quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Índia Quéchua é ministra na Bolívia

Durante a II Feira Panamazônia de Economia Solidária realizada em Rio Branco (AC) no período de 19 a 24 de outubro, e que contou com a participação de oito paises latino-americanos e 300 expositores, a ministra boliviana Antônia Medrano chamou atenção por sua simpatia e engajamento na política de economia solidária. Na ocasião, a jornalista Onides Bonaccorsi Queiroz a entrevistou para o jornalzinho da Prefeitura, Meu Lugar, escrevendo o belo texto abaixo:

Meu doutorado é a vida

*Onides Bonaccorsi Queiroz

Ao chegar ao Seminário Latinoamericano de Economia Solidária, evento integrante da Feira Panamazônia, tratei de perguntar sobre a ministra boliviana ali presente e minha informante, da coordenação do evento, foi muito clara:
– Está na lá na frente do auditório, vestindo uma blusa branca com flores coloridas. É uma pessoa bem agradável.
Dirigi-me ao espaço, alcancei a primeira fila e foi fácil localizá-la: era clara e trajava um vestido simples e charmoso, com o toque artesanal de bordados coloridos, que me pareceu perfeito para a ocasião, dada a tônica do evento e adequado à função que exerce, estritamente relacionada com a economia informal. “Mirna se enganou.” – pensei. “A roupa dela é bege. Mas tem florzinhas mesmo.” Dirigi-me, então, a essa mulher e perguntei:
– A senhora é Antonia Medrano?
– Não. É esta – e apontou para o seu lado direito.
Quase caí de costas com o susto: a ministra era uma índia quechua, com traje típico, de chapéu e tudo! Por essa eu não esperava.
Ai, que gafe! Em fração de segundos, tentei argumentar, comigo mesma, que o que causara o engano foram as tais florzinhas. Mas o olhar da mulher para mim, que assistiu a toda a cena impassível, era tão digno e transparente, que eu desisti de mentir. E admiti internamente: sem querer, exerci o preconceito. “Uma mulher do povo não pode ser ministra”, era a crença gravada na minha mente.
Então aceitei a minha falha. E reagi. Pedi licença para entrevistá-la, consentiu. Pareceu-me mesmo que já estava acostumada com esse tipo de confusão, o que confirmei mais tarde, com pelo menos duas pessoas que caíram na mesma cilada que eu. Atendeu-me com atenção e gentileza. Quando começou a falar, com muita firmeza e propriedade, compreendi que ela tinha tanta consciência de sua identidade, que um ato de  discriminação qualquer não afetava sua segurança. Senti-me, de certa forma, perdoada.
E fiquei ainda mais curiosa de conhecer sua história. Contou-me que nasceu no campo, na localidade de Duraznos, e ali viveu, como lavradora, até os 11 anos de idade. Depois foi para Potosí, trabalhar como empregada doméstica. Casou-se aos 21, quando aprendeu a fazer artesanato têxtil. Foi então que começou a se envolver com movimentos sociais, sobretudo com mulheres e geração de renda. “Sempre quis aprender e ensinar”, diz ela. Tarefa que não fluía com tanta naturalidade, pois eram os anos setenta, de “gobierno muy duro”, relata. Mas foi dessa forma exposta a injustiças sociais gritantes que forjou seu caráter de batalhadora incansável pelos direitos do povo.
Pouco mais tarde, o marido a abandonou com três filhos pequenos, o que tornou sua tarefa ainda mais árdua. Ainda assim fundou, em 1989, a Associação Artesanal Boliviana Senhor de Maio, de economia solidária.
Criou os filhos, formou-os; Juan Carlos é engenheiro agrônomo, Benjamín é técnico superior em eletricidade e Miguel Ángel, dentista. Tem quatro netos: “un varón y tres mujeres”.
Em 2007, elegeu-se vereadora por La Paz. Angariou ainda mais visibilidade e em janeiro deste ano foi empossada Ministra do Desenvolvimento Produtivo e Economia Plural da Bolívia pelo presidente Evo Morales.
Sabe que alcançou o elevado cargo devido ao valor supremo da sua experiência: “o meu doutorado é a vida”. Trabalha muito. Marca reuniões com os líderes dos movimentos sociais às 5 da manhã, o único horário livre que tem. Mostra-se profundamente tocada com o problema da fome, e no seu discurso comove os presentes.
Quando fala de sua infância, vê-se o que a impele a ser tão verdadeira e forte. Pequena, chegava a passar dois ou três dias sem comer e conta que seu estômago doía de fome. Diz, também, que quando era doméstica, davam-lhe “qualquer coisa para comer”. As experiências terríveis, como não poderia deixar de ser, marcaram-na profundamente. Por isso entende que o mais fundamental dos direitos sociais é o de comer.
De minha parte, declaro que aprendi, ou pelo menos comecei a aprender a minha lição, que, a bem da verdade, é a lição de todos os seres humanos. E tem implicações diretas sobre a economia. Já passa da hora de cada um se responsabilizar, pessoalmente, em abandonar os velhos modelos centralizadores e autoritários, o orgulho, a cobiça, o individualismo. Está na hora de saltar para a instância coletiva. Para a cooperação e compartilhamento, atitudes que ainda podem salvar o planeta, a que Antonia chama tão carinhosamente de “Madre Tierra”. Está na hora da economia solidária.

* A jornalista Onides Bonaccorsi Queiroz nasceu no Paraná, mas vive em Rio Branco, Acre, desde 2010. Escreve semanalmente no jornalzinho Meu Lugar, da Prefeitura e assina o blog verbodeligacao.wordpress.com onde expressa forte sabor de literatura.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Amazônia precisa de cientistas


Ao abrir, na manhã de segunda-feira (18) em Rio Branco, Acre, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o cientista Ennio Candotti, presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) criticou e ironizou o Ministério de Ciência e Tecnologia, o CNPq e outros órgãos responsáveis pelo desenvolvimento científico e tecnológico da Amazônia. Ele disse que “ não haverá paz nem sustentabilidade enquanto não se questionar os modos atuais de intervenção na natureza”.

Ao responder à pergunta da platéia - constituída, principalmente, de estudantes de níveis médio e universitário, - sobre o que fazer se os órgãos de ciência continuam com olhar torto para a Amazônia, Candotti, que é biólogo e atualmente comanda experiência de vanguarda no Museu da Amazônia (MUSA), de Manaus, respondeu com ironia: “ Talvez tenhamos que pressionar com tanques de guerra”!

O cientista declarou ser imprescindível que planejadores e pesquisadores aprendam a conciliar o conhecimento científico com o conhecimento dos que vivem na floresta; do contrário, os programas de desenvolvimento regional com o rótulo da sustentabilidade se limitarão a retirar da região, de forma sempre predadora, apenas o que já é conhecido dos mercados.

Ennio Candotti recomendou aos jovens que sejam curiosos e não aceitem qualquer proposta de desenvolvimento para a Amazônia. Ilustrou sua preocupação informando que em Coari, no Estado Amazonas, a Petrobrás explora petróleo, mas a 10 quilômetros de lá tem uma aldeia indígena que vive na extrema miséria. “ A ciência - enfatizou, - não fará sentido se não ajudar acabar com a miséria humana”.

Os futuros cientistas, segundo Ennio Candotti, deverão aprender a conversar com as formigas e as onças se quiserem entender de verdade a Amazônia. As formigas, explicou, não têm celular nem GPS, mas se comunicam em rede e se juntam com incrível rapidez para carregar migalhas de pão deixadas sobre uma mesa. Esta é uma ciência que os que vivem na floresta parecem mais próximos de entender, embora enfrentando discriminação e ceticismo dos acadêmicos.

A índia Taiza, de 12 anos, do grupo indígena a Saterê Awé, sofreu constrangimento numa escola amazonense de não-índios por declarar numa redação que gostaria de ser “ farinheira” . Os professores e alunos riram e debocharam dela que, entretanto, tinha argumento forte: queria aprender a fazer farinha para não deixar que os membros de sua tribo viessem a passar fome. “ Saber fazer” , inclusive farinha é muito importante, disse o cientista, e ser “ farinheira” de profissão também.

A riqueza gerada na Amazônia pode ser enorme e socialmente justa, desde que a região não seja explorada como depósito de coisas conhecidas dos mercados. Que não tenha que vender preferencialmente petróleo, madeira (mesmo certificada) ou Carbono (porque está na moda). “ Não é possível que uma floresta que tem uma diversificada e rica microbiologia não tenha produtos mais interessantes a oferecer” – disse Candotti, exemplificando: “ Só o veneno de uma aranha vale mais que todo as árvores existentes em 1 hectare da floresta” . Os óleos e as informações que estão la no meio da floresta valem milhões de dólares.

Entretanto, a regiâo precisa contar com pesquisa científica e com tecnologia. O ideal, segundo Candotti, é que 300 a 400 mil cientistas pudessem estar pesquisando cada quilômetro quadrado da região, na atualidade. “ E as instituições de pesquisa, bem como os órgãos de planejamento não podem continuar subestimando o conhecimento dos que vivem na floresta”.

domingo, 17 de outubro de 2010

Lula: o amigo do Acre

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 17out2010
Em dezembro de 1988, Lula discursa junto ao caixão de Chico Mendes, no velório dentro da igreja de Xapuri

Ainda como líder metalúrgico na região do ABC paulista, em fins dos anos 70, Luís Inácio Lula da Silva começou sua amizade com o Acre. De lá para cá, nunca deixou de participar dos acontecimentos sindicais e políticos que marcaram mudanças fundamentais na vida dos acreanos. Ele já fez 15 visitas ao estado como sindicalista, deputado federal e como Presidente da República.

Em julho de 1980 participou em Brasiléia, na fronteira com a Bolívia, de um ato de protesto pelo assassinato do presidente do sindicato dos Trabalhadores Rurais Wilson Pinheiro, de tocaia, dia 21, a mando de fazendeiros. Ao discursar de um palanque improvisado na carroceria de um caminhão, Lula declarou:
“Está na hora da onça beber água”!

O recado foi entendido pelos companheiros de Wilson que, ao retornarem para suas colocações de seringa toparam no caminho com o capataz da Fazenda Nova Promissão, Nilo Sérgio, principal suspeito do crime, e meteram bala nele. O caldo engrossou e mais de 40 seringueiros foram presos pela Polícia Militar enquanto Lula e outras lideranças como Chico Mendes e o delegado regional da Contag, João Maia, foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional do regime militar.

No dia 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi morto em condições semelhantes pelo peão Darcy Alves a mando do pai fazendeiro Darli. Desta vez, Lula, na condição de deputado federal (PT) fez longo e polêmico discurso dentro da Igreja de Xapuri, ao lado do caixão do líder seringueiro durante o velório.

Como diretor da precária TV Aldeia (TV Educativa) na época, encaminhei a gravação em fita Umatic. Nas eleições de 1990 para o Governo do Estado, o candidato Edmundo Pinto, do PDS (partido antecessor do DEM, hoje parceiro do candidato José Serra), ganhou do estreante Jorge Viana (PT) no segundo turno. Preocupado com o destino que seria dado à fita na nova administração, favorável aos fazendeiros, tomei o cuidado de fazer cópia e levar comigo para o Amapá, onde vivi 13 anos, como assessor do governador Joào Alberto Capiberibe (1995-2002) e editor do jornal Folha do Amapá.

De volta ao Acre, em 2003, consegui fazer uma cópia digital dessa e de outras 33 fitas que passei para o acervo da Biblioteca da Floresta em 2008.

Agora, 22 anos depois, estou tornando público o conteúdo dessa fala histórica que marca a relação também histórica do atual Presidente com o Acre, desde aqueles tempos tristes.


Discurso no velório (1988):


O Chico termina numa entrevista que ele deu ao jornal do Brasil dizendo o seguinte: “Eu quero ficar vivo para ajudar a salvar a Amazônia, eu não quero morrer, porque esse negócio de ato público depois da morte, esse negócio de grandes enterros acaba no dia seguinte”. Esse era o pensamento do velho Chico, há tempo, pois ele participou junto comigo do ato de solidariedade ao companheiro Wilson Pinheiro, morto em Brasiléia dento do sindicato em 21 de julho de 1980, e falou isso (...).

Chico conseguiu juntar a bandeira do direito ao trabalho, do direito à vida dos trabalhadores desse Estado e dessa região com uma luta pela defesa do meio ambiente. Por quê? Porque preservar o meio ambiente para os trabalhadores que moram na região amazônica, preservar as árvores, preservar as castanheiras, preservar as seringueiras é, na verdade, preservar o direito do feijão e do arroz de cada criança dessa região. Porque o gado traz riqueza pro dono do gado, mas não traz sequer carne para os companheiros que trabalham aqui. E o que o companheiro Chico queria? Ele queria pura e simplesmente que deixassem a mata, que era instrumento de sobrevivência de milhares e milhares de trabalhadores, em paz; que fossem plantar gado noutro lugar, criar gado noutro lugar, mas deixassem aqui a mata, as seringueiras, as castanheiras, pros trabalhadores sobreviverem.

Na TV Globo o doutor Romeu Thuma, a quem o Chico enviou várias cartas, dizia o quê? Que a culpa do que está acontecendo aqui é da Polícia Militar... Mas nós precisamos dizer que a culpa não é apenas da polícia militar, a culpa é de todos eles juntos: é da polícia federal, é da polícia militar, da justiça brasileira, da Presidência da República (José Sarney- PMDB), porque, quando eles inventam que vêm aqui desarmar o povo, quem que eles desarmam? Eles pegam a espingardinha de caçar preá do trabalhador e deixam os fazendeiros com metralhadoras, calibre 12.

O companheiro Chico não ganhou as eleições (Chico foi candidato a deputado estadual em 1982 e a prefeito de Xapuri em 1985) e alguns imaginavam que a partir daí fosse desanimar. Qual não foi a surpresa dele: ao invés de desanimar, a luta do companheiro Chico ganhou outra dimensão; ele começou a ser reconhecido por organismos internacionais, pelo Banco Mundial, pelo BID, pelo movimento ecológico do mundo inteiro; começou a ser reconhecido, a ganhar prêmio, a viajar e a contar no mundo o que acontecia aqui; e começou inclusive a dar palpite, opinião sobre empréstimos que empresas estrangeiras ou bancos estatais iam fazer aqui, e por isso aumentou o ódio dos grandes proprietários contra o companheiro Chico. Aumentou o ódio a ponto de culminar com a morte dele no dia 22.

O quê que essas pessoas imaginam? Será que essas pessoas são tão burras que imaginam que matando Chico Mendes, mataram a luta do Chico Mendes? Será que eles não percebem (aplausos), será que esses ricos não têm exemplo na história, será que eles não percebem que esse mesmos grupos de ricos mandaram matar Jesus Cristo há dois mil anos atrás? E o povo não esqueceu as idéias de Jesus Cristo. Será que esses mesmos não estão lembrados que foram eles que mandaram matar Tiradentes, esquartejar e colocar sua carne pendurada nos postes, para que o povo nunca mais se lembrasse quem era Tirandentes? 30 anos depois o Brasil conquistou sua independência.

Eu queria dizer pra vocês uma coisa bem simples, pra cada um de vocês guardar na cabeça. Vocês conheciam bem o caboclo Chico, vocês sabiam bem o que Chico queria, vocês sabiam o que Chico dizia, vocês sabiam o que o Chico pensava. Pois bem, o que o companheiro Chico, que deve estar no céu nesse instante, espera de cada um? Ele espera que aumente a coragem e a disposição de luta de cada companheiro. Ele dizia sempre: no dia em que eu morrer meus companheiros vão se dobrar, cada um vai valer por 10 e a luta vai continuar. E é isso que tem que acontecer (aplausos). Porque se agora houver por parte dos trabalhadores e de todos nós, medo e preocupação, o quê que vai acontecer? Eles vão ficar rindo da vida e vão matar mais. O quê que nós deveremos esperar? Em primeiro lugar, nós achamos que o povo brasileiro quer justiça, e que a polícia prenda esses assassinos do companheiro Chico.

Se é verdade que esses dois sujeitos (Darli e Alvarino Alves) tinham 30 mil hectares aqui; se é verdade que eles eram bandidos em Minas e no Paraná e já vieram fugidos; se é verdade que aqui eles ficaram contratando grileiros e já mataram mais de um trabalhador, e se é verdade que essa propriedade deles pode até ser grilada... O quê que deveria acontecer como atitude nobre do governo? O governo deveria desapropriar essa terra e dar para os trabalhadores rurais cultivarem, ao invés de deixá-las ficar nas mãos de bandidos e grileiros; porque, se o governo fizesse isso e cada fazendeiro que manda matar alguém perdesse sua terra, na verdade essas pessoas iriam ter medo de continuar matando trabalhador rural (...).

Nós precisamos dizer em alto e bom som: o governo precisa começar a investigar cada crime colocando policiais sérios pra fazer isso, porque nós sabemos que tem muitos policiais que são capachos de fazendeiros (aplausos) na cidade. É preciso que haja seriedade e vocês sabem, companheiros, pra terminar, que cada um de nós, tanto nós de São Paulo, como companheiros do Acre, de Rondônia, que chegaram aqui agora, sabemos que temos um compromisso sério: é não deixar a coisa agora esfriar, é não deixar, sabe, o que eles querem, que o povo esqueça o companheiro Chico Mendes.

Agora é que nós temos que mostrar pra eles que nós vamos fazer a luta do companheiro Chico Mendes ser conhecida nesse país. Agora que vamos arrumar solidariedade, não apenas pra dar sobrevivência para a companheira do Chico e de seus filhos, mas arrumar solidariedade pra dar ajuda concreta à luta dos trabalhadores que defendem a Amazônia, a luta dos trabalhadores que defendem o seringal, a luta dos trabalhadores que defendem a manutenção das castanheiras e a luta dos trabalhadores que brigam por reforma agrária.

A classe dominante tá ficando com medo, porque ela sabe que a classe trabalhadora tá amadurecendo; ela sabe que a classe trabalhadora tá tomando consciência, ela sabe que aqui hoje tá PV, PT, daqui a pouco chegam companheiros do PMDB, daqui a pouco chegam do PDT, sei lá, o movimento sindical... Ela sabe que tá crescendo a solidariedade e começa a ficar com medo.

Eu acho que é um compromisso dos partidos políticos progressistas, do movimento sindical, da CUT, da CGT, que a gente precisa transformar cada palavra do Chico numa profissão de fé por esse país aí afora. Daqui a pouco eles vão perceber que o que Chico falava aqui e era ouvido apenas pelos companheiros do sindicato dele vai ser discutido lá no agreste de Pernambuco, lá na Bahia, na favela de São Paulo (...).

Nós deveremos eleger o Chico, hoje, o símbolo da descrença desse governo, deveremos eleger o companheiro Chico hoje como o mártir da classe trabalhadora camponesa desse país, porque o que ele fez foi dedicar 44 anos da sua vida à luta pela liberdade dos trabalhadores.

A morte do Chico não foi o fim, ela foi o início da libertação da classe trabalhadora brasileira.

domingo, 10 de outubro de 2010

Luis Jorge Salinas

E-mail enviado ao blog:


Estimado Elson:
Estive lendo seu blog na nota soubre o mapinguari ,him quero comentar vc que eu sou testigo desses animais,acredite que e real.
recentemente fiz um livro relatando issos avistamentos e 3 expediçoes que fiz nos ultimos anos ate com apoio do biologo da tv Richard Rasmussen com quem fiz uma grande amistade e acredita
na existencia deles.
pode olhar meu blog informativo das minhas concluciones www.luisjorgesalinas.blogspot.com
tambem tenho atualizado contato com David Oren quem ja tem meu livro .
Mando um abrazo
Luis Jorge Salinas-Explorador

domingo, 3 de outubro de 2010

Escolha ideológica

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 3out2010

Ilustração da ditadura militar brasileira de 1964, publicada na coleção Retrado do Brasil pelos jornalistas Mino Carta e Raimundo Rodriges Pereira
Jânio Quadros foi o meu primeiro voto e também minha primeira decepção política. Em 3 de outubro de 1960, portanto há 50 anos, me tornei um dos 5,6 milhões de eleitores brasileiros que o elegeram Presidente do Brasil pela UDN. Em Seis meses de mandato, entretanto, ele só se destacou por ter proibido o biquíni e adotado o uniforme cubano para os funcionários públicos federais... Por fim, renunciou dizendo-se pressionado por “forças ocultas”.

O vice Jango Goulart, eleito pela coligação PTB-PSD (na época, o vice era escolhido em votação separada), assumiu o posto após agitadas discussões políticas e queda de braço com as forças armadas. Os partidos ou organizações de esquerda formadas por cisão do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e PC do B (Partido Comunista do Brasil) tinham como referências revolucionárias, Cuba e China.

Jânio Quadros me convencera ao prometer em campanha eleitoral (pelo rádio) varrer toda a sujeira da administração pública do País. Era populista, bom de discurso, de tal forma que nem percebi que sua vassoura era apenas um brochinho de lapela. Tal qual o broche-espada do principal concorrente, o General Henrique Lott.

Lembrei de meu vacilo nestes últimos dias da campanha política versão 2010 no Acre, ao ver pela televisão uma jovem e bela acreana anunciar que empregará seu primeiro voto para eleger um candidato populista ao Senado. Espero que ela não sofra tanto!

Em 1963, concluí o segundo grau num colégio público do Amapá, para onde me deslocara em 1959, e tomei uma decisão corajosa: larguei o emprego na Vasp para aventurar-me em Belo Horizonte, capital que alimentava meus sonhos. Tinha acabado de ler o livro “Encontro Marcado”, do escritor mineiro Fernando Sabino e queria viver algo parecido por lá. Em janeiro, fiz vestibular e em março comecei a cursar Belas Artes na Escola Guignard, e cinema na Universidade Católica.

Com mais um pouco de sorte, arrumei trabalho aos domingos como redator de notícias da Rádio Inconfidência (do Estado), depois trabalhei também na Rádio Tiradentes (da rede Globo). Nesta última começava de madrugada levantando as ocorrências policiais para o noticioso que ia pro ar às 7 horas.

Ganhava o suficiente para pagar a pensão e a lavagem de roupa, mas não sobrava para o transporte. Meu deslocamento tinha que ser na “pátria amada”. Tudo bem, sonho e coragem não me faltavam. Queria ser crítico de cinema e artista plástico, começara a viver em ambiente universitário freqüentando barzinhos e livrarias. Lia tudo: romances, obras de marxismo, Sartre, Bertrand Russel, Bakunin, biografias... Era um aprendizado rico para um jovem saído das barrancas do seringal Nova Olinda, Rio Iaco, Sena Madureira. Acre.
Mas a alegria durou pouco. Em 31 de março de 1964 os militares deram o golpe demovendo Jango, Brizola e outras lideranças civis do Poder, oficializando a Ditadura. Todas as liberdades foram suprimidas, os trabalhadores e os jovens conscientes se tornaram suspeitos.

Na pensão de dona Osmira no bairro da Floresta, onde eu fazia as refeições, fomos surpreendidos durante o almoço por soldados e agentes do DOPS armados de metralhadora. Todos com as mãos pra cima, encostadas na parede.

Sustos como esse viraram rotina e os sonhos deram lugar à indignação. Timidamente, comecei a me envolver com pessoas que percebiam a anormalidade e se dispunham lutar contra ela. Essa compreensão me veio através dos versos de João Cabral de Melo Neto em “Morte e Vida Severina”: “Muita diferença faz/ entre lutar com as mãos/ ou abandoná-las para trás”. O artista plástico, o critico de cinema e mais tarde o tecnólogo em Química Industrial (curso que aceitei fazer para ter direito a uma bolsa da Sudam) foram aos poucos pro espaço. Sobrou um militante desajeitado, mas disposto a correr riscos.

E nada mais de eleições, e nada mais de liberdade, e nada mais de cidadania. Em 1969, o líder estudantil João Alberto Capiberibe (que foi governador e senador do Amapá nos anos 1990), com atuação no Pará e no Amapá, apareceu em BH arrebanhando pessoas para a luta armada. Tinha conversado com Carlos Marighela, dirigente da ALN (Aliança Libertadora Nacional) em São Paulo, e recebido a missão de ajudar a montar um núcleo de guerrilha no Pará. Eu e o Tito Guimarães Filho, colega de trabalho na Rádio Tiradentes, topamos e saímos os três sem lenço e sem documento, de ônibus, para Belém. Ficamos instalados num “aparelho” no bairro do Marco.

Lá, em contato com outros militantes demonstrei minha insegurança, manifestei discordância e terminei por ser excluído do grupo. Viajei para o Amapá que também acolheu, alguns dias depois, o Tito Guimarães, que tentou antecipar a guerrilha requisitando 100 burros para trabalhadores rurais de São José do Capim e se deu mal. Com a ajuda do padre italiano de esquerda, Caetano Maiello, assumimos a editoria do semanário A Voz Católica e programas na Rádio Educadora, ambos da Prelazia de Macapá. Na Rádio chegamos a produzir o programa “Alguma Coisa Antes que Anoiteça”, diariamente, a partir das 17h30, ensinando princípios marxistas. Mas outro padre nos descobriu e nos afastou do projeto.

Só tivemos tempo de registrar, na capa de A Voz Católica, nossa indignação diante do assassinato de Carlos Marighela pelos militares, em São Paulo, em 1969: “Morreu um grande brasileiro. Assassinado”! E vieram as prisões; do Capiberibe e sua companheira Janete quando tentavam escapar do cerco numa estrada do Maranhão; a do Tito em Belém; e a minha própria, em Macapá com transferência para Belém. Tito foi levado para o Rio Grande do Sul onde ficou preso incomunicável. Capiberibe conseguiu fugir do presídio São José, de Belém, e exilou-se no Chile com a família.

Eu vivi mais tempo cinzento, com liberdade vigiada e sem sonhos. Com mulher e um casal de filhos fui trabalhar como químico de uma indústria de Laticínios em Belém. Em 1974 tive uma recaída: larguei o Lacticínio e me tornei artesão fazendo entalhes em madeira. A barra pesou e voltei ao jornalismo alternativo, até ser contratado, em 1975, pelo jornal O Estado de S. Paulo, primeiro como correspondente no Amapá, depois como repórter regional baseado no Acre, por indicação do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal.

Aqui, a partir de 1975 retomei o ânimo no jornal Varadouro e em outras lutas acreanas. E após 30 anos de abstinência, votei novamente para Presidente da República: em 1990 no Lula, mas deu Collor de Mello; em 1994 e 1998, novamente no Lula, mas deu FHC; em 2002 e 2006, finalmente, Lula começou a dar certo.
Agora tenho como opção para Presidente quatro candidatos com perfis de esquerda. O José Serra (PSDB) eu descarto, por seu elitismo paulistano. O Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) também descarto, com todo respeito, porque cansei do radicalismo sonhador. A Marina Silva (PV), sobre quem registrei na apresentação do livro “Amapá - Um Norte para o Brasil” que “faz política com a linguagem dos anjos”, deixo sob a responsabilidade dos mais jovens e mais sonhadores (e menos ateus) que eu.

Fico com a Dilma, presa e torturada pelos militares de 1964, porque essa dor eu conheço bem e sei que deve ser honrada. Também porque ela serve ao Projeto Acre ao qual estou entregue de corpo e alma, e ao qual Lula, seu padrinho político está envolvido desde 1978. Desejo um Acre livre dos destruidores de florestas e dos vis amantes do dinheiro.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Recado consciente

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 18set2010
Abrahim (Lhe) Farhat é o militante mais original e verdadeiro das lutas socioambientais do Acre

Esta semana fui pautado pelo Abrahim Farhat Neto, o Lhé, que se recupera de uma operação de hérnia. Ele me telefonou ainda na segunda-feira exigindo o espaço do Almanacre para conversar sobre a história política desta “terra velha”; e falou de alguns “poemas políticos” que gostaria de publicar. Fui à sua casa no início da noite de sexta-feira; está magro, abatido e sente dores quando anda.

Ele começou contando uma historinha eleitoral sobre o primeiro grande líder político do Acre, o major do exército que chegou a general José Guiomard dos Santos, nascido em Minas. Nas eleições de 1958 para deputado federal (eram duas vagas no então Território Federal do Acre), Guiomard foi fazer campanha num seringal e discursou para um grupo de seringueiros:

“Meus amigos, neste meu paletó (vestia um paletó de linho branco, impecável) nunca entrou dinheiro público’... Um dos seringueiros puxou a manga da camisa de outro e cochichou: “repare que ele está de paletó novo”!

Daí recua até 1955 para informar que a Casa Farhat, criada pelo avô libanês Abrahim há 100 anos, no segundo distrito de Rio Branco, foi que lançou na capital o gás de cozinha e o fogão Brasil, acabando com o fogão à lenha tradicional.

A informação, imaginei, tinha a intenção de marcar época. Naquele ano, de fato, entrava em cena o doutor Jonas Garcia, que se revelou notável puxa-saco do então governador Coronel Fontenele recebendo em troca a nomeação para comandar a Secretaria de Segurança Pública. Após mais algumas puxadinhas, virou presidente do Tribunal de Justiça com o direito de, na ausência do governador, assumir o cargo máximo do ex-Território.

Lhé contou que certo dia, chegou do Paraná, via Radional – serviço de rádio precursor do telex – um telegrama do Paraná pedindo ao governador em exercício que determinasse a prisão do puxador de carros Josias de Tal, que, como era sabido, se encontrava refugiado neste Território. Pois não era o próprio?

Mas Lhé não contou o desfecho, preferiu falar do surgimento do PTB e PSD, partidos criados na época e que conduziram a vida política do território por décadas. Viraram MDB e PDS, em seguida (durante a ditadura) PMDB e Arena, e agora aparecem misturados num balaio de siglas, entre as quais, DEM e PP.

Naquele tempo (1955), Abrahim Neto tinha 16 anos e tornara-se presidente de sala do Colégio Acreano iniciando-se na política estudantil. “Sem muita consciência”, passou 5 anos na mesma série fazendo militância. Após esse período, foi transferido (ou jubilado?) do Colégio Acreano para a Etica (Escola Técnica de Comércio) onde recebeu boas influências do sociólogo Hélio Kury (recém-falecido) e ficou conhecendo as idéias do educador Paulo Freire, que tratou de testá-las junto aos estivadores de Rio Branco.

Confesso que a essa altura comecei a me preocupar: a conversa se alongava, o espaço da coluna é pequeno e não atinava até onde o Lhé queria chegar. Bom, ele prosseguiu falando: sobre o primeiro governador eleito após a criação do Estado do Acre (1962), Zé Augusto, destituído pelos militares (1964), e de outra influência que lhe deu um norte político, o militante estudantil Elias Mansour, acreano que estudou no Rio e foi dirigente da UNE (União Nacional dos Estudantes). Elias e Hélio lhe ensinaram a ler Marx à noite, à luz de vela, na Casa ABC no segundo distrito.

Em 1966 chega a Rio Branco o bispo D.Giocondo, que cria o JESCA (movimento de jovens dentro da Igreja), e lá se vai o Lhé mergulhar na Teologia da Libertação. Candidata-se ao grêmio da Etica (1968) e enfrenta o governador da ditadura, Jorge Kalume, comerciante de Xapuri que fazia por merecer alguma patente, tão cioso era ele da orientação militar contra os esquerdistas. “Foi meu batismo de sangue: a primeira greve contra o monopólio da empresa de ônibus”.

Depois vieram as eleições descaradamente fraudadas. Prudente, não quis citar nomes porque “vai dar pau”! Mas lembrou a urna de Xerém que tirou a eleição de Alberto Zaire (PMDB) para o Senado, em 1978, e citou Poty Paschoal, que teve eleição para a Assembléia Estadual garfada.

Ah! Ele percebeu que a política não era “ficha limpa” nem no Acre, nem no Brasil inteiro. E que nepotismo parecia inerente ao poder público. Sentiu isso na família, pois a “brima” (o primo legitimo de Lhé) Paulo Maluf, quando governador de S.Paulo foi pego pelo Ministério Público surrupiando os recursos da merenda escolar para beneficiar a esposa. Recitou, então, seu primeiro poema circunstancial:

“Quem nasceu primeiro,

A galinha da dona Silvia (mulher do Maluf,

O pinto do Pita (ex-prefeito de SP

Ou o ovo do Maluf”?

Descobriu em seguida, fruto de seu amadurecimento político, que o eleitor também é corrupto e acolhe com naturalidade a máxima franciscana ”é dando que se recebe”, ou “toma lá, dá cá”.

Voltando ao seu perfil político: foi candidato ao Senado pelo PT em 1982 concorrendo com o tio Said Farhat, ex-ministro da Comunicação dos militares, com quem trocou insultos. E confirmou na zona rural a existência do eleitor mulateiro. No caso, duas eleitoras, filhas de um amigo que o convidou para almoçar uma galinha caipira. “Vamos embora que dessa mata do Abrahim não sai coelho não” – disseram as meninas correndo para encontro com outro candidato endinheirado.

E tome poema:

“Na minha grande Amazônia

Tem uma árvore que muito me gusta

O sagrado mulateiro

Que muda de casca e de cor”.

Mas o mulateiro, esclarece, muda por uma imposição biológica. Já o político ou eleitor mulateiro... As filas nos hospitais, o desemprego, a fome do povo decorrem dos interesses pessoais deles.

Finalmente, clareia o objetivo do entrevistado: ele quer puxar a orelha dos partidos de esquerda, inclusive do seu PT, aos quais lembra que “só tem duas formas de fazer revolução: pela luta armada ou pela educação política”. Claro que prefere a segunda opção.

A entrevista aconteceu na hora do programa eleitoral gratuito pela TV. Os candidatos trocavam xingamento e prometiam mundos e fundos. Lhé indagou zangado: “Por que em vez de imitarmos os adversários, não aproveitamos para educar o eleitor para a cidadania”? E, mais calmo, procurou ilustrar a queixa: “Estamos com dificuldade para eleger o Edvaldo (PC do B) para o Senado. Aí ficamos escolhendo algumas mães como marketing, esquecendo de falar das outras e sobre o que temos feito por todas elas”.

Deu outra lição: “A turma do DEM está acusando, querendo nos culpar pela violência que acontece no Acre e em todo o país. Eles acabaram com as liberdades e com a educação, instituíram a corrupção, desmontaram o estado brasileiro. Quando pegamos nosso estado (o Acre) a desgraça estava feita. Mas estamos consertando muita coisa. É disso que temos que falar. Da educação e da participação popular na construção de uma nova sociedade”.

Está dado o recado, Lhe. E se cuide!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Núpcias Vermelhas

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 12set2010
Adalberto Queiroz, pioneirismo no cinema amador acreano
Provavelmente, pouca gente pode dizer que já viu filme com esse título. Menos ainda um que tenha como ator principal o galã do Cinema Novo brasileiro, Geraldo Del Rey, e que tenha sido produzido, por devaneio, pelo acreano-boliviano Jimmy Barbosa, dono do Cine Acre nos anos 1980. “Núpcias” tem no elenco outra novidade: o doutor professor da Unicamp (SP), Mário Lima, acreano de Brasiléia que se tornou conhecido como autor de artigos acadêmicos publicados na imprensa local. Ele faz uma ponta de mau mocinho,vestido a caráter, que dispara um revolver e sopra a fumaça do cano no melhor estilo western. Quem diria! O cineasta acreano Adalberto Queiroz esteve presente no lançamento do filme em Rio Branco, em 1975, e não gostou: “Foi um fracasso” - disse sexta-feira passada, quando foi doar cópias restauradas de seus próprios filmes para enriquecer o acervo da Biblioteca da Floresta.

Na época, Adalberto já era veterano em dificuldades com o cinema local. Em 1973, por exemplo, filmara com equipamento super-8 o longa “Fracassou Meu Casamento”, que teve destino pior: foi apreendido pela Polícia Federal e recuperado somente em 1979, assim mesmo porque o autor foi a Brasília e insistiu em procurá-lo nos porões da Censura Federal. Lá, na companhia do censor encarregado que insistia em afirmar que o filme não existia naquela montanha de latas com rolos de 35mm (bem maiores) censurados, apontou: “É aquela latinha azul ali”!

Se tivesse ouvido o conselho do Adalberto, Jimmy não teria caído em desgraça com “Núpcias Vermelhas”. O autor de “Fracassou meu casamento” tinha acabado de rodar seu segundo longa, "Rosinha, a Rainha do Sertão” (1974), mas propôs fazer uma versão mais chique com o equipamento 35 mm do empresário. Afinal, a maquininha Super-8 nem som acoplado tinha. Era preciso gravar as falas, ruídos e música em gravadores comuns, para depois mixar a trilha sonora na película das imagens. Nessa tarefa, aliás, Adalberto era um craque: fazia o som de trote de cavalo com o dorso da mão direita, no que muito ajudavam seus dedos magros e compridos, e o som da água remexendo, também com as mãos, o produto numa pequena bacia. Seus companheiros do Ecaja (Estúdio de Cinema Amador de Jovens Acreanos), Teixeirinha e Toni Van completavama improvisação: atuavam, tocavam violão, operavam o projetor, pensavam os roteiros junto com ele. Também cuidavam da trilha sonora com a ajuda de toca-discos. Jimmy, claro, esnobou: preferia fazer algo profissional, uma obra-prima do cinema para concorrer em festivais. E lá se foi pra São Paulo e danou-se a gastar dinheiro. Montou estúdio, contratou operadores de câmera, técnicos de som, produção, montagem, atores secundários e extras. Para fazer par com Geraldo Del Rey, buscou uma atriz pouco conhecida, Ideli Costa, que trabalhara no filme de Waldik Soriano “Paixão de um Homem”. Pra encurtar a história: Jimmy teria gasto boa parte da venda de umas terras que herdou do pai no segundo distrito de Rio Branco e ainda ficou devendo o pagamento da equipe. Quando menos esperava, a turma de Sampa que não é boba, apareceu e lhe tomou tudo: estúdio, equipamento e filme. E nunca mais se ouviu falar de “Núpcias”. Mas, segundo Adalberto Queiroz, há anos, Jimmy sustenta que sua obra-prima está guardada em La Paz, na Bolívia.

Seria bom que fosse recuperado e valorizado como primeiro longa-metragem em 35mm produzido no Acre. De sua parte, o sobrevivente Adalberto Queiroz está cuidando de sua produção em Super- 8 e depois VHS, fazendo limpeza, nova dublagem e digitalização. Atrai muito ver suas caixinhas bem montadas, com títulos diversos, ao preço de 15 reais por unidade: “Rosinha, a Rainha do Sertão”, “Coisas da Vida”, “Um Crime, um Mistério”, “Horas Amargas”, “Revolução Acreana” e outras dezenas de filmes rodados a partir e 1973. “Fracassou meu Casamento”, por ter sido apreendido e desde então jogado nos porões da Censura, está dando mais trabalho para recuperar. Mas sairá numa próxima fornada.

Acreano nascido na Maternida de Bárbara Heliodora, mas foi gerado num seringal da Bolívia, na região do rio Abunã, Adalberto é hoje, aos 58 anos de idade, professor de História da Universidade Federal do Acre. Nas horas vagas, podemos vê-lo com uma “câmera na mão e uma idéia na cabeça” - expressão que foi palavra de ordem do notável cineasta brasileiro Glauber Rocha – registrando o Acre hodierno.

Ele contou na Biblioteca da Floresta que, em 1973, pensou em procurar ajuda junto ao governador Francisco Wanderley Dantas, considerado governador dos bois. Não conseguia agenda, nunca. Mas um assessor do homem lhe deu uma dica: esperá-lo pela manhã, à porta do Palácio. Dantas mostrou-se surpreso com aquele jovem de 21 anos que lhe abordou falando em fazer cinema. Mas logo o despachou, com estilo bovino: “Você quer um conselho? Vai plantar batatas!".

Coisas da Vida
Sinopse: Incursão no universo do cotidiano da vida urbana. Informa, de forma comediante, a sedução e a corrupção de menores e sugere ações e combate e proteção. É a primeira obra que questiona esse tipo de problema social no Acre até a década de 80, quando não havia nenhum tipo de política pública de proteção do menor.

Rosinha, a Rainha do Sertão
Sinopse: Retrata aspectos da chegada de sulistas ao Acre na década de 70, com a perspectiva de um novo modelo econômico baseado na pecuária, gerando um choque cultural motivado pela esperteza dos migrantes contra o homem acreano, ironicamente abordado entre drama e comédia.

Um Crime, um Mistério
Este filme resultou de uma oficina de cinema feito pela Ecaja em Rodrigues Alves, pequeno município do Juruá, com recursos da Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Acre. O roteiro e direção é de Iderlindo Lope, com a participação de outros alunos.

Horas Amargas
Sinopse: Retrata aspectos da violência urbana na cidade de Cruzeiro do Sul (AC), tendo no centro a mulher, o papel da sociedade civil organizada e do poder público no combate às diversas formas de violência por meio de ações preventivas e repressivas.

Obs.: Os interessados em obter títulos digitalizados da Ecaja podem fazer contato pelos fones (68) 8113-3028 e (68) 9994-5204.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Saitica: blog de um revolucionário

Daniel de Andrade (Foto: Stela Petrasi)
Moçambique: Daniel, o cineasta Rui Guerra e Malangatane, escultor e líder (foto: Fernando Silva)
 Entre as coisas boas possíveis de se encontrar na Internet está o blog Saitica, do fotógrafo Daniel de Andrade Simões e de sua companheira Stella Petrasi. Eu tive a felicidade de conhecer o casal em Macapá, capital do Amapá, no começo dos anos 1990, e o privilégio de contar com as fotos do Daniel para fazer capas originais do semanário Folha do Amapá que editei por lá, a partir de maio de 1991. Embora resida em Porto Alegre há décadas, Daniel é baiano. É descendente de uma família de vaqueiros do município de Rio Real, e até firmar-se como mago das imagens em preto e branco, perambulou pelo mundo lutando pela liberdade, dele e dos oprimidos de todas as raças, crenças e ideologias.
Durante os anos de ditadura militar no Brasil (1964/1985) foi militante comunista, sendo preso e torturado. Escapou em meados dos anos 1970, exilando-se no Chile, Itália, França, Alemanha e Dinamarca com o nome de Reginaldo Farias. Estudou fotografia e cinema em Vincennes, depois trabalhou em Moçambique, na África. Ao retornar ao Brasil, após a Anistia política, trabalhou nos jornais Coojornal e Zero Hora, de Porto Alegre, e foi conhecer a Amazônia. Trabalhou na Folha do Amapá, colaborou com o PDSA (Plano de Desenvolvimento Sustentável do Amapá) do então governador João Alberto Capiberibe, seu companheiro de exílio, e visitou o Acre, em 2003, onde produziu o álbum de fotografias Um Novo Mercado Velho, a primeira grande obra da construção civil no Estado, que em seguida foi restaurada virando atração turística em Rio Branco. O álbum foi enterrado numa urna, com outros jornais e revistas locais, para ser aberto somente no ano 2106.
No seu blog (www.saitica.blospot.com) dá para perceberr um espírito inquieto, de revolucionário inconformado com as injustiças do mundo, e viajar através de fotografias quer falam de uma luta que não terminou; uma luta semeada de esperança nos corações e mentes das pessoas, bichos e ambientes que fotografou.

sábado, 28 de agosto de 2010

REGATÃO: herói atípico da Amazônia

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 28ago2010
Em batelões como este os regatões ajudaram a escrever a história da Amazônia


No século XIV ele já batia à porta dos consumidores medievais da Europa oferecendo alimentos a retalho. Comprava no campo mais barato para vender em miúdo e caro na cidade. Era um comerciante ambulante, um mascate. Durante a colonização do Brasil ele apareceu nas emergentes metrópoles brasileiras com a mesma atividade medieval. Era início do século XIX, e a atividade foi dominada por jovens judeus marroquinos que migravam para o país. Na segunda metade desse século, atraídos pela economia da borracha os jovens mascates árabes migraram em massa para a Amazônia, onde passaram a ser chamados de regatões.
Historicamente, o regatão da Amazônia é o pequeno comerciante que entra nos rios e igarapés com sua pequena embarcação carregada de miudezas, oferecendo esses produtos aos moradores dos rincões da região.Troca – mais que vende – produtos industrializados por espécies valiosas da floresta. Durante o primeiro ciclo da borracha (1870 a 1913), enfrentaram dificuldades com os seringalistas por venderem coisas diretamente aos seringueiros fazendo concorrência ao barracão, de onde os extrativistas recebiam o aviamento que deveria ser pago com borracha. Mesmo assim, eles conseguiam furar o bloqueio. Em parte porque a exemplo dos donos de seringais, muitos também tinham relações comerciais com as casas aviadoras francesas e inglesas, ou com os prepostos destas em Belém e Manaus,Sem contar que nenhum barracão jamais conseguiu competir com o fascínio despertado pelos pequenos mascates com seus batelões maravilhosos, cujas prateleiras exibiam pequenas e fascinantes novidades. De fato, além de armas e munições, querosene, sal, açúcar, sabão e charque - essenciais para a subsistência do seringueiro, - o regatão oferecia deslumbramento para sua alma: eram cortes de lamê e tafetá coloridos e macios, os perfumes baratos de cheiro ativo, as brilhantinas, as chitas estampadas e as rendas, as pulseiras e brincos, as linhas e agulhas, os cintos, os sapatos, os batons e pós de rosto, os biscoitos e bombons, os sabonetes, as anáguas...
 Impunha-se através do regatão um gosto e uma tolerância amazônicos por excelência, quebrando a lógica do capital e do lucro.
Após o primeiro ciclo da borracha - e excetuando o curto período histórico da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) - a importância do regatão ou o reconhecimento de sua importância na construção das sociedades da floresta cresceu. Ele passou a ser o único fornecedor das famílias remanescentes dos seringais abandonados pelos seringalistas, e assim foi se tornando compadre, padrinho, sócio ou patrão.
Um aspecto ainda pouco conhecido do personagem regatão - esse típico herói amazônida - é sua contribuição nas lutas de resistência dos caboclos da região. A história registra sua participação em movimentos importantes como a Cabanagem no Pará, dos quilombolas no Maranhão, Pará e Amapá, e dos índios no Amazonas, aos quais ajudou com o transporte ou fornecimento da armas e alimentos. As transformações promovidas na Amazônia pelo Golpe Militar de 1964 também levaram os regatões a ter um lado político: eles, negócios à parte ou não, ficaram do lado da resistência das populações tradicionais.
 A partir dos anos setenta, quando seringueiros, ribeirinhos e índios do Acre se mobilizaram contra a transformação dos seringais em enormes fazendas para criação de boi, o regatão reapareceu com nova roupagem. Tinha trocado o barco e circulava por estradas lamacentas no volante de um caminhão. Como em décadas passadas, mas agora sobre rodas, o regatão fazia sua parte: comprava a produção agrícola ou extrativista, fazia o aviamento das famílias e, novidade, transportava trabalhadores para “empatar” o desmatamento. Também sabemos que, nos dias de hoje, o regatão continua com sua intensa e perigosa atividade negociando com os índios que decidiram planejar e gerir o desenvolvimento sustentável de suas aldeias.
Enfim, os personagens que fizeram e fazem a história da Amazônia ainda não foram descritos com exatidão. Os historiadores e estudiosos da região terão que perscrutar melhor, por exemplo, a alma de um regatão.



CARTAS


Paula seguiu a trilha do pai
Saudades do meu Rio D´Ouro!
Paula Meireles*

Hoje me deparo com uma realidade contraria da que eu tinha quando vivia no D´ouro. Atualmente, estou trabalhando num escritório, ar condicionado, salto alto e maquiagem no rosto. No D´ouro meu ar era a brisa que soprava fresca bagunçando meus cabelos, minha sandália de borracha, me levava ao banco da mentira onde me perdia no tempo a observar o pôr-do-sol e meu rosto era pintado com as tintas de jenipapo e urucum dos kaxinawas.
Não reclamo, estou vivendo uma nova fase de minha vida, estou reaprendendo coisas novas, sou uma camaleoa, me adapto ao ambiente, mas confesso que essa vida não me atrai por muito tempo, como a vida que eu tinha na foz do D´ouro. Ê saudade.
Saudade do meu amigo querido seu Zé Sena a me contar causos, parceiro dos serras do dia de domingo, saudade daquele povo humilde, simples, mas que tem mais sabedoria do que muita gente da cidade, saudades de ver os rios se encontrando na sua fúria, nos seus repiquetes; saudades das viagens pelo rio Tarauacá, das varações para o rio Envira, das noites dormidas nas praias, enfim, saudades...
Sei que minha alma não mais pertence a esse mundo, a essa selva de pedra onde cada um está mais preocupado com sua vida do que com o coletivo, em breve voltarei ao Rio D´ouro para saciar e matar toda minha saudade.

*Paula Meireles é filha do indigenista José Carlos Meireles. Até 2008 ela comandava a Frente de Proteção de índios Isolados nas cabeceiras do rio Tarauacá, no afluente rio D’Ouro, no Vala do Juruá (AC).

Mapinguari


Representação do Megatherium (Preguiça-gigante)

A figura horripilante do Mapinguari está no imaginário dos povos da floresta. Vira e mexe a gente ouve falar de alguém que em algum ponto remoto da Amazônia se deparou com o bicho. Sua fama chegou até o Japão interessando a Television Broadcasting Sistem (TBS)que mandou uma equipe filma-lo nas matas do Acre. É claro que não conseguiu: 10 técnicos transportando 40 volumes com uma tonelada de material de filmagem passaram uma semana (em agosto de 1996) procurando o gigante lendário sem ver nem o rastro do animal. O biólogo norte-americano David Oren, pesquisador do museu paraense Emílio Goeldi em cujos estudos a Tv japonesa se baseou, andou bem perto de dar uma explicação científica dos relatos de seringueiros e índios. Eu o entrevistei em 1996 em Macapá, no Amapá, e ele disse estar convencido de que o Mapinguari é uma preguiça terrestre que viveu há 10 mil anos em várias regiões do planeta e que ainda pode ser encontrada em lugares isolados e impenetráveis da Amazônia. Já o poeta Amâncio Leite, de Cruzeiro do Sul, em 1930 publicou um poema mostrando o estrupício em que se meteu o seringueiro João Tomé por conta do estrambótico animal.A entrevista completa com o biólogo eu publiquei no jornal “Folha do Amapá”,e em 2003 fiz um resumo dela para a revista “Outraspalavras”, editada pela Fundação Cultural Elias Mansour, do Acre. Para a revista eu juntei parte do poema Mapinguari, do ex-seringueiro e poeta acreano Amâncio Leite,que viveu no começo do século passado em Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá.

“AS PESSOAS FICAM EMBRIAGADAS”
Os depoimentos colhidos por David Oren, de seringueiros e índios que já viram ou pensam ter visto o Mapinguari são quase idênticos na sua descrição: “Eles o descrevem como um animal que deixa rastros redondos, é cabeludo, fede muito e quem já o viu uma vez não quer ver de novo”, disse Oren acrescentando: “Muitas pessoas falaram para mim que deram de cara com o diabo. Quando ele fica de pé, cambaleando, torna-se assustador. Uma coisa é você andar no mato e de repente a Virgem Maria aparece para você. Outra, é o diabo em carne e osso aparecer. As pessoas ficam completamente perturbadas”.
Segundo o pesquisador, uma explicação lendária para o Mapinguari é que seria um índio, um pajé que descobriu o segredo da imortalidade mas o preço que pagou por isso foi se transformar num animal horrível e fedorento. Cerca de 100 pessoas disseram para Oren ter tido contato ou pelo menos ter ouvido o grito do Mapinguari, e 60 são testemunhas que viram o animal. Algumas afirmam te-lo matado, mas não conseguiram chegar perto porque ficaram embriagadas, desnorteadas e intoxicadas com o fedor.
Um seringalista chegou a oferecer uma recompensa para quem matasse o bicho, e um seringueiro entrevistado por Oren afirma que o matou, mas não conseguiu chegar perto para tirar uma amostra de cabelos e unhas para levar para o dono do seringal.Ele tirou a camisa e a envolveu no pescoço, tapando o nariz, mesmo assim ficou embriagado. A sorte dele é que estava acompanhado de um amigo que havia corrido assim que o bicho apareceu. O amigo serviu de guia para abandonar o local depois.

ONDE PODE SER ENCONTRADO
David Oren afirma ter relatos de quase toda Amazônia com uma coisa em comum sempre: o Mapinguari aparece nos lugares mais longínquos aonde quase ninguém vai. As histórias são a de um seringueiro abrindo novo caminho (varadouro) mata dentro por uma área onde ninguém andou antes. “Em todas as tribos indígenas que eu conheço, os índios têm muito medo desse animal. Mesmo os Caiapós, que são mais brabos, têm um tipo de zoneamento dentro da reserva deles. Onde o animal aparece, eles não vão. É uma reserva para esse bicho que consideram perigoso e não querem encontrar”, disse o biólogo.
Existem evidências da presença do Mapinguari no Acre e no Amapá. Neste estado que faz limites com o Estado do Pará e a Guiana Francesa o animal poderia ser encontrado no alto Jarí. A lenda é recorrente entre os castanheiros do rio Iratapuru, afluente do Jarí, que conhecem um relato semelhante ao dos seringueiros do Acre. Três caçadores da região teriam sido contratados há algumas décadas para matar o estranho bicho que vivia assustando madeireiros e castanheiros. Eles prepararam um mutá (local de espera numa árvore) na mata, onde dormiram três noites. Dois caçadores desistiram e o terceiro viveu a terrível experiência na quarta noite. O animal aproximou-se com seu grito apavorante na escuridão da mata, até aparecer no foco da lanterna do caçador. Este disparou a arma num vulto cinzento, monstruoso e não lembra de mais nada até o dia seguinte, quando acordou do desmaio. Viu sangue e mato quebrado no local e os mesmos rastros redondos. Tomado de pavor, procurou o caminho de volta para nunca mais andar por aquela região.

“NOSSA IGNORÂNCIA É MAIS ABRANGENTE...”
David Oren está convencido de que o Mapinguari é uma preguiça terrestre: “Hoje em dia, explica, a gente só conhece as preguiças que vivem em árvores, que são de médio porte e pesam no máximo 5 quilos. Mas até aproximadamente 10 mil anos atrás tinha 8 espécies de preguiça que somente andavam no chão aqui na Amazônia. Uma dessas espécies era maior que um elefante”.
Segundo o biólogo existem fósseis da preguiça gigante no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Na Universidade do Acre o professor Alceu Rancy juntou mais fósseis e na Universidade de Minas Gerais, o pesquisador Cartelli com mais de 25 anos de experiência possui acervo maior ainda. A preguiça terrestre é da família do tamanduá bandeira, que fica de dois pés para se defender. “Esse animal (a preguiça terrestre) quando fica de dois pés, cria uma relação entre a cabeça, os braços e as pernas que se assemelha a do ser humano”, argumenta Oren.
Mas o problema para a pesquisa, esclarece o biólogo, é que muitas pessoas que tiveram o contato com o bicho imaginam ter visto o diabo e não querem falar. Tem também o fato de grande parte da população não acreditar nos relatos e as pessoas não querem ser ridicularizadas. E mais: de tão terrível, as pessoas não gostam de lembrar a experiência.
David Oren esclarece que a ciência trabalha com o mundo físico e com o que pode ser comprovado cientificamente,entretanto, ele se questiona se esse mundo material que pesquisa é o único mundo que existe: “Tem várias coisas que não podem ser explicadas pela minha ciência”, declarou.
“Nosso conhecimento sobre a Amazônia é uma coisa que fica muito clara para qualquer cientista que anda por aqui. Eu gosto de repetir que nossa ignorância é muito mais abrangente que nosso conhecimento. Estou tentando aumentar um pouco os nossos conhecimentos para a sociedade como um todo refletir sobre a nossa ignorância”, disse Oren.

Mapinguary (versos de Amâncio Leite)

Certo seringueiro, um dia

Chegou correndo da estrada

Na qual, há tempos não ia,

Não trouxe leite que desse

Para melar a bacia!


Chegou cedo, muito cedo;

Antes da hora marcada,

Seu companheiro ainda andava

Lá pela volta da estrada.

Fez assim, só porque dera

Uma carreira danada!


O triste vinha afrontado,

Verde-amarelo e sem fala!

Saltando dentro de casa

Deitou-se em meio da sala.

Seu rifle de doze tiros

Não trazia uma só bala!


Que teria acontecido

Com aquele pobre rapaz!

Teria ele esbarrado

Com o velho satanás?

Talvez, depois saberemos

Quando chegar Zé Thomaz.


Zé Thomaz- o companheiro

Chegou, depois de uma hora.

Quando o viu, gritou de longe:

- “Que foi “seringueiro espora?!”

Teria você “encontrado”

Mapinguari ou caipora?


Encontrei mapinguari:

(Respondeu-lhe João Tomé)

Me “atrepei”numa “pupunha”

“Com as alpargartas no pé...”

“Então me conte “direito”

como esse danado é!”


“Ele é maior que um boi

Daqueles do rio da Prata...

Chega “estremecia” a mata...

Fez-me “atrepá”na “pupunha”

Calçando as alpargatas!


“Mas rapaz...será “possível”

Que não deste “ao menos” um tiro?...”

“Ora, eu não dei...dei só doze!

Mas, de que mais me admiro

É “que ele” fez tanta conta

Que não mudou nem de giro!”


“Mas onde foi que encontraste

Tamanha “fera” de fama?...”

“Foi no “cabeço” da volta

Junto a madeira da “cama”

Cá mais atrás, eu vi, “fresco”

O rasto dele na lama...”


“Esse bicho é cabeludo

E todo cheio de escama?”

“Eu lá pude “reparar”

“Pra esse “filho”de “mulher-dama?”

Que além de ser muito feio

É todo cheio de trama!...


“E o resto dele, como é?

Se parece com o de burro?”

“Parece, mas é maior!

E se tu lhe visse o “esturro!...

Eu penso que aquele ...figa,”

Mata as “onça” só de murro.”


“Qué vê, “vamo”quinta-feira

Que é dia que ninguém corta...

Hoje é segunda e é das “arma”

(Santo pra quem tem mãe morta)

Tu vai só vê o “esfolado”

Na baixa da “ponte-torta”...


Eu tava “cuiendo” o leite

Da madeira do “cabeço”

Quando vi um grito longo

“Como” outro não conheço!

Me deu um tremor nas perna

Que quase a terra eu não desço...


Mas, afinal desci sempre

Me assustando de Cupim!

“Rifle com bala na agulha

Mão no cabo do “ispadim”.

Quando eu cheguei debaixo

Ele gritou mesmo assim

Desta vez foi “redobrado”

Gargalejando no fim!


Eu armei o “pau-furado”

Me encostei na “seringueira”

Quando o monstro “pretejou”

Eu pensei que era um bandeira...

Baixei a bala pra cima...

Mas qual, José. Foi “besteira”!


Enquanto o cão coça o olho

Dei dez tiros no danado...

Mas ele, nem mode coisa!

Nem ficou “arrepiado”

Continuou avançando

No meu rumo, me provando

Que tinha o “corpo-fechado”.


“Aí dei-lhe mais dois tiros.

Pronto! O rifle virou pau...

Meus cabelos espencaram

As pernas virou mingau...

Meti a mão na poltrona,

Nem uma bala, sinha dona,

Danou-se seu “Nicolau”


“Aí, eu vi “que morria...”

- A coisa tava amarela! –

Na “madeira” eu não subia

Pois é de sete tigelas

Chorei de ser seringueiro...

“Cacei”os dois “companheiros”

Já tavam no “pé-da-goela!”


Me pus de trás da “madeira”

Me deitei rés com o chão.

“Me peguei” com São Francisco

De todo o meu coração...

{Mas, o lá do Canindé!)

Nisto, o bicho pois-se em pé”

Olha lá o estirão!...”

Tanto é alto “como” é grosso

O renegado “Mapim”

Eu me pegava com os santos

Não da “fé” ele de mim!

Oh! Que aperto...”que agonia...”

Meu...- aquele- não cabia

Nem um talo de capim...!


Ele “arreganhou” as unhas

E me arranhou a “madeira”!

Nisto, eu me ergui e corri

“Pro pé da Tucumanzera;

Nesta, - “calcule você” –

Subi mais depressa que

Largatixa em cajazeira!


Ele só fez “espiar”!

Mas nem ligou-me “importância...”

Se não fosse o São Francisco,

-Adeus “história” adeus dança! –

Quem diabo a coisa contava?...

“Porque nesta hora eu tava”

No “porão”daquela pança!...


(versos do poeta-seringueiro acreano Amâncio Leite, extraídos de “Os cantares Seringueiros”, edição de 1930).