domingo, 19 de abril de 2015

José Leite: In Memoriam!

* Elson Martins

Zé Leite: do humor à tristeza com a mesma densidade (Foto: Acervo da família)

Faz 16 anos que o mais reconhecido e amado jornalista acreano nos deixou. No dia 27 de Março de 1998, aos 61 anos, ele submeteu a imprensa do Acre ao luto permanente. Mas também a premiou com um legado de boa escrita com ética e humor. Todo ano esse legado é lembrado pelo Prêmio que leva seu nome e movimenta comunicadores de TV, Rádio e Jornal inspirados em sua rica e exemplar história.

Naquela data triste eu me encontrava em Macapá, comandando o diário Folha do Amapá, mas também emprestava meu nome à direção do tabloide quinzenal O Acre, que começara a circular em Rio Branco com ares de florestania. A morte de José Chalub Leite exigiu a preparação de uma edição especial de 32 páginas, na qual seus amigos, jornalistas ou não, deixaram testemunhos sobre sua personalidade incomum.

Eu produzi a crônica "Tão Zé!" (leia abaixo) pensando na performance que lhe era mais constante: a de brincar na redação, surpreendendo colegas de trabalho com traquinagem. A Charlene Carvalho diz que não foi uma, nem duas vezes que ele escondeu seus sapatos na redação. “Também não foi uma, nem duas vezes que ele encheu minha bolsa de grampeador, bobina de Durex, papel velho, dicionário e me fez sair carregando peso” – declarou.

Clélio Rabelo, outro afortunado aprendiz do editor de O Rio Branco, lembrou manchetes molecas que ele estampou no jornal. Uma delas – “Pinto endurece contra aumento” – referia-se ao fato do ex- governador Edmundo Pinto (1991) ter reagido à proposta de aumento na tarifa de ônibus. Não menos hilária foi outra, com o mesmo personagem, desta vez na Câmara Municipal, num embate com o vereador adversário Rubem Rola: “Pinto e Rola vão às vias de fato na Câmara”.

O espírito moleque do editor o colocava, às vezes, em cheque junto aos leitores, como num 1º de Abril (Dia da Mentira) em que pespegou na capa do jornal: “Xuxa desembarca hoje para alegria da petizada”. Claro, pais e filhos saíram em “desabalada” carreira para o aeroporto Presidente Médici, no 2o. distrito. E foi impressionante como, mesmo contrariados, ninguém se exaltou contra o autor da “pegadinha”!

Um terceiro aprendiz, o Chico Araujo, desolado escreveu: “Caro Zé, eu te confesso, fiquei sem tesão para editar jornal”!

Já a colunista social na época, Wânia Pinheiro, admitiu ter sofrido por conta das “ironias construtivas” do editor ao iniciar-se no jornalismo: “Um dia ele me chamou para conversar. Disse que gostava muito da minha coluna e foi logo perguntando com aquela cara de gozador, se era eu mesmo quem fazia os textos”!

Falando sérioQuarenta pessoas entre jornalistas, políticos, profissionais liberais, desportistas, universitários e membros da família assinaram relatos sobre o Zé na Edição Especial de O Acre. Um deles, o nosso filósofo Antônio Alves (Toinho), um dos editores (do tabloide) que manteve com o Zé uma relação de mútuo aprendizado, escreveu o texto mais longo, do qual apresento pequeno trecho:

“Zé Leite dizia: ‘ninguém vem para o Acre impunemente’. Lendo a frase com outros olhos, digo que o Acre é uma terra cármica: aqui, por mais que enganem as aparências de impunidade, é onde todos pagam suas dívidas. Bebeu água desses rios, não escapa. Que o digam Galvez, Plácido, Chico, Edmundo. Tragédia? Que nada, como toda província que se preza, somos engraçados. Patéticos, ridículos, ingênuos até na esperteza, produzimos os mais variados tipos e as mais deliciosas histórias. Aqui Hamlet é funcionário público e Jeca Tatu é deputado. Torquemada é médico, Van Gogh corta seringa.(…) Por isso o humor, sem o qual não compreendemos nada”.
Tão Zé!
Numa tarde insuportavelmente quente de 1975, eu suava em bicas na redação de O Rio Branco - em sua antiga sede à Rua João Donato com a Avenida Ceará-, redigindo um texto sobre conflito de terras com as costas voltadas para a entrada do jornal. Acho que estava cochilando sobre uma velha Olivetti quando um vira-lata rosnou e abocanhou meus calcanhares. Imaginem o susto! Dei um pulo e caí de bunda no chão sujo de tinta de impressão, enquanto a risadaria ecoava das oficinas ao setor comercial. Após alguns segundos, me dei conta que o suposto “vira-lata” havia corrido de volta à sua mesa de editor-chefe.

Foi mais ou menos assim que conheci o Zé Leite com seu espírito brincalhão. A primeira vez que o vi, ele estava sentado naquela mesa, espremida na entrada do jornal, fumando com auxílio de uma piteira e cercado de pessoas que apareciam diariamente para conversar miolo de pote. O delegado José Tristão, meu cunhado, fez as apresentações.

Após 18 anos fora do Acre eu estava retornando como correspondente do jornal O Estado de São Paulo. Muito prazer, disse o Zé, com uma cara fingida e sem desviar a atenção da conversa com o grupo. O próprio Tristão, quando saímos do jornal, procurou dar uma explicação para a indiferença do editor: “O Zé pensa que todo mundo é picareta. Ele não está acreditando que tu és correspondente do Estadão”, disse.

Passaram-se alguns dias e vi que minhas matérias publicadas no diário paulista estavam sendo reproduzidas em O Rio Branco. Fui lá saber se não interessava ao jornal publicar as matérias completas, sem os cortes feitos na redação em São Paulo. O Zé Leite me recebeu com entusiasmo, dizendo que andava à minha procura para acertar a colaboração. Foi assim que me tornei seu repórter para conflitos fundiários, tendo que me submeter às brincadeiras do editor.

Minha reação naquela tarde canina, porém, não foi boa. Rasguei as laudas que havia redigido e fui para casa demorando a voltar para a redação. O Zé pediu desculpas, com um riso maroto, e penso que nunca as aceitei completamente. Durante anos de camaradagem e identidade jornalística, eu sempre me aproximei dele cauteloso, temendo ser abocanhado outra vez. Eu observava como seus olhos, durante uma conversa, perscrutavam em volta com um rosto inquieto e intrigante.

Creio que esse era o traço mais característico de sua personalidade: um jornalista que seduzia pela inteligência, perspicácia, atenção e dissimulação. Ele parecia orgulhar-se da forma ardilosa como chegava a saber de tudo sem precisar utilizar as informações que detinha. E era humano e ético, o suficiente para evitar má utilização delas.

Como mantinha a dignidade se fazendo necessário em ambientes críticos era outro truque. Nenhum jornalista da época conseguiria, por exemplo, entrar e sair de um governo como o de Orleir Camely (1994/1998) sem uma única acusação. Mas ele atravessava as tendências ideológicas, ilicitudes e destemperos sem arranhão, enquanto ficávamos felizes de recebê-lo do outro lado, são e salvo.

Bom, Zé, vê se agora te comportas com esse teu jeito moleque! Ou, pelo menos, apara as unhas quando for brincar de vira-lata aí no céu…


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Petróleo: o escândalo é antigo

* Elson Martins

O escritor Monteiro Lobato ocupou a mídia de sua
época com a luta em defesa do petróleo brasileiro
Até junho passado eu, por ignorância, pensava que o genial Monteiro Lobato tinha escrito somente livros infantis! Por isso me surpreendi ao encontrar numa livraria (Sebo) de Curitiba, um exemplar amarelado e esgarçado do “Escândalo do Petróleo”, que ele lançou em 1932 pela Editora Brasiliense Ltda, de São Paulo. Paguei a bagatela de 5 reais pela preciosidade de 320 páginas que li de um fôlego só. Pela denúncia, que incluiu uma carta aberta ao então Presidente Getúlio Vargas, o escritor foi perseguido e preso. Decorridos 83 anos, sua obra parece atualíssima e ajuda entender o que ocorre hoje na Petrobrás. Na verdade, “Escândalo…” representa dois livros em um, porque está incluído na edição também o problema Ferro, que Lobato escreveu na mesma época. Se fosse reeditado hoje, viraria best-seller.
A denúncia é aterradora e nos leva a suspeitar que a rapinagem atual na Petrobrás teve sua gênese naqueles tempos. E nunca terminou! Logo na introdução, Monteiro Lobato afirma que o caso do petróleo brasileiro prende-se ao caso do petróleo em geral: “Esse produto é o sangue da terra; é a alma da indústria moderna; é a eficiência do poder militar; é a soberania; é a dominação. Tê-lo, é ter o Sésamo abridor de todas as portas. Não tê-lo, é ser escravo. Daí a fúria moderna na luta pelo petróleo”.
O autor faz uma comparação entre o petróleo, a hulha e o carvão, – estes últimos em desuso, – dizendo que “tais e tantas são as vantagens do petróleo, que o fedorento sangue da terra passou a ser o sangue da indústria, das finanças, do poder e da soberania dos povos.” E indaga: “Se é assim, como então o Brasil se conservou de olhos fechados por tanto tempo?” No parágrafo seguinte ele mesmo responde:
“Por uma razão muito simples. O petróleo está hoje (1932) praticamente monopolizado por dois imensos trustes: a Standard Oil e a Royal Dutch & Shell. Como dominaram o petróleo, dominaram também as finanças, os bancos, o mercado do dinheiro; e como dominaram o dinheiro, dominaram também os governos e as máquinas administrativas. Essa rede de dominação constitui o que neste livro chamamos de os interesses ocultos”.

Cobiça internacional

Monteiro Lobato informa que o Brasil, com seu imenso território e tantos pontos marcados de indícios de petróleo, constituía um perigo para esses trustes. Ele cita o relatório reservado de um geólogo – Gustav Grossman, que estudou secretamente as possibilidades petrolíferas no país – para afirmar: “Dada a sua área, a quantidade de petróleo do Brasil talvez seja maior que a de qualquer outro pais do mundo”. E prossegue: “Esses trustes nos conhecem, sabem que o brasileiro é uma espécie de criança tonta, que realmente só se interessa por jogo, farra, carnavais e anedotas fesceninas. Os estrangeiros sabem que a partir de 1930 o brasileiro cada vez menos se utiliza do cérebro para pensar, como fazem todos os povos”.
O escritor fala de um Brasil que tinha na época 40 milhões de pessoas, e que vivia sob a longa ditadura Vargas. Segundo ele, os estadistas daqueles tempos pensavam com outros órgão que não o cérebro, como o calcanhar, o cotovelo e “certos penduricalhos”! Por conta disso, a miséria era tanta em certas zonas rurais as pessoas estavam perdendo a forma humana. Nos fundões de Goiás, segundo ele, apareciam “povoados inteiros de papudos” e as primeiras “criaturas de rabo”.
Ao mesmo tempo, “graças a uma hábil propaganda feitas até nas estradas de rodagem por meio das bombas de gasolina, os donos dos trustes convenceriam “o indígena bocó” de que era absurdo existir petróleo no Brasil, com uma argumentação tão simplória quanto infalível: “Ora! Ora! Se aqui existisse petróleo, pensa você que os americanos já não tinham tirado”?

Estratégia dos gringos

A estratégia dos gringos, entretanto, era outra: “Não tirar petróleo, nem deixar que o tirem”. Assim, com o conluio dos “petralhas” locais, o Brasil continuaria eternamente comprador do petróleo e seus derivados dos Estados Unidos. Enquanto isso, os “interesses ocultos” eram protegidos com a nomeação de um tal Fleury da Rocha para chefiar o Serviço Geológico brasileiro. Ele se tornaria “dono da ratoeira” montada com a Lei de Minas sonhada pelos trustes:
“A Lei trancava da maneira mais perfeita, a pesquisa e a exploração do subsolo nacional. E quem quisesse explorar o subsolo teria de entrar por uma das portas da ratoeira controlada por Fleury”. Lobato achou vários outros nomes para essa lei entreguista: “Lei Labirinto de Creta. Lei cipó arranha-gato. Lei Arapuca. Lei Rolha. Lei atentado de lesa-pátria”…
No espírito da lei, foram criados novos instrumentos de controle, como o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) que, com a orientação de “especialistas” norte-americanos, se encarregava de negar a inexistência de petróleo em poços perfurados com pouca profundidade. “São eles o diretor da Geofísica, Mr. Mark Malamphy; e o diretor de Geologia, Vitor Oppenheim (…) Esses dois homens dispõem, sempre de primeira mão, de todos os segredos do subsolo nacional”.
Os dois “especialistas” chegaram a criar uma firma comercial para uso externo, a Malamphy & Oppenheim, através da qual fechavam contratos nos Estados Unidos com grupos interessados em comprar por baixo dos panos, para uso futuro, terras petrolíferas no Brasil. A ideia era impedir que grupos nacionais ou estrangeiros não norte-americanos adquirissem essas áreas potenciais que deviam ser mantidas como “reservas de valor” pelas Standard Oil da vida.
Mas a potencialidade petrolífera do Brasil era tão óbvia que, no Estado de Alagoas, os “petralhas” não conseguiram tapar os poços com cimento como faziam em outros estados, após anunciarem que “não tinham valor para exploração”. Os poços de lá, curiosamente perfurados na localidade chamada Lobato, acabaram expulsando petróleo abundante, o que deixou os homens do DNPM atônitos. Monteiro Lobato anotou:
“Aquele petróleo livre, saindo muito, assustou o sr. Fleury da Rocha. Daí o seu novo grito de guerra: “Rumo ao Acre”!
Pois, para despistar (ou não), o sr. Vitor Oppenheim já andava por aqui nos anos 30 sondando terras petrolíferas para comprar, ou mesmo perfurar, quem sabe, sabendo da existência do “ouro negro”. Afinal, os países andinos vizinhos, como a Bolívia e o Peru, já enricavam com seu petróleo, por que o Brasil (ou melhor: os Estados Unidos) não haveria de enricar mais no Acre?

Sabe com quem tá falando?

Após passar nove anos enfrentando os trustes estrangeiros e os entreguistas locais que impediam a perfuração de poços e exploração do petróleo brasileiro, com a descarada conivência do governo federal, Monteiro Lobato – que vivia em São Paulo,- decidiu visitar uma empresa recém-instalada no Rio de Janeiro, supostamente, do esquema da Standard Oil norte-americana. O escritor se apresentou como membro de uma empresa petrolífera paulista, mas o diretor que o recebeu, sem conhece-lo, entrou de sola:
“Olhe, vocês são uns sandeus e aquele Monteiro Lobato é o rei dos cretinos. Vocês partem dum ponto de vista inteiramente falso. Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, isto é, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional, da Standard. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. O petróleo do mundo é da Standard, onde quer que se encontre. E contra a vontade da Standard nenhum país tira o petróleo que está em suas terras. O único país que até hoje (fim dos anos 40) conseguiu libertar-se da Standard foi a Rússia, por causa da revolução (de 1917); mesmo assim a Standard não deixa que o petróleo russo transponha a fronteira e seja vendido em outros países.
A Argentina descobriu petróleo por mero acaso – mas depois de muita luta teve de dividir o campo com a Standard. Em todos os outros países o negócio do petróleo é conduzido de acordo com a Standard. Contra a sua vontade, em nenhum. Como então vocês, deste pobre país falido, sem forças, sem estadistas, sem governo decente, têm a pretensão de ter petróleo próprio, contra a vontade da Standard”?


      Será que a poderosa Standard Oil norte-americana reduziu seus tentáculos de lá para cá? 

      segunda-feira, 23 de março de 2015

      Homens e rios se parecem!

      * Elson Martins

      Iaco, o rio da minha infância (Foto:Sérgio Vale/Secom)

      Um menino de Tarauacá de nome Leandro Tocantins se tornou escritor e historiador premiado. Lá pelos anos 30, cunhou a expressão “o rio comanda a vida” que definiu, poeticamente, a descoberta e ocupação do Acre. Também descreveu a saga dos homens e mulheres que nos idos de 1877 escaparam da seca do Nordeste para mergulhar no dilúvio amazônico.

      Um outro menino, nascido na França do século 19, também se deixou inspirar pela relação com o rio de sua comunidade. Filho de sapateiro, Gaston Bachelard se tornou filósofo e surpreendeu ao escrever o livro A Água e os Sonhos só com poemas. Num dos textos ele afirma:

      “Meu prazer é ainda acompanhar o riacho, caminhar ao longo das margens no sentido da água que corre, da água que leva a vida à povoação vizinha”...Segundo o cientista brasileiro Antônio Carlos Diegues, que o estudou, Bachelard “considerava a água doce a verdadeira água mítica”.

      Bom, eles - homens e rios, - se encontraram na Amazônia com boa dose de misticismo. Se conheceram, se apalparam e teceram vida nova num espaço selvagem e lúdico.  Por isso surgiu o Acre das águas e da floresta, por onde fervilham, por alguns séculos,  índios e carius,  negros e pardos, borracha e sucuris, botos e iaras...

      Quando criança, eu também tive a felicidade de viver às margens de um rio, o Iaco, e me envolver com seus mistérios. Sabia da morada de uma sucuri no poço fundo em frente da nossa casa; acreditava que em noites de festa, dançarinos  vestidos de branco saiam de  suas águas; e tinha medo que a Iara aparecesse, até imaginava que o rio tinha um espírito.

      Através dele, do rio, eu marcava as estações: porque no verão andava por suas praias desertas catando ovos de tracajá; e no inverno, quando me recolhia temeroso, queria ver de perto o que descia das cabeceiras: melancias, troncos e arvores inteiras arrastados pela correnteza.

      O Iaco é um rio estreito e fundo, de barrancos altos, portanto perigoso! Mas o que acontecia de novo no seringal passava por ele. De cima e de baixo vinham lanchas e canoas transportando cargas e gente com novidades de uma civilização ficava distante e desconhecida. Dava pra ouvir com dois dias de antecipação o zumbido de um batelão se aproximando.

      Um dia, fui entregue ao dono de uma embarcação para que me lavasse do seringal para a cidade (Sena Madureira) onde morava uma irmã casada. Foi uma experiência doída seguir com os olhos o movimento revoltoso e sem retorno das águas. As redemoinhos, o eco do motor nas margens, pessoas estranhas acenando, o que podia alegrar, mas assustava, porque eu estava sendo arrancado do meu pequeno e amado mundo.

      Só com a maturidade entendi melhor o que dizem Tocantins e Bachelard; e passei a ver como aquelas estradas líquidas e sinuosas são fundamentais pro corpo e pra alma das pessoas que vivem na Amazônia. Abrem horizontes, permitem negócios, regam as várzeas, alimentam sonhos.

      Ah! Mas ando desanimado porque vejo como as pessoas traem a amizade antiga com esses rios de água mítica. Esquecem das vantagens usufruídas e os maltratam: com lixo, exploração excessiva de seus recursos, destruição das matas ciliares...Ainda se zangam quando a natureza reage com enxurradas, quem sabe pedindo socorro, agonizando!

      Até meados do século passado a relação dos acreanos com esses rios incluía troca, zelo, muito respeito entre ambos. Agora, homens e rios se mostram apartados, se estranham e se agridem mutuamente. Como se a sobrevivência de ambos não dependesse de uma reaproximação.

      segunda-feira, 16 de março de 2015

      A visita da linda senhora!

      * Elson Martins

      Foto despedida: Zezinho Yube, Carol, Dedé, Concita, Filomena, Malu, Valéria, Irizete e Camila (Foto: Elson Martins)


      A médica sanitarista Filomena Vagueiro adora “vagar” pelo mundo. Culpa da mãe, Ana, que em tempos quase remotos se aventurou desde Atrás dos Montes, sua terra natal em Portugal, até o Rio de Janeiro, sozinha, causando aflição ao namorado Francisco Antônio que saiu no encalço e a encontrou – felizmente! - na cidade maravilhosa, para uma união também maravilhosa e duradoura. Ouvi da filha que Ana, aos 94, cuida de uma horta em sua residência, nos Estados Unidos, e ainda dança o “vira”, gracioso ritmo português, com energia e graça. 

      De modo parecido, Filomena nunca para: transita por Brasil, Portugal, Mé- xico, Estados Unidos... Vai e vem com a mesma ternura, inteligência e simpatia da mãe. Em 1985, “sem ver pra quê”, acompanhou o namorado cineasta Tião Fonseca que veio filmar um documentário sobre educação indígena para a Comissão Pro-Índio no Acre. E desde então, nossa terra ficou colada no seu coração. 


      Tião, cineasta e fotógrafo (ver box), foi o cara que fez a foto histórica (muito divulgada, embora sem o devido crédito)em que a ex-senadora e ex-candidata a Presidente da República pelo PSB, Marina Silva, comanda um “empate” na Fazenda Bordon, em Xapuri, em meados dos anos 80. Interessante foi a argumentação dele para arrastar Filomena pro seu projeto: precisava de uma auxiliar de Som nas filmagens. Não importava que a namorada não tivesse experiência no ramo. Ainda bem que não lhe faltaram outros trabalhos na sua profissão mesmo, junto aos indígenas. 


      Os dois ficaram por aqui até 1990, tempo suficiente para gerar Savana, uma bela acreana que se tornou jornalista e cineasta... nos Estados Unidos. Depois, os dois seguiram rumos diferentes.


      Filomena é uma mulher bonita, loira, de olhos azuis. Mas o que mais atrai nela é a amorosidade, a delicadeza, a simpatia, além de uma invejável e serena atitude com referencia a tudo: trabalho, politica, amizade. Sem falar que se revela sempre imprescindível como militante em favor dos pobres e dos oprimidos. Agora mesmo vive em Connecticut (EUA) trabalhando junto às parteiras tradicionais, uma categoria muito prestigiada por lá. “Os norte-americanos valorizam muito os partos naturais feitos com parteiras treinadas”- informa. 


      Fazia mais de 20 anos que não vinha ao Acre. Mas sempre, de onde esteja, acompanha através da Internet o noticiário local. Quando flagra um amigo acreano no Facebook, entra no papo feliz da vida! E promete visitas. Foi assim com a amiga Dedé Maia, irmã da Concita, mãe da Patricia, tia da Tainá, parceira de muita gente e de muitas lutas junto aos povos indígenas. E foi assim que aconteceu o encontro de quinta-feira no conjunto Jardim de Alá, em Rio Branco, regado a vinho e cerveja. 


      A festa aconteceu à noitinha na casa da Patricia, uma casa acreana com certeza, com a presença de Elson e Irizete; a Nalu, a Carol, a Camila e a Valéria, todas ligadas à Comissão Pró-Índio; o cineasta indígena Zezinho Yube; o txai Terri Aquino, antropólogo amigo dos índios; a Concita, atual secretaria da Mulher, de emoções explícitas; e uma meia dúzia de netos lindos. 


      Filomena viajaria na mesma noite para São Paulo, e de lá para São Francisco, nos Estados Unidos, onde mora com a mãe. Estava muito feliz entre tantos amigos, tinha cumprido a promessa de visita-los e isso foi celebrado com estilo. Seus olhos azuis brilhavam, as histórias do passado, do tempo em que andou pelas aldeias acreanas a alegravam. As fotos estão aí para provar. Foi tão bom revê-la, Filomena! Volte sempre!
      Terri (em pé), Tainá, Concita, Filomena, Patrícia,
      Dedé, e Irizete  (Foto: Elson Martins)


      Os netos também pousaram para o álbum-família (Foto: Elson Martins)

      Documentarista excepcional



      No ano passado, ele também revisitou o Acre e foi até as aldeias indígenas do Rio Jordão, no município de Tarauacá. Eu o conheci desde a época em que ele e Filomena viviam juntos. Conheci a linda Savana pequenininha e costumava recebe-los em minha casa pra bebericar e conversar.

      Em 1983 ou 1984, decidimos realizar um documentário em Cruzeiro do Sul. Eu tinha escrito um roteiro sobre a atividade do casal João Alberto- Janete Capiberibe que atuava na Sub-Secretaria do Desenvolvimento Agrário no Vale do Juruá. Capi, que ao retornar do exílio não conseguia viver em paz em sua terra, o Amapá, por conta de um governador da ditadura (Anibal Barcellos) que se mantinha no poder do Estado e continuava perseguindo os comunistas, indagou se havia alguma chance de vir trabalhar no Acre. Com a ajuda do então secretário do Desenvolvimento Agrário, Antônio Carbone, conseguimos que o governador Nabor Junior o nomeasse sub-secretário com sede em Cruzeiro do Sul.

      Em pouco mais de um ano de atividades, Capi (que se elegeu governador do Amapá em dois mandatos e hoje é senador do PSB) e sua eterna companheira Janete Capiberibe (deputada federal em quarto mandato) criaram 21 sociedades agrícolas na base da ideologia, sem dinheiro e com pouco prestígio politico. Curiosamente, seu principal braço direito era o funcionário da sub-secretaria, hoje prefeito de Cruzeiro do Sul, Wagner Sales.

      O roteiro que escrevi cruzava duas histórias: a da vida difícil dos agricultores cruzeirenses, que precisavam de mais apoio para desenvolver sua produção; e do próprio casal, Capi-Janete, que há mais de 10 anos sofria perseguições, prisão e tortura psicológica que abalavam seus ideais. No documentário que acabei dirigindo por insistência do Tião Fonseca, e ao qual dei o título de “Agricultura sem Diploma”, procuramos mostrar que os dois ideais (dos agricultores e do casal socialista) se encontravam por conta da ideologia e do potencial humano da sobrevivência. Ainda faço uma ponta no filme.

      Acho que o resultado foi bom, embora tivéssemos que nos conter nas críticas que incomodassem ao financiador do trabalho: a própria Secretaria do Desenvolvimento Agrário, que forneceu passagens, carro para deslocamento no meio rural, algum dinheiro para os realizadores. Não sei se o Carbone mostrou sua cópia final ao governador Nabor Júnior.


      sexta-feira, 13 de março de 2015

      Ódio aos pobres do Brasil!

      * Elson Martins


      Leonardo Boff e a crítica à demonização do PT pelas elites 

      Eu não embarco na demonização do PT, orquestrada pelas elites do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, em conluio com a mídia rica dessas regiões. A campanha odiosa agrada aos filhotes da ditadura civil-militar (1964-1985), saudosos da truculência e da corrupção que a dita cuja instituiu no país naqueles anos de chumbo. Concordo com o filósofo e escritor Leonardo Boff, para quem, por trás da orquestração feroz contra o Partido dos Trabalhadores, o que existe mesmo é o “ódio das elites contra o povo brasileiro”.

      Num artigo publicado terça-feira (10) no Página 20, Boff lembra aos leitores uma pesquisa feita por Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade no Brasil que aponta esse absurdo de dado: “45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas cinco mil famílias extensas”. Ou seja, num país de 200 milhões de habitantes, o maior e mais influente do sul do continente, todos os bens e vantagens são usufruídos por uma ínfima parcela de nababos. É exatamente essa minoria luxenta que alimenta a escória da classe política e do empresariado, bem como a mídia que a aplaude.

      Os dirigentes políticos, os militares, o empresariado e a intelectualidade burguesa, sobretudo de São Paulo, parecem-me em parte suspeitos. Porque estão acasalados com os piores segmentos da sociedade e agem criminosamente com os menos informados – por isso vulneráveis –, induzindo massas populares a manobras políticas perversas. Para o que contribuem as redes sociais na internet, democráticas, mas ao mesmo tempo anárquicas e principalmente desqualificadas.

      O jornalista Paulo Nogueira, fundador e diretor do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo, em novembro do ano passado (portanto após as eleições de outubro), assinou o artigo “O odiojornalismo...”, em que fornece exemplos de como a mídia comprometida com o grupo derrotado na disputa presidencial toma as dores das elites contra a escolha soberana do povo:

      “O ódio que a revista Veja semeia com tanta obsessão” – diz ele – “se refletiu em manifestações criminosas, nas redes sociais, contra os nordestinos. Diogo Mainardi, o primeiro ‘odioarticulista’ da revista, há poucos dias chamou os nordestinos de ‘bovinos’ num programa de televisão que vai se tornando igual à revista, o Manhattan Connection”.

      Já o blogueiro da Veja Augusto Nunes, “o gênio cosmopolita de Taquaritinga”, segundo o articulista Nogueira, “acha que está sendo engraçado ao tratar Lula como o ‘presidente retirante’ e Evo Morales como ‘índio de topete’”. Paulo Nogueira entende que Diogo Mainardi, que também andou falando mal do Acre tempos atrás, espalha “sua má fé e falta de princípios jornalísticos” na grande mídia brasileira: “Mainardis e derivados infestam jornais, revistas, rádios, tevê”.

      O “odiojornalismo”, por princípio intolerável, não pode, naturalmente, ser patrocinado pelo dinheiro público: “O anunciante privado que quiser prestigiar este tipo de pseudojornalismo tem inteira liberdade para fazer isso. Mas o dinheiro público não pode ser torrado numa coisa tão predadora”.

      O que estamos vendo (lendo) nestes dias é mais odioso. A imprensa de um modo geral procura convencer a sociedade brasileira de que o PT é o partido vilão da República e causa de todos os males, ao mesmo tempo em que minimiza os malfeitos de outras siglas mais envolvidas no escândalo da Petrobrás. No bojo da campanha antidemocrática, a presidente reeleita Dilma Rousseff é condenada antecipadamente pela mídia elitista, enquanto as redes sociais acenam para a ditadura civil-militar que a torturou no passado.

      Na verdade, alguns nomes nacionais do PT estão a merecer punição no caso Petrobrás – isso a justiça vai decidir – mas, certamente, eles não são os patifes principais dessa história. Enquanto isso, é bom que o povo brasileiro se previna contra o ódio criminoso que ameaça sua crescente importância na vida política do país.

      domingo, 1 de março de 2015

      Quem avisa, amigo é!

      * Elson Martins

      Pela primeira vez na história de Xapuri, as águas do Rio Acre invadiram a Igreja (Foto: Kenny Roger/arquivo pessoal)

      Comece a se instruir sobre o produto vital chamado água, do contrário, vai ter que aprender a conviver com miragens. O momento é propício, pois estamos em pleno inverno amazônico testemunhando alagações jamais vistas na região. Tá vendo Xapuri? Quem diria que as águas do pacato Rio Acre subiriam até 18 metros, chegando a inundar a estátua do santo Sebastião na praça do comércio e alcançar o altar da igreja, muito mais acima?

      A doutora em engenharia ambiental (também bióloga e, nas horas vagas, hidróloga e meteorologista) Vera Reis, professora da Uninorte e técnica da Secretaria do Meio Ambiente, me disse quarta-feira passada (25) que tudo pode acontecer daqui para frente por conta da “variabilidade climática”. Ou seja, no que diz respeito ao clima, o mundo está virado de ponta-cabeça.

      Aqui, estamos vendo o nível dos rios subir, o governo socorrer os desabrigados, muita gente perder tudo que tem, alguns pilantras rezando por mais chuvas e trovoadas só pra aparecer… Mas isso tudo é “tiquim”, se comparado com o que vem ocorrendo em outras partes do mundo. Aliás, o xerife do planeta, Estados Unidos, já tem previsão (punição) anunciada: a partir do ano 2050 vai entrar numa mega-seca milenar; e a Califórnia, do “exterminador do futuro” Arnold Shwarzenegger, será um dos estados atingidos.

      Convém recapitular: a maior parte da água do nosso planeta (97%) está nos oceanos e é salgada; uma pequena quantidade (2%) fica nas geleiras, com acesso caro e difícil; um mínimo (1%) serve para consumo humano. Da água potável superficial disponível, a porcentagem maior (80%) está nas regiões menos habitadas, como na Amazônia; enquanto a menor fica em regiões mais habitadas onde as pessoas sofrem com seca e racionamento. Na verdade, 96% clamam por mais água.

      Veja só o quanto o produto água é vital: O ser humano pode passar 50 dias sem comer, mas não consegue passar 5 dias sem água.

      Durante a reunião da SBPC em Rio Branco, em junho do ano passado, juntei uns livrinhos preciosos sobre mudanças climáticas, escritos por gente inteligente que vive debruçada sobre o assunto. Um deles, o TOMO I do GEEA (Grupo de Estudos Estratégicos da Amazônia), apesar da capa austera, tem informações convincentes (algumas assustadoras) sobre as mudanças do clima no planeta, notadamente, no planeta Amazônia. Vários pesquisadores assinam textos, entre eles Philip M. Fearnside, um norte americano que vive há mais de 40 anos em Manaus como pesquisador do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), contribuindo para o conhecimento do ambiente. Dele reproduzo este trecho:

      “O efeito estufa é uma ameaça séria para o mundo inteiro, e o Brasil, inclusive a Amazônia, é um dos lugares onde espera-se que os impactos sejam mais severos se a emissão de gases de efeito estufa continuar incontrolada. É então necessário reduzir a emissão global de todas as fontes, independentemente se elas contam como “emissões diretamente induzidas pelo ser humano”. Isso é responsabilidade de qualquer país em particular.

      Segundo Fearnside, “simulações indicam que um ponto crítico seria alcançado se mais de 40% da floresta original fosse derrubada, o que conduziria ao avanço da degradação no resto da floresta”. Mais a frente ele esclarece: “Cada árvore que cai aumenta ligeiramente a probabilidade de que serão iniciados ciclos viciosos (retroalimentações) irreversíveis que destroem a floresta restante.” Finalmente, adverte: “Este é um risco que o Brasil e o mundo não podem correr”.

      A bióloga Vera Reis chamou a atenção, na conversa que mantivemos na quarta-feira, para a necessidade de todo mundo plantar arvores, pelo menos uma por dia, a começar pelo quintal de casa. Ensinou que cada árvore grande da Amazônia lança mil litros de água por dia na atmosfera, em forma de gases, possibilitando a formação de novas chuvas.

      Quer dizer: floresta, água e clima estão juntos, constituem um sistema integrado que realimenta o mundo natural do qual não podemos prescindir, se quisermos manter uma vida saudável.


      ÁGUA: o Brasil a descobre** 

      Lúcio Flávio Pinto

      O suprimento de água potável no Brasil é uma calamidade pública. Talvez o impacto atual, especialmente em São Paulo, consiga mudar esse panorama. A conta do descalabro será cobrada de qualquer maneira e agora os maus administradores públicos já não contarão com o alheamento (em alguns casos, ignorância) da sociedade.

      Gestão de água deverá ser a nova qualificação profissional requerida pelo mercado. Não uma gestão fracionada, esgotada em cada especialidade. Uma gestão multidisciplinar. A sociedade precisa estar bem informada (e formada) para não deixar mais que um assunto de tal gravidade seja conduzido apenas pelo governo. O chamado controle social é indispensável. Na Amazônia, que abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, essa deve ser uma função de Estado.

      Não são apenas os rios voadores que migram do norte para o sul: é também a energia, extraída dos cursos d’agua e conduzida por longas e caras linhas de transmissão. A Amazônia tem sido apenas a base física desse processo. As decisões sobre onde, como e para quem destinar essa energia são tomadas fora da região e ignorando-a. Aos nativos cabe apenas as rusgas da resistência, exercidas através de manifestações de protesto que paralisam ocasionalmente as obras e retardam o seu cronograma físico e financeiro. Mas não as inviabilizam. Nem, eventualmente, modificam seu perfil.

      A Amazônia é província colonial para todos os usos da água. Mas não inevitavelmente tem que ser assim. Essa função é uma exigência de entidades mais poderosas, dentro e fora do país, que precisam de muita energia para sua produção. Tal premissa elide qualquer consideração que ameace essa demanda. Mas a posição amazônica podia estar melhor exercida se pudesse se consolidar com os conhecimentos e as informações adequadas.


      ** Trecho extraído de um texto maior publicado no Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, edição n. 578, primeira quinzena de Fevereiro de 2015.

      terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

      Índio ou cara-pálida, tanto faz!

      * Elson Martins


      Edilson e Elson Martins, em foto recente (Foto: Yasmim Martins)


      Li com interesse, prazer e cumplicidade o novo livro do jornalista, escritor e documentarista acreano Edilson Martins: “A Viagem de Bediai, o Selvagem e O Voo da Borboleta Negra”,-  
      que ele acaba de lançar tendo como tema a Amazônia e o ambiente perturbador da floresta. É o oitavo de sua lavra, e acho que os outros  – “Chico Mendes, um povo da floresta”, “Nós, do Araguaia”, “Nossos Índios, Nossos mortos”, “Makaloba”  etc. – são mais comportados. Certamente, porque parecem menos com o autor.

      Edilson é um duende que em 1958 partiu de Rio Branco para o Rio de Janeiro numa viagem sem retorno. Como outros acreanos do seu tempo, partiu para brilhar.

      Na época nós éramos colegas de classe no Colégio Acreano, cursando o ginasial, e chegamos a produzir juntos (eu como coadjuvante) o jornal estudantil “O Selecionado”, impresso em papel de embrulho de cor verde. O maior feito da pequena publicação foi entrevistar o juiz federal Francisco Alves, recém chegado ao Acre, que mandava prender quem passasse perto dele assobiando. O sujeito mal humorado só nos recebeu quando atendemos a exigência de comparecer de paletó e gravata. Completava o trio de entrevistadores o Odacyr Soares, filho de um catraieiro do bairro da Base que se tornou senador pelo Estado de Rondônia.

      Eu e o Edilson temos a mesma idade, o mesmo sobrenome e a mesma origem de seringal:  ele nasceu no Esperança, no baixo Rio Acre, e eu no Nova Olinda, no alto Rio Iaco. A coincidência se ampliou com o tempo. Após 18 anos sem nenhum contato (eu também parti), voltamos a nos encontrar em Rondônia, em 1976, como jornalistas, fazendo a cobertura de um conflito entre índios Suruis e parceleiros do Incra no Parque Indígena 7 de Setembro. Ele como repórter especial do Jornal do Brasil; e eu como correspondente do Estadão (O Estado de S.Paulo) no Acre. Viajamos de Porto Velho para a área indígena num avião monomotor, na companhia do sertanista Apoena Meireles.

      0 encontro no Parque dos Suruis reatou a amizade e inspirou novas aventuras jornalísticas. Em 1988, os seringueiros liderados por Chico Mendes enfrentavam uma luta desigual e perigosa contra o fazendeiro Darli Alves, que queria comprar o seringal Cachoeira, em Xapuri, para fazer pastos e criar boi. Darli e o filho Darcy acabaram matando o líder seringueiro. Um pouco antes da tragédia, Edilson Martins apareceu em Rio Branco para registrar o conflito. Daí surgiu o documentário “Chico Mendes – um povo da floresta” que lhe rendeu o prêmio Vladimir Herzog e foi exibido em redes de TV em diversas partes do mundo. Como diretor da TV Aldeia (Educativa) na época, dei uma mãozinha: cedi câmera, transporte e pessoal para reforçar sua denuncia contra os invasores da vida acreana.

      Em dezembro do ano passado, Edilson me mandou um exemplar do “Bediai” que somente agora tive tempo de ler. Percebi que o amigo, que nasceu com o dom de escrever bem, decidiu fazer nova imersão na floresta, desta vez, tentando exorcizar 40 anos de aprendizado urbano que incorporou à sua alma acreana. Seu livro é uma instigante viagem através de mundos separados. E sua experiência de jornalista especializado em temas indígenas, de ousado ambientalista e de leitor compulsivo de Machado de Assis, bem como dos filósofos gregos da antiguidade e de leituras mais atuais levam o leitor de arrastão.

      Ele se incorpora nos personagens que criou para falar de uma viagem pelas entranhas amazônicas. É ao mesmo tempo o índio sábio e invisível, o sertanista cauteloso, o cara-pálida vindo de um pais distante, o intelectual cheio de não me toques, a pesquisadora francesa que precisa devassar a vida dos macaquinhos Suim, o mateiro experiente e sisudo, entre outros, montando um painel de culturas que se submetem ao desafio de sobreviver no meio do mato, onde tudo se move e ameaça.

      Cobras, onças, arraias, temporais assustadores e chuvas torrenciais, índios desconfiados à espreita, - compõem o cotidiano do grupo saído da selva de pedra muito mais violenta e estúpida. O grupo caminha sem rumo e deixa aflorar suas taras, seu medos, sua fragilidade, o que o Bediai Edilson Martins explora com texto solto, criativo, poético e anárquico.

      Na viagem de 250 páginas de narração atraente, imprevisível como uma semente de samauma levada pelo vento, o autor mistura temas densos, da realidade em que foi gerado com memória que beira o realismo fantástico, com os traumas e estresses da vida urbana, construindo um painel musical e pictórico da região que muitos, na atualidade, prefere como mágica e utopia.

      Ou seja: não dá pra ler o livro Bediai e sair impune, deixando de lado que a vida continue a ignorar tribos arredias; destruidores de floresta, habilidosos e camuflados biopiratas, intelectuais cínicos etc. Muito menos, ignorar um conflitado duende que se inspira na tradição, mas sugere, atônito e literariamente, que as pessoas precisam de asas para sobreviver em novos mundos possíveis. 


      capa do livro Bediai

      Trechos do Bediai

      *Vão ficando claras nossas misérias. Há mais de um ano, quando nos reunimos, éramos pessoas civilizadas, educadas, dispondo de um código social que bem ou mal nos preservava, mantinha nossas máscaras. Uma expedição não é um convescote de freiras, mas estávamos longe de supor que nossas indignidades e vilanias chegassem a tal ponto. Os padrões sociais vão abruptamente sendo minados – pelo dia a dia, pela ausência de tudo. Tudo na selva é nada. E nada na selva é tudo.

      *Bediai: Vou contar uma história! Ninguém sabe. Só eu e minha tribo. Fui escolhido pelo meu povo, durante os primeiros contatos com vocês, para ser “sertanista” de yara. Vocês não têm sertanistas de índios? Rondon, os irmãos Villas-Boas, Chico e Apoena Meireles? Pois bem, eu fui preparado para ser o “sertanista” de branco.

      *Há dois dias, pela ameaça de um temporal, tivemos que abandonar às pressas o pequeno tapiri onde dormíramos. O local não oferecia segurança, havia árvores de grande porte, muito velhas, e o melhor era não sermos surpreendidos, já que um temporal na selva nada perdoa. 

      terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

      A foto e seu autor

      Foto: Tião Fonseca


      Esta foto da seringueira Marina Silva liderando um “empate” na Fazendo Bordon em Xapuri, no Acre, no inicio dos anos oitenta, tem sido largamente utilizada em jornais, revistas, livros e sites diversos. Também tem aparecido em vídeos e documentários que tratam da ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, sobretudo, nas duas últimas eleições (2010 e 2014) como candidata a Presidente da República.

      Raramente, porém, se deu o crédito ao fotógrafo. Por isso, e para corrigir a injustiça, decidi apresenta-lo: trata-se do baiano Sebastião Fonseca, ou Tião Fonseca, que na época do “empate” visitava o Acre e se ofereceu para colaborar com o efêmero tabloide Repiquete, que eu e outros jornalistas, após a experiência do Varadouro, tentávamos viabilizar como empresa jornalística. Tião pegou a pauta e foi a Xapuri onde obteve o revolucionário registro. 


      Tião Fonseca (foto: Yasmim Martins)

      Ano passado ele voltou ao Acre para um trabalho em vídeo numa aldeia indígena no alto Rio Tarauacá, e aproveitamos para comemorar com uma taça de vinho o feito do passado. Melhor seria que, daqui para frente, as pessoas que vierem a utilizar a extraordinária foto da Marina não esqueçam de acrescentar o nome de quem a produziu. E, até, pagar pelo direito autoral! (EM)

      segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

      Ciência e tecnologia sem arrogância!

      * Elson Martins

      Com seu qualificado e ousado Jornal Pessoal, o jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, que mora em Belém, vive alertando que para desenvolver a Amazônia com sustentabilidade é preciso aplicar ciência e tecnologia em alta escala, através de politicas públicas decentes. Um aliado dele, com a visão de quem conhece e quer o bem do povo da região é o cientista Ennio Candotti, diretor do Museu da Amazônia, de Manaus, para quem a ciência encontra meio caminho andado nos nossos caboclos do mato ou da beira dos rios. Até recomendo aos amazônidas nascidos e de coração, principalmente aos jovens que estão saindo das faculdades de jornalismo, que acompanhem de perto o trabalho desses dois.

      Lúcio Flávio mantém seu bravo jornalzinho em circulação nas bancas de Belém há 27 anos e já produziu mais de 12 livros que reúnem o que há de mais confiável sobre as patadas históricas cometidas contra a Amazônia. Por conta disso, tornou-se um jornalista premiado, nacional e internacionalmente, embora ameaçado pela conservadora, ambiciosa e truculenta elite paraense. Eu diria que também pela elite do outro Brasil, que fica mais ao Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

      No livro “Guerra Amazônica”, volume 1, publicado em novembro de 2005, Lúcio Flávio reproduz entrevista que deu a um grupo de pesquisadores de Belém que lhe pergunta: “como avalia a ciência produzida na Amazônia?”

      Ele responde que os cientistas não deveriam produzir apenas ciência, mas como “colonos-cientistas” poderiam ser assentados em projetos de colonização para demonstrar na prática as propostas que desenvolvem na universidade:

      “Se esse colono-cientista estuda arroz, vai plantar arroz. Vai ensinar como é que se faz, fazendo. Vamos pegar o cara e coloca-lo no campo (e não no campus) com bolsa de pesquisa, uma estrutura mínima. Se a gente não colocar a formação antes da transformação, a Amazônia estará liquidada. Sei que serão necessários muitos milhões de reais no começo.”

      Para o jornalista, que também é sociólogo, esse investimento deveria ser concebido como “vanguarda”:

      “Vamos pegar a meninada da USP, da UFRJ, da UFPA (também da UFAC) etc. – com uma boa bolsa e vamos para o campo aprender. Os orientadores também devem ir ao campo com boas condições e bons salários (…) É como se estivéssemos em Israel. A nossa guerra é a guerra da ciência. Guerra da ciência não é ficar fazendo o seu trabalhozinho acadêmico. É fazer a difusão da ciência lá no campo, enquanto se faz ciência de vanguarda nos laboratórios, nos gabinetes, nas bases de observação”.

      Lúcio Flávio Pinto (foto: Elson Martins) e Ennio Candotti (foto: divulgação)

      Segundo Lúcio Flávio Pinto, os colonos não cientistas iam aprender e também ensinar. Ele acrescenta que o doutor tem que deixar a postura arrogante de ficar repetindo: eu sei, eu vou ditar. “Se você sabe, você faz”.

      Já o diretor do Musa de Manaus, Ennio Candotti, num texto recente, indaga se os ribeirinhos que habitam as margens dos rios e igarapés da Amazônia “são parte do problema ou da solução da questão da defesa, da produção de conhecimentos científicos de botânica e zoologia, da conservação ambiental e do desenvolvimento econômico e social da região”:

      “Se a resposta for que são parte da solução, uma vez que é dever do Estado estar presente em todo o território nacional, eles são muito importantes para monitorar o movimento de pessoas e animais e o trânsito das mercadorias pelos rios, apoiar como guias e conhecedores da floresta a coleta de material para pesquisa (sementes, resinas e amostras de fauna e flora) e colaborar nas diferentes etapas na construção dos conhecimentos no campo e nos laboratórios dos centros de ciência e tecnologia”.

      Ora, lembra Candotti, todos sabemos que foram os ribeirinhos dos rios e igarapés das florestas do Vietnam que, oferecendo decisivo apoio ao exército vietnamita derrotaram, em 1972, o poderoso exército de ocupação dos Estados Unidos. Ou seja, os caboquinhos da Foz do Amazonas não seriam, também, determinantes em programas de defesa de nossa região?

      Em tempos de paz, os gringos já se rendem à sabedoria que as elites brasileiras teimam em ignorar: os navios de grande porte que chegam com cargas ou passageiros lá do mundo desenvolvido, por exemplo, para navegar nas águas do portentoso Rio Amazonas, precisam contratar, pagando boa quantia em dólares, a um dos “práticos” que vive em Macapá ou Belém, sabendo (sabe-se lá como!), enxergar a profundeza das águas barrentas a partir do movimento delas na superfície. E não contratem, pra ver!

      * Texto  publicado originalmente na Coluna Voz das Selvas (2013) e republicado em 13 de fevereiro de 2015, na coluna Almanacre (Jornal Página 20). 

      quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

      Miragina tradição de família


      * Elson Martins
      José Luiz, empresário acreano de olho na florestania (Foto: Elson Martins)


      Há 48 anos, esta empresa acreana por excelência tece sua sustentabilidade no mercado regional de alimentos. Seus produtos aparecem cada vez mais nos supermercados e mercearias de Rio Branco, com qualidade e estilo. Os mais recentes são os biscoitos, o óleo e as amêndoas (desidratadas, inteiras ou fatiadas, com e sem sal) de Castanha do Brasil. E as embalagens, escolhidas no capricho, seguem a linha da florestania. Em 2015 vão aparecer mais novidades: além da farinha de castanha, pronta para temperar pratos, bolos e mingaus, serão lançados a farinha flocada de mandioca, os diversos tipos de feijão de Cruzeiro do Sul e óleos da floresta (como o Murmurú) explorados no Vale do Juruá. A farinha flocada vem sendo produzida em Tarauacá e começa a ser vendida em Rio Branco.


      O grupo familiar Miragina mantém três empresas: a Fábrica de Biscoitos, a Panificadora Rosamélia e a Olam – Óleos da Amazônia. O carro chefe é a Fábrica de Biscoitos dirigida por José Luiz Felício, 54, formado em Administração de Empresas e em Ciências Contábeis. Do seu escritório localizado no bairro do Aviário, região central da cidade, ele comanda a distribuição de 17 produtos abastecendo todo o Acre e parte de Rondônia. Também está de olho no mercado nacional. A produção de biscoitos (ou bolacha) é de 180 toneladas ao mês. A Panificadora Rosa Amélia, que fica em frente à fábrica, no Aviário, é administrada pelo irmão mais velho, Abraão Assis Felicio. A irmã Sara, recém-falecida, também fazia parte da sociedade.

      A Olam (Óleos da Amazônia) é a parte mais envolvida com a pesquisa de produtos da floresta. Há mais de uma década o grupo investe na produção do óleo (azeite) da Castanha do Brasil e acompanha com interesse a trajetória vertiginosa do açaí. Cauteloso, Zé Luiz evita dar detalhes sobre o que anda pesquisando no Vale do Juruá. Admite apenas que o óleo de Murmuru, que já mereceu uma fábrica de sabonetes em Cruzeiro do Sul, está na pauta. O açaí, certamente, pode aparecer na versão em pó.


      Essa história bem sucedida começa em 1892, quando o jovem casal libanês Felício e Sara Abraão, seus avós, decidiu pegar um navio para viver a aventura da borracha na Amazônia. Desde então, nome e sobrenome se repetem e se espalham pelo Pará, Amazonas e Acre. A gênese da Miragina foi o transporte de trigo importado dos Estados Unidos para abastecer o Acre e a Bolívia. Coube aos avós libaneses montar uma frota de lanchas modernas para manter o negócio.

      Em 1912, já começavam a se fixar em Xapuri e Brasileia. E de lá para cá, filhos e netos se encarregaram de manter a tradição empreendedora da família, centralizada na capital.


      A empresa dos Felício Abraão tem traços culturais que a distingue. Zé Luiz explica: “Nós temos uma forte preocupação social, mantemos a tradição de contribuir com entidades filantrópicas como Educandário Santa Margarida; fazemos doações às famílias atingidas pelas enchentes; também atendemos pedidos de desportistas e equipes estudantis que se deslocam para participar de seminários ou outro evento; e temos sempre pão e biscoito para quem tem fome”. Sua mãe, Miriam, ensinava que “é importante dar ajuda sem dizer a quem”, e isso vem sendo cumprido à risca.

      Segurança e tradição



        Fátima, 44 anos de bom desempenho na Miragina (Foto: Elson Martins)

      Maria de Fátima Marcelino Brasil, 59, nasceu no seringal Liberdade, no Rio Liberdade, em Cruzeiro do Sul, na parte mais ocidental do Acre. É filha de seringueiros. Ela trabalha há 44 anos na Miragina, ainda era menor de idade quando começou na empresa, em 1972, “fazendo de tudo no escritório”. Hoje é encarregada de Recursos Humanos. Outros quarenta dos 137 funcionários estão há décadas por lá e não querem sair.

      Aposentada há 12 anos, “dona Fátima”, como todos a tratam, permanece na ativa e não muda sua rotina. Se tornou membro da família, dá palpites, foi confidente e companheira de viagem de dona Sara em visitas a São Paulo e Rio de Janeiro. É pessoa de extrema confiança da casa. Uma espécie de “governanta”.

      Na verdade, a Miragina recebe bem seus visitantes. Logo à entrada da fábrica, tem uma mesa grande com café, leite e biscoitos variados. Ali ocorre todo começo de conversa, cercado da simpatia do patrão e empregados. Percebe-se um “ethos” amazônico no ambiente.