer? Eles vão ficar rindo da vida e vão matar mais. O quê que nós deveremos esperar? Em primeiro lugar, nós achamos que o povo brasileiro quer justiça, e que a polícia prenda esses assassinos do companheiro Chico.

Se é verdade que esses dois sujeitos (Darli e Alvarino Alves) tinham 30 mil hectares aqui; se é verdade que eles eram bandidos em Minas e no Paraná e já vieram fugidos; se é verdade que aqui eles ficaram contratando grileiros e já mataram mais de um trabalhador, e se é verdade que essa propriedade deles pode até ser grilada… O quê que deveria acontecer como atitude nobre do governo? O governo deveria desapropriar essa terra e dar para os trabalhadores rurais cultivarem, ao invés de deixá-las ficar nas mãos de bandidos e grileiros; porque, se o governo fizesse isso e cada fazendeiro que manda matar alguém perdesse sua terra, na verdade essas pessoas iriam ter medo de continuar matando trabalhador rural (…).

Nós precisamos dizer em alto e bom som: o governo precisa começar a investigar cada crime colocando policiais sérios pra fazer isso, porque nós sabemos que tem muitos policiais que são capachos de fazendeiros (aplausos) na cidade. É preciso que haja seriedade e vocês sabem, companheiros, pra terminar, que cada um de nós, tanto nós de São Paulo, como companheiros do Acre, de Rondônia, que chegaram aqui agora, sabemos que temos um compromisso sério: é não deixar a coisa agora esfriar, é não deixar, sabe, o que eles querem, que o povo esqueça o companheiro Chico Mendes. Agora é que nós temos que mostrar pra eles que nós vamos fazer a luta do companheiro Chico Mendes ser conhecida nesse país. Agora que vamos arrumar solidariedade, não apenas pra dar sobrevivência para a companheira do Chico e de seus filhos, mas arrumar solidariedade pra dar ajuda concreta à luta dos trabalhadores que defendem a Amazônia, a luta dos trabalhadores que defendem o seringal, a luta dos trabalhadores que defendem a manutenção das castanheiras e a luta dos trabalhadores que brigam por reforma agrária.

A classe dominante tá ficando com medo, porque ela sabe que a classe trabalhadora tá amadurecendo; ela sabe que a classe trabalhadora tá tomando consciência, ela sabe que aqui hoje tá PV, PT, daqui a pouco chegam companheiros do PMDB, daqui a pouco chegam do PDT, sei lá, o movimento sindical… Ela sabe que tá crescendo a solidariedade e começa a ficar com medo.

Eu acho que é um compromisso dos partidos políticos progressistas, do movimento sindical, da CUT, da CGT, que a gente precisa transformar cada palavra do Chico numa profissão de fé por esse país aí afora. Daqui a pouco eles vão perceber que o que Chico falava aqui e era ouvido apenas pelos companheiros do sindicato dele vai ser discutido lá no agreste de Pernambuco, lá na Bahia, na favela de São Paulo (…). Nós deveremos eleger o Chico, hoje, o símbolo da descrença desse governo, deveremos eleger o companheiro Chico hoje como o mártir da classe trabalhadora camponesa desse país, porque o que ele fez foi dedicar 44 anos da sua vida à luta pela liberdade dos trabalhadores.

A morte do Chico não foi o fim, ela foi o início da libertação da classe trabalhadora brasileira.

*Texto publicado originalmente na coluna do Jornal Página 20, em 28 de novembro de 2015.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Escritor atormentado

* Elson Martins



Nascido em Xapuri, Genésio perdeu o pai cedo e foi criado pela mãe Marina e o padrasto numa antiga colocação de seringa. Aos 7 anos, foi levado pela mãe para a Fazenda Paraná, da família Alves, para fazer companhia à irmã Natália que havia fugido de casa para viver com Oloci, outro filho de Darli e gerente da propriedade. O cunhado passou a ser seu principal instrutor: aos 10 anos, exigiu dele a perigosa incumbência de montar e amansar um potro bravo, que o jogou no chão e desferiu violento coice na barriga. Ao completar 11 anos, o menino ganhou de presente um revólver e uma caixa de balas. Aos 13, já frequentava as boates de Xapuri na companhia dos irmãos “mineirinho”, matadores de aluguel contratados como peões.
Genésio tornou-se amigo e confidente de Darcy, quem disparou o tiro de espingarda calibre 20 no peito de Chico Mendes na noite de 21 de Dezembro de 1988, e ficou sabendo dos crimes cometidos na fazenda. Também testemunhou encontros de Darli Alves com fazendeiros que tramavam a morte de Chico Mendes. Todas essas histórias são narradas com detalhes no livro. A certa altura da narrativa, dá pra perceber que Genésio estava sendo treinado para também se tornar um matador de aluguel. Ele conhecia pouco o Chico Mendes, sobre quem diz que sempre admirou, mas sabia muito sobre a vida dos assassinos. O que ele não sabia era que nessa história assumiria o papel de principal testemunha, e que sua própria vida seguiria trajetória atormentada.
De fato, no dia seguinte à morte de Chico Mendes, Genésio foi detidoo pelos policiais encarregados de identificar e prender os suspeitos, permanecendo numa cela da delegacia de policia de Xapuri à disposição dos investigadores. Pressionado, sobretudo, pelo tenente H.Neto, da Policia Militar do Acre, e pelo delegado Nilson Oliveira, com a concordância de sua mãe Marina disse tudo que sabia. O depoimento à policia o deixou vulnerável diante da família Alves, embora pouca gente da segurança parecesse atenta ao detalhe.
     Genésio, aos 40, faz “mea culpa” e 
desabafa em livro (foto: Elson Martins)

Em maio de 1989, ao visitar o Acre com uma pauta do Jornal do Brasil para escrever sobre os conflitos na Amazônia, o jornalista e escritor Zuenir Ventura – que acabou ganhando o Prêmio Esso com uma série de reportagens sobre o caso Chico Mendes – encontrou Genésio vagando perigosamente entre a delegacia e o quartel da PM em Xapuri. No livro “Minhas Histórias dos Outros”, que escreveu em 2005, incluiu o capitulo “A Saga de uma Testemunha”, sobre Genésio, na qual admite que cometeu uma transgressão contra a lei básica do jornalismo: a de que “ao reportar os acontecimentos, não se deve interferir neles”.
Como não interferir! Percebendo que o menino corria riscos de morte, Zuenir Ventura, que foi visita-lo na delegacia de Xapuri, após consultar o juiz Adair Longuini decidiu “sequestra-lo” e o trouxe de avião para Rio Branco, deixando-o sob a responsabilidade do então comandante da PM, cel. Roberto Ferreira, no quartel da corporação. Apos alguns dias, o próprio comandante avisou ao jornalista que também ali Genésio vivia ameaçado, por isso o transferiu para o quartel do Exército (4o. BESF). Zuenir acabou levando-o para seu apartamento em Ipanema, no Rio, até conseguir com a ajuda do bispo D. Moacyr Grechi um bom colégio religioso na zona rural de Goiás. A partir daí Genésio passou a viver choques culturais e existenciais, e com a ajuda de seu tutor frequentou novos colégios em Minas e no rio Grande do Sul, sempre aprontando. Acabou se enfiando na bebida, precisando de tratamento em clinicas de recuperação no Recife e em Rondônia.
Quando já entrara na fase adulta, em Porto Alegre, vivendo entre marginais, recebeu de Zuenir uma boa notícia: os produtores do filme “Amazônia em Chamas” haviam concordado em pagar algo em torno de 60 mil reais de direitos pelo uso do personagem no filme. O dinheiro ficou depositado numa conta conjunta na Caixa Econômica e só podia ser retirado com duas assinaturas, a sua e a de Zuenir. Genésio pôde então movimentar o dinheiro, mas o fez de forma descontrolada, posando de rico diante das moçoilas e dos companheiros de farra que conheceu em Marabá, no Pará. Na segunda parte do livro ele conta como foi essa fase de sua vida, intensa, amorosa e fracassada. Após desbaratar os 60 mil reais recebidos da Warner Bros, entregou os pontos e voltou para sua origem acreana.
Em 2004, sem saber por onde ele andava, Zuenir, eu e Júlia Feitoza empreendemos uma busca pela BR-317, no trecho Rio Branco – Brasileia, parando e perguntando a pessoas que o conheciam ao longo do estrada. Fomos encontrá-lo entre um grupo que fazia trabalho de recuperação de uma igreja nas proximidades de Xapuri. Estava gordo e se sentiu envergonhado por encontrar-se embriagado. Mas ficou feliz ao rever o amigo e tutor, a quem informou que estava escrevendo um livro com sua própria história. “Faça isso, Genésio!”- incentivou Zuenir, recomendando que entregasse os originais a mim, para que os remetesse para seu endereço no Rio à medida que fosse concluindo os capítulos. Surpreendentemente, poucos dias depois Júlia Feitoza recebeu o calhamaço de 365 páginas escrito com esferográfica em papel almaço, na frente e no verso.

O livro do Genésio não é um primor de literatura, mas nem precisava ser, porque o que atrai nele é a sua própria história, incomum, e o modo como é narrada, com transparência, verdade e fragilidade que chocam. Mesmo com estudos interrompidos na 6a. série do Ensino Fundamental, Genésio escreve com incrível força, dando pistas confiáveis sobre o imaginário dos povos da floresta amazônica. É, no mínimo, um caso a ser estudado por psicólogos e sociólogos, e ajudado (quem dera!), por ambientalistas de verdade. Afinal, ele continua procurando um lugar ao sol com os riscos de sempre.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Olê, olê, olê, olá!

* Elson Martins
Lula: “Quando comecei a vir ao Acre, nos anos 80, eu fazia reunião com 5 pessoas, mas fazia discurso para um milhão” (Foto: Sérgio Vale)

Oficialmente, tratava-se apenas da realização do 3º Encontro de Piscicultores do Acre. No local (BR-364, a 34 km de Rio Branco) foi construído, recentemente, uma central de produção de alevinos, uma fábrica de ração e um frigorifico para o processamento industrial de peixes com investimento de R$ 80 milhões. Mas a enorme tenda montada para o evento sugeria mais coisa: sob ela tinha um palco, também ancho, que caberia até um desfile de modas.
Logo se viu por quê: o ex-presidente Lula era o convidado principal e, de quebra, tinha o presidente da Bolívia, Evo Morales, que veio acompanhado de quatro ministros da área de produção. O cenário se completava com a presença do governador Tião Viana e do senador Jorge Viana, além do governador do Piauí, Wellington Dias, e mais secretários de estado, políticos estaduais, empresários e algumas lideranças populares. Em volta, cerca de metro e meio abaixo, a plateia estimada em três mil pessoas.
O letreiro do evento, colocado ao fundo parecia conspirar: “Uma nova economia, começa vendendo seu peixe”. Bem que poderia ser: uma “nova politica”…
Era o dia (quinta, 7) e a hora (11h) do grande amigo do Acre Luís Inácio Lula da Silva. Quando ele chegou, a plateia se manifestou ruidosa e festivamente, todos cantando “Lula… Lula” acompanhado do “olê, olá”! – como nas campanhas passadas que o levaram a Presidência da Republica. O ambiente estava virando uma festa acreana. Um grupo gritava em coro: “Lula, guerreiro do povo brasileiro”!
No sul e sudeste, onde vive e esgrima com sua força politica bombardeada, Lula tem falado pra pouca gente. Porque virou saco de pancadas da mídia elitista de São Paulo e Rio de Janeiro. Mas, no Acre, ele é um rei amado. Por isso, e inteligentemente, o cerimonial estabeleceu o tempo de 2 minutos para as falas, mas não fixou tempo pra ele e pro Evo Morales.
O Encontro dos Piscicultores acabou se transformando num acontecimento histórico. Primeiro, porque a “furiosa” (banda) da PM tocou os hinos do Brasil e da Bolívia igualmente aplaudidos. Nada de ressentimentos quanto a guerra de 114 anos atrás na fronteira. Evo Morales postou-se com a mão direita no peito e o punho esquerdo levantado, num gesto revolucionário.
Também porque o Lula, em estado de graça, tratou a todos como amigos de infância, até mesmo o presidente boliviano: “A Bolivia – disse – nunca viveu antes o tempo de paz que vive agora com esse índio cocaleiro (Evo é índio Quexua, o grupo indígena mais numeroso, expressivo e original do seu país)”. Dirigindo-se diretamente ao presidente vizinho, com intimidade, reforçou: “Você é motivo de orgulho para a esquerda brasileira”!
Lula prometeu ajuda a Evo Morales para fazer uma fábrica de processamento do peixe igual a do Acre, na Bolívia. Um assessor boliviano informou, depois, que já estão previstos três frigoríficos – um em Cobija, outro na região do Bene e mais um em Cochabamba, – mas menores, com menos investimento.
Evo Morales falou em espanhol e teve a ajuda de um tradutor (nem precisava). Referiu-se ao Lula como “irmão de alma” da luta em favor da união da América Latina.

Recomeço?

Desfilando na passarela, com o microfone na mão, o ex-presidente brincou com as palavras e renovou esperanças. Com o cabelo meio assanhado, vestindo camisa vermelha semiaberta no peito, falava e cumprimentava (com gestos) amigos ao mesmo tempo. “Tem gente que se incomoda quando a gente coloca a filha de uma empregada doméstica para estudar medicina”- disse, referindo-se aos programas educacionais de seu governo e de Dilma Rousseff que permitiram que estudantes pobres entrassem na faculdade: “Nós, do PT, viemos para mudar a história deste país”!
Por algum tempo, naquela manhã, o Acre desligou-se do outro Brasil que fica mais ao sul e sudeste, ignorou os panelaços e as “demonizações” contra o PT, Lula e Dilma Rousseff. O PT do Acre se salva e todos estavam ali para aplaudir seu benfeitor. Pessoas de todas as idades queriam apertar sua mão. Um grupo de jovens, no final, subiu ao palco e fez, literalmente, uma revoada sobre o ex-presidente.
E ele se despediu com uma mensagem de esperança: “Não se constrói um pais sem sonhos. A mãe pobre que coloca o feijão na panela para alimentar os filhos, coloca também o seu amor”.

A marcha dos derrotados tucanos e seus sabujos

“A função de um jornalista é contar o que está acontecendo nos dias atuais, sem brigar com os fatos, gostando ou não deles, mas para entende-los é preciso recuar no tempo e buscar as raízes das crises cíclicas vividas pela nossa jovem República, como esta de agora. É uma das poucas vantagens de se ficar velho nesta profissão. Naqueles dias de 1964, quando tinha acabado de completar 16 anos, vivíamos o auge da Guerra Fria, com o mundo dividido ao meio entre o capitalismo dos Estados Unidos e o comunismo da União Soviética.
A Guerra Fria acabou junto com a União Soviética, as siglas Ipes, Ibad, UCF e MAF sumiram na poeira, a ditadura morreu de velhice e os militares estão nos quartéis, fora da cena política, cumprindo suas missões constitucionais, não há navios da esquadra americana rondando as costas brasileiras, acabamos de sair da sétima eleição presidencial consecutiva após a redemocratização do país, mas tem gente poderosa, principalmente na burguesia paulista, que ainda vive com o espírito de 1932 e 1964.
Só o que não mudou foram os barões da mídia, que continuam exatamente os mesmos, utilizando os mesmos métodos. Essa gente não esquece, não aprende e não perdoa. Se ontem o inimigo a ser abatido era Getúlio Vargas e, mais tarde, foram os seus herdeiros políticos Jango e Brizola, hoje são Lula e Dilma. Em lugar dos gaúchos, os inimigos são os nordestinos que votam no PT. Para combate-los, os udenistas que levaram Vargas ao suicídio, criaram vários partidos e acabou sobrando só o PSDB”.
(Por Ricardo Kotscho, no seu blog Balaio do Kotscho, de 01/03/2015)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Túmulo sem velas

* Elson Martins

Numa colocação do Seringal Cachoeira, cercada de arame, no ramal que leva à comunidade, está a lápide da mãe de Chico Mendes, e tambem do irmão Raimundo (Foto: Lourenço Chacon)
Em Março de 2007 encontrei em Brasília o José Alves Mendes Neto, o Zuza, irmão mais novo de Chico Mendes com o qual puxei uma longa conversa sobre a vida de sua família no seringal. Eu queria saber como era o jovem Chico antes de se tornar o grande líder dos anos 70/80, assassinado em 1988. Mais que irmão, Zuza se tornara seu companheiro de lutas em defesa da floresta e do extrativismo, e tal qual CM, vivia ameaçado de morte.

Zuza não se fez de rogado para falar com emoção da família marcada pela tragédia. Disse que Chico Mendes, aos 16 anos, tornou-se “pai e mãe” de uma escadinha de irmãos menores; a mãe, Iraci Lopes Mendes, lhe pediu isso ao falecer aos 42 anos em circunstâncias dramáticas.

A tragédia acompanhou a família Mendes o tempo todo. O pai, Francisco, aleijado de uma perna, tinha dificuldade para percorrer as “estradas” de seringa no fabrico da borracha. E sua situação piorou quando, ao cortar um cipó fino com terçado afiado, quase decepou o joelho da outra perna sã. Desde então suspendeu o trabalho na seringa permanecendo, apenas, no cultivo de um pequeno roçado com a ajuda de um dos filhos.

Raimundo, mais novo que Chico Mendes, aos 14 anos era o xodó da mãe e ajudante do pai na agricultura de subsistência. Mas queria mesmo era ser seringueiro. Insistiu tanto, que o pai pediu ao Chico que abrisse para ele uma “estrada” – caminho precário aberto na mata para ligar cerca de 150 árvores, das quais o seringueiro extrai o látex.

Na véspera da estreia da nova atividade, entretanto, o pai deu outra tarefa a Raimundo: era preciso matar um porco para tirar a banha usada como óleo de cozinha, depois levar comida para o grupo de seringueiros que, juntamente com Chico Mendes, se encontrava acampado na mata fazendo a limpeza de outras “estradas”.

Na época, Zuza tinha 7 anos de idade e vivia grudado a Raimundo. Os dois combinaram sair para o primeiro “corte” de madrugada, escondido do pai, a tempo de retornar no meio da manhã, antes da matança do porco. Assim, deixaram o barraco de mansinho, embrenhando-se na mata. Raimundo se vestiu a caráter: bermuda encaronchada, sapatos de seringa, facão na cintura, poronga na cabeça e uma espingarda calibre 12, carregada, atravessada no ombro.

Lá na frente, num descampado conhecido por Taquara, os dois encontraram caído no caminho um tronco imenso. Foi preciso que Raimundo arriasse a espingarda para dar a mão ao pequeno Zuza. Com pouca luz e a emoção de se tornar seringueiro, deixou a arma escorregar sobre o tronco. A arma disparou e atingiu sua cabeça.

“Foi horrível!”- lembra Zuza, que se assustou com o tiro repentino, a fumaça e o corpo de Raimundo caindo sobre si. Quando se refez do susto e procurou sair de baixo do irmão, apalpou sua cabeça e só encontrou miolos e sangue. Correu então aos gritos pela mata, no escuro, mas por sorte cruzou com o grupo de Chico Mendes que se desesperou também. “O que aconteceu? Cadê o Raimundo?” – até que Zuza respondeu: “Raimundo morreu”!

Chico pediu a um dos companheiros que o levasse à casa e voltasse com uma rede para juntar e transportar o cadáver do irmão. Meu Deus! -pensou – dona Iraci não ia suportar tanta dor! Ela que tivera 19 filhos, quatro dos quais mortos ao nascer, estava gravida de três meses do vigésimo. Raimundo era o mais querido. Não ia suportar!

Não suportou. Ao receber o filho morto, ajoelhou-se no terreiro da casa, olhou para o céu e suplicou: “Se existe um espírito, um Deus, peço que me leve com meu filho. Não quero mais viver”. Desde então, passou a morrer um pouco a cada dia. Despedia-se de um e de outro, dava conselhos…Impediu que chamassem a parteira de costume para cuidar dela e não deixou cortar a peça de murim para fazer fraldas pro filho que ia nascer. “Vai estragar a fazenda”! – dizia resoluta.

Chico chorava ao ver a mãe escolhendo a morte. Mas tentaria salva-la. Era tão nova, tão bonita e terna… Ia leva-la para a cidade, numa rede, para atendimento médico. Começou uma peregrinação de colocação em colocação, juntando amigos para carregar a mãe pelo mato (não tinha estrada) até Xapuri. A mãe, entretanto, implorava: “Filho, não se afaste de mim. Preciso lhe dar conselhos antes de partir”. O pai, em pé encostado à parede do quarto, também chorava, aquela e outras dores, mas resignado dizia: “Sua mãe vai morrer mesmo, Chico”.

Chico ainda buscaria socorro numa última colocação, quando a mãe lhe chamou: “Vem cá Chico, me abraça”. Os dois permaneceram abraçados, chorando por longo tempo. Foi quando ela disse: ”Chico, se acalme. Você terá que ser pai e mãe dos irmãos pequenos. Seu pai não pode mais trabalhar. Não deixe que eles passem fome”.

Mesmo transtornado, ele seguiu em prantos em busca de mais carregadores. Quando retornou, dona Iraci tinha morrido. Ele a viu inerte, com sua tez branca, os cabelos loiros e cacheados, sem a voz doce e conselheira que repetia, repetia… Era a imagem da mãe resignada de seringal que, em situação inesperada, emparelha fragilidade e força, ternura e frieza, escuridão e luz.

Assim Chico se fez homem, completamente determinado: aprendeu a ler, pensar e agir. Não somente para criar os irmãos, mas também liderar os “empates”, defender a floresta, criar as reservas extrativistas, garantir a permanência dos seringueiros acreanos em suas colocações, avisar a quem quisesse ouvir que, no Acre, existe uma sociedade diferente, amiga da natureza, desejando o bem do universo.

Túmulo ignorado

Semana passada, no feriado de 21 de Abril, visitei o seringal Cachoeira onde familiares e companheiros de Chico Mendes vivem em paz, usufruindo o legado que o amigo e parente imprescindível deixou. Um deles, o primo Nilson Mendes, que nos acolhia como guia, parou no meio da estrada e apontou:

– Alí depois daquela cerca de arame, nesse descampado, tá vendo um tumulo no meio do mato? É a mãe do Chico! Ela e o filho Raimundo estão enterrados ali!

Meu Deus! Pensei logo na história que o Zuza me contou em Brasília e senti uma profunda tristeza. Os dois, Iraci e Raimundo, merecem uma lápide melhor, com muitas velas acesas, muitas visitas que venerem vidas tão amorosas… Ah! Imagino o poeta Mário de Andrade, ajoelhado, a rezar os versos: “Quero ver si consigo/Não passar na sua vida/numa indiferença enorme”…

domingo, 26 de abril de 2015

Os meninos de Turvo

* Elson Martins

Meninos do Seminário de Turvo fotografados em 1962 (Foto cedida pela organização do encontro)


Na primeira quinzena de janeiro aconteceu no interior de Santa Catarina o 1o. Encontro Nacional de “Os meninos de Turvo” com a presença de 150 pessoas entre ex-alunos ( e familiares) do seminário da Ordem dos Servos de Maria, que funciona na cidade (Turvo) desde meados do século passado. O ex-bispo da Diocese de Rio Branco e atual arcebispo emérito de Porto Velho, D. Moacyr Grechi, foi aluno, professor e reitor do seminário e participou do evento como “nosso menino mais querido”. Outros meninos, que ele trouxe para o Acre a partir dos anos 1970, são os jornalistas Silvio Martinello e Antônio Marmo, o professor de filosofia da UFAC, Silvio Birolo e os fundadores do Colégio Meta, Itamar Zanin e Evaristo de Lucca. Antônio Marmo, que atualmente mora em Ubatuba (SP), integrou a equipe do jornal Varadouro que eu e o Silvio Martinello editamos nos anos 1970/1980 em Rio Branco; por isso pedi a ele que relatasse para o Almanacre como foi a confraternização dos hoje velhinhos turvenses. Ele me mandou a seguinte cartinha eletrônica:

Caro Elson: “Não terei tempo de resumir tudo o que significou este 1º encontro Nacional dos Meninos do Turvo em emoção e resgate de memória, um encontro costurado por uma comissão que percorreu vários estados durante todo o ano de 2014, para concretizar-se nos dias 11, 12 e 13 de janeiro em Santa Catarina. A maioria dos que lá compareceram não se viam há 30, 40, 50 anos.

Mas nesta carta ai abaixo, entregue em mãos a Dom Moacyr Grechi em Porto Velho, numa das viagens de preparação, estão alinhavados o que nos motivou. Dom Moacyr era nosso convidado especial, ponto de referência mais que marcante para todos nós, como nosso orientador desde a infância e depois, por sua atuação firme ai no Acre, exemplo de engajamento e coerência.

Ele compareceu ao Turvo mas, infelizmente, sua saúde não permitiu que participasse cem por cento do evento. Já está debilitado em seus 79 anos.

Acre e Santa Catarina, dois Estados distantes mais de 4 mil km, mas têm tudo a ver. Do seminário de Santa Catarina saíram dezenas de estudantes, padres e colaboradores que seguiram para atuar em terras acreanas, muitos deles, todos catarinenses, ainda trabalhando ai, como o Silvio Martinello, Itamar Zanin, Silvio Bez Birolo, Evaristo de Lucca, entre outros.


Santa Catarina e Acre têm ligações estreitas desde os idos de 1920, quando se instalou a Missão dos Servos de Maria em Rio Branco, sendo o padre Paolino Baldassari, hoje em Sena Madureira, um dos mais antigos a trabalhar aí. Ele foi direto do Turvo para o Acre, em 1956.


Mas tivemos presenças do Brasil todo e do Exterior, como o José Aparecido, hoje trabalhando em Austin Texas, incluindo outro acreano, hoje morando em Fortaleza, o Claudio Oliveira (o Baioco), Narciso Cechinel, do Recife, o médico José Francisco Furtado, de São José dos Campos, todo o grupo do Acre, Porto Velho, Paraná, São Paulo, Minas enfim.


Um encontro inesquecível. Veja ai a carta ao Dom Moacyr explicando os objetivos…


Caríssimo Dom Moacyr Grecchi:

Nós, portadores desta carta-convite somos parte de uma Comissão de ex-alunos seus, engajados há alguns meses na viabilização de um encontro de colegas que passaram pelos vários seminários e/ou conventos da Ordem dos Servos de Maria nos últimos 60 anos.

Todos, desde Turvo, em Santa Catarina até São José dos Campos, passando por São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Branco, no Acre, outros pela Europa, todos carregamos conosco um sentimento real de profunda gratidão pela oportunidade e privilégio que tivemos de absorver a educação que tivemos, da forma como a recebemos e , depois, de aperfeiçoá-la em especializações diversas.

Hoje formamos um grupo que, heterogêneo em suas histórias pessoais mantém-se homogêneo e unido nessa origem comum de seminário. São histórias pessoais que, de uma forma ou de outra, nos colocam em uma escala privilegiada dentro das comunidades onde vivemos, seja como professores em faculdades, doutores, reitores, Juiz, Procurador de Estado, médicos e jornalistas, economistas, executivos empresariais, técnicos, agricultores, consultores. Cidadãos participantes, enfim.

Há um número significativo de membros do grupo ainda fortemente engajado em ações de igreja, como leigos ou mesmo no diaconato e outros, alheios a vínculos com igrejas ou confissões, atuam em ações diretas decorrentes de suas respectivas profissões.

Deste encontro, após tantos anos, esperamos que seja algo mais que simples confraternização festiva entre um churrasco e um abraço. Sua presença para uma conversa amiga no domingo e de outros que esperamos em um painel de troca de experiências, no sábado à noite, poderão levar-nos a amadurecer no grupo objetivos concretos.

É isso que buscamos! É para isso que viajamos até Porto Velho, num reconhecimento da força de sua vivência e exemplo local e nacional. Esperamos pelo senhor no Turvo, nos dias dez e onze de janeiro próximo. Desde já, agradecemos.

A Comissão Organizadora:
Osni Rabelo Quinto Piazza, José Carlos Bueno, Osni Alves,
Joaquim Aparecido, Antônio Marmo e Gabriel Nogueira
São Paulo 10 de outubro de 2014

Os meninos de turvo em janeiro de 2015 (Foto cedida pela organização do encontro)
           
Dom Moacyr Grechi deixou sua impressão sobre o encontro em Turvo no jornal Volta Grande, na edição de 15 de Janeiro de 2015. O atual arcebispo emérito de Porto Velho declarou:

“Eu me sinto feliz ao rever cada um deles e até mesmo reconhece-los, e embora muitos não tenham seguido o caminho de padre, estão conseguindo seguir um caminho de verdadeiros cristãos. Eu queria que nós Servos de Maria, aprendêssemos com Nossa Senhora, é como um velho pai ou velho avô ao ver os filhos, ao ver cada um deles como continuam parecidos”.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Petróleo: o escândalo é antigo

* Elson Martins

O escritor Monteiro Lobato ocupou a mídia de sua
época com a luta em defesa do petróleo brasileiro
Até junho passado eu, por ignorância, pensava que o genial Monteiro Lobato tinha escrito somente livros infantis! Por isso me surpreendi ao encontrar numa livraria (Sebo) de Curitiba, um exemplar amarelado e esgarçado do “Escândalo do Petróleo”, que ele lançou em 1932 pela Editora Brasiliense Ltda, de São Paulo. Paguei a bagatela de 5 reais pela preciosidade de 320 páginas que li de um fôlego só. Pela denúncia, que incluiu uma carta aberta ao então Presidente Getúlio Vargas, o escritor foi perseguido e preso. Decorridos 83 anos, sua obra parece atualíssima e ajuda entender o que ocorre hoje na Petrobrás. Na verdade, “Escândalo…” representa dois livros em um, porque está incluído na edição também o problema Ferro, que Lobato escreveu na mesma época. Se fosse reeditado hoje, viraria best-seller.
A denúncia é aterradora e nos leva a suspeitar que a rapinagem atual na Petrobrás teve sua gênese naqueles tempos. E nunca terminou! Logo na introdução, Monteiro Lobato afirma que o caso do petróleo brasileiro prende-se ao caso do petróleo em geral: “Esse produto é o sangue da terra; é a alma da indústria moderna; é a eficiência do poder militar; é a soberania; é a dominação. Tê-lo, é ter o Sésamo abridor de todas as portas. Não tê-lo, é ser escravo. Daí a fúria moderna na luta pelo petróleo”.
O autor faz uma comparação entre o petróleo, a hulha e o carvão, – estes últimos em desuso, – dizendo que “tais e tantas são as vantagens do petróleo, que o fedorento sangue da terra passou a ser o sangue da indústria, das finanças, do poder e da soberania dos povos.” E indaga: “Se é assim, como então o Brasil se conservou de olhos fechados por tanto tempo?” No parágrafo seguinte ele mesmo responde:
“Por uma razão muito simples. O petróleo está hoje (1932) praticamente monopolizado por dois imensos trustes: a Standard Oil e a Royal Dutch & Shell. Como dominaram o petróleo, dominaram também as finanças, os bancos, o mercado do dinheiro; e como dominaram o dinheiro, dominaram também os governos e as máquinas administrativas. Essa rede de dominação constitui o que neste livro chamamos de os interesses ocultos”.

Cobiça internacional

Monteiro Lobato informa que o Brasil, com seu imenso território e tantos pontos marcados de indícios de petróleo, constituía um perigo para esses trustes. Ele cita o relatório reservado de um geólogo – Gustav Grossman, que estudou secretamente as possibilidades petrolíferas no país – para afirmar: “Dada a sua área, a quantidade de petróleo do Brasil talvez seja maior que a de qualquer outro pais do mundo”. E prossegue: “Esses trustes nos conhecem, sabem que o brasileiro é uma espécie de criança tonta, que realmente só se interessa por jogo, farra, carnavais e anedotas fesceninas. Os estrangeiros sabem que a partir de 1930 o brasileiro cada vez menos se utiliza do cérebro para pensar, como fazem todos os povos”.
O escritor fala de um Brasil que tinha na época 40 milhões de pessoas, e que vivia sob a longa ditadura Vargas. Segundo ele, os estadistas daqueles tempos pensavam com outros órgão que não o cérebro, como o calcanhar, o cotovelo e “certos penduricalhos”! Por conta disso, a miséria era tanta em certas zonas rurais as pessoas estavam perdendo a forma humana. Nos fundões de Goiás, segundo ele, apareciam “povoados inteiros de papudos” e as primeiras “criaturas de rabo”.
Ao mesmo tempo, “graças a uma hábil propaganda feitas até nas estradas de rodagem por meio das bombas de gasolina, os donos dos trustes convenceriam “o indígena bocó” de que era absurdo existir petróleo no Brasil, com uma argumentação tão simplória quanto infalível: “Ora! Ora! Se aqui existisse petróleo, pensa você que os americanos já não tinham tirado”?

Estratégia dos gringos

A estratégia dos gringos, entretanto, era outra: “Não tirar petróleo, nem deixar que o tirem”. Assim, com o conluio dos “petralhas” locais, o Brasil continuaria eternamente comprador do petróleo e seus derivados dos Estados Unidos. Enquanto isso, os “interesses ocultos” eram protegidos com a nomeação de um tal Fleury da Rocha para chefiar o Serviço Geológico brasileiro. Ele se tornaria “dono da ratoeira” montada com a Lei de Minas sonhada pelos trustes:
“A Lei trancava da maneira mais perfeita, a pesquisa e a exploração do subsolo nacional. E quem quisesse explorar o subsolo teria de entrar por uma das portas da ratoeira controlada por Fleury”. Lobato achou vários outros nomes para essa lei entreguista: “Lei Labirinto de Creta. Lei cipó arranha-gato. Lei Arapuca. Lei Rolha. Lei atentado de lesa-pátria”…
No espírito da lei, foram criados novos instrumentos de controle, como o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) que, com a orientação de “especialistas” norte-americanos, se encarregava de negar a inexistência de petróleo em poços perfurados com pouca profundidade. “São eles o diretor da Geofísica, Mr. Mark Malamphy; e o diretor de Geologia, Vitor Oppenheim (…) Esses dois homens dispõem, sempre de primeira mão, de todos os segredos do subsolo nacional”.
Os dois “especialistas” chegaram a criar uma firma comercial para uso externo, a Malamphy & Oppenheim, através da qual fechavam contratos nos Estados Unidos com grupos interessados em comprar por baixo dos panos, para uso futuro, terras petrolíferas no Brasil. A ideia era impedir que grupos nacionais ou estrangeiros não norte-americanos adquirissem essas áreas potenciais que deviam ser mantidas como “reservas de valor” pelas Standard Oil da vida.
Mas a potencialidade petrolífera do Brasil era tão óbvia que, no Estado de Alagoas, os “petralhas” não conseguiram tapar os poços com cimento como faziam em outros estados, após anunciarem que “não tinham valor para exploração”. Os poços de lá, curiosamente perfurados na localidade chamada Lobato, acabaram expulsando petróleo abundante, o que deixou os homens do DNPM atônitos. Monteiro Lobato anotou:
“Aquele petróleo livre, saindo muito, assustou o sr. Fleury da Rocha. Daí o seu novo grito de guerra: “Rumo ao Acre”!
Pois, para despistar (ou não), o sr. Vitor Oppenheim já andava por aqui nos anos 30 sondando terras petrolíferas para comprar, ou mesmo perfurar, quem sabe, sabendo da existência do “ouro negro”. Afinal, os países andinos vizinhos, como a Bolívia e o Peru, já enricavam com seu petróleo, por que o Brasil (ou melhor: os Estados Unidos) não haveria de enricar mais no Acre?

Sabe com quem tá falando?

Após passar nove anos enfrentando os trustes estrangeiros e os entreguistas locais que impediam a perfuração de poços e exploração do petróleo brasileiro, com a descarada conivência do governo federal, Monteiro Lobato – que vivia em São Paulo,- decidiu visitar uma empresa recém-instalada no Rio de Janeiro, supostamente, do esquema da Standard Oil norte-americana. O escritor se apresentou como membro de uma empresa petrolífera paulista, mas o diretor que o recebeu, sem conhece-lo, entrou de sola:
“Olhe, vocês são uns sandeus e aquele Monteiro Lobato é o rei dos cretinos. Vocês partem dum ponto de vista inteiramente falso. Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, isto é, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional, da Standard. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. O petróleo do mundo é da Standard, onde quer que se encontre. E contra a vontade da Standard nenhum país tira o petróleo que está em suas terras. O único país que até hoje (fim dos anos 40) conseguiu libertar-se da Standard foi a Rússia, por causa da revolução (de 1917); mesmo assim a Standard não deixa que o petróleo russo transponha a fronteira e seja vendido em outros países.
A Argentina descobriu petróleo por mero acaso – mas depois de muita luta teve de dividir o campo com a Standard. Em todos os outros países o negócio do petróleo é conduzido de acordo com a Standard. Contra a sua vontade, em nenhum. Como então vocês, deste pobre país falido, sem forças, sem estadistas, sem governo decente, têm a pretensão de ter petróleo próprio, contra a vontade da Standard”?


      Será que a poderosa Standard Oil norte-americana reduziu seus tentáculos de lá para cá? 

      sexta-feira, 13 de março de 2015

      Ódio aos pobres do Brasil!

      * Elson Martins


      Leonardo Boff e a crítica à demonização do PT pelas elites 

      Eu não embarco na demonização do PT, orquestrada pelas elites do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, em conluio com a mídia rica dessas regiões. A campanha odiosa agrada aos filhotes da ditadura civil-militar (1964-1985), saudosos da truculência e da corrupção que a dita cuja instituiu no país naqueles anos de chumbo. Concordo com o filósofo e escritor Leonardo Boff, para quem, por trás da orquestração feroz contra o Partido dos Trabalhadores, o que existe mesmo é o “ódio das elites contra o povo brasileiro”.

      Num artigo publicado terça-feira (10) no Página 20, Boff lembra aos leitores uma pesquisa feita por Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade no Brasil que aponta esse absurdo de dado: “45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas cinco mil famílias extensas”. Ou seja, num país de 200 milhões de habitantes, o maior e mais influente do sul do continente, todos os bens e vantagens são usufruídos por uma ínfima parcela de nababos. É exatamente essa minoria luxenta que alimenta a escória da classe política e do empresariado, bem como a mídia que a aplaude.

      Os dirigentes políticos, os militares, o empresariado e a intelectualidade burguesa, sobretudo de São Paulo, parecem-me em parte suspeitos. Porque estão acasalados com os piores segmentos da sociedade e agem criminosamente com os menos informados – por isso vulneráveis –, induzindo massas populares a manobras políticas perversas. Para o que contribuem as redes sociais na internet, democráticas, mas ao mesmo tempo anárquicas e principalmente desqualificadas.

      O jornalista Paulo Nogueira, fundador e diretor do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo, em novembro do ano passado (portanto após as eleições de outubro), assinou o artigo “O odiojornalismo...”, em que fornece exemplos de como a mídia comprometida com o grupo derrotado na disputa presidencial toma as dores das elites contra a escolha soberana do povo:

      “O ódio que a revista Veja semeia com tanta obsessão” – diz ele – “se refletiu em manifestações criminosas, nas redes sociais, contra os nordestinos. Diogo Mainardi, o primeiro ‘odioarticulista’ da revista, há poucos dias chamou os nordestinos de ‘bovinos’ num programa de televisão que vai se tornando igual à revista, o Manhattan Connection”.

      Já o blogueiro da Veja Augusto Nunes, “o gênio cosmopolita de Taquaritinga”, segundo o articulista Nogueira, “acha que está sendo engraçado ao tratar Lula como o ‘presidente retirante’ e Evo Morales como ‘índio de topete’”. Paulo Nogueira entende que Diogo Mainardi, que também andou falando mal do Acre tempos atrás, espalha “sua má fé e falta de princípios jornalísticos” na grande mídia brasileira: “Mainardis e derivados infestam jornais, revistas, rádios, tevê”.

      O “odiojornalismo”, por princípio intolerável, não pode, naturalmente, ser patrocinado pelo dinheiro público: “O anunciante privado que quiser prestigiar este tipo de pseudojornalismo tem inteira liberdade para fazer isso. Mas o dinheiro público não pode ser torrado numa coisa tão predadora”.

      O que estamos vendo (lendo) nestes dias é mais odioso. A imprensa de um modo geral procura convencer a sociedade brasileira de que o PT é o partido vilão da República e causa de todos os males, ao mesmo tempo em que minimiza os malfeitos de outras siglas mais envolvidas no escândalo da Petrobrás. No bojo da campanha antidemocrática, a presidente reeleita Dilma Rousseff é condenada antecipadamente pela mídia elitista, enquanto as redes sociais acenam para a ditadura civil-militar que a torturou no passado.

      Na verdade, alguns nomes nacionais do PT estão a merecer punição no caso Petrobrás – isso a justiça vai decidir – mas, certamente, eles não são os patifes principais dessa história. Enquanto isso, é bom que o povo brasileiro se previna contra o ódio criminoso que ameaça sua crescente importância na vida política do país.

      sexta-feira, 15 de agosto de 2014

      Marina: o Acre na cabeça!


      * Elson Martins



      A seringueira Marina Silva, a caminho
      de um "empate" (Foto: Tião Fonseca)
      Acabo de ler na UOL que Antônio Campos, irmão do candidato Eduardo Campos (PSB) à Presidência da República, falecido na manhã de quarta-feira num desastre aéreo, em S. Paulo, apoia a indicação de Marina Silva (a vice) para substituir Campos na cabeça de chapa. Devo admitir que a noticia calou bem no meu coração ideológico, de esquerda, acreano e amazônico.

      Estava propenso a votar na Dilma, do PT, mas se o nome de Marina for confirmado, vou alterar a escolha, para ser coerente com os sentimentos que moldam minha vida. Entendo que Marina terá mais compromisso com o Acre e com a Amazônia que a Dilma, porque é filha de seringueiro; porque abriu caminho numa vida sofrida na floresta; porque é iluminada e sabe enxergar com o coração as necessidades fundamentais dos povos da Amazônia.

      Pessoalmente, até que tenho queixa contra ela. Acho que nunca deu muita importância ao jornalismo que pratico no Acre há meio século, supostamente, porque não fiz parte (sou mais velho) do iluminado grupo de História da Universidade Federal do Acre que ela liderou e arrastou para os movimentos socioambentais e para a politica, com brilho. Ou porque nunca aprendi a rezar.  Ou, ainda, porque escrevi um texto discordando do projeto de florestas públicas que ela aprovou quando ministra do Meio Ambiente no governo Lula.

      “Mas o negócio não é bem eu...” 

      Lembrei da música “Minha História”, do compositor e cantor João do Vale. Analfabeto, nascido no pequeno município de Pedreira, no Maranhão, aos 16 anos migrou para o Rio de Janeiro e foi trabalhar na construção civil. Na época já compunha baião, tão bem, que um deles caiu nas mãos da famosa Dalva de Oliveira que o gravou. Seus amigos de profissão riam quando dizia: “Olha, essa música que a Dalva está cantando no rádio é minha”!

      Quem ia acreditar naquele negrinho bobo dos anos cinquenta? Só mais tarde, em plena ditadura militar, levaram pro palco o autor de  “Carcará”, “Pisa na Fulô”, “Carolina”... E de “Minha História”, esta gravada por Chico Buarque de Holanda:

      Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião
      Minha história pro senhor, seu moço, preste atenção

      Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá
      Enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar
      A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar

      E quando era de noitinha, a meninada ia brincar
      Vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar:


      -O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar

      Hoje todos são "doutô", eu continuo joão ninguém 

      Mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
      Ver meus amigos "doutô", basta pra me sentir bem

      Mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
      Ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
      E dizem: - João foi meu colega, como eu me sinto feliz

      Mas o negócio não é bem eu, é Mané, Pedro e Romão,
      Que também são meus colegas  e continuam no sertão
      Não puderam estudar, e nem sabem fazer baião


      Embarco nessa sabedoria. Não vou escolher Marina para o meu próprio bem; eu a escolho pelo bem dos acreanos de um modo geral, sobretudo, dos que ainda não puderam estudar e “não sabem fazer baião”. Quero o bem dos extrativistas, dos indígenas, dos agricultores  mal assistidos... Quero o bem dos ribeirinhos, das famílias que foram expulsas de suas colocações na floresta, num passado recente (décadas de setenta e oitenta), e tiveram que migrar para as cidades acreanas onde vivem ainda desarrumadas, dependendo de mais investimento estadual e federal para melhorar de vida.

      Reconheço que o Acre avançou muito nos governos do PT e da Frente Popular,  e que Lula e Dilma fazem bem ao estado e ao Brasil. Mas, no cenário politico atual, vejo Marina próxima da ideia de sustentabilidade, mais que os demais candidatos à Presidência. Também me anima saber que ela participou das comunidades eclesiais de base da igreja de D. Moacyr Grechi, foi amiga de Chico Mendes e lutou, com coragem e inteligência, contra a destruição de nossas florestas.

      Ah, ela é (ou foi) amiga dos irmãos Jorge e Tião Viana, e ajudou a fundar o PT.


      N.A: Texto publicado na sexta-feira, 15, no jornal A Gazeta, no Acre.


      domingo, 10 de agosto de 2014

      Misturado e perigoso

      *Elson Martins

      A eleição para governador do Acre de 2014 é a terceira em que sou levado a votar com sobrosso, pensando no risco de entregar nossa terra a um grupo de pessoas estranhas à sua história, cultura e tradições. Portanto,  pessoas sem identidade com os nossos sentimentos e modos de vida, que tentam nos impingir a barbárie que trouxeram de outras regiões. Em 2002, 2006 e 2010, escrevi meus temores de que, entre “Nós”, acreanos nascidos ou de coração, e “Eles”, representados por agressores que nos anos 1970/1980 agiam como se fossem “os novos donos do Acre”, tivéssemos que abrir mão de nossas conquistas como povos da floresta para cair na ambição capitalista que os movem.

      O quadro que vejo na politica atual é difuso, uma mistura de siglas e discursos que dificulta a opção pelo voto consciente, sobretudo, entre os eleitores mais jovens, que não possuem a memória do que aconteceu por aqui há três décadas. Sei que o que aconteceu é recente, à luz da história, mas a novidade da informação eletrônica, a ascensão do capitalismo no mundo e os erros políticos de quem não consegue valorizar o protagonismo de quem faz a nossa resistência, acabam abrindo uma fresta perigosa aos inimigos da acreanidade.

      Um observador atento poderá enxergar, mesmo no amontoado de asneiras que é  lançado diariamente nas redes sociais, pela internet, a força politica que permanece viva entre as nossas raízes. Uma simples fotografia da Gameleira num fim de tarde desperta, como se viu esta semana na Fanpage do senador Jorge Viana, uma unanimidade amorosa, um sentimento verdadeiro de quem se enleva com uma natureza exuberante, de cujo mistério, certamente, vamos poder construir o mundo novo e bom que tanto queremos para todos. O mesmo sentimento estava presente, há duas ou três semanas, nos espaços da universidade Federal do Acre, apinhados de jovens curiosos e esperançosos, durante a 66a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

      Nos amplos e promissores espaços fervilhavam gerações num diálogo entre saberes, entre tradição e modernidade...

       Seringueiros preparados para um "empate" na Fazenda Bordon, em 1987. (foto: Elson Martins)

      Era como se a universidade estivesse acordando de um sono profundo, abrindo os olhos para enxergar o conhecimento dos extrativistas e dos indígenas, dos povos da floresta, o amor e a irreverencia dos jovens, a mente aberta dos cientistas apontando para o admirável mundo novo de uma comunidade fraterna possível.  Esse mundo está tão perto: está na periferia de nossa morna cidade, nas beiras de rios que desbarrancam preguiçosamente; nas periferias pobres, mas solidárias de nossas cidades e vilas; no conhecimento ancestral que decifra venenos e curas; nos gestos suaves e sábios de quem há séculos dorme com a natureza e sonha, sem maldade, para acordar com o rosto limpo e belo da simplicidade.

      Ah! Doutores!  Políticos! Gestores da vida pública! Ah! Candidatos que exploram as dores do povo! Não se deixem enganar pelas aparências. Aquele senhor que vende pipoca e bombons numa birosca na esquina sabe mais que vocês, sobre como entrar e sair da floresta densa e não se perder nela; conhece remédios e fibras; sabe os nomes de quem vive muito longe; não se ofende com a solidão; tem tantas ideias simples de como viver em paz.. Sem ambição! A natureza está em nós, acreanos, e atrai, às vezes, com o hálito quente da jibóia que precisa se alimentar. Mas isso não é dominação. Não é arrogância. Não é desejo mesquinho de se apropriar de corações e mentes.

      A história do Acre é uma história de bravos que orgulha aos filhos e os empurra para a resistência contra os invasores que ofendem. Essa é a politica que está em jogo nas eleições de 2014. Durante cem anos vivemos como povos invisíveis, alimentados por duas espécies da floresta – a seringueira e a castanheira. Hoje, sabemos que podemos viver outros tempos mais longos, com novas espécies, descobertas ou a serem descobertas, porque a riqueza do estado é a floresta e os que a reconhecem como tal.  Não precisamos de agouros de quem quer colocar outra forma de vida no seu lugar.

      Se isso é um recado? Acho que sim! E o deixo, a quem interessar possa, porque não quero ver o Acre parecido com São Paulo, ou com o Paraná, ou com o Mato Grosso. Quero ver o Acre prosperar e se tornar um lugar bom para se viver, mas com a cara do Acre. Com a riqueza da sua floresta explorada com parcimônia, sem destruição e partilhada por todos.

      Quem duvida que isso seja possível, procure acompanhar o encontro internacional do GCF que vai acontecer em Rio Branco no período de 11 a 14 deste mês. Especialistas de 7 países (Estados Unidos, Brasil, Indonésia, México, Nigéria, Peru e Espanha) vão apresentar estratégias e propor negociações que garantam pagamento a quem não desmata e, portanto, não lança dióxido de carbono na atmosfera gerando o efeito estufa. Quem age assim, presta um serviço ambiental: preserva a Natureza, salva o Planeta  e, claro,  precisa ser bem pago.



      quinta-feira, 13 de março de 2014

      Florestas do meu exílio


      *Elson Martins


      Li o livro do Capi faz algum tempo e sei que ele aguardava que escrevesse algum comentário, mas eu vinha sentindo dificuldade de desenvolver qualquer texto, por menor e simples que fosse. Talvez por ter vivido muito próximo dos personagens durante boa parte da narrativa, antes e depois do exilio, o que poderia resultar em intromissão indevida. Também não me agradava a ideia de parecer piegas ao tentar fazer avaliação literária. Sou péssimo nisso.

      Preciso dizer, entretanto, que gostei muito do livro e o recomendo a todos, principalmente aos jovens que pouco sabem da ditadura militar que infernizou a vida de gerações passadas no Brasil. A história é real, está bem contada e pode servir de exemplo nos dias de hoje: de coragem, desprendimento, ideologia, amor coletivo e, também, amor e confiança extremos entre duas pessoas nascidas nas entranhas da Amazônia.

      Ousaria dizer, com algum receio de ser contrariado, que esse amor entre os dois foi o que houve de mais verdadeiro e revolucionário durante toda a saga que eles viveram. Sem esse amor imenso, enriquecido por outros sentimentos humanistas fecundos, particulares e universais, eles não teriam resistido a tanto horror e provação.

      Leiam e releiam, portanto, o “Florestas do meu exilio” com esse olhar diferenciado, com mais sentimento e menos conceito, pra ver se não vão se deparar com a história numa dimensão duplicada da vida, com afeto, confiança, sonho, ousadia e desapego material infinitamente ampliados!

      Eu fui testemunha privilegiada desse acontecimento. Talvez por ser também da Amazônia, nascido nas brenhas de um Acre isolado e invisível, ao conhecer o casal já estava predestinado a ser cúmplice “para o que desse e viesse”. Acompanhei choros, ciúme, medos, desentendimentos que não passavam de encenação na construção de um elo afetivo indestrutível, com mil matizes de ação  nem sempre clara, nem sempre acolhedora, nem sempre justificável do ponto de vista de quem pensa coletivamente.


      Janete e Capi em lançamento do livro

      Aí, me dispus a ser parte dessa revolução imprevisível, nervosa, de ida e volta sem fim.

      Acho que, de algum modo, nunca me desgarrei dos dois (Capi e Janete), mesmo quando a ditadura espalhava o boato de que tinham sido “eliminados” pelas forças da repressão, para não dar mau exemplo. Nem quando sumiram para atravessar não uma, mas quatro ditaduras da América Latina até ressurgirem de braço com a liberdade no Canadá distante, e na África do fim do mundo.

      Eu me orgulho dessa história por ter restado parte dela na minha casa em Belém, após a fuga do Capi da Santa Casa de Misericórdia, onde se encontrava com licença de saúde do Presídio São José, mantido sob forte guarda. Fui algumas vezes à casa da Janete atrás do presídio, uma delas na tal noite (relatada no livro) em que o Capi convenceu, com argumento infalível, um segurança a saírem os dois do hospital, de madrugada, para visita-la e logo retornar. Eu e uns poucos amigos aguardávamos na casa suspeita tomando cuba-libre (rum com cocacola), ouvindo o vinil que Caetano Veloso (também no exilio) tinha gravado na Inglaterra.

      Ah! Ninguem estava sossegado. Capi e o policial somente chegariam por volta das 3 horas da madrugada, e quando chegassem, Capi ou Janete levaria um copo de cuba-libre para o segurança, que teria de permanecer na sala, numa rede, sem identificar as visitas. Na cozinha, ouvíamos “A Little More Blue,” “London, London” e uma versão estonteante da música “Asa Branca”, do velho Luiz Gonzaga.

      Deu tudo certo. Era apenas um teste para o que aconteceria numa outra noite: a extraordinária fuga do casal com a filhinha Artionka, de oito meses de idade, numa canoa rio acima para a história tão detalhada no livro.O risco na casa da Janete ficou indelével nos que permaneceram no prolongado medo e nojo da ditadura militar.

      Na versão reinventada de “Asa Branca”, Caetano canta um refrão em forma de grunhido: nhaung- nhaung- nhaung- nhaung... Tão novo, tão lindo, tão triste, tão ameaçador que nos provocou um riso geral e descontrolado, um mal súbito, um prenúncio de saudade e dor.