segunda-feira, 11 de maio de 2015

Cresce uma voz na floresta

* Elson Martins

O acreano Alexandre da Silva Maciel em Brasilia, representando a Reserva Extrativista Chico Mendes  (Foto: Acervo do Festival da Juventude Rural)



Quem o viu discursando no Pavilhão do Parque das Cidades, em Brasilia, para mais de uma centena de jovens, com voz firme, do alto de quase 1,90 metro de altura, magro, enroscado numa bandeira e usando óculos fundo de garrafa com mais de 10 graus em cada lente,- poderia pensar que se tratava de algum militante europeu protestando contra o racismo e a violência do capitalismo global no continente. Mas Alexandre da Silva Maciel, 23 anos, nascido no seringal Amapá em Brasileia, morador da colocação Itararé na Reserva Extrativista Chico Mendes estava longe disso.

Na verdade, ele participava do 3º Festival da Juventude Rural (27 a 30 de Abril) e representava os jovens da Resex CM que engloba áreas de sete municípios acreanos somando cerca de 1 milhão de hectares, abrigando mais de 10 mil moradores. O tema de sua intervenção era “Juventude Rural, Participação Social e Organização Sindical”. Conhecido por Xandão, por causa do seu tamanho, Alexandre é um jovem da floresta “feito de boa massa”, como diria um cacique Galibi que conheci no Oiapoque (AP): é inteligente, educado, tem amor à sua terra e ao seu povo, além de pertencer a uma família de bravos. O avô, Gerônimo Maciel, era delegado sindical e participou de “empates” contra o desmatamento (nos anos 1970/980) na companhia de Chico Mendes. O pai, Anacleto Maciel Moreira de Souza, é militante rural desde os 10 anos de idade e se tornou poeta revolucionário.

Xandão sabe de cor os poemas do pai e faz questão de recitá-los. Um deles é “Natureza Humana”:
“A vida humana é importante
Respira o ar puro
Embora esteja no escuro
Embrenhada nos matagais
Junto com os animais
Que percorrem a natureza

Falo com toda certeza
Que nós somos iguais
Porque temos a vida humana,
Os animais e os vegetais”

Como o pai, foi seringueiro, mas num tempo que o Acre já passava por transformações diversificando as atividades econômicas. A colocação em que vive possui oito “estradas de seringa” somando cerca de 800 hectares da floresta acreana, uma riqueza que Xandão percebe como poucos de sua idade. Solteiro, morando com os pais – Anacleto e Francisca Dias da Silva – ele desenvolve muitas tarefas diárias. Colhe castanha, planta arroz, feijão, milho, batata, cana de açúcar; cria galinha caipira e mantem oito cabeças de gado leiteiro; vende produtos na cidade e já calculou que a renda é maior que a obtida com a produção de borracha. Mas as oito “estradas” ainda representam um valor de reserva.

Como militante sindical Xandão não deixa por menos. Aos 21 anos já integrava a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia frequentando eventos importantes. Em 2012 participou do 3o. Congresso Nacional do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (antigo Conselho Nacional dos Seringueiros) no Estado do Amapá. Em 2013 foi ao Congresso do Ministério do Desenvolvimento Agrário em Brasilia, e do 41. Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Agora em 2015 foi ao Festival da Juventude Rural e participou da “Marcha das Margaridas”.

Xandão faz parte também do Coletivo Quilombo como um dos coordenadores do Movimento Extrativista do Coletivo.
"Mais pela dor, que pelo amor" - O jovem trabalhador e militante rural afirma convicto que seu projeto de vida é a Reserva Extrativista. Mas considera que isso é um sonho ainda distante da realidade. Lamenta que os poderes (as Resex são administradas no país pelo ICMBio – Instituto Chico Mendes da Biodiversidade) ainda não tenham definido alternativas adequadas de sobrevivência na floresta. Os jovens, sobretudo, migram cedo para a cidade, e os que permanecem na Reserva se mostram apáticos, desinteressados nas discussões. Tantos os homens como as mulheres só se movem quando se sentem de alguma forma ameaçados.

Xandão concluiu o segundo grau na Resex, mas faz criticas às regras da educação aplicada na floresta. Existem dois programas – Asas da Florestania e Educação para Jovens e Adultos – que dificultam a formação de turmas (de 10 alunos cada) por exigências de idade. Também faltam politicas públicas que ofereçam alternativas concretas de vida. Ele sugere a adoção de pesquisas como a de plantas medicinais. E se manifesta contra os projetos madeireiros, mesmo manejados, porque entende que a floresta não se renova fácil.

Atualmente, Alexandre pensa em organizar um evento para discutir maneiras de manter os jovens na Reserva. Acredita que eles ficariam se lhes fosse oferecido perspectivas de uma vida melhor em curto ou médio prazo. Segundo ele, a maioria dos jovens desconhece o que os poderes planejam para a vida deles. Por isso só participam de reuniões “quando querem ganhar” ou “não deixar levar”. 

Em tempo: na foto principal, em Brasilia, Alexandre aparece no Pavilhão das Cidades envolvido com a Bandeira do Acre. E assume ares de uma figura messiânica, mas disposta a empreender o diálogo entre tradição e modernidade.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Túmulo sem velas

* Elson Martins

Numa colocação do Seringal Cachoeira, cercada de arame, no ramal que leva à comunidade, está a lápide da mãe de Chico Mendes, e tambem do irmão Raimundo (Foto: Lourenço Chacon)
Em Março de 2007 encontrei em Brasília o José Alves Mendes Neto, o Zuza, irmão mais novo de Chico Mendes com o qual puxei uma longa conversa sobre a vida de sua família no seringal. Eu queria saber como era o jovem Chico antes de se tornar o grande líder dos anos 70/80, assassinado em 1988. Mais que irmão, Zuza se tornara seu companheiro de lutas em defesa da floresta e do extrativismo, e tal qual CM, vivia ameaçado de morte.

Zuza não se fez de rogado para falar com emoção da família marcada pela tragédia. Disse que Chico Mendes, aos 16 anos, tornou-se “pai e mãe” de uma escadinha de irmãos menores; a mãe, Iraci Lopes Mendes, lhe pediu isso ao falecer aos 42 anos em circunstâncias dramáticas.

A tragédia acompanhou a família Mendes o tempo todo. O pai, Francisco, aleijado de uma perna, tinha dificuldade para percorrer as “estradas” de seringa no fabrico da borracha. E sua situação piorou quando, ao cortar um cipó fino com terçado afiado, quase decepou o joelho da outra perna sã. Desde então suspendeu o trabalho na seringa permanecendo, apenas, no cultivo de um pequeno roçado com a ajuda de um dos filhos.

Raimundo, mais novo que Chico Mendes, aos 14 anos era o xodó da mãe e ajudante do pai na agricultura de subsistência. Mas queria mesmo era ser seringueiro. Insistiu tanto, que o pai pediu ao Chico que abrisse para ele uma “estrada” – caminho precário aberto na mata para ligar cerca de 150 árvores, das quais o seringueiro extrai o látex.

Na véspera da estreia da nova atividade, entretanto, o pai deu outra tarefa a Raimundo: era preciso matar um porco para tirar a banha usada como óleo de cozinha, depois levar comida para o grupo de seringueiros que, juntamente com Chico Mendes, se encontrava acampado na mata fazendo a limpeza de outras “estradas”.

Na época, Zuza tinha 7 anos de idade e vivia grudado a Raimundo. Os dois combinaram sair para o primeiro “corte” de madrugada, escondido do pai, a tempo de retornar no meio da manhã, antes da matança do porco. Assim, deixaram o barraco de mansinho, embrenhando-se na mata. Raimundo se vestiu a caráter: bermuda encaronchada, sapatos de seringa, facão na cintura, poronga na cabeça e uma espingarda calibre 12, carregada, atravessada no ombro.

Lá na frente, num descampado conhecido por Taquara, os dois encontraram caído no caminho um tronco imenso. Foi preciso que Raimundo arriasse a espingarda para dar a mão ao pequeno Zuza. Com pouca luz e a emoção de se tornar seringueiro, deixou a arma escorregar sobre o tronco. A arma disparou e atingiu sua cabeça.

“Foi horrível!”- lembra Zuza, que se assustou com o tiro repentino, a fumaça e o corpo de Raimundo caindo sobre si. Quando se refez do susto e procurou sair de baixo do irmão, apalpou sua cabeça e só encontrou miolos e sangue. Correu então aos gritos pela mata, no escuro, mas por sorte cruzou com o grupo de Chico Mendes que se desesperou também. “O que aconteceu? Cadê o Raimundo?” – até que Zuza respondeu: “Raimundo morreu”!

Chico pediu a um dos companheiros que o levasse à casa e voltasse com uma rede para juntar e transportar o cadáver do irmão. Meu Deus! -pensou – dona Iraci não ia suportar tanta dor! Ela que tivera 19 filhos, quatro dos quais mortos ao nascer, estava gravida de três meses do vigésimo. Raimundo era o mais querido. Não ia suportar!

Não suportou. Ao receber o filho morto, ajoelhou-se no terreiro da casa, olhou para o céu e suplicou: “Se existe um espírito, um Deus, peço que me leve com meu filho. Não quero mais viver”. Desde então, passou a morrer um pouco a cada dia. Despedia-se de um e de outro, dava conselhos…Impediu que chamassem a parteira de costume para cuidar dela e não deixou cortar a peça de murim para fazer fraldas pro filho que ia nascer. “Vai estragar a fazenda”! – dizia resoluta.

Chico chorava ao ver a mãe escolhendo a morte. Mas tentaria salva-la. Era tão nova, tão bonita e terna… Ia leva-la para a cidade, numa rede, para atendimento médico. Começou uma peregrinação de colocação em colocação, juntando amigos para carregar a mãe pelo mato (não tinha estrada) até Xapuri. A mãe, entretanto, implorava: “Filho, não se afaste de mim. Preciso lhe dar conselhos antes de partir”. O pai, em pé encostado à parede do quarto, também chorava, aquela e outras dores, mas resignado dizia: “Sua mãe vai morrer mesmo, Chico”.

Chico ainda buscaria socorro numa última colocação, quando a mãe lhe chamou: “Vem cá Chico, me abraça”. Os dois permaneceram abraçados, chorando por longo tempo. Foi quando ela disse: ”Chico, se acalme. Você terá que ser pai e mãe dos irmãos pequenos. Seu pai não pode mais trabalhar. Não deixe que eles passem fome”.

Mesmo transtornado, ele seguiu em prantos em busca de mais carregadores. Quando retornou, dona Iraci tinha morrido. Ele a viu inerte, com sua tez branca, os cabelos loiros e cacheados, sem a voz doce e conselheira que repetia, repetia… Era a imagem da mãe resignada de seringal que, em situação inesperada, emparelha fragilidade e força, ternura e frieza, escuridão e luz.

Assim Chico se fez homem, completamente determinado: aprendeu a ler, pensar e agir. Não somente para criar os irmãos, mas também liderar os “empates”, defender a floresta, criar as reservas extrativistas, garantir a permanência dos seringueiros acreanos em suas colocações, avisar a quem quisesse ouvir que, no Acre, existe uma sociedade diferente, amiga da natureza, desejando o bem do universo.

Túmulo ignorado

Semana passada, no feriado de 21 de Abril, visitei o seringal Cachoeira onde familiares e companheiros de Chico Mendes vivem em paz, usufruindo o legado que o amigo e parente imprescindível deixou. Um deles, o primo Nilson Mendes, que nos acolhia como guia, parou no meio da estrada e apontou:

– Alí depois daquela cerca de arame, nesse descampado, tá vendo um tumulo no meio do mato? É a mãe do Chico! Ela e o filho Raimundo estão enterrados ali!

Meu Deus! Pensei logo na história que o Zuza me contou em Brasília e senti uma profunda tristeza. Os dois, Iraci e Raimundo, merecem uma lápide melhor, com muitas velas acesas, muitas visitas que venerem vidas tão amorosas… Ah! Imagino o poeta Mário de Andrade, ajoelhado, a rezar os versos: “Quero ver si consigo/Não passar na sua vida/numa indiferença enorme”…

domingo, 26 de abril de 2015

Os meninos de Turvo

* Elson Martins

Meninos do Seminário de Turvo fotografados em 1962 (Foto cedida pela organização do encontro)


Na primeira quinzena de janeiro aconteceu no interior de Santa Catarina o 1o. Encontro Nacional de “Os meninos de Turvo” com a presença de 150 pessoas entre ex-alunos ( e familiares) do seminário da Ordem dos Servos de Maria, que funciona na cidade (Turvo) desde meados do século passado. O ex-bispo da Diocese de Rio Branco e atual arcebispo emérito de Porto Velho, D. Moacyr Grechi, foi aluno, professor e reitor do seminário e participou do evento como “nosso menino mais querido”. Outros meninos, que ele trouxe para o Acre a partir dos anos 1970, são os jornalistas Silvio Martinello e Antônio Marmo, o professor de filosofia da UFAC, Silvio Birolo e os fundadores do Colégio Meta, Itamar Zanin e Evaristo de Lucca. Antônio Marmo, que atualmente mora em Ubatuba (SP), integrou a equipe do jornal Varadouro que eu e o Silvio Martinello editamos nos anos 1970/1980 em Rio Branco; por isso pedi a ele que relatasse para o Almanacre como foi a confraternização dos hoje velhinhos turvenses. Ele me mandou a seguinte cartinha eletrônica:

Caro Elson: “Não terei tempo de resumir tudo o que significou este 1º encontro Nacional dos Meninos do Turvo em emoção e resgate de memória, um encontro costurado por uma comissão que percorreu vários estados durante todo o ano de 2014, para concretizar-se nos dias 11, 12 e 13 de janeiro em Santa Catarina. A maioria dos que lá compareceram não se viam há 30, 40, 50 anos.

Mas nesta carta ai abaixo, entregue em mãos a Dom Moacyr Grechi em Porto Velho, numa das viagens de preparação, estão alinhavados o que nos motivou. Dom Moacyr era nosso convidado especial, ponto de referência mais que marcante para todos nós, como nosso orientador desde a infância e depois, por sua atuação firme ai no Acre, exemplo de engajamento e coerência.

Ele compareceu ao Turvo mas, infelizmente, sua saúde não permitiu que participasse cem por cento do evento. Já está debilitado em seus 79 anos.

Acre e Santa Catarina, dois Estados distantes mais de 4 mil km, mas têm tudo a ver. Do seminário de Santa Catarina saíram dezenas de estudantes, padres e colaboradores que seguiram para atuar em terras acreanas, muitos deles, todos catarinenses, ainda trabalhando ai, como o Silvio Martinello, Itamar Zanin, Silvio Bez Birolo, Evaristo de Lucca, entre outros.


Santa Catarina e Acre têm ligações estreitas desde os idos de 1920, quando se instalou a Missão dos Servos de Maria em Rio Branco, sendo o padre Paolino Baldassari, hoje em Sena Madureira, um dos mais antigos a trabalhar aí. Ele foi direto do Turvo para o Acre, em 1956.


Mas tivemos presenças do Brasil todo e do Exterior, como o José Aparecido, hoje trabalhando em Austin Texas, incluindo outro acreano, hoje morando em Fortaleza, o Claudio Oliveira (o Baioco), Narciso Cechinel, do Recife, o médico José Francisco Furtado, de São José dos Campos, todo o grupo do Acre, Porto Velho, Paraná, São Paulo, Minas enfim.


Um encontro inesquecível. Veja ai a carta ao Dom Moacyr explicando os objetivos…


Caríssimo Dom Moacyr Grecchi:

Nós, portadores desta carta-convite somos parte de uma Comissão de ex-alunos seus, engajados há alguns meses na viabilização de um encontro de colegas que passaram pelos vários seminários e/ou conventos da Ordem dos Servos de Maria nos últimos 60 anos.

Todos, desde Turvo, em Santa Catarina até São José dos Campos, passando por São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Branco, no Acre, outros pela Europa, todos carregamos conosco um sentimento real de profunda gratidão pela oportunidade e privilégio que tivemos de absorver a educação que tivemos, da forma como a recebemos e , depois, de aperfeiçoá-la em especializações diversas.

Hoje formamos um grupo que, heterogêneo em suas histórias pessoais mantém-se homogêneo e unido nessa origem comum de seminário. São histórias pessoais que, de uma forma ou de outra, nos colocam em uma escala privilegiada dentro das comunidades onde vivemos, seja como professores em faculdades, doutores, reitores, Juiz, Procurador de Estado, médicos e jornalistas, economistas, executivos empresariais, técnicos, agricultores, consultores. Cidadãos participantes, enfim.

Há um número significativo de membros do grupo ainda fortemente engajado em ações de igreja, como leigos ou mesmo no diaconato e outros, alheios a vínculos com igrejas ou confissões, atuam em ações diretas decorrentes de suas respectivas profissões.

Deste encontro, após tantos anos, esperamos que seja algo mais que simples confraternização festiva entre um churrasco e um abraço. Sua presença para uma conversa amiga no domingo e de outros que esperamos em um painel de troca de experiências, no sábado à noite, poderão levar-nos a amadurecer no grupo objetivos concretos.

É isso que buscamos! É para isso que viajamos até Porto Velho, num reconhecimento da força de sua vivência e exemplo local e nacional. Esperamos pelo senhor no Turvo, nos dias dez e onze de janeiro próximo. Desde já, agradecemos.

A Comissão Organizadora:
Osni Rabelo Quinto Piazza, José Carlos Bueno, Osni Alves,
Joaquim Aparecido, Antônio Marmo e Gabriel Nogueira
São Paulo 10 de outubro de 2014

Os meninos de turvo em janeiro de 2015 (Foto cedida pela organização do encontro)
           
Dom Moacyr Grechi deixou sua impressão sobre o encontro em Turvo no jornal Volta Grande, na edição de 15 de Janeiro de 2015. O atual arcebispo emérito de Porto Velho declarou:

“Eu me sinto feliz ao rever cada um deles e até mesmo reconhece-los, e embora muitos não tenham seguido o caminho de padre, estão conseguindo seguir um caminho de verdadeiros cristãos. Eu queria que nós Servos de Maria, aprendêssemos com Nossa Senhora, é como um velho pai ou velho avô ao ver os filhos, ao ver cada um deles como continuam parecidos”.

domingo, 19 de abril de 2015

José Leite: In Memoriam!

* Elson Martins

Zé Leite: do humor à tristeza com a mesma densidade (Foto: Acervo da família)

Faz 16 anos que o mais reconhecido e amado jornalista acreano nos deixou. No dia 27 de Março de 1998, aos 61 anos, ele submeteu a imprensa do Acre ao luto permanente. Mas também a premiou com um legado de boa escrita com ética e humor. Todo ano esse legado é lembrado pelo Prêmio que leva seu nome e movimenta comunicadores de TV, Rádio e Jornal inspirados em sua rica e exemplar história.

Naquela data triste eu me encontrava em Macapá, comandando o diário Folha do Amapá, mas também emprestava meu nome à direção do tabloide quinzenal O Acre, que começara a circular em Rio Branco com ares de florestania. A morte de José Chalub Leite exigiu a preparação de uma edição especial de 32 páginas, na qual seus amigos, jornalistas ou não, deixaram testemunhos sobre sua personalidade incomum.

Eu produzi a crônica "Tão Zé!" (leia abaixo) pensando na performance que lhe era mais constante: a de brincar na redação, surpreendendo colegas de trabalho com traquinagem. A Charlene Carvalho diz que não foi uma, nem duas vezes que ele escondeu seus sapatos na redação. “Também não foi uma, nem duas vezes que ele encheu minha bolsa de grampeador, bobina de Durex, papel velho, dicionário e me fez sair carregando peso” – declarou.

Clélio Rabelo, outro afortunado aprendiz do editor de O Rio Branco, lembrou manchetes molecas que ele estampou no jornal. Uma delas – “Pinto endurece contra aumento” – referia-se ao fato do ex- governador Edmundo Pinto (1991) ter reagido à proposta de aumento na tarifa de ônibus. Não menos hilária foi outra, com o mesmo personagem, desta vez na Câmara Municipal, num embate com o vereador adversário Rubem Rola: “Pinto e Rola vão às vias de fato na Câmara”.

O espírito moleque do editor o colocava, às vezes, em cheque junto aos leitores, como num 1º de Abril (Dia da Mentira) em que pespegou na capa do jornal: “Xuxa desembarca hoje para alegria da petizada”. Claro, pais e filhos saíram em “desabalada” carreira para o aeroporto Presidente Médici, no 2o. distrito. E foi impressionante como, mesmo contrariados, ninguém se exaltou contra o autor da “pegadinha”!

Um terceiro aprendiz, o Chico Araujo, desolado escreveu: “Caro Zé, eu te confesso, fiquei sem tesão para editar jornal”!

Já a colunista social na época, Wânia Pinheiro, admitiu ter sofrido por conta das “ironias construtivas” do editor ao iniciar-se no jornalismo: “Um dia ele me chamou para conversar. Disse que gostava muito da minha coluna e foi logo perguntando com aquela cara de gozador, se era eu mesmo quem fazia os textos”!

Falando sérioQuarenta pessoas entre jornalistas, políticos, profissionais liberais, desportistas, universitários e membros da família assinaram relatos sobre o Zé na Edição Especial de O Acre. Um deles, o nosso filósofo Antônio Alves (Toinho), um dos editores (do tabloide) que manteve com o Zé uma relação de mútuo aprendizado, escreveu o texto mais longo, do qual apresento pequeno trecho:

“Zé Leite dizia: ‘ninguém vem para o Acre impunemente’. Lendo a frase com outros olhos, digo que o Acre é uma terra cármica: aqui, por mais que enganem as aparências de impunidade, é onde todos pagam suas dívidas. Bebeu água desses rios, não escapa. Que o digam Galvez, Plácido, Chico, Edmundo. Tragédia? Que nada, como toda província que se preza, somos engraçados. Patéticos, ridículos, ingênuos até na esperteza, produzimos os mais variados tipos e as mais deliciosas histórias. Aqui Hamlet é funcionário público e Jeca Tatu é deputado. Torquemada é médico, Van Gogh corta seringa.(…) Por isso o humor, sem o qual não compreendemos nada”.
Tão Zé!
Numa tarde insuportavelmente quente de 1975, eu suava em bicas na redação de O Rio Branco - em sua antiga sede à Rua João Donato com a Avenida Ceará-, redigindo um texto sobre conflito de terras com as costas voltadas para a entrada do jornal. Acho que estava cochilando sobre uma velha Olivetti quando um vira-lata rosnou e abocanhou meus calcanhares. Imaginem o susto! Dei um pulo e caí de bunda no chão sujo de tinta de impressão, enquanto a risadaria ecoava das oficinas ao setor comercial. Após alguns segundos, me dei conta que o suposto “vira-lata” havia corrido de volta à sua mesa de editor-chefe.

Foi mais ou menos assim que conheci o Zé Leite com seu espírito brincalhão. A primeira vez que o vi, ele estava sentado naquela mesa, espremida na entrada do jornal, fumando com auxílio de uma piteira e cercado de pessoas que apareciam diariamente para conversar miolo de pote. O delegado José Tristão, meu cunhado, fez as apresentações.

Após 18 anos fora do Acre eu estava retornando como correspondente do jornal O Estado de São Paulo. Muito prazer, disse o Zé, com uma cara fingida e sem desviar a atenção da conversa com o grupo. O próprio Tristão, quando saímos do jornal, procurou dar uma explicação para a indiferença do editor: “O Zé pensa que todo mundo é picareta. Ele não está acreditando que tu és correspondente do Estadão”, disse.

Passaram-se alguns dias e vi que minhas matérias publicadas no diário paulista estavam sendo reproduzidas em O Rio Branco. Fui lá saber se não interessava ao jornal publicar as matérias completas, sem os cortes feitos na redação em São Paulo. O Zé Leite me recebeu com entusiasmo, dizendo que andava à minha procura para acertar a colaboração. Foi assim que me tornei seu repórter para conflitos fundiários, tendo que me submeter às brincadeiras do editor.

Minha reação naquela tarde canina, porém, não foi boa. Rasguei as laudas que havia redigido e fui para casa demorando a voltar para a redação. O Zé pediu desculpas, com um riso maroto, e penso que nunca as aceitei completamente. Durante anos de camaradagem e identidade jornalística, eu sempre me aproximei dele cauteloso, temendo ser abocanhado outra vez. Eu observava como seus olhos, durante uma conversa, perscrutavam em volta com um rosto inquieto e intrigante.

Creio que esse era o traço mais característico de sua personalidade: um jornalista que seduzia pela inteligência, perspicácia, atenção e dissimulação. Ele parecia orgulhar-se da forma ardilosa como chegava a saber de tudo sem precisar utilizar as informações que detinha. E era humano e ético, o suficiente para evitar má utilização delas.

Como mantinha a dignidade se fazendo necessário em ambientes críticos era outro truque. Nenhum jornalista da época conseguiria, por exemplo, entrar e sair de um governo como o de Orleir Camely (1994/1998) sem uma única acusação. Mas ele atravessava as tendências ideológicas, ilicitudes e destemperos sem arranhão, enquanto ficávamos felizes de recebê-lo do outro lado, são e salvo.

Bom, Zé, vê se agora te comportas com esse teu jeito moleque! Ou, pelo menos, apara as unhas quando for brincar de vira-lata aí no céu…


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Petróleo: o escândalo é antigo

* Elson Martins

O escritor Monteiro Lobato ocupou a mídia de sua
época com a luta em defesa do petróleo brasileiro
Até junho passado eu, por ignorância, pensava que o genial Monteiro Lobato tinha escrito somente livros infantis! Por isso me surpreendi ao encontrar numa livraria (Sebo) de Curitiba, um exemplar amarelado e esgarçado do “Escândalo do Petróleo”, que ele lançou em 1932 pela Editora Brasiliense Ltda, de São Paulo. Paguei a bagatela de 5 reais pela preciosidade de 320 páginas que li de um fôlego só. Pela denúncia, que incluiu uma carta aberta ao então Presidente Getúlio Vargas, o escritor foi perseguido e preso. Decorridos 83 anos, sua obra parece atualíssima e ajuda entender o que ocorre hoje na Petrobrás. Na verdade, “Escândalo…” representa dois livros em um, porque está incluído na edição também o problema Ferro, que Lobato escreveu na mesma época. Se fosse reeditado hoje, viraria best-seller.
A denúncia é aterradora e nos leva a suspeitar que a rapinagem atual na Petrobrás teve sua gênese naqueles tempos. E nunca terminou! Logo na introdução, Monteiro Lobato afirma que o caso do petróleo brasileiro prende-se ao caso do petróleo em geral: “Esse produto é o sangue da terra; é a alma da indústria moderna; é a eficiência do poder militar; é a soberania; é a dominação. Tê-lo, é ter o Sésamo abridor de todas as portas. Não tê-lo, é ser escravo. Daí a fúria moderna na luta pelo petróleo”.
O autor faz uma comparação entre o petróleo, a hulha e o carvão, – estes últimos em desuso, – dizendo que “tais e tantas são as vantagens do petróleo, que o fedorento sangue da terra passou a ser o sangue da indústria, das finanças, do poder e da soberania dos povos.” E indaga: “Se é assim, como então o Brasil se conservou de olhos fechados por tanto tempo?” No parágrafo seguinte ele mesmo responde:
“Por uma razão muito simples. O petróleo está hoje (1932) praticamente monopolizado por dois imensos trustes: a Standard Oil e a Royal Dutch & Shell. Como dominaram o petróleo, dominaram também as finanças, os bancos, o mercado do dinheiro; e como dominaram o dinheiro, dominaram também os governos e as máquinas administrativas. Essa rede de dominação constitui o que neste livro chamamos de os interesses ocultos”.

Cobiça internacional

Monteiro Lobato informa que o Brasil, com seu imenso território e tantos pontos marcados de indícios de petróleo, constituía um perigo para esses trustes. Ele cita o relatório reservado de um geólogo – Gustav Grossman, que estudou secretamente as possibilidades petrolíferas no país – para afirmar: “Dada a sua área, a quantidade de petróleo do Brasil talvez seja maior que a de qualquer outro pais do mundo”. E prossegue: “Esses trustes nos conhecem, sabem que o brasileiro é uma espécie de criança tonta, que realmente só se interessa por jogo, farra, carnavais e anedotas fesceninas. Os estrangeiros sabem que a partir de 1930 o brasileiro cada vez menos se utiliza do cérebro para pensar, como fazem todos os povos”.
O escritor fala de um Brasil que tinha na época 40 milhões de pessoas, e que vivia sob a longa ditadura Vargas. Segundo ele, os estadistas daqueles tempos pensavam com outros órgão que não o cérebro, como o calcanhar, o cotovelo e “certos penduricalhos”! Por conta disso, a miséria era tanta em certas zonas rurais as pessoas estavam perdendo a forma humana. Nos fundões de Goiás, segundo ele, apareciam “povoados inteiros de papudos” e as primeiras “criaturas de rabo”.
Ao mesmo tempo, “graças a uma hábil propaganda feitas até nas estradas de rodagem por meio das bombas de gasolina, os donos dos trustes convenceriam “o indígena bocó” de que era absurdo existir petróleo no Brasil, com uma argumentação tão simplória quanto infalível: “Ora! Ora! Se aqui existisse petróleo, pensa você que os americanos já não tinham tirado”?

Estratégia dos gringos

A estratégia dos gringos, entretanto, era outra: “Não tirar petróleo, nem deixar que o tirem”. Assim, com o conluio dos “petralhas” locais, o Brasil continuaria eternamente comprador do petróleo e seus derivados dos Estados Unidos. Enquanto isso, os “interesses ocultos” eram protegidos com a nomeação de um tal Fleury da Rocha para chefiar o Serviço Geológico brasileiro. Ele se tornaria “dono da ratoeira” montada com a Lei de Minas sonhada pelos trustes:
“A Lei trancava da maneira mais perfeita, a pesquisa e a exploração do subsolo nacional. E quem quisesse explorar o subsolo teria de entrar por uma das portas da ratoeira controlada por Fleury”. Lobato achou vários outros nomes para essa lei entreguista: “Lei Labirinto de Creta. Lei cipó arranha-gato. Lei Arapuca. Lei Rolha. Lei atentado de lesa-pátria”…
No espírito da lei, foram criados novos instrumentos de controle, como o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) que, com a orientação de “especialistas” norte-americanos, se encarregava de negar a inexistência de petróleo em poços perfurados com pouca profundidade. “São eles o diretor da Geofísica, Mr. Mark Malamphy; e o diretor de Geologia, Vitor Oppenheim (…) Esses dois homens dispõem, sempre de primeira mão, de todos os segredos do subsolo nacional”.
Os dois “especialistas” chegaram a criar uma firma comercial para uso externo, a Malamphy & Oppenheim, através da qual fechavam contratos nos Estados Unidos com grupos interessados em comprar por baixo dos panos, para uso futuro, terras petrolíferas no Brasil. A ideia era impedir que grupos nacionais ou estrangeiros não norte-americanos adquirissem essas áreas potenciais que deviam ser mantidas como “reservas de valor” pelas Standard Oil da vida.
Mas a potencialidade petrolífera do Brasil era tão óbvia que, no Estado de Alagoas, os “petralhas” não conseguiram tapar os poços com cimento como faziam em outros estados, após anunciarem que “não tinham valor para exploração”. Os poços de lá, curiosamente perfurados na localidade chamada Lobato, acabaram expulsando petróleo abundante, o que deixou os homens do DNPM atônitos. Monteiro Lobato anotou:
“Aquele petróleo livre, saindo muito, assustou o sr. Fleury da Rocha. Daí o seu novo grito de guerra: “Rumo ao Acre”!
Pois, para despistar (ou não), o sr. Vitor Oppenheim já andava por aqui nos anos 30 sondando terras petrolíferas para comprar, ou mesmo perfurar, quem sabe, sabendo da existência do “ouro negro”. Afinal, os países andinos vizinhos, como a Bolívia e o Peru, já enricavam com seu petróleo, por que o Brasil (ou melhor: os Estados Unidos) não haveria de enricar mais no Acre?

Sabe com quem tá falando?

Após passar nove anos enfrentando os trustes estrangeiros e os entreguistas locais que impediam a perfuração de poços e exploração do petróleo brasileiro, com a descarada conivência do governo federal, Monteiro Lobato – que vivia em São Paulo,- decidiu visitar uma empresa recém-instalada no Rio de Janeiro, supostamente, do esquema da Standard Oil norte-americana. O escritor se apresentou como membro de uma empresa petrolífera paulista, mas o diretor que o recebeu, sem conhece-lo, entrou de sola:
“Olhe, vocês são uns sandeus e aquele Monteiro Lobato é o rei dos cretinos. Vocês partem dum ponto de vista inteiramente falso. Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, isto é, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional, da Standard. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. O petróleo do mundo é da Standard, onde quer que se encontre. E contra a vontade da Standard nenhum país tira o petróleo que está em suas terras. O único país que até hoje (fim dos anos 40) conseguiu libertar-se da Standard foi a Rússia, por causa da revolução (de 1917); mesmo assim a Standard não deixa que o petróleo russo transponha a fronteira e seja vendido em outros países.
A Argentina descobriu petróleo por mero acaso – mas depois de muita luta teve de dividir o campo com a Standard. Em todos os outros países o negócio do petróleo é conduzido de acordo com a Standard. Contra a sua vontade, em nenhum. Como então vocês, deste pobre país falido, sem forças, sem estadistas, sem governo decente, têm a pretensão de ter petróleo próprio, contra a vontade da Standard”?


      Será que a poderosa Standard Oil norte-americana reduziu seus tentáculos de lá para cá? 

      segunda-feira, 23 de março de 2015

      Homens e rios se parecem!

      * Elson Martins

      Iaco, o rio da minha infância (Foto:Sérgio Vale/Secom)

      Um menino de Tarauacá de nome Leandro Tocantins se tornou escritor e historiador premiado. Lá pelos anos 30, cunhou a expressão “o rio comanda a vida” que definiu, poeticamente, a descoberta e ocupação do Acre. Também descreveu a saga dos homens e mulheres que nos idos de 1877 escaparam da seca do Nordeste para mergulhar no dilúvio amazônico.

      Um outro menino, nascido na França do século 19, também se deixou inspirar pela relação com o rio de sua comunidade. Filho de sapateiro, Gaston Bachelard se tornou filósofo e surpreendeu ao escrever o livro A Água e os Sonhos só com poemas. Num dos textos ele afirma:

      “Meu prazer é ainda acompanhar o riacho, caminhar ao longo das margens no sentido da água que corre, da água que leva a vida à povoação vizinha”...Segundo o cientista brasileiro Antônio Carlos Diegues, que o estudou, Bachelard “considerava a água doce a verdadeira água mítica”.

      Bom, eles - homens e rios, - se encontraram na Amazônia com boa dose de misticismo. Se conheceram, se apalparam e teceram vida nova num espaço selvagem e lúdico.  Por isso surgiu o Acre das águas e da floresta, por onde fervilham, por alguns séculos,  índios e carius,  negros e pardos, borracha e sucuris, botos e iaras...

      Quando criança, eu também tive a felicidade de viver às margens de um rio, o Iaco, e me envolver com seus mistérios. Sabia da morada de uma sucuri no poço fundo em frente da nossa casa; acreditava que em noites de festa, dançarinos  vestidos de branco saiam de  suas águas; e tinha medo que a Iara aparecesse, até imaginava que o rio tinha um espírito.

      Através dele, do rio, eu marcava as estações: porque no verão andava por suas praias desertas catando ovos de tracajá; e no inverno, quando me recolhia temeroso, queria ver de perto o que descia das cabeceiras: melancias, troncos e arvores inteiras arrastados pela correnteza.

      O Iaco é um rio estreito e fundo, de barrancos altos, portanto perigoso! Mas o que acontecia de novo no seringal passava por ele. De cima e de baixo vinham lanchas e canoas transportando cargas e gente com novidades de uma civilização ficava distante e desconhecida. Dava pra ouvir com dois dias de antecipação o zumbido de um batelão se aproximando.

      Um dia, fui entregue ao dono de uma embarcação para que me lavasse do seringal para a cidade (Sena Madureira) onde morava uma irmã casada. Foi uma experiência doída seguir com os olhos o movimento revoltoso e sem retorno das águas. As redemoinhos, o eco do motor nas margens, pessoas estranhas acenando, o que podia alegrar, mas assustava, porque eu estava sendo arrancado do meu pequeno e amado mundo.

      Só com a maturidade entendi melhor o que dizem Tocantins e Bachelard; e passei a ver como aquelas estradas líquidas e sinuosas são fundamentais pro corpo e pra alma das pessoas que vivem na Amazônia. Abrem horizontes, permitem negócios, regam as várzeas, alimentam sonhos.

      Ah! Mas ando desanimado porque vejo como as pessoas traem a amizade antiga com esses rios de água mítica. Esquecem das vantagens usufruídas e os maltratam: com lixo, exploração excessiva de seus recursos, destruição das matas ciliares...Ainda se zangam quando a natureza reage com enxurradas, quem sabe pedindo socorro, agonizando!

      Até meados do século passado a relação dos acreanos com esses rios incluía troca, zelo, muito respeito entre ambos. Agora, homens e rios se mostram apartados, se estranham e se agridem mutuamente. Como se a sobrevivência de ambos não dependesse de uma reaproximação.

      segunda-feira, 16 de março de 2015

      A visita da linda senhora!

      * Elson Martins

      Foto despedida: Zezinho Yube, Carol, Dedé, Concita, Filomena, Malu, Valéria, Irizete e Camila (Foto: Elson Martins)


      A médica sanitarista Filomena Vagueiro adora “vagar” pelo mundo. Culpa da mãe, Ana, que em tempos quase remotos se aventurou desde Atrás dos Montes, sua terra natal em Portugal, até o Rio de Janeiro, sozinha, causando aflição ao namorado Francisco Antônio que saiu no encalço e a encontrou – felizmente! - na cidade maravilhosa, para uma união também maravilhosa e duradoura. Ouvi da filha que Ana, aos 94, cuida de uma horta em sua residência, nos Estados Unidos, e ainda dança o “vira”, gracioso ritmo português, com energia e graça. 

      De modo parecido, Filomena nunca para: transita por Brasil, Portugal, Mé- xico, Estados Unidos... Vai e vem com a mesma ternura, inteligência e simpatia da mãe. Em 1985, “sem ver pra quê”, acompanhou o namorado cineasta Tião Fonseca que veio filmar um documentário sobre educação indígena para a Comissão Pro-Índio no Acre. E desde então, nossa terra ficou colada no seu coração. 


      Tião, cineasta e fotógrafo (ver box), foi o cara que fez a foto histórica (muito divulgada, embora sem o devido crédito)em que a ex-senadora e ex-candidata a Presidente da República pelo PSB, Marina Silva, comanda um “empate” na Fazenda Bordon, em Xapuri, em meados dos anos 80. Interessante foi a argumentação dele para arrastar Filomena pro seu projeto: precisava de uma auxiliar de Som nas filmagens. Não importava que a namorada não tivesse experiência no ramo. Ainda bem que não lhe faltaram outros trabalhos na sua profissão mesmo, junto aos indígenas. 


      Os dois ficaram por aqui até 1990, tempo suficiente para gerar Savana, uma bela acreana que se tornou jornalista e cineasta... nos Estados Unidos. Depois, os dois seguiram rumos diferentes.


      Filomena é uma mulher bonita, loira, de olhos azuis. Mas o que mais atrai nela é a amorosidade, a delicadeza, a simpatia, além de uma invejável e serena atitude com referencia a tudo: trabalho, politica, amizade. Sem falar que se revela sempre imprescindível como militante em favor dos pobres e dos oprimidos. Agora mesmo vive em Connecticut (EUA) trabalhando junto às parteiras tradicionais, uma categoria muito prestigiada por lá. “Os norte-americanos valorizam muito os partos naturais feitos com parteiras treinadas”- informa. 


      Fazia mais de 20 anos que não vinha ao Acre. Mas sempre, de onde esteja, acompanha através da Internet o noticiário local. Quando flagra um amigo acreano no Facebook, entra no papo feliz da vida! E promete visitas. Foi assim com a amiga Dedé Maia, irmã da Concita, mãe da Patricia, tia da Tainá, parceira de muita gente e de muitas lutas junto aos povos indígenas. E foi assim que aconteceu o encontro de quinta-feira no conjunto Jardim de Alá, em Rio Branco, regado a vinho e cerveja. 


      A festa aconteceu à noitinha na casa da Patricia, uma casa acreana com certeza, com a presença de Elson e Irizete; a Nalu, a Carol, a Camila e a Valéria, todas ligadas à Comissão Pró-Índio; o cineasta indígena Zezinho Yube; o txai Terri Aquino, antropólogo amigo dos índios; a Concita, atual secretaria da Mulher, de emoções explícitas; e uma meia dúzia de netos lindos. 


      Filomena viajaria na mesma noite para São Paulo, e de lá para São Francisco, nos Estados Unidos, onde mora com a mãe. Estava muito feliz entre tantos amigos, tinha cumprido a promessa de visita-los e isso foi celebrado com estilo. Seus olhos azuis brilhavam, as histórias do passado, do tempo em que andou pelas aldeias acreanas a alegravam. As fotos estão aí para provar. Foi tão bom revê-la, Filomena! Volte sempre!
      Terri (em pé), Tainá, Concita, Filomena, Patrícia,
      Dedé, e Irizete  (Foto: Elson Martins)


      Os netos também pousaram para o álbum-família (Foto: Elson Martins)

      Documentarista excepcional



      No ano passado, ele também revisitou o Acre e foi até as aldeias indígenas do Rio Jordão, no município de Tarauacá. Eu o conheci desde a época em que ele e Filomena viviam juntos. Conheci a linda Savana pequenininha e costumava recebe-los em minha casa pra bebericar e conversar.

      Em 1983 ou 1984, decidimos realizar um documentário em Cruzeiro do Sul. Eu tinha escrito um roteiro sobre a atividade do casal João Alberto- Janete Capiberibe que atuava na Sub-Secretaria do Desenvolvimento Agrário no Vale do Juruá. Capi, que ao retornar do exílio não conseguia viver em paz em sua terra, o Amapá, por conta de um governador da ditadura (Anibal Barcellos) que se mantinha no poder do Estado e continuava perseguindo os comunistas, indagou se havia alguma chance de vir trabalhar no Acre. Com a ajuda do então secretário do Desenvolvimento Agrário, Antônio Carbone, conseguimos que o governador Nabor Junior o nomeasse sub-secretário com sede em Cruzeiro do Sul.

      Em pouco mais de um ano de atividades, Capi (que se elegeu governador do Amapá em dois mandatos e hoje é senador do PSB) e sua eterna companheira Janete Capiberibe (deputada federal em quarto mandato) criaram 21 sociedades agrícolas na base da ideologia, sem dinheiro e com pouco prestígio politico. Curiosamente, seu principal braço direito era o funcionário da sub-secretaria, hoje prefeito de Cruzeiro do Sul, Wagner Sales.

      O roteiro que escrevi cruzava duas histórias: a da vida difícil dos agricultores cruzeirenses, que precisavam de mais apoio para desenvolver sua produção; e do próprio casal, Capi-Janete, que há mais de 10 anos sofria perseguições, prisão e tortura psicológica que abalavam seus ideais. No documentário que acabei dirigindo por insistência do Tião Fonseca, e ao qual dei o título de “Agricultura sem Diploma”, procuramos mostrar que os dois ideais (dos agricultores e do casal socialista) se encontravam por conta da ideologia e do potencial humano da sobrevivência. Ainda faço uma ponta no filme.

      Acho que o resultado foi bom, embora tivéssemos que nos conter nas críticas que incomodassem ao financiador do trabalho: a própria Secretaria do Desenvolvimento Agrário, que forneceu passagens, carro para deslocamento no meio rural, algum dinheiro para os realizadores. Não sei se o Carbone mostrou sua cópia final ao governador Nabor Júnior.


      sexta-feira, 13 de março de 2015

      Ódio aos pobres do Brasil!

      * Elson Martins


      Leonardo Boff e a crítica à demonização do PT pelas elites 

      Eu não embarco na demonização do PT, orquestrada pelas elites do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, em conluio com a mídia rica dessas regiões. A campanha odiosa agrada aos filhotes da ditadura civil-militar (1964-1985), saudosos da truculência e da corrupção que a dita cuja instituiu no país naqueles anos de chumbo. Concordo com o filósofo e escritor Leonardo Boff, para quem, por trás da orquestração feroz contra o Partido dos Trabalhadores, o que existe mesmo é o “ódio das elites contra o povo brasileiro”.

      Num artigo publicado terça-feira (10) no Página 20, Boff lembra aos leitores uma pesquisa feita por Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade no Brasil que aponta esse absurdo de dado: “45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas cinco mil famílias extensas”. Ou seja, num país de 200 milhões de habitantes, o maior e mais influente do sul do continente, todos os bens e vantagens são usufruídos por uma ínfima parcela de nababos. É exatamente essa minoria luxenta que alimenta a escória da classe política e do empresariado, bem como a mídia que a aplaude.

      Os dirigentes políticos, os militares, o empresariado e a intelectualidade burguesa, sobretudo de São Paulo, parecem-me em parte suspeitos. Porque estão acasalados com os piores segmentos da sociedade e agem criminosamente com os menos informados – por isso vulneráveis –, induzindo massas populares a manobras políticas perversas. Para o que contribuem as redes sociais na internet, democráticas, mas ao mesmo tempo anárquicas e principalmente desqualificadas.

      O jornalista Paulo Nogueira, fundador e diretor do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo, em novembro do ano passado (portanto após as eleições de outubro), assinou o artigo “O odiojornalismo...”, em que fornece exemplos de como a mídia comprometida com o grupo derrotado na disputa presidencial toma as dores das elites contra a escolha soberana do povo:

      “O ódio que a revista Veja semeia com tanta obsessão” – diz ele – “se refletiu em manifestações criminosas, nas redes sociais, contra os nordestinos. Diogo Mainardi, o primeiro ‘odioarticulista’ da revista, há poucos dias chamou os nordestinos de ‘bovinos’ num programa de televisão que vai se tornando igual à revista, o Manhattan Connection”.

      Já o blogueiro da Veja Augusto Nunes, “o gênio cosmopolita de Taquaritinga”, segundo o articulista Nogueira, “acha que está sendo engraçado ao tratar Lula como o ‘presidente retirante’ e Evo Morales como ‘índio de topete’”. Paulo Nogueira entende que Diogo Mainardi, que também andou falando mal do Acre tempos atrás, espalha “sua má fé e falta de princípios jornalísticos” na grande mídia brasileira: “Mainardis e derivados infestam jornais, revistas, rádios, tevê”.

      O “odiojornalismo”, por princípio intolerável, não pode, naturalmente, ser patrocinado pelo dinheiro público: “O anunciante privado que quiser prestigiar este tipo de pseudojornalismo tem inteira liberdade para fazer isso. Mas o dinheiro público não pode ser torrado numa coisa tão predadora”.

      O que estamos vendo (lendo) nestes dias é mais odioso. A imprensa de um modo geral procura convencer a sociedade brasileira de que o PT é o partido vilão da República e causa de todos os males, ao mesmo tempo em que minimiza os malfeitos de outras siglas mais envolvidas no escândalo da Petrobrás. No bojo da campanha antidemocrática, a presidente reeleita Dilma Rousseff é condenada antecipadamente pela mídia elitista, enquanto as redes sociais acenam para a ditadura civil-militar que a torturou no passado.

      Na verdade, alguns nomes nacionais do PT estão a merecer punição no caso Petrobrás – isso a justiça vai decidir – mas, certamente, eles não são os patifes principais dessa história. Enquanto isso, é bom que o povo brasileiro se previna contra o ódio criminoso que ameaça sua crescente importância na vida política do país.

      domingo, 1 de março de 2015

      Quem avisa, amigo é!

      * Elson Martins

      Pela primeira vez na história de Xapuri, as águas do Rio Acre invadiram a Igreja (Foto: Kenny Roger/arquivo pessoal)

      Comece a se instruir sobre o produto vital chamado água, do contrário, vai ter que aprender a conviver com miragens. O momento é propício, pois estamos em pleno inverno amazônico testemunhando alagações jamais vistas na região. Tá vendo Xapuri? Quem diria que as águas do pacato Rio Acre subiriam até 18 metros, chegando a inundar a estátua do santo Sebastião na praça do comércio e alcançar o altar da igreja, muito mais acima?

      A doutora em engenharia ambiental (também bióloga e, nas horas vagas, hidróloga e meteorologista) Vera Reis, professora da Uninorte e técnica da Secretaria do Meio Ambiente, me disse quarta-feira passada (25) que tudo pode acontecer daqui para frente por conta da “variabilidade climática”. Ou seja, no que diz respeito ao clima, o mundo está virado de ponta-cabeça.

      Aqui, estamos vendo o nível dos rios subir, o governo socorrer os desabrigados, muita gente perder tudo que tem, alguns pilantras rezando por mais chuvas e trovoadas só pra aparecer… Mas isso tudo é “tiquim”, se comparado com o que vem ocorrendo em outras partes do mundo. Aliás, o xerife do planeta, Estados Unidos, já tem previsão (punição) anunciada: a partir do ano 2050 vai entrar numa mega-seca milenar; e a Califórnia, do “exterminador do futuro” Arnold Shwarzenegger, será um dos estados atingidos.

      Convém recapitular: a maior parte da água do nosso planeta (97%) está nos oceanos e é salgada; uma pequena quantidade (2%) fica nas geleiras, com acesso caro e difícil; um mínimo (1%) serve para consumo humano. Da água potável superficial disponível, a porcentagem maior (80%) está nas regiões menos habitadas, como na Amazônia; enquanto a menor fica em regiões mais habitadas onde as pessoas sofrem com seca e racionamento. Na verdade, 96% clamam por mais água.

      Veja só o quanto o produto água é vital: O ser humano pode passar 50 dias sem comer, mas não consegue passar 5 dias sem água.

      Durante a reunião da SBPC em Rio Branco, em junho do ano passado, juntei uns livrinhos preciosos sobre mudanças climáticas, escritos por gente inteligente que vive debruçada sobre o assunto. Um deles, o TOMO I do GEEA (Grupo de Estudos Estratégicos da Amazônia), apesar da capa austera, tem informações convincentes (algumas assustadoras) sobre as mudanças do clima no planeta, notadamente, no planeta Amazônia. Vários pesquisadores assinam textos, entre eles Philip M. Fearnside, um norte americano que vive há mais de 40 anos em Manaus como pesquisador do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), contribuindo para o conhecimento do ambiente. Dele reproduzo este trecho:

      “O efeito estufa é uma ameaça séria para o mundo inteiro, e o Brasil, inclusive a Amazônia, é um dos lugares onde espera-se que os impactos sejam mais severos se a emissão de gases de efeito estufa continuar incontrolada. É então necessário reduzir a emissão global de todas as fontes, independentemente se elas contam como “emissões diretamente induzidas pelo ser humano”. Isso é responsabilidade de qualquer país em particular.

      Segundo Fearnside, “simulações indicam que um ponto crítico seria alcançado se mais de 40% da floresta original fosse derrubada, o que conduziria ao avanço da degradação no resto da floresta”. Mais a frente ele esclarece: “Cada árvore que cai aumenta ligeiramente a probabilidade de que serão iniciados ciclos viciosos (retroalimentações) irreversíveis que destroem a floresta restante.” Finalmente, adverte: “Este é um risco que o Brasil e o mundo não podem correr”.

      A bióloga Vera Reis chamou a atenção, na conversa que mantivemos na quarta-feira, para a necessidade de todo mundo plantar arvores, pelo menos uma por dia, a começar pelo quintal de casa. Ensinou que cada árvore grande da Amazônia lança mil litros de água por dia na atmosfera, em forma de gases, possibilitando a formação de novas chuvas.

      Quer dizer: floresta, água e clima estão juntos, constituem um sistema integrado que realimenta o mundo natural do qual não podemos prescindir, se quisermos manter uma vida saudável.


      ÁGUA: o Brasil a descobre** 

      Lúcio Flávio Pinto

      O suprimento de água potável no Brasil é uma calamidade pública. Talvez o impacto atual, especialmente em São Paulo, consiga mudar esse panorama. A conta do descalabro será cobrada de qualquer maneira e agora os maus administradores públicos já não contarão com o alheamento (em alguns casos, ignorância) da sociedade.

      Gestão de água deverá ser a nova qualificação profissional requerida pelo mercado. Não uma gestão fracionada, esgotada em cada especialidade. Uma gestão multidisciplinar. A sociedade precisa estar bem informada (e formada) para não deixar mais que um assunto de tal gravidade seja conduzido apenas pelo governo. O chamado controle social é indispensável. Na Amazônia, que abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, essa deve ser uma função de Estado.

      Não são apenas os rios voadores que migram do norte para o sul: é também a energia, extraída dos cursos d’agua e conduzida por longas e caras linhas de transmissão. A Amazônia tem sido apenas a base física desse processo. As decisões sobre onde, como e para quem destinar essa energia são tomadas fora da região e ignorando-a. Aos nativos cabe apenas as rusgas da resistência, exercidas através de manifestações de protesto que paralisam ocasionalmente as obras e retardam o seu cronograma físico e financeiro. Mas não as inviabilizam. Nem, eventualmente, modificam seu perfil.

      A Amazônia é província colonial para todos os usos da água. Mas não inevitavelmente tem que ser assim. Essa função é uma exigência de entidades mais poderosas, dentro e fora do país, que precisam de muita energia para sua produção. Tal premissa elide qualquer consideração que ameace essa demanda. Mas a posição amazônica podia estar melhor exercida se pudesse se consolidar com os conhecimentos e as informações adequadas.


      ** Trecho extraído de um texto maior publicado no Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, edição n. 578, primeira quinzena de Fevereiro de 2015.